Fotos Divulgação

 

 

Publiquei a resenha a seguir na edição 170 da Revista Aventura&Ação. O texto fala sobre o filme Xingu, um retrato do Brasil que o Brasil não conhece. Em seu retorno a São Paulo, após o trabalho realizado ao lado dos índios, o diretor Cao Hamburger escreveu no site oficial da O2, produtora do longa-metragem: “Depois de passar tanto tempo a céu aberto, sol, rios, mata… Dormimos a última semana nas enormes e incríveis ocas dos Yawalapitis, ouvindo os sons do Xingu e acordando ao som das mulheres da aldeia cantando em seu dia de festa. Parecia um sonho. No último dia no Xingu, acordamos as 4 da manhã com lindas índias cantando e dançando… Entravam e saiam das ocas com uma música linda… depois pedi para traduzirem… Eram canções alegres que falavam de coisas simples da vida, como as nossas canções. Os índios não são tão diferentes de nós… São só mais alegres, menos estressados, mais inteiros… menos idiotas. Ou menos idiotizados por séculos de uma sociedade que nos impõe padrões de felicidade. Conviver com uma sociedade diferente da nossa nos serve de espelho. Olhamos para nós mesmos de outra forma.”

Boa leitura!

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Xingu, de Cao Hamburger, conquista público e crítica pelo caráter autoral, intimista e revelador de um Brasil espoliado por projeto desenvolvimentista

 

 

Uma das fendas da História do Brasil se abre de imediato ao interlocutor desprevenido. Vamos ao teste. Quantos anos tem o País? Quem descobriu o Brasil? A referência de temporalidade básica irrompe em nossa memória equivocada. O Brasil foi descoberto no ano de 1500, por Pedro Álvares Cabral. A grande maioria da população brasileira tropeçaria na resposta errada. Nosso País com nome de árvore é habitado por povos de cultura milenar. Índios de diversas etnias vivem, desde os primórdios, sob o abrigo das florestas.

Em meio à paisagem desfigurada pelo desmatamento, uma ilha de mata preservada ecoa os sons de nossa origem. No Parque Indígena do Xingu, localizado no nordeste do Mato Grosso, as tradições de 16 etnias ancestrais permanecem intactas. Os responsáveis por esse feito, os Irmãos Villas Bôas, empreenderam, na década de 40, uma epopeia desbravadora pelos sertões do Brasil Central. A Expedição Roncador-Xingu resultou em mais de 2,5 mil quilômetros percorridos por terra e rios; no contato e convívio com 14 tribos isoladas; na demarcação da primeira reserva ecológica de preservação da sociobiodiversidade brasileira; e na publicação do diário de viagem dos Villas Bôas, Marcha para o Oeste, relançado pela Companhia das Letras.

Foram 42 anos de uma história de aventura e amor por um Brasil desconhecido, que agora volta à tona pelas mãos do cineasta Cao Hamburger em seu filme Xingu. Segundo Hamburger, o longa-metragem nasceu de seu desejo de narrar para o povo brasileiro uma história pouco explorada. A convite da O2, produtora de Fernando Meirelles, o mesmo diretor de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias mergulha nos bastidores desse capítulo marcante da saga pela ocupação do interior do País. O longa intimista, que pretende ser apenas o que é, um relato de uma experiência humanista, movida unicamente por sentimento, retoma um período de nossa história em que virtudes desprovidas de interesse econômico faziam valer um homem. Três irmãos, enredados em potencialidades e contradições, decidem, um dia, unir-se na busca de um ideal. O passo seguinte abre caminho para uma revolução sem precedentes, a qual coloca a sociedade brasileira frente a frente com a sua face primeira.

O filme fraterno toca na essência da identidade nacional, entregando ao espectador brasileiro um legado que lhe pertence. A cumplicidade, amizade e luta pela causa indigenista dos Villas Bôas faz de Xingu um retrato convincente que nos leva a refletir sobre a verdadeira descoberta do Brasil. Afinal, este é um País milenar. O propósito maior do longa, contudo, mostra-nos o quão predadores ainda somos, fator que nos conduz, séculos adentro, ao continuísmo de um processo devastador. Os Villas Bôas, como os próprios afirmaram, não conseguiam evitar a chegada do homem branco ao ambiente selvagem. O que lhes coube em missão intrépida foi sempre chegar antes.

Vale a pena assistir.

 

 

Um olhar sobre a China

março 17, 2011

 Fotos web

O olhar audaz e objetivo da jornalista Xinran sobre a era comunista de Mao Tsé-Tung em seu livro As boas mulheres da China, publicado no Brasil em edição de bolso pela Companhia das Letras, traz ao Ocidente uma realidade desconhecida. Impunidade, violência, ignorância e repressão de um regime totalitário que mutilou a vida de mulheres de todas as idades e condições sociais estão entre as temáticas da obra.

A jornalista, que deixou a China em 1997 para conseguir publicar o seu trabalho, passou cerca de oito anos coletando depoimentos de mulheres que viveram os horrores da Revolução Cultural. De acordo com a autora, o atraso foi tão proeminente que seu país retrocedeu mil em 10 anos.

Xinran tem o cuidado de manter a dramaticidade das histórias a fim de disponibilizar ao leitor uma compreensão profunda da condição feminina na China posmoderna. Durante os anos em que apresentou o programa Palavras na brisa noturna, a jornalista conseguiu abrir um canal de discussão sobre assuntos proibidos como violência sexual, opressão e homossexualidade. A quebra do silêncio fez do espaço uma fonte inesgotável de memórias de humilhação, dor e abandono da mulher.

Xinran explorou a vida íntima de chinesas de todas as partes, vasculhou as regiões mais inóspitas do país atrás de informação. O mergulho – a contar a sua própria experiência com o regime –, quase a levou a um colapso emocional. A jornalista e seu irmão foram separados dos pais pela Guarda Vermelha quando crianças. Criados em um quartel general sob o jugo de carrascos, os dois só reencontraram a família anos mais tarde.

Estupros, casamentos forçados, espancamentos, miséria e preconceito compõem o cenário de um tempo em que a égide do poder usurpou o povo chinês e dilacerou a alma de uma geração. “Nos relatos do livro, a autora possibilita a vozes antes silenciadas revelar provações, medos e uma capacidade de resistência que as permitiu se reerguer e sonhar em meio ao sofrimento extremo.”

Eu assisti a Xinran em uma das mesas literárias (China no Divã) da VII edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Naquele mesmo dia, comprei o livro. Há meses, comentei que a sua leitura valeria um texto no blog. Segue a dica para os meus leitores.

Sugestões

Outros títulos da autora são Enterro celestial, O que os chineses não comem e Testemunhas da China – vozes de uma geração silenciosa.

 

 

Íntegra da entrevista concedida por Xinran à Folha Online

Leia sinopse e trecho do livro em