Movido a Vinho

julho 12, 2015

Hoje, o destaque lá na fanpage da Nascente vai para o fotógrafo, amigo, chapa, irmão Tom Alves. O registro de fim de tarde é do lote 57, em Tuiuty, na serra gaúcha. A área de sete hectares leva o visitante a uma das melhores viagens pela história da colonização italiana no Brasil. A família Tomasi produz vinho no porão de casa, local em que recebe a quem chega com o famoso merendim, lanche típico repleto de delícias caseiras como pão, salame e queijo. Espaço mais do que convidativo para a degustação de um belo vinho artesanal.

Acesse a reportagem na íntegra aqui.

 

fazenda dos tomasi

 

Quilombolas somos nós

junho 22, 2015

Nota sobre passagem pelo Quilombo de Macuco

 

Comunidade Quilombola Macuco

Repórter e fotógrafo ao lado dos moradores

 

Maio de 2014

Chamam de grotas as beiradas de rio. Nelas, mora grande parte dos povos do Vale do Jequitinhonha. Depois da tomada dos chapadões pelo maciço de eucalipto – há 500 mil hectares de área reflorestada por aquelas bandas -, pouco restou dos recursos naturais. O que era difícil, tornou-se inviável a ponto da nova geração de moradores migrar para outros estados atrás do sustento. Os filhos de Macuco, comunidade quilombola da região, trabalham de cortar cana e colher café em fazendas do interior de São Paulo. Vimos várias mulheres se despedindo dos maridos e filhos.

Enquanto elas permanecem em casa roçando os seus quintais, os homens partem na tentativa de fazer dinheiro. Em que condições? Não comentam. Mas é dedutível. Disseram que até pouco tempo não sabiam que descendiam de escravos. Depois da descoberta, o primordial para eles é a conquista do reconhecimento e da demarcação da terra que lhes pertence. Luta que parece sem fim. Quilombolas somos nós! – repetem para quem quer que chegue.

O que chama a atenção é a força. Apesar do histórico, são séculos de opressão, não perdem a esperança. Na foto, um instante de soltura e muitas risadas depois de uma longa conversa sobre cultura, política e reestruturação social. Conhecer os recônditos do Brasil é uma experiência de reencontro com a identidade do país. Esta que precisa ser valorizada para que compreendamos o significado de unidade e completude. Cidadania ainda é uma palavra frágil por aqui, mas mudar tal realidade depende, acima de tudo, de cada um de nós.

 

Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

Rota dos Parques

dezembro 2, 2014

Fotos Tom Alves, Valdemir Cunha e Marcos Amend

 

Leia a íntegra da matéria que produzi sobre os potenciais desperdiçados e as perspectivas de gestão dos parques estaduais mineiros. O uso público das áreas protegidas como instrumento de desenvolvimento socioeconômico é uma realidade em diversos países. O turismo é uma das opções mais relevantes para a exploração indireta dos recursos de uma Unidade de Conservação. Quando bem operado, alia conservação e manejo sustentável da biodiversidade. Em larga escala, tal dinamização pode gerar uma receita de bilhões, contribuindo para o aumento do PIB nacional e impactando positivamente as comunidades que vivem no entorno das Unidades.

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* Publicada originalmente na edição 155 da Revista Horizonte Geográfico.

 

Abre divulgação

 

A campainha toca. Quem bate é o economista Aldenyr Jesus Rodrigues, que chega a São João da Chapada para participar de um curso de capacitação realizado nos arredores de Diamantina, norte mineiro. Está à procura de pouso. O homem de 30 e poucos anos soube por um amigo que na comunidade rural havia hospedagem domiciliar. Rodrigues prefere o contato direto com a cultura local. Não hesitou em buscar abrigo na casa de um morador. Minutos depois, a porta se abre e surge de dentro uma senhora carnuda, com sorriso solto: “Pois não?” Há oito anos, dona Valmira de Lurdes Miranda é sócia de um receptivo familiar no distrito de pouco mais de mil habitantes.

O Turismo de Base Comunitária, implantado na região em 2006, é uma modalidade que, aliada à prática do ecoturismo, amplia horizontes em povoados tradicionais localizados no entorno de Unidades de Conservação. O potencial de desenvolvimento é grande. Os parques estaduais mineiros abrangem montanhas a perder de vista, serras como a do Espinhaço, cavernas, cachoeiras, bacias hidrográficas e ainda os biomas cerrado, mata Atlântica e caatinga. Somam um total de 5.026 quilômetros quadrados, área equivalente a 500 mil campos de futebol. Tal conjunto de atrativos é suficiente para transformar essas unidades de conservação em verdadeiras potências do turismo sustentável, com medidas práticas de curto, médio e longo prazos.

Segundo Cecília Vilhena, gerente das unidades de conservação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), a melhor ação para ampliar o acesso é agilizar a regularização fundiária e os planos de manejo. “No Parque Estadual do Biribiri, por exemplo, nenhum dos 16,99 mil hectares está regulamentado”, afirma. Isso significa que as terras ainda não pertencem ao poder público e, por isso, não se pode construir estruturas de apoio e tampouco cobrar ingressos. Minas Gerais possui 11 unidades de conservação abertas ao público geral, sendo dois monumentos naturais e nove parques estaduais.

 

Benefícios para o entorno

 

P.Ibitipoca

 

De acordo com Maria Tereza Jorge Pádua, membro da Comissão Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), uma solução é priorizar a aquisição das áreas de visitação. “Os recursos para a regularização fundiária são reduzidos, então, às vezes, o que se pode fazer é comprar parte do terreno e começar o trabalho por ele”, explica. Foi o que aconteceu, com sucesso, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no estado, e também no Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Ela recomenda ainda a construção modular de infraestrutura, como recepção, à medida que os recursos forem liberados. Esperar para realizar todas as obras pode ser inviável.

O monumento cultural de Caral, no Peru, é uma boa referência nesse sentido. A UC recebe os visitantes com conforto em instalações simples e de baixo custo, com aproveitamento de bambu. Para Ana Luisa da Riva, diretora executiva do Instituto Semeia, responsável por um extenso estudo sobre as UCs brasileiras, é preciso pensar os parques estaduais como redutos de preservação e também de oportunidades para os moradores do entorno. “Sujeito a critérios bem definidos, o turismo sustentável pode ajudar a preservar”, diz. A especialista aconselha o envolvimento do setor privado por meio de parcerias público-privadas. Essas devem respeitar os planos de manejo, que estabelecem os parâmetros de gestão. Em Minas, dos 39 parques estaduais existentes, 15 têm esse planejamento concluído e podem firmar esse tipo de acordo.

 

Infraestrutura de ponta

 

Um primeiro passo nessa direção foi dado pelo governo de Minas Gerais no Parque Estadual do Sumidouro. Lá, estruturou-se um contrato que prevê a concessão da gestão administrativa do parque, com a transferência da receita das visitações para a iniciativa privada. Outra forma de empresas contribuírem é por meio de acordos de compensação ambiental. Entre os parques que se destacam, dois são referências internacionais. O primeiro, Ibitipoca, oferece em 1.488 hectares quatro roteiros: Circuito das Águas, da Janela do Céu, do Pião e da Parte Alta das Águas. Quem pisa ali se encanta com as cavernas de quartzito e tem a oportunidade de apreciar a das Bromélias e a do Martiniano, a segunda e terceira maiores do mundo. A divulgação de seus atrativos fez com que o número de visitantes chegasse a 61 mil em 2013.

Como resultado, evoluiu a renda do município de Lima Duarte, localizado em sua área de abrangência. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, a renda média dos moradores passou de 64,5% da média estadual para 83,3%, entre os anos de 2000 e 2010. Há mais a se conquistar. O parque Crystal Cove, de área similar nos EUA, por exemplo, arrecada o equivalente a 7 milhões de reais por ano, enquanto Ibitipoca alcançou 905 mil reais no mesmo período.

No segundo, Parque Estadual do Rio Preto, o turista tem acesso a 12.185 hectares com infraestrutura completa. Há passarelas, placas de sinalização, deques, alojamentos, camping e restaurante, além de uma equipe de guias especializados. Antônio Augusto Tonhão, gerente e fundador da unidade de conservação, diz que o diferencial do parque são as pessoas que ali trabalham: “Os funcionários têm oportunidade de crescer profissionalmente e, por isso, acabam vestindo a camisa e trabalhando bem”, conta. Seus principais atrativos são o pico Dois Irmãos, as cachoeiras do Crioulo e das Sempre-vivas e a chapada do Couto.

 

pe-rio-preto-por-marcos-amend

 

Outro caso de êxito de desenvolvimento turístico integrado, para o qual cinco cidades mineiras elaboraram planos em torno de um mesmo objetivo, é a Rota Lund. O roteiro foi feito em parceria entre órgãos estaduais, municipais e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais e abarca pontos arqueológicos e históricos, ligados ao famoso naturalista Peter Lund, em cada um dos municípios.

O condutor de turismo Carlos Giovanni Paulino, 32 anos, que trabalha há dez anos na região dos parques estaduais do Biribiri, Rio Preto e pico do Itambé, pede políticas públicas que valorizem a cultura local e os esportes de natureza. “Se houvesse incentivo nessas áreas, os jovens teriam mercado para trabalhar e não precisariam migrar para grandes centros, como fazem”, diz. Carlos e os moradores da região desenvolveram, por contra própria, o projeto de ecoturismo Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. “Mostramos aos visitantes os aspectos culturais das comunidades vizinhas aos parques. E também como a integração entre elas e as unidades favorecem a preservação”, conta. “Se tivéssemos apoio, ou mais iniciativas como a nossa, talvez esta região lotasse de turistas”, aposta.

De fato, quando a situação das unidades de conservação – não apenas a dos parques, mas a de todas – é analisada conjuntamente, fica ainda mais patente seu potencial. O país possui mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados de áreas protegidas federais, estaduais e municipais, ou seja, um território equivalente a três Franças. Figura em primeiro lugar no ranking de competitividade mundial de turismo em relação aos recursos naturais. No entanto, em lista divulgada pela revista Time, é apenas o 44º país em quantidade de visitantes, entre 165. Fazer mais e melhor pelos parques estaduais é um dos passos essenciais para mudar a situação.

 

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder o largo sorriso que estampa no rosto. Deixo na página o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!

 

 

 

A Cidade das Almas

agosto 12, 2013

 
 
CHEGOU A HORA!

Tudo pronto para a viagem ao interior de Minas Gerais. A nova incursão ao Brasil profundo, distante da realidade urbana dos grandes centros, tem como objetivo homenagear os romeiros que participam do Jubileu de São Miguel e Almas, no Cemitério do Peixe, um vilarejo tradicional localizado nos recônditos da Serra do Espinhaço. Depois de um ano desde a nossa primeira investida documental na região, teremos grande prazer de retornar ao povoado com um presente preparado especialmente para os fieis. Confira, a seguir, as informações sobre o lugar, a peregrinação secular e a exposição fotográfica que realizarei ao lado de Tom Alves em parceria com a Prefeitura Municipal de Conceição do Mato Dentro.

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A MOSTRA

A Cidade das Almas é uma exposição fotográfica que retratará a riqueza cultural da região do Cemitério do Peixe, vilarejo incrustado nos confins do sertão mineiro. A romaria centenária que acontece em torno da celebração do Jubileu de São Miguel e Almas será o tema da mostra, que trará ampla abordagem sobre as histórias das pessoas que fizeram do culto religioso uma das mais expressivas manifestações de fé do povo brasileiro. A diversidade dos tipos humanos e do espaço físico que circunda o arraial integrará a obra, uma realização inédita dos autores em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico de Conceição do Mato Dentro. O acervo, que inclui 48 paineis divididos em cinco grupos – o vilarejo, a fé, os romeiros, a igreja e o cemitério, levará aos participantes da festa um panorama genuíno de si mesmos imersos em sua crença e simplicidade. O rito secular de uma comunidade tradicionalmente mineira estará impresso, pela primeira vez desde o surgimento do povoado, em um projeto visual criado para o povo.

O CEMITÉRIO DO PEIXE

A pequeneza do vilarejo, desprovido de qualquer pretenso sinal de ânimo, realça o aparente abandono do lugar, erguido no entorno de um cemitério secular. O silêncio emerge das ruelas de chão batido, ajustadas por uma centena de casinhas brancas, porém sem vivalma para atender os desavisados que se achegam por ali. O transeunte que assunta com os próprios botões e resolve perambular pelo curto perímetro desse presépio situado no interior de Minas Gerais baterá os olhos, unicamente, nas sinuosidades da mata serrana do Camelinho e nos traçados de terra que desembocam na beira do Rio Paraúna. Eis a imagem de uma cidade fantasma. Basta uma piscadela para o lado, contudo, e a primeira impressão é desfeita pela presença de gente viva. Os dois residentes do arraial, Carlota de Oliveira Brandão, a dona Lotinha, de 63 anos, e o filho Zezinho, de 28, são as sentinelas do Cemitério do Peixe, localizado na região do Alto Jequitinhonha, a 300 km de Belo Horizonte.

Diversas histórias remontam às origens da vila. São causos e lendas populares que, embaralhados com a verdade dos fatos, deram à luz uma tradição centenária cuja fé é a força propulsora que une, há séculos, as gerações de famílias que por ali ainda passam. A crença religiosa transformou o povoado em um reduto de reza e devoção de milhares de fieis, que desde os idos de 1890, frequentam o Peixe. Sua chegada, em datas como o dia de finados, quebra o prenúncio da morte anunciada em uma placa do cruzeiro, posto no meio das tumbas: “Ó tu que vens a este cemitério, medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia.”

Situada no distrito de Costa Sena, em Conceição do Mato Dentro, a Cidade das Almas, como foi carinhosamente apelidada por moradores das proximidades, atrai cerca de cinco mil pessoas durante os dias da festividade. A movimentação começa nas semanas que antecedem o jubileu, época em que os fieis e seus familiares vêm ao Peixe para preparar as suas casas para o grande evento. São pequenos ranchos levantados ali pelos pais dos pais dos atuais proprietários. Os sitiantes limpam os cômodos, cortam a grama, pintam as paredes e até constroem novas acomodações para receber as visitas. O abastecimento dessas moradas temporárias converge em travessias que podem levar dias. Muitos romeiros carregam de um tudo de casa para o vilarejo. São colchões, bacias, panelas e víveres transportados no lombo de mulas, cavalos, carros-de-boi, bicicletas, caminhões, carroças ou mesmo nas próprias costas dos fieis.

A peregrinação é um momento de comoção, reencontro e prece de famílias que fortalecem os seus laços parentais durante a semana de atividades intensas no Peixe. O Padre Mauro Carvalhais, sacerdote organizador do jubileu, chega ao arraial com a devida antecedência para ajudar os fieis no que for preciso, colocar a igreja em ordem e acertar os últimos detalhes. Faz-se o milagre: a singela vilazinha, do dia para a noite, volta à vida. Mercearias, acampamentos, delegacia, não falta nada que caracterize uma cidade em perfeita condição de funcionamento. O ápice da festa acontece no sábado e domingo. Missas, procissões, cantigas e ladainhas, pagamento de promessas, confissões, levantamento do mastro, oferendas aos mortos e queima de fogos ocorrem em simultâneo com a barulheira desconcertante de alto-falantes que tocam funk e sertanejo em uma altura abusiva.

De anos para cá, os fieis que visitam o Peixe para celebrar os seus mortos dividem espaço com pessoas que chegam para se divertir somente. A descaracterização do festejo religioso – inventariado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – e do local alarma os participantes do jubileu e preocupa os envolvidos com a tradição cultural do estado. O trabalho documental é uma medida necessária para a preservação do evento e conscientização da comunidade sobre a sua relevância.

A Coletora de Flores

maio 14, 2013

Histórias de um país desconhecido, feitas para o povo brasileiro…

aguarde!

 

Capivari, Minas Gerais

Fomos ao encontro de Dona Anita. O carro ficou para trás da cerca; nós seguimos adiante. De um lado, os picos rochosos do Itambé. Do outro, a mata rasteira com variações verde acinzentadas. Alguns metros à frente e lá estavam, sobre a pedra, os primeiros sinais da senhora pequerrucha, dourada de sol, sorvida pelo tempo, humana até o último fio do cabelo trançado. Eram ramalhetes de flores sempre-vivas, geometricamente amarrados e bem distribuídos. A cena cabia precisa na descrição que eu tinha dela. Paramos ali com os olhos pregados nos pastos a sua procura. Nada! Voltamos para a estrada de chão batido. Estávamos perto de sua casa. Ao aproximarmo-nos, pouco a pouco, sua figura ampliava. Dona Anita estava sentada sobre o gramado, pernas esticadas, lenço na cabeça, tronco curvado, mãos firmes a armar os molhos de macela, todos a formar um círculo amarelo ao redor de seu corpo enxuto. Trocamos cumprimento. – “Oi, prazer!” Seus olhos grandes e verdes transmitem serenidade e disposição. Apesar de maltratada pela lida, ela mantém o brilho d’alma intacto. Tem fala ligeira; é preciso tento para entender o que diz. A simplicidade se apresenta tão bela quanto a doçura de seu todo… uma constituição inteira, graciosa, desprovida de ruídos. A senhora solitária e trabalhadeira nos recebeu de braços abertos. Bastante expressiva, levantou-se para nos estender a palma da mão dura e forte. – “Vamo entrano. Tem café coado.” Mora numa casinha erguida no muque pela companheira de cata, Lurdes. Só Anita, vive ali há 28 anos. A tapera com telhado baixo e piso de barro fica nos altos da serra, isolada, quieta entre um quintal de limoeiros, pés de cana e quaresmeiras, a árvore que mais se avista nas redondezas. Bom que estamos em época de floração. Há tantas que basta perambular um tiquinho para dar de fuças com pencas de suas flores roxas.

 

Foto Tom Alves

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