Histórias em Quadrinhos habitam o meu imaginário desde a tenra infância. Tio Patinhas, Zé Carioca, Pato Donald, O Menino Maluquinho e Mônica e sua turma são personagens que me acompanharam por longos anos em aventuras divertidas, engraçadas e desprendidas de qualquer elo com a fronteira factual. O tempo passou, outros estímulos irromperam meu andar e o viço colorido da adolescência me levou por outros caminhos. Sem perceber, virei a página, deixando para trás o universo animado pelas figuras de bandas desenhadas. Pensei que não fosse mais cruzar com elas. Tomei-me de preconceitos. Lembro-me de reagir com estranheza a comentários de garotos sobre super-heróis. Pensava: “Mas que tolos. Passaram dos 18 e ainda se empolgam com este tipo de leitura? Homens demoram a crescer.” Sentia-me a anos-luz da maioria dos rapazes do colégio. Pretensão a minha. Hoje, depois de idas e vindas de boas curvas na estrada, vejo o quão inadequado era o meu ponto de vista. Já ouvi incontáveis vezes que a maturidade é uma conquista para a vida. Clichê ou não, a frase é contundente, pois retrata a mais pura e bem servida verdade.

Qual não foi a minha surpresa ao me deparar, há exatos três anos, com autores e personagens de Histórias em Quadrinhos? Em meio aos reboliços da época, eis que um ex-colega de trabalho – o meu primeiro mentor e bom amigo – apresentou-me a alguns dos grandes nomes desta literatura popular, conforme afirmou Will Eisner (meu quadrinista predileto) em prólogos e entrevistas. Notei-me envolvida por um estado curioso, uma sensação de euforia típica dos momentos de descoberta. Quanto mais eu o ouvia falar de Millôr Fernandes; Jaguar; Sergio Aragonés e Mark Evanier; e do esplendoroso Will Eisner; mais eu desejava lê-los, devorá-los, conhecê-los. Passava horas pesquisando na internet, buscando informações, cutucando aqui e ali. Nós dois perambulávamos pelas ruelas estreitas do Centro de Florianópolis atrás de sebos. Ele comprava muita coisa do que via pela frente. Tudo para mim. Eu fui engordando a minha estante com alguns dos super títulos das HQs. Lia um atrás do outro com os olhos vidrados na sutileza e maestria dos traços, nuances e contornos dos desenhos, atendo-me ao sabor e à genialidade das histórias, uma mais arrebatadora que a outra. Um delírio.

Desde então, nunca mais cogitei a possibilidade de deixar de lado as Histórias em Quadrinhos. Pelo contrário. Apaixonei-me de tal maneira que o hábito da leitura deste gênero anda próximo, se não colado ao meu trilhar junto a uma das mais formidáveis criações e aptidões da humanidade: a literatura. Quadrinhos já integram a minha lista de compras. Incluo-os em meu hall de leitura do ano. Nem pensar em fazer diferente. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2009, fiz um banquete de causar inveja aos xeiques. Na Livraria da Vila, as promoções refletiam um ponto alto do evento. Todos se empanturravam de livros, dos clássicos aos contemporâneos, dos lançamentos aos títulos vendidos pelos autores participantes. Comprei um exemplar de Nova York – a vida na grande cidade, de Will Eisner, uma obra de 440 páginas, por menos de quarenta reais.

Há pouco tempo, em uma loja da Saraiva, aqui na Ilha, vasculhei o setor de quadrinhos atrás de boas safras. Eu abria revistas, fechava livros, acumulava uma pilha de opções nas mãos até que um casal de jovens muito simpático resolveu me ajudar. “O que você está procurando?”, perguntou o rapaz. “Eu não sei ao certo. Estou em dúvida entre Blues, do Robert Crumb, e Um Contrato com Deus, de Will Eisner; entre Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw, e Retalhos, do Craig Thompson”, respondi, dando pausa a uma lista que parecia não ter fim. Eles demonstraram espanto ao constatar que se tratava de uma balzaquiana interessadíssima em HQs. Contei de minha jornada e de como foi mágico o meu reencontro com o universo das HQs. Gostaram tanto de saber sobre o meu estalo que passaram prontamente a me dar dicas. O rapaz, Fred era o seu nome, puxou um livro da estante. “Olha, eu sugiro que você leve este. Os desenhos são escuros, mas contextualizam o ambiente em que se passa a história, de uma beleza e riqueza fantástica. Vale a pena.”, comentou, entregando-me o livro. Ele estava me apresentando a Persépolis, de Marjane Satrapi.

Fiquei sem ação, nunca tinha ouvido falar. “Persépolis?”, pensei. O instante foi gerado pelo acaso ou pelo destino? Reforço a questão, pois assim que Fred e Marina apareceram na minha frente, eu estava devolvendo este mesmo livro à estante sem ter dado a ele o seu devido valor. Eles me pegaram no flagra. “Eu não vi isso.”, exclamou Fred de onde estava. Mas eu o ouvi. Como eu poderia saber? Faz pouco tempo que me enveredo pelos títulos de Comics & Cia. Não acompanhei o boom de Persépolis. Confiei no vasto conhecimento do casal e tomei a minha decisão. Escolhi o livro de Marjane. Despedi-me dos dois, deixando com eles o meu cartão para que, a partir daquele momento, pudéssemos dar início a uma troca de figurinhas sobre o tema.

Voltei para casa satisfeita com a nova aquisição. Na mesma noite, sob a luz do meu abajur, abri o livro e engatei a primeira marcha de uma leitura que duraria cerca de três semanas. Persépolis é uma obra autobiográfica. Marjane, iraniana radicada na França, conta com uma verve contagiante sobre a fase de sua história que vai da infância aos primeiros anos da juventude. Escreve sobre como foi criada por uma família de intelectuais aberta e politicamente engajada, que viveu as turbulências de um país arrasado pelo fundamentalismo de um governo religioso. O período narrado é o de transição entre o Shah da Pérsia e o aiatolá Khomeini. Percebi o quão próximo do ocidente está o povo persa, estigmatizado pela cultura antiterrorista. Emocionei-me com a sua trajetória, que inclui o exílio em Viena (dos 14 aos 18 anos), o retorno a Teerã e o reencontro com a família. Cada passo dado pela personagem expandia minhas ideias, sacudia-me por inteiro. Quando, por fim, cheguei à última página (o volume completo possui 352 pgs), catei na memória o Fred e a Marina e os agradeci pelo presente que me deram.

Fiquei com água na boca, coçando-me para ver o filme com título homônimo. Soube que Marjane adaptou Persépolis para o cinema. Minha vontade de dar seguimento às aventuras por entre as páginas dos quadrinhos me levou a Pequenos Milagres, de Will Eisner, o qual será devorado, mas não já. Adoro intercalar. Estou lendo As boas mulheres da China, da jornalista Xinran. O livro valerá um texto no blog. Aguardem.

Enquanto isso, revelo aos amantes de HQs, principiantes como eu, que há, entre os títulos de Will Eisner, uma beleza de relíquia. Trata-se de uma das obras mais brilhantes do autor, segundo grande número de leitores de HQs. Chama-se O Edifício. Eu ainda não o li. Será uma questão de tempo para mim. Quem puder e quiser me acompanhar, procure por ele nas livrarias e sebos online. Muitos vendem exemplares.

Na Amazon, existe um link que disponibiliza as primeiras páginas dos livros. Não me contive, por que o faria? Folheei, comecei a ler, bem devagarzinho. Pressa estraga. A experiência me transformou. Não concebo a ideia de haver jornalistas soltos por aí, jovens ou experimentados, que desconheçam ou ignorem, propositalmente, o mundo fabuloso, instigante e emblemático das Histórias em Quadrinhos.

Um comentário formidável:

“Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte, das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles; aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar. Temos liberdade de derrubar o que construímos. Da mesma forma, o direito sobre obras a que outros homens dedicaram a vida para erigir não desaparece com a sua morte.” De John Ruskin.

Com ele e todo o contexto ficcional de Eisner, que escrevia baseado em experiências reais, dado que torna as suas histórias ainda mais primorosas, abrem-se as portas de O Edifício. A narrativa começa em um cruzamento de duas grandes avenidas de Nova York. Nesta esquina, repousa o espaço vazio de um prédio que, no local, permaneceu erguido por oitenta anos. Demoliram-no e levantaram outro em seu lugar, pomposo, moderno. Dias após o término da nova construção, apareceram quatro fantasmas na entrada do edifício. Somente os leitores enxergam as almas ali paradas no meio da multidão. O resto, meus caros leitores, cabe a vocês descobrir.

Seguem alguns bons links de bandeja. Entre eles, o site oficial de Will Eisner e uma entrevista que Marjane Satrapi concedeu ao The New York Times em maio de 2007, quando Persépolis concorreu (e ganhou) a Palma de Ouro em Cannes, na categoria de melhor animação.

Will Eisner Official Web Site

The Bulding (em A Filactera)

Marjane Satrapi at Cannes

Especial Persépolis

11 de Junho de 2010

junho 11, 2010

Centenário de Jacques-Yves Cousteau

Dia 11 de junho de 2010. O mundo gira em torno da Copa. A África do Sul é palco de um espetáculo capaz de unir os povos em uma só batida. Ontem houve a abertura dos jogos. Cerimônia histórica, de tirar o fôlego. Na próxima terça, dia 15, o Brasil inteiro estará a postos a espera da estreia da seleção canarinho. O esporte possui uma força de integração mágica e comovente.

Em meio a este rompante patriótico unificador, eu descobri, ao esbarrar com um texto publicado no The New York Times, que hoje é o dia do aniversário de 100 anos de Jacques Cousteau. Torço para que o centenário deste monstro sagrado da oceanografia não passe em branco. Cousteau foi o primeiro homem a apresentar às sociedades o universo subaquático guardado pelos oceanos. Imagens captadas em jornadas pelos quatro cantos do globo mostraram ao mundo que nos mares – o pulmão do planeta – há uma explosão de vida extraordinária.

Eu cresci acompanhando as aventuras do Calypso, sempre fascinada com as descobertas e empreitadas de Cousteau. Já que estamos falando de África – o berço da humanidade – aproveitarei para mencionar um episódio marcante de minha meninice. Lembro-me enternecida da manhã em que eu e minha turma da escola assistimos vidradas ao documentário de Cousteau sobre o Rio Nilo, na aula de geografia.

Entre as odisséias do grande explorador e ecologista do século XX, a sua jornada pela África não apenas me chamou a atenção como revelou a todos os presentes sobre a interferência devastadora do homem no meio ambiente. Cousteau é uma das peças-chave de minha formação. Tenho certeza de que não estou sozinha neste barco. O homem heróico que foi – mestre dos mares – influenciou gerações.  Ele nos aproximou de nossa identidade, mostrando-nos de forma incansável o quão distantes estamos de uma relação integrada com a natureza. Seu legado eterno nos dá condição plena de alterarmos esta realidade.

Não posso deixar de reiterar, no dia do centenário de Cousteau, que a mancha pegajosa composta por milhões de litros de petróleo não para de crescer no Golfo do México. Acho que nós ainda não acordamos para a gravidade da situação. Quais as proporções reais do desastre? Ninguém sabe precisar, uma vez que o vazamento ainda não foi contido. Há possibilidade de o óleo jorrar incessantemente até o poço esvaziar? Desenvolvemos tecnologia de ponta para perfurarmos o solo marinho em profundidades colossais na busca por petróleo sem a contrapartida para a contenção imediata (ou a curto prazo) de um possível vazamento? Parece-me insano imaginar que a resposta seja sim.

Jacques Cousteau insistia em alertar sobre as consequências danosas da ganância e da incúria.  Não seguiremos o conselho de quem conheceu como poucos o planeta? Creio estar mais do que na hora de pararmos para ouvir o que ele teve a nos dizer. Deixo o link para a página do texto de Andrew C. Revkin – Here’s to Jacques-Yves Cousteau. Presto aqui a minha homenagem ao Capitão.