Rota dos Parques

dezembro 2, 2014

Fotos Tom Alves, Valdemir Cunha e Marcos Amend

 

Leia a íntegra da matéria que produzi sobre os potenciais desperdiçados e as perspectivas de gestão dos parques estaduais mineiros. O uso público das áreas protegidas como instrumento de desenvolvimento socioeconômico é uma realidade em diversos países. O turismo é uma das opções mais relevantes para a exploração indireta dos recursos de uma Unidade de Conservação. Quando bem operado, alia conservação e manejo sustentável da biodiversidade. Em larga escala, tal dinamização pode gerar uma receita de bilhões, contribuindo para o aumento do PIB nacional e impactando positivamente as comunidades que vivem no entorno das Unidades.

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* Publicada originalmente na edição 155 da Revista Horizonte Geográfico.

 

Abre divulgação

 

A campainha toca. Quem bate é o economista Aldenyr Jesus Rodrigues, que chega a São João da Chapada para participar de um curso de capacitação realizado nos arredores de Diamantina, norte mineiro. Está à procura de pouso. O homem de 30 e poucos anos soube por um amigo que na comunidade rural havia hospedagem domiciliar. Rodrigues prefere o contato direto com a cultura local. Não hesitou em buscar abrigo na casa de um morador. Minutos depois, a porta se abre e surge de dentro uma senhora carnuda, com sorriso solto: “Pois não?” Há oito anos, dona Valmira de Lurdes Miranda é sócia de um receptivo familiar no distrito de pouco mais de mil habitantes.

O Turismo de Base Comunitária, implantado na região em 2006, é uma modalidade que, aliada à prática do ecoturismo, amplia horizontes em povoados tradicionais localizados no entorno de Unidades de Conservação. O potencial de desenvolvimento é grande. Os parques estaduais mineiros abrangem montanhas a perder de vista, serras como a do Espinhaço, cavernas, cachoeiras, bacias hidrográficas e ainda os biomas cerrado, mata Atlântica e caatinga. Somam um total de 5.026 quilômetros quadrados, área equivalente a 500 mil campos de futebol. Tal conjunto de atrativos é suficiente para transformar essas unidades de conservação em verdadeiras potências do turismo sustentável, com medidas práticas de curto, médio e longo prazos.

Segundo Cecília Vilhena, gerente das unidades de conservação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), a melhor ação para ampliar o acesso é agilizar a regularização fundiária e os planos de manejo. “No Parque Estadual do Biribiri, por exemplo, nenhum dos 16,99 mil hectares está regulamentado”, afirma. Isso significa que as terras ainda não pertencem ao poder público e, por isso, não se pode construir estruturas de apoio e tampouco cobrar ingressos. Minas Gerais possui 11 unidades de conservação abertas ao público geral, sendo dois monumentos naturais e nove parques estaduais.

 

Benefícios para o entorno

 

P.Ibitipoca

 

De acordo com Maria Tereza Jorge Pádua, membro da Comissão Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), uma solução é priorizar a aquisição das áreas de visitação. “Os recursos para a regularização fundiária são reduzidos, então, às vezes, o que se pode fazer é comprar parte do terreno e começar o trabalho por ele”, explica. Foi o que aconteceu, com sucesso, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no estado, e também no Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Ela recomenda ainda a construção modular de infraestrutura, como recepção, à medida que os recursos forem liberados. Esperar para realizar todas as obras pode ser inviável.

O monumento cultural de Caral, no Peru, é uma boa referência nesse sentido. A UC recebe os visitantes com conforto em instalações simples e de baixo custo, com aproveitamento de bambu. Para Ana Luisa da Riva, diretora executiva do Instituto Semeia, responsável por um extenso estudo sobre as UCs brasileiras, é preciso pensar os parques estaduais como redutos de preservação e também de oportunidades para os moradores do entorno. “Sujeito a critérios bem definidos, o turismo sustentável pode ajudar a preservar”, diz. A especialista aconselha o envolvimento do setor privado por meio de parcerias público-privadas. Essas devem respeitar os planos de manejo, que estabelecem os parâmetros de gestão. Em Minas, dos 39 parques estaduais existentes, 15 têm esse planejamento concluído e podem firmar esse tipo de acordo.

 

Infraestrutura de ponta

 

Um primeiro passo nessa direção foi dado pelo governo de Minas Gerais no Parque Estadual do Sumidouro. Lá, estruturou-se um contrato que prevê a concessão da gestão administrativa do parque, com a transferência da receita das visitações para a iniciativa privada. Outra forma de empresas contribuírem é por meio de acordos de compensação ambiental. Entre os parques que se destacam, dois são referências internacionais. O primeiro, Ibitipoca, oferece em 1.488 hectares quatro roteiros: Circuito das Águas, da Janela do Céu, do Pião e da Parte Alta das Águas. Quem pisa ali se encanta com as cavernas de quartzito e tem a oportunidade de apreciar a das Bromélias e a do Martiniano, a segunda e terceira maiores do mundo. A divulgação de seus atrativos fez com que o número de visitantes chegasse a 61 mil em 2013.

Como resultado, evoluiu a renda do município de Lima Duarte, localizado em sua área de abrangência. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, a renda média dos moradores passou de 64,5% da média estadual para 83,3%, entre os anos de 2000 e 2010. Há mais a se conquistar. O parque Crystal Cove, de área similar nos EUA, por exemplo, arrecada o equivalente a 7 milhões de reais por ano, enquanto Ibitipoca alcançou 905 mil reais no mesmo período.

No segundo, Parque Estadual do Rio Preto, o turista tem acesso a 12.185 hectares com infraestrutura completa. Há passarelas, placas de sinalização, deques, alojamentos, camping e restaurante, além de uma equipe de guias especializados. Antônio Augusto Tonhão, gerente e fundador da unidade de conservação, diz que o diferencial do parque são as pessoas que ali trabalham: “Os funcionários têm oportunidade de crescer profissionalmente e, por isso, acabam vestindo a camisa e trabalhando bem”, conta. Seus principais atrativos são o pico Dois Irmãos, as cachoeiras do Crioulo e das Sempre-vivas e a chapada do Couto.

 

pe-rio-preto-por-marcos-amend

 

Outro caso de êxito de desenvolvimento turístico integrado, para o qual cinco cidades mineiras elaboraram planos em torno de um mesmo objetivo, é a Rota Lund. O roteiro foi feito em parceria entre órgãos estaduais, municipais e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais e abarca pontos arqueológicos e históricos, ligados ao famoso naturalista Peter Lund, em cada um dos municípios.

O condutor de turismo Carlos Giovanni Paulino, 32 anos, que trabalha há dez anos na região dos parques estaduais do Biribiri, Rio Preto e pico do Itambé, pede políticas públicas que valorizem a cultura local e os esportes de natureza. “Se houvesse incentivo nessas áreas, os jovens teriam mercado para trabalhar e não precisariam migrar para grandes centros, como fazem”, diz. Carlos e os moradores da região desenvolveram, por contra própria, o projeto de ecoturismo Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. “Mostramos aos visitantes os aspectos culturais das comunidades vizinhas aos parques. E também como a integração entre elas e as unidades favorecem a preservação”, conta. “Se tivéssemos apoio, ou mais iniciativas como a nossa, talvez esta região lotasse de turistas”, aposta.

De fato, quando a situação das unidades de conservação – não apenas a dos parques, mas a de todas – é analisada conjuntamente, fica ainda mais patente seu potencial. O país possui mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados de áreas protegidas federais, estaduais e municipais, ou seja, um território equivalente a três Franças. Figura em primeiro lugar no ranking de competitividade mundial de turismo em relação aos recursos naturais. No entanto, em lista divulgada pela revista Time, é apenas o 44º país em quantidade de visitantes, entre 165. Fazer mais e melhor pelos parques estaduais é um dos passos essenciais para mudar a situação.

 

Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, foi capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.

Leia a íntegra, já disponível no site da publicação.

 

matéria de capa Revista Sagarana

 

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder o largo sorriso que estampa no rosto. Deixo na página o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!

 

 

 

Nota sobre a viagem

Esta é a primeira de uma série de reportagens que eu e o fotógrafo André Dib produziremos sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Estivemos em uma região de hábitos extrativistas, onde as comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora local uma alternativa para o desenvolvimento. Com a criação de áreas protegidas no entorno de inúmeros vilarejos, os moradores que tiravam o sustento da terra há séculos ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais. A falta de uma contrapartida do Governo gerou uma crise que se estende há mais de dez anos no centro-norte mineiro. O clima de tensão permanece. Entretanto, o trabalho conjunto entre população e agentes como empresas particulares e Universidades vem transformando a realidade social de dezenas de pessoas.

Projetos que integram preservação do meio ambiente e beneficiamento sustentável da matéria-prima disponível na natureza ampliam as perspectivas das famílias residentes. O texto e as fotos a seguir contam sobre a conquista de pessoas simples, que lutam pela permanência no seu lugar de origem. A roça é a razão de viver de quem nasceu e cresceu na zona rural. Passo a passo, os habitantes encontram um caminho próspero, que multiplica ideias e consolida a tradição. Tive o privilégio de conhecer esse universo de perto. Trata-se de um Brasil distante, invisível para muitos. A intenção de trazê-lo à tona é uma constante em minha trajetória como jornalista. Descobri na reportagem um instrumento de resgate da essência do povo brasileiro. A informação desperta a curiosidade, instiga a reflexão e abre portas para o diálogo entre as partes. A sociedade cosmopolita pode e deve conhecer melhor o interior do país. Vejo na troca de conhecimento uma possibilidade de fortalecimento da nossa cultura popular. Coloco o primeiro resultado de minha jornada ao lado do André à disposição dos leitores do blog. Espero que gostem.

 

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* Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2013 da Revista Terra da Gente.

Fotos André Dib

 

abre Revista Terra da Gente para FB

 

Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo. A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda dos habitantes dos prados do Vale do Jequitinhonha.

O extrativismo é a prática que sustenta as famílias residentes, formadas em grande parte por coletores, garimpeiros e lavradores. Mais de cinco mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil. Pesquisas realizadas nas áreas de ocorrência da Eriocaulaceae – a família da autêntica sempre-viva – apontam que 70% das espécies do mundo estão concentradas na cordilheira do Espinhaço, fator de grande apelo para a criação, em 2002, do Parque Nacional (Parna) das Sempre-Vivas.

Parque nacional das sempre-vivasO Parna integra o Mosaico de Unidades de Conservação (UCs) do Espinhaço e divide os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Tem relevo acidentado, nascentes d’água, montanhas vincadas atravessando o piso serenado dos campos repletos de bichos graúdos. Onças, tatus e tamanduás vagueiam pelo raso de veredas e buritizais. De geração em geração, a presença humana causou impactos na natureza. Segundo o biólogo Renato Ramos da Silva, coordenador de projetos na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), atividades desenvolvidas ao longo dos anos, como a coleta indiscriminada e a mineração, provocaram o esgotamento de mananciais e flores. “No final da década de 1990, espécies de sempre-vivas como a pé-de-ouro e a vargeira foram colocadas na lista de extinção. Houve a proibição do extrativismo dentro do Parque. A medida desencadeou um entrave que atingiu diretamente as comunidades tradicionais”, afirma.

O estopim para o conflito foi a falta de informação. “O governo criou a Unidade sem a participação das pessoas, que não tinham consciência de que, na região, havia uma reserva. Foi uma experiência traumática”, diz Silva. Dois agravantes são a instabilidade do manejo da flora – a coleta é irregular – e a indefinição sobre o ressarcimento dos donos da terra, pois nenhum hectare da UC foi desapropriado. O imbróglio ultrapassa as fronteiras da área protegida, multiplica demandas, gera crise de interesses e um desajuste econômico que restringe o desenvolvimento regional.

Márcio Lucca, biólogo e chefe do Parna das Sempre-Vivas, esclarece que um ponto fundamental é qualificar a informação com foco na ação conjunta. “Os proprietários nos cobram um retorno, mas não cabe somente ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque, regularizar as propriedades. Não temos um levantamento das terras para saber quais são as particulares, as da União, as que estão em situação de posse por usucapião. Tal limitação nos impede de delimitá-las”, diz.

 

Antônio Borges - galheiros

 

O estilo de vida peculiar dos povoados tradicionais revela a personalidade cativante de uma gente corajosa. Do anseio coletivo brota o ímpeto capaz de transformar a realidade social de inúmeras famílias. Projetos de manejo adequado da flora local surgem como alternativa que alia a preservação das espécies ameaçadas ao desenvolvimento sustentável da região. As novas perspectivas asseguram fonte lucrativa de trabalho e renda para os habitantes do Jequitinhonha.

LUCRO

Na comunidade de Galheiros, zona rural de Diamantina, os moradores substituem, há 12 anos, o extrativismo indiscriminado pela exploração planejada. Com o auxílio do Instituto Centro Cape, organização com foco no estímulo de competências empreendedoras dentro do setor informal, um grupo de mulheres atentou para a importância de realinhar o trabalho, criando, por meio da produção artesanal, amplas oportunidades de comércio. De acordo com a coletora e artesã Ivete Borges da Silva, a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de pai para filho. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos.”

 

Comunidade Rai¦üz - Maria Terezinha Alves

 

Para afastar a iminência de extinção das espécies e capacitar as famílias coletoras, técnicos especializados prestaram serviços de consultoria em gestão, custos e cadeia produtiva. Houve oficinas para inserção de metodologias que agregassem valor ao processo produtivo. “Com apenas 10 gramas de flor é possível conseguir o dobro do valor do quilo no mercado se você souber como transformar a matéria-prima”, diz Ivete. As mercadorias manufaturadas aumentaram a margem de lucro sobre cada produto e, consequentemente, o poder aquisitivo dos artesãos.

Fundada em 2001, a Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas é espaço de planejamento que impulsiona um negócio cada vez mais rentável. Há seis anos, os associados cultivam as espécies ameaçadas de extinção pé-de-ouro e chuveirinho para atender a um contrato com a rede de lojas de varejo Tok & Stok. Entre as peças produzidas estão luminárias, abajures, porta-guardanapos e arranjos de mesa. A matéria-prima vem de um campo experimental de 300 metros quadrados. Cada mês colhe-se um tipo de flor e cada associado extrai de 20 a 30 quilos por espécie.

Os artesãos também expõem em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte e participam de eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há dois meses, ganharam o mundo participando da mostra Mulher Artesã Brasileira, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva foi escolhida para representar Galheiros na exposição, que reuniu 15 artesãs de 12 estados brasileiros.

AUTONOMIA

Antônio de Zé Basílio(5)No interior da cadeia do Espinhaço, marcada historicamente pelo garimpo de ouro, diamante, cristais e minério de ferro, o berço de novidades não dá trégua. Imersa no jardim que germina rente aos paredões rochosos, outra iniciativa reacende a esperança nos povoados de Andrequicé e Raiz, distritos do município de Presidente Kubitschek. Em 2009, grupos de produtores passaram a investir na estrutura de viveiros de plantas com o intuito de resgatar espécies em extinção. Por meio do Projeto Flores das Gerais, que conta com a assistência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram instalados matrizeiros nas comunidades. A bióloga Luciana Teixeira Silva, gestora do projeto, conta que os participantes inseridos em um novo modelo de negócio têm o suporte de investimentos de pesquisa para o desenvolvimento de produtos diferenciados. “O ponto crucial é capacitar as famílias para que aprendam a se autogerir”, afirma.

Entre testes e diagnósticos, alguns anos de relutância se passaram. Em Raiz, os moradores, acostumados com o artesanato de capim-dourado – “uma espécie de sempre-viva”, diz Luciana –, resistiram a aderir ao trabalho de reproduzir em viveiros as riquezas do Cerrado. Sirley Ferreira Alves, artesã que abraçou a ideia desde o início, conta que “muitos ficaram sem saber se alguém ia querer comprar as plantas. Eu falei que ainda ia comprar o meu carro com essas mudas. Ninguém acreditou. Mas quando o caminhão parou aqui para levar o carregamento, começaram a pensar melhor.”

O caminho a ser seguido pelas comunidades isoladas do Vale do Jequitinhonha já aponta no horizonte. Uma simples comparação de preço incentiva o andar contínuo rumo a um novo tempo. O quilo das sempre-vivas mais comuns, como espeta-nariz, jazida, e botão-branco, não ultrapassa os R$ 3,00; enquanto o de uma muda cultivada pode chegar a R$ 25,00. Filha de Maria Flor de Maio, de 71 anos, que carrega no nome a constância arraigada da sempre-viva, Maria da Conceição Aparecida Ferreira, presença decisiva nos dois núcleos do projeto em Raiz, afirma: “As flores são tudo para a gente. Graças a elas, conquistamos os nossos sonhos.” E desta forma, os campos dos Gerais remetem a um Brasil distante, mas auspicioso. Para conhecê-lo, é preciso fazer mais do que percorrer estradas; é indispensável travar atenciosa travessia.

 

Campos de Sempre-Vivas Parque Nacional Sempre-Vivas (7)

Foto Vasco Szinetar

Convidado para a 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2010, o jornalista peruano Julio Villanueva Chang revelou, em entrevista concedida a Sylvia Colombo, do jornal Folha de São Paulo, como escolhe os personagens de seus perfis:

Por razões tão evidentes como misteriosas. Há algo exemplar que me fascina neles e que tento explicar a todos. Mas, às vezes, há algo deles que tem a ver comigo e que não posso explicar nem sequer a mim mesmo. A história do prefeito cego é a de um homem que perdeu a visão quando criança e que desde então luta para ser tratado como pessoa normal. Escrevo sobre o que não entendo e cada um dos meus perfis é também um ensaio sobre a minha ignorância. O que me atrai num personagem é o fato de encarnar uma ideia contraditória e inexplicável e que sua vida não explique somente a ele, mas a muitas pessoas.
Em abril, a Editorial Germinal imprime duzentos exemplares do De Cerca Nadie Es Normal, uma compilação extraída do primoroso Elogios Criminales. O editor da revista Etiqueta Negra lançará a pequena coletânea amanhã, dia 12, na Central FIA Letras, Costa Rica. Os números serão distribuídos somente nos países da América Central.
Elogios Criminales reúne grandes reportagens que fez com figuras singulares com destaque para os perfis do chef espanhol Ferran Adrià, do dentista do escritor colombiano Gabriel García Márquez e do tenor peruano Juan Diego Flórez. O livro é uma referência. O problema é encontrar, mas vale a tentativa.
De Cerca Nadie Es Normal
 

 

 

 

 

 

 

 

Ponto de Cultura

abril 11, 2014

Foto divulgação

 

Engenhos de Farinha da Palhoça

 

Na luta pelo resgate dos últimos engenhos de farinha da Grande Florianópolis, um marco da cultura popular na região do antigo Desterro, o Ponto de Cultura, idealizado pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), tem como objetivo principal apoiar uma rede de agricultores familiares cujos engenhos continuam a funcionar. “O modo de produção secular passa por um período de quase extinção, vítima de um processo de desvalorização dos saberes tradicionais e impactos resultantes da urbanização acelerada”, afirma Gabriela Pieroni, coordenadora do projeto. As atividades partem de soluções criativas para inserir os pequenos proprietários nas dinâmicas econômicas da atualidade. A integração entre agroecologia e agroturismo fortalece a relação da comunidade com o meio, impulsionando o desenvolvimento social dos moradores de municípios como Paulo Lopes, Imbituba, Garopaba e Angelina. Interessados em conhecer a história e gastronomia local, contatem a Tekoá www.tekoabrasil.com

Nas palavras de um guri sabido, ce tá louco se perder!

 

 

 

A Cidade das Almas

agosto 12, 2013

 
 
CHEGOU A HORA!

Tudo pronto para a viagem ao interior de Minas Gerais. A nova incursão ao Brasil profundo, distante da realidade urbana dos grandes centros, tem como objetivo homenagear os romeiros que participam do Jubileu de São Miguel e Almas, no Cemitério do Peixe, um vilarejo tradicional localizado nos recônditos da Serra do Espinhaço. Depois de um ano desde a nossa primeira investida documental na região, teremos grande prazer de retornar ao povoado com um presente preparado especialmente para os fieis. Confira, a seguir, as informações sobre o lugar, a peregrinação secular e a exposição fotográfica que realizarei ao lado de Tom Alves em parceria com a Prefeitura Municipal de Conceição do Mato Dentro.

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A MOSTRA

A Cidade das Almas é uma exposição fotográfica que retratará a riqueza cultural da região do Cemitério do Peixe, vilarejo incrustado nos confins do sertão mineiro. A romaria centenária que acontece em torno da celebração do Jubileu de São Miguel e Almas será o tema da mostra, que trará ampla abordagem sobre as histórias das pessoas que fizeram do culto religioso uma das mais expressivas manifestações de fé do povo brasileiro. A diversidade dos tipos humanos e do espaço físico que circunda o arraial integrará a obra, uma realização inédita dos autores em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico de Conceição do Mato Dentro. O acervo, que inclui 48 paineis divididos em cinco grupos – o vilarejo, a fé, os romeiros, a igreja e o cemitério, levará aos participantes da festa um panorama genuíno de si mesmos imersos em sua crença e simplicidade. O rito secular de uma comunidade tradicionalmente mineira estará impresso, pela primeira vez desde o surgimento do povoado, em um projeto visual criado para o povo.

O CEMITÉRIO DO PEIXE

A pequeneza do vilarejo, desprovido de qualquer pretenso sinal de ânimo, realça o aparente abandono do lugar, erguido no entorno de um cemitério secular. O silêncio emerge das ruelas de chão batido, ajustadas por uma centena de casinhas brancas, porém sem vivalma para atender os desavisados que se achegam por ali. O transeunte que assunta com os próprios botões e resolve perambular pelo curto perímetro desse presépio situado no interior de Minas Gerais baterá os olhos, unicamente, nas sinuosidades da mata serrana do Camelinho e nos traçados de terra que desembocam na beira do Rio Paraúna. Eis a imagem de uma cidade fantasma. Basta uma piscadela para o lado, contudo, e a primeira impressão é desfeita pela presença de gente viva. Os dois residentes do arraial, Carlota de Oliveira Brandão, a dona Lotinha, de 63 anos, e o filho Zezinho, de 28, são as sentinelas do Cemitério do Peixe, localizado na região do Alto Jequitinhonha, a 300 km de Belo Horizonte.

Diversas histórias remontam às origens da vila. São causos e lendas populares que, embaralhados com a verdade dos fatos, deram à luz uma tradição centenária cuja fé é a força propulsora que une, há séculos, as gerações de famílias que por ali ainda passam. A crença religiosa transformou o povoado em um reduto de reza e devoção de milhares de fieis, que desde os idos de 1890, frequentam o Peixe. Sua chegada, em datas como o dia de finados, quebra o prenúncio da morte anunciada em uma placa do cruzeiro, posto no meio das tumbas: “Ó tu que vens a este cemitério, medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia.”

Situada no distrito de Costa Sena, em Conceição do Mato Dentro, a Cidade das Almas, como foi carinhosamente apelidada por moradores das proximidades, atrai cerca de cinco mil pessoas durante os dias da festividade. A movimentação começa nas semanas que antecedem o jubileu, época em que os fieis e seus familiares vêm ao Peixe para preparar as suas casas para o grande evento. São pequenos ranchos levantados ali pelos pais dos pais dos atuais proprietários. Os sitiantes limpam os cômodos, cortam a grama, pintam as paredes e até constroem novas acomodações para receber as visitas. O abastecimento dessas moradas temporárias converge em travessias que podem levar dias. Muitos romeiros carregam de um tudo de casa para o vilarejo. São colchões, bacias, panelas e víveres transportados no lombo de mulas, cavalos, carros-de-boi, bicicletas, caminhões, carroças ou mesmo nas próprias costas dos fieis.

A peregrinação é um momento de comoção, reencontro e prece de famílias que fortalecem os seus laços parentais durante a semana de atividades intensas no Peixe. O Padre Mauro Carvalhais, sacerdote organizador do jubileu, chega ao arraial com a devida antecedência para ajudar os fieis no que for preciso, colocar a igreja em ordem e acertar os últimos detalhes. Faz-se o milagre: a singela vilazinha, do dia para a noite, volta à vida. Mercearias, acampamentos, delegacia, não falta nada que caracterize uma cidade em perfeita condição de funcionamento. O ápice da festa acontece no sábado e domingo. Missas, procissões, cantigas e ladainhas, pagamento de promessas, confissões, levantamento do mastro, oferendas aos mortos e queima de fogos ocorrem em simultâneo com a barulheira desconcertante de alto-falantes que tocam funk e sertanejo em uma altura abusiva.

De anos para cá, os fieis que visitam o Peixe para celebrar os seus mortos dividem espaço com pessoas que chegam para se divertir somente. A descaracterização do festejo religioso – inventariado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – e do local alarma os participantes do jubileu e preocupa os envolvidos com a tradição cultural do estado. O trabalho documental é uma medida necessária para a preservação do evento e conscientização da comunidade sobre a sua relevância.