Centro da cidade

fevereiro 22, 2011

Impressões de uma jornalista solta na cidade maravilhosa.

Arquivo pessoal

Theatro Municipal do Rio de Janeiro: o prédio mais imponente e majestoso da Cinelândia

Rua Uruguaiana: reduto de história charmoso e convidativo é ponto de passagem obrigatória

Cine Odeon, o mais tradicional da capital carioca, pronto para a preestreia de Bruna Surfistinha

Amarelinho, o bar mais atraente e famoso do Centro, abre suas portas aos interessados desde 1921

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é abrigo do primeiro (maior) acervo literário do Brasil

Avenida Rio Branco a espera dos foliões do Carnaval 2011

Rua da Alfândega: cores, gostos, cheiros e nuances do Saara brasileiro

Eu e o maestro Carlos Gomes: para fechar com chave de ouro

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As chuvas voltaram

janeiro 18, 2011

Crédito de foto: O Estado de S. Paulo

“Precisa-se averiguar para saber onde foi que as autoridades erraram. Houve tempo de avisar as pessoas e ninguém avisou ninguém, houve tempo de evitar tantas mortes.” Daniel Jobim, neto do maestro Antônio Carlos Jobim, em depoimento dias após a casa de veraneio de seu avô – localizada em São José do Vale do Rio Preto – ter sido arrasada pela enchente que devastou a região serrana do Rio de Janeiro.

Mais um ano se passou sem que providência fosse tomada. As chuvas voltaram, como de costume no verão, e novo dilúvio atingiu Estados do nordeste e sudeste brasileiro. O caso mais grave ocorreu na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011. Após curto período de precipitação intensa, uma enxurrada de lama desceu inúmeros morros abaixo, deixando por onde passou um rastro de destruição e morte. Cerca de cinco municípios fluminenses foram engolidos pela força das águas. As imagens de ruína e o número de mortos, mais de 600 até a manhã de hoje, revelam o maior desastre natural da história do Brasil.

– Nunca antes na história deste País?

Nunca se viu tamanho descaso para com as necessidades reais do povo. De que adianta promover um mega programa habitacional – com proporções inigualáveis se comparadas a ações anteriores – se, ao mesmo tempo, não há princípio ou braço do governo que impeça a proliferação de construções irregulares em áreas de risco? A lei vigente proíbe a ocupação de encostas com mais de 45 graus de inclinação, mas há fiscalização? A culpa é de pessoas ignorantes, mal educadas, irresponsáveis? Não.

Na Austrália foi constatado o maior volume pluviométrico da temporada. Choveu, em localidades como Queensland, pelo menos 100 mm a mais do que no Rio de Janeiro. A diferença? Entre as ações preventivas implantadas pelas autoridades australianas está a retirada antecipada dos habitantes de áreas que serão alagadas. Por que lá e não cá? Falta de verba? Não. Só com a arrecadação de impostos, o governo teria fôlego de sobra para o desenvolvimento de projetos com alto poder de alcance.

O que falta então? Ontem, em um dos noticiários da televisão, uma moradora que havia perdido tudo (menos a sua vida e a de seus parentes: uma vitoriosa, por mais paradoxal que seja a afirmação), relatou que a população assiste ao mesmo espetáculo ano após ano. “Só mudam os personagens, mas o cenário é o mesmo”, disse em declaração a uma repórter.

Falta vontade política, empenho de nossos governantes, envolvimento conjunto dos poderes em prol de metas efetivas que visem à solução do problema. A presidente Dilma Rousseff apresentou-se ao País de forma devida, cumprindo, que fique claro, com a sua obrigação. A líder suprema da nação tomou frente e colocou alguns pingos nos is, enfatizando, por exemplo, a necessidade de haver um trabalho coeso entre prefeituras, governos estaduais e União na busca pelo desfecho satisfatório da situação. Entretanto, a sua postura só terá valor prático e digno de um olhar aprovável e respeitoso se, e somente se, as deliberações entre políticos se transformem em realidade.

O que se entende por ‘final feliz’ tem a ver com um direito do cidadão. Pensar em algo positivo depois de famílias terem sido exterminadas com as chuvas de anos a fio exige esforço. A questão pede urgência. O povo não pode mais esperar. Quantas vidas valem a morosidade do Estado? Está na hora de ser dado um basta na paralisia do poder público, pois se as autoridades fecharem novamente os olhos para o problema, em 2012, as chuvas voltarão, como de costume, e haverá nova lista de mortos em algum lugar do mapa brasileiro.

Código Florestal

Uma matéria publicada ontem no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo emplacou o seguinte título: “Revisão do Código Florestal pode legalizar área de risco e ampliar chance de tragédia.” Abordei no post Meio Ambiente – de 5 de agosto de 2010 –, a questão referente às alterações sugeridas pelo novo Código Florestal Brasileiro, em trâmite no Congresso. A proposta, a qual deixa de considerar topos de morro como áreas de preservação permanente, liberando a construção de habitações em encostas, já foi aprovada por uma comissão especial e deve ser votada em março. Entre os ditos e não ditos que envolvem o imbróglio, resta aos estupefatos afirmar que este, por razões óbvias, este é o caminho errado.

Papel da imprensa

Cabe à imprensa cobrir os fatos de forma direta e crítica, abrindo espaço para a discussão das causas da tragédia. O debate sobre o tema é fundamental para que a população tome conhecimento de seus direitos. Análises profundas de especialistas apontam para o maior responsável pelas centenas de mortes: o Estado. A maioria dos veículos de comunicação do Brasil trabalhou o viés sensacionalista da enxurrada. A abordagem simplista desvirtua a informação e presta um desserviço à nação.

* * *

Maiores informações sobre como ajudar as vítimas da enxurrada na região serrana do RJ aqui.

Notas de Bolso

junho 13, 2010

Passei outro verão no Rio de Janeiro, minha cidade natal. Sim, misturo peculiaridades, cheiros e cores de diversas regiões. Sou brasileira. Uma completa miscelânea. Parti de Florianópolis nos primeiros dias do ano disposta a aproveitar o máximo as férias que me proporcionei após um 2009 de bastante movimento: trabalho, produção, atividade, aquela coisa toda. Percorri a região dos lagos, estive em Arraial do Cabo com a minha família, dei um pulo em Búzios e toquei para a cidade maravilhosa.

Cheguei animada, o tempo passou desenvolto, renovei baterias, uni o útil ao agradável investindo em buscas por contatos profissionais, conheci pessoas, reencontrei amigos, passeei um bocado, pulei um dos carnavais mais divertidos de todos os tempos (os blocos de rua arrasam, em especial o Bangalafumenga), foi ótimo.

Durante os dois meses que permaneci no Rio, rabisquei algumas notas em um caderno. Fiz por hábito, gosto de reportar o que vivo quando saio de meu eixo. Escarafunchando o passado, reli os meus escritos. Ocorreu-me que seria animador trazê-los à vida. Resultado? Cá estou a batucar o teclado com a finalidade de transmitir aos meus leitores uma porção do que senti, experimentei e descobri em minha viagem. Determinei, por um par de razões, que publicarei somente as notas mais recentes.

 
 

Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2010

Passaram-se dois meses desde a minha chegada. Muito tempo para quem está acostumada a viver em uma cidade menor, mais simples e pacata. Meu reencontro com a realidade daqui, de modo geral, tem me feito muito bem. O Rio é uma cidade caótica e emblemática. Gosto de circular, explorar e me tornar cada vez mais íntima do lugar. A vida pulsa no rosto das pessoas, o ritmo frenético do dia a dia explode em seus corpos e alegria contagiante. Que povo charmoso!

Há muita energia no ar. Confesso que isso me estimula. Permaneço atenta aos detalhes ora sutis ora explícitos. Combinação interessante. Renasço um pouco a cada passo que dou pelos caminhos de minha terra natal. Ao perambular, vez ou outra, abre-se uma fenda entre mim e meu berço. São momentos de impacto gerados pelo forte choque cultural. Cresci em outro mundo. Porto Alegre é tão diferente daqui. Ai, que medo incômodo me invade sem querer. Conseguirei me adaptar ao rebuliço de uma megalópole? Há instantes em que desejo ser menos à flor da pele. Luto em vão. Respiro fundo. Levanto a cabeça. Olho ao redor. Vai dar tudo certo. Como diz o meu pai, “o impossível é viável, só demora um pouco mais minha filha. É assim mesmo, viu?”

(…)

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, chove. Uma garoazinha fina. Que cidade quente. Nossa mãe do céu! O sol daqui parece sempre furioso. Mas ele dá ao povo uma graça no trato que não existe em qualquer outro lugar do mundo. O carioca sorri com uma facilidade única. É bonito de ver. Consigo enxergar nele parte de minhas raízes. Coisa séria. A lembrança de minha avó é uma constante. O que ela diria agora, vendo-me investir na possibilidade de regresso?

(…)

A saudade de minha mãe e do cheiro da ilha insiste em bater à porta. É chegada a hora de voltar para casa. Vou abraçar os mares da província com toda a força do meu coração.

 

Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2010

 

Estou de frente para o mar grande, sem fronteiras. O cinza do dia me traz para perto os períodos de transição entre estações em Floripa. Que saudade! Como estará o meu cantinho teimoso? A ilhazinha dengosa?

(…)

Acordei cantarolando Tom:

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais

Lembra que tempo feliz
Ah! que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

Em janeiro, dei um giro por Ipanema inteira com o Peter. O passeio estava uma delícia. Rodamos à beça. O Peter a fotografar tudo. Não sei como não teme um assalto. Anda com uma câmera enorme a tira colo sem pensar em mais nada. Bom isso!

(…)

Não poderíamos deixar de dar um pulo na Rua Nascimento Silva, 107. Estive na frente do prédio em que morou o maestro soberano. Baixo, deve ter uns três andares. Muito simpático. Junto ao portão alto, de gradio bem delineado, há um verdadeiro muro verde. Ah! Pensei no Tomzinho entrando e saindo dali ao lado de tanta gente boa, Vinícius, Toquinho, Chico, Elizete, uau! Belas memórias terei. Estou feliz!

Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2010

Não há como negar. Que cidade deslumbrante. O Rio é fértil, borbulhante. O mar segue batendo muito. Dizem que no próximo sábado o sol voltará ao seu posto. Quase não chove na cidade, mas as nuvens insistem em fechar o céu. Humpf. Queria ver um carioca morando no sul. Vixi. Em Floripa então…chove pra burro. Meu tio, que mora em Brasília, mas é carioquíssima, apelidou a ilha de Florichuva. Eu explico para quem pergunta que o País é tropical até a fronteira com o Paraná. No sul, o clima é subtropical temperado gente. Coisas de Brasil!

(…)

O rapaz do quiosque acaba de colocar um pratinho com água de coco no chão. Ele chama o gato de rua: “pichichi”.  O bicho desconfiado se aproxima. Sabe que o chamado tem razão de ser. O rapaz se afasta, observador. Comenta com o companheiro de trabalho, “espera, ele vai beber”. Água de coco? Será?

É, eu me divirto. O gato cola o focinho no pires. Cheira. Constata que não se trata nem de peixe nem de leite. Vai embora decepcionado. “Ah ah ah”, gaiteia o vencedor da parada, como eles falam por aqui. “Eu disse que o gato não bebia essa porra”. Ahh, sim, no Rio, fala-se muito palavrão. A cada x palavras, y são de origem duvidosa.

(…)

Várias pessoas estão chegando. Algumas tomam os seus lugares nas mesinhas dispostas no entorno dos quiosques à beira-mar e fazem os seus pedidos. O falatório toma conta do calçadão. Um bla bla bla pra cá e pra lá. O povo adora um conversê. O que eu, particularmente, acho um barato. O homem é um ser social. Nada mais natural do que a prática da comunicação oras. Claro, às vezes, cansa um pouco. É quando prefiro ficar sozinha.

No Rio, as pessoas têm uma relação íntima com a praia. Todos sempre estão a fazer próximos dela. Quem não gosta de fechar o dia olhando o mar? O contato direto com este ser independente faz um bem danado. Sinto, com certeza, que o carioca não conseguiria viver muito tempo longe do oceano. Sua vitalidade provém da estrela que emana das águas. Fato.