Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB

 

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O Guerreiro Audacioso

junho 2, 2012

 

abre entrevista Araquém

 

Confira a íntegra da entrevista que publiquei na Revista Aventura&Ação com o ícone da fotografia de natureza: Araquém Alcântara. A trajetória, os livros, as histórias do fotógrafo que documentou o Brasil como nenhum outro. Colecionador de mundos, ele marca a alma do espectador com registros que deram origem ao maior banco de imagens da fauna e flora do país. Um dos grandes expedicionários da era contemporânea, Alcântara fala com entusiasmo de sua grande paixão pela fotografia, de suas andanças pelas matas brasileiras, e conta ainda sobre os novos rumos de sua carreira.

 

TROPA CRIOULA: Gaúcho toca cavalos da raça típica da região, em alvorada de Dom Pedrito (RS). Do livro “Araquém Alcântara: Fotografias”

 

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* Entrevista publicada originalmente na edição 167 da Revista Aventura&Ação.

 

Ele não crê em submissão a regras e fórmulas para o alcance do espírito criador, livre, íntegro. Acredita no olhar autêntico, desprendido, perseverante. Para o fotógrafo que documentou como nenhum outro a cultura, a face e a alma do povo e das florestas do Brasil, qualquer profissional que opta pelo registro do mundo por meio da imagem deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo.

Fotos Arquivo Pessoal/Araquém Alcântara

 

Araquém em ação no Pantanal Mato-grossense

Semblante incisivo, olhar certeiro, gestos articulados e voz calorosa: com a postura de um combatente impetuoso, Araquém Alcântara bate a campainha de sua editora carregando consigo uma pilha de livros, resultado de empenho e contumácia. Pouco antes do início de uma entrevista que levaria cerca de duas horas, ele anuncia a sua equipe – “preciso de agenda, um copo d’água, dois minutos para um telefonema e começamos”. O obstinado colecionador de mundos, fotógrafo com 40 anos de histórias para contar, peregrinações pelo Brasil de todos os brasileiros, real e pouco explorado, cheio de nuances, contrastes, exuberância e barbárie, passou feito relâmpago pela sala de espera, simpático, expressivo e pronto para trabalhar. – “Vamos focar em criatividade, ok?”, desafia.

Ao longo de uma carreira que soma 42 livros publicados e dezenas de prêmios, o catarinense criado em Santos (SP) exalta a diversidade e a grandeza do País com nome de árvore. “Eu sou um intérprete do Brasil, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas”, diz. Para o seu livro “TerraBrasil”, o fotógrafo, incansável em sua saga de trazer o Brasil profundo para o urbano, percorreu, durante nove anos, todas as Unidades de Conservação do País. O trabalho, minucioso e pioneiro, deu origem ao maior banco de imagens da fauna e flora nacionais, inspirando também o nome da editora fundada por Araquém. O objetivo da casa editorial, especializada no registro do patrimônio natural brasileiro, é defender a sua biodiversidade por meio da documentação e denúncia.

Às vésperas de lançar mais dois livros, embrenhado em projetos cinematográficos, preparado para ganhar o mundo em empreitadas pela Tanzânia, na África, Araquém acredita na arte como uma ação revolucionária, um poderoso instrumento de mexer com o inaudível, com o não perceptível, com a alma. “Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo”.

 

A&A: Como surgiu o interesse pela fotografia?

Araquém Alcântara: Eu comecei a fotografar depois que eu vi um filme fantástico, que fez a minha cabeça, chamado “A Ilha Nua”, de Kaneto Shindo. Foi uma coisa impressionante porque o meu negócio era ser escritor. Ao sair da sessão, eu estava absolutamente transtornado. Estranho, eu nunca tinha sentido aquilo antes, a magia de ter visto uma obra de arte que tinha me tocado. Depois, houve um livro, “O Budismo Zen”, de Alan W. Watts. Quando eu o li, em 1969, foi como se houvesse também uma revelação: uma obra de arte pode transformar. Quando há sintonia, quando o observador entra no mesmo dial do que ele está vendo, há uma transformação coletiva, uma revolução. A obra se transforma, o autor se transforma e o espectador se transforma. Aí cria-se um triângulo: obra, autor, espectador. Sem querer, intuitivamente, nesse final dos anos 60, eu comecei a entender a arte como uma ação revolucionária. A obra precisa provocar. O importante é que essa transformação que gerou tudo isso que eu sou – eu só penso em produzir, sou totalmente uma usina, pilhado, o meu negócio é criar – veio após assistir a esse filme, quando percebi que poderia dizer as coisas por meio de imagens.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Criança da tribo Tucano se banhando em Pari-Cachoeira (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Qual foi a sensação da primeira foto? Onde e quando aconteceu?

A.A.: Começou nos anos 60, quando o filme me convocou para essa linguagem. Eu ainda demorei dez anos para assumir a fotografia. Lá por 1978 é que eu deixei o texto para virar fotógrafo, unicamente. Comecei a me enveredar pelas matas, entrei na Mata Atlântica e a minha vida mudou. Quando eu conheci a grande floresta virgem brasileira, na época em que o Governo desapropriara uma grande área para construir usina atômica, a minha fotografia ganhou ideologia. Então, ela sempre teve um caráter de documentação social. Mas o aprendizado, os exercícios de texto, tudo isso foi importante para que eu conseguisse chegar onde estou. A minha fotografia sempre foi engajada, com um propósito de seduzir as pessoas para o meu modo de ver o mundo, para espalhar conhecimento e informação, para revelar o Brasil para os próprios brasileiros. Depois de 40 anos, ela se livra de tudo isso, de natureza, de jornalismo, para se transformar em uma fotografia livre de qualquer tema, amarra, fórmula. O meu último livro comprova isso. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Benny de melhor livro de arte em 2011.

A&A: E quanto às temáticas a serem fotografadas? Como se enveredou pela fotografia de natureza?

A.A.: A fotografia de natureza só se revelou quando eu entrei na floresta selvagem, na Mata Atlântica da Juréia, onde tem bicho. De repente, você está quieto e passam 30 porcos-espinhos do seu lado. Não é florestinha, não. É coisa grande, de bichos grandes. Foi aí que eu comecei a entender essa outra sociedade. A floresta se transformou na minha matriz criativa, no meu modelo de universo. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, Amazônia, Caatinga, Cerrado, e que está em processo de destruição. A maioria das pessoas passa por essa vida sem entender a grandeza, a importância, a maravilha que é ser um país que tem nome de árvore, Pau Brasil.

A&A: O que imprime a marca pessoal do fotógrafo à fotografia?

A.A.: Lembro-me que, com sete, oito anos, eu já escrevia uns textos que as pessoas liam e diziam: “nossa, mas que texto lindo!”. Depois, eu comecei a ler. O gosto pela leitura chegou muito cedo. O meu universo, a minha percepção do mundo foi ampliando. A cultura sempre esteve presente. Só que eu jamais imaginei fotografia. Alguma coisa muito especial me convocou para outro lado. O fotógrafo, hoje, é um artista plástico, tem que ter um grande repertório cultural. Uma vez, para você ter uma ideia, um diretor de uma galeria em Santos me disse: “Araquém, a fotografia não é arte, eu não posso expor você aqui, mas eu tenho um corredorzinho que dá no banheiro, ok?” Aí você vê quanta batalha. Ainda mais que a minha fotografia era de Brasil, feita para gente que só queria saber de Cancún e Miami, uma elite que queria só copiar o exterior e não olhava para seu próprio país. Ou seja, o meu trabalho sempre foi de briga. A minha fotografia sempre foi de combate. Diante de tudo isso, o que imprime uma marca pessoal? A vivência, a experiência. Com aquele filme, eu comecei a perceber que a minha fotografia sobre o Brasil seria muito simples, mas sofisticada nos detalhes, com uma riqueza de formas muito grande. O mais importante é que percebi que eu iria documentar o povo e a natureza brasileira, que teria que começar a andar. Sou um fotógrafo andarilho.

 

QUEIMADA: Plantação de cana-de-açúcar é incendiada por produtores para facilitar o corte em propriedade de São Manuel (SP). A prática será proibida por causar danos ao meio ambiente. Do livro “Cachaça”

 

A&A: Você tem um trabalho com uma temática social, de protesto. Qual é o poder da imagem?

A.A.: Ela tem um grande poder tanto para o bem, quanto para o mal. Tem um poder de transformar consciências, de enriquecer a cultura, de revelar.

A&A: Quando a fotografia se torna uma forma de intervenção social?

A.A.: Ela não é somente uma forma de intervenção social, mas um poderoso instrumento de discussão da realidade. No momento em que o fotógrafo documenta a realidade, não significa que ele é um artista. Ele pode ser um documentador. A sua interpretação, o seu modo de registrar essa realidade é que pode fazer dele um artista. A fotografia é um grande documento social quando ela passa a revelar o caráter de um povo, a sua história. Quanto mais você se aproxima de um povo, mais próximo você está de revelar as suas angústias, buscas e alegrias. É aquela coisa de ir onde o povo está, de se jogar nessa viagem de documentar a sua aldeia.

A&A: Como você definiria o Brasil?

A.A.: É impossível. Ninguém define essa grandeza. O Brasil é um enigma. O Brasil são muitos “Brasis”. Para definir o Brasil, eu recomendaria aos meus alunos que lessem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, e por aí vai. Tem que ler também Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Tem que ver Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor. Aliado a isso, é importante que as pessoas andem pelo Brasil. Ele precisa ser conhecido. Não adianta só ler. Escola é bom, mas é preciso andar. O Brasil tem uma multiculturalidade impressionante, uma miscigenação que nos torna plurais.

 

AMAZÔNIA: Pescador Zezão retira pirarucu da água na Reserva Extrativista Médio Juruá (AM). Do livro “Amazônia de Araquém a Atala”

 

A&A: Como estabelece relações com as pessoas que fotografa em comunidades remotas? Como retratar sem invadir?

A.A.: A primeira coisa é quebrar as diferenças. É claro que você causa estranhamento chegando a uma comunidade perdida da Amazônia. Todo mundo fica olhando. Daí, você começa a se relacionar. Daqui a pouco, você está jogando futebol com eles, conversando com o mais velho, ouvindo os mais jovens, pescando, está dentro da mata com eles. Quando menos espera, as fotos surgem naturalmente. O grande segredo é ouvir, dar atenção e trocar com eles de igual para igual. O fotógrafo de natureza, viajante, tem que se aproximar de uma comunidade para registrara vida real do lugar.

A&A: Para a sociedade, qual é o impacto gerado pela fotografia das comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras?

A.A: O fotógrafo levanta esse véu do que está oculto, faz certas coisas que ficaram para trás ressurgirem. Ele esclarece páginas esquecidas da história. A fotografia é resgate. Esse é um País desconhecido pelos brasileiros, onde, em muitos lugares, o Estado não existe, não há lei. O fotógrafo toca nessas feridas. Por outro lado, ele pode ser só um poeta. Fotografia também é síntese, celebração da beleza, aquela coisa que você não pode pegar. Não tem que se prender a regras nem a terminologias.

A&A: Quais os métodos para fotografar animais silvestres, lugares afastados, comunidades isoladas? Como você equilibra técnica e sensibilidade?

A.A: É preciso uma profunda disposição para você ir a lugares distantes desse País. Você tem que estudar, mapear, buscar guias que o levem na comunidade. Há um tempo para descobrir o que se quer na fotografia. É preciso exercitar constantemente e mergulhar até a exaustão em um tema. Aí você faz um ensaio, depois outro, e assim por diante.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Onça-pintada surge entre a mata na Amazônia (PA). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Quais as principais aventuras que já enfrentou por uma imagem?

A.A.: A expedição para a região do Monte Roraima. Tivemos uma canoa desgovernada que foi para cima de uma cachoeira (a Grande). Tive que me agarrar em uma pedra para não ser levado pela correnteza. Houve, também em Roraima, um monomotor que passou por uma tempestade tenebrosa. Foi um susto. Outra situação marcante ocorreu no Pará. Eu, meu assistente, o guia e o barqueiro fomos seqüestrados por índios Caiapó, enquanto cruzávamos o Rio Curuá, afluente do Xingu. Eles estavam em pé de guerra com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Federal, que havia apreendido o garimpo de onde eles estavam ganhando comissões. Pediram como resgate R$ 1,5 mil, 150 litros de gasolina de avião e dois quilos de pimenta verde. Passamos dias comendo apenas macaxeira até que fui levado à cidade mais próxima, retirei uns R$ 300,00 e o grupo foi libertado.

A&A: Qual é o seu maior desafio?

A.A.: Eu tenho um profundo amor por esse País. Sou um intérprete dele, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas. Já fiz 42 livros celebrando esse Brasil. Agora, eu começo a fazer cinema. Começo também a derivar o meu trabalho para as crianças. Meu trabalho espalha benefícios, conhecimento, informação, arte. A minha bem-aventurança, eu costumo dizer, é criar e repartir belezas.

A&A: Qual foi o seu maior aprendizado?

A.A: Ando há 40 anos pelo País e só agora eu aprendi a entender a alma desse povo dos sertões, dos ermos, um povo que ainda é esquecido, espoliado.

 

CARVOEIRA: Trabalhador manuseia carvão no Vale do Jequitinhonha (MG)

 

A&A: O que nunca fez e gostaria de fazer?

A.A: Eu serei o consultor criativo e fotógrafo de um filme sobre a Amazônia chamado “Planeta Verde”. O misto de documentário e ficção será produzido por Gullane Entretenimento e Gedeon Filmes. O projeto me levará a cinco grandes expedições pela Amazônia. É um novo caminho. Acabei de fazer um livro com Alex Atala, “Amazônia de Araquém a Atala”; outro com o Manoel Beato, Cachaça. Nos próximos anos, farei um livro sobre o Cerrado, três sobre a Amazônia (“Amazonas, o Rio”; “Os Amazônidas” e “Viagem pela Amazônia”) e outro sobre a fauna do Brasil.

A&A: Você falou, no início da entrevista, que a sua fotografia é de batalha, de combate. O que deve esperar quem está começando agora nesse ramo?

A.A.: Eu acho que tem que conseguir dizer de uma maneira pessoal, original, para que isso seja uma contribuição. O exercício exige talento, perseverança, é uma busca constante de autoconhecimento, de crescimento espiritual. Você trabalha para os outros e para si. Quando você começa a desenvolver uma coisa própria, já está em um caminho autoral, tem algo que já virou um grande aliado, que é a forma de espalhar benefícios. Muitos não conseguem chegar ao caminho autoral, pois ele exige desprendimento, não é comercial.

 

SUMAÚMA DO RIO NEGRO: Crianças ribeirinhas se divertem nas raízes de uma Sumaúma, árvore típica da Floresta Amazônica, em Barcelos (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

Mais informações sobre o fotógrafo e o seu trabalho em www.araquem.com.br

 

Imagens Web

 

Em 2003, prestes a fechar um ciclo em minha carreira, o término da Faculdade de Comunicação (PUCRS), eu dei início a uma série de reflexões sobre o significado de minha profissão, de tudo o que eu havia construído até então e de toda a vida que eu tinha pela frente a partir dali. Imaginava-me naquele momento em que o estudante se vê no portão do campus, de frente para a rua, com um diploma nas mãos. Instante exato em que surge a pergunta que não quer calar: e agora? Bom, não há muito que fazer senão, como sempre, seguir adiante. Medo? Todos. Vontade? Infinita. Esperança? Acesa.

No período de conclusão de curso uma questão acaba por se revelar. Dezenas de Universidades jogam nas ruas milhares de profissionais recém-formados todos os semestres. Até que ponto o mecanismo incessante de criação de bacharéis prepara as pessoas não para o mercado, mas para o mundo? Todos sabem que a graduação é o berço e que somente a prática da profissão ensina de fato. Mas o que é ser um jornalista de verdade?

A responsabilidade de manter a opinião pública bem informada é, acima de tudo, um dever social. Minha participação no contexto que habito inclui, entre outras coisas, formar opinião. Formar opinião? O leigo pode não se dar conta, mas não existe poder maior do que este. Tudo gira em torno de mentes que pensam. Redundância? Sim, se você souber que a sua mente é livre, independente, autônoma. Do contrário, você é um seguidor de quem? Do que diz a imprensa. Parece mentira, mas os meios de comunicação de massa alcançaram um patamar tal que as pessoas afirmam com frequência: “Isso é a mais pura verdade fulano, eu li na Folha (de S. Paulo), eu assisti no Jornal Nacional, eu ouvi na Rádio CBN.” Transformamo-nos, nós jornalistas, em oráculos universais. Nem a Academia, maior e mais respeitado espaço de seres pensantes do planeta, bate-nos. Isso mesmo leitor. Você duvida? Então, lamento informá-lo, mas pertence ao hall de seguidores, não possui uma mente livre. Quem eu penso que sou para te dizer isso? Não sou mais nada além do que você é nessa empreitada chamada vida. Somos todos parte do mesmo cosmos. Porém, parceiros ou não, meu caro, eu sou jornalista, sei do que estou falando.

Hoje, mais do que em qualquer tempo, nós temos a força. Tal realidade deveria me fazer sentir vitoriosa. Integro o time. Estou com a faca e o queijo na mão. Eureka! Não, as coisas não funcionam assim. Volto à pergunta com a qual encerrei o primeiro parágrafo: Mas o que é ser um jornalista de verdade?

Retorno ao começo do que você lê para engrenar o carretel de palavras…

Em 2003, prestes a fechar um ciclo em minha carreira, o término da Faculdade de Comunicação (PUCRS), eu dei início a uma série de reflexões sobre o significado de minha profissão, de tudo o que eu havia construído até então e de toda a vida que eu tinha pela frente a partir dali. Foi quando escrevi o artigo abaixo. Encontro-me a quatro dias de uma outra mudança importante. Partirei para São Paulo em direção ao futuro depois de exercer, há quase seis anos na região sul do Brasil, o ofício que escolhi por amor. A prática me trouxe a certeza de que, sem dúvida, a grande escola se encontra fora das dependências do campus universitário. Enquanto remexia as minhas bugigangas separando o relevante para a viagem, deparei-me com o meu passado em uma caixa carregada de papéis até a boca. Ali estavam escritos diversos de minha época de estudante. Entre eles, este texto que segue para a sua apreciação.

Contarei um segredo para você. Algo que pertence somente a mim, mas que vou compartilhar contigo. Ao reler o que escrevi há oito anos, emocionei-me. Por quê? Ora, constatei algo de grande valor. Apesar de ter vivido um bocado desde o ponto final que dei ao palavrório produzido para a disciplina Tecnologia da Informação, eu continuo a mesma: não me corrompi, mutilei, violentei ou deixei me virarem a cabeça. Sigo pensando da mesma forma com uma esparsa vantagem, a de estar muito mais madura. Estou vencendo em minha carreira. Ser vitoriosa, como eu ia dizendo, significa usar do poder que possuo para realmente informar você. Li em um texto publicado pelo jornalista Daniel Santini no post Percepções distorcidas e a realidade no trânsito, de seu blog Outras Vias, a seguinte colocação: “A desinformação se completa pela preguiça, má vontade ou cinismo de boa parte da imprensa, que reproduz releases de maneira passiva e repete estereótipos e lugares comuns sem reflexão.” Ele está certo e você entenderá o que digo quando chegar ao fim do que lerá agora, se quiser, é claro. Sirva-se à vontade ou parta imediatamente. Ratifico – o resultado de tamanha falação tem a ver com escrúpulos e coragem, não com idealismos e utopia.

Liberdade para quem?

 

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* Artigo produzido em maio de 2003 para a disciplina Tecnologia da Informação, da Faculdade de Comunicação (PUCRS).
 

Falar sobre a informação é falar sobre a essência do significado do jornalismo: a comunicação. Ela, que em sua etimologia, defini-se como um repartir comum do alimento necessário para todo o profissional da área; ela, que segundo determinados teóricos, dá-se através de “todos os procedimentos pelos quais uma mente afeta a outra.” O que obviamente envolve não apenas o discurso oral e escrito como também a música, as artes visuais, o teatro, e certamente, todo o comportamento humano.

Hoje, o que temos é a comunicação instituída como área de conhecimento. Toda pessoa esteja ela onde estiver, movimenta-se, e consequentemente, transita por entre um fluxo de mensagens que penetra no corpo como que para oxigenar o sistema orgânico em vida. A televisão, o rádio, a imprensa, a internet, os “advertisements”, todos os meios técnicos eletro-eletrônicos de produção de imagem, som e escrita expiram uma linguagem sígnica repleta de códigos instantaneamente absorvidos pela sociedade. A convulsão destes meios e veículos se mistura com os alicerces erguidos há muito pelo homem, onde neles se apoiam os valores e princípios que propulsionam a cultura de um determinado povo. A pergunta faz-se necessária: Quem somos e de que forma nos identificamos como sujeitos ativos e autogerenciáveis, tendo em vista o fato de nos encontrarmos impressos ou objetivamente colocados como peças dentro do emaranhado midiático a que me referi?

Quando escolhi o jornalismo como profissão, pensava que teria condições de carregar todas as histórias do mundo sobre a folha de papel que acabaria nas mãos do leitor; que teria seguramente a oportunidade de me expressar por meio da chamada liberdade de manifestação do pensamento e de todos esses mas e poréns que ecoam em nossa mocidade e que vez ou outra esmorecem sem que percebamos. No decorrer do curso, contudo, notei que havia uma contradição nesse raciocínio meu. Mostraram-me que o jornalista quando reconhecido como tal deve manter-se imparcial frente aos acontecimentos que hão de se tornar notícia conduzida por ele, emissor, com seus instrumentos, ao receptor, ao público, às pessoas, à comunidade. O que se desmembra sobre o seguinte quadro: a chave que encerra a legitimidade da informação está acentada na maneira precisa e neutra com a qual o jornalista irá apurar o fato, apresente-se ele ao lado de sua porta ou do outro lado do mundo. Admito que me senti confusa, que o sentido e desejo entornados da coisa minha, aquela que me sacudia a fome de me tornar um ser comunicante, deparou-se com uma pedra; cascalho grande que talvez me pese nos ombros até este exato momento. Estou aqui, sentada a escrever esta porção de palavras, e penso que a minha angústia como futura profissional não se revela apenas junto aos meus anseios de principiante, mas à velocidade de transmissão das mensagens dentro de um contexto onde o processo de negociação entre emissor e receptor tem seguido por uma linha tênue bastante questionável.

Conforme afirmou Mattelart, em seu conceito de comunicação mundo, as grandes redes de informação e comunicação, com seus fluxos “invisíveis” e “imateriais” formam “territórios” abstratos e “intangíveis”. O público absorve uma quantidade massiva de códigos formatados em um número infinito de mensagens diariamente. A questão é: até que ponto ele decodifica tamanha bagagem de informação que possa resultar esta, na oportunidade de uma retroalimentação: o “feedback”? Com tantos canais a escolher e constante vazão de símbolos em operação instantânea, as pessoas têm ou não ao seu alcance a liberdade de manifestar ou desenvolver pensamento próprio?

A cultura da mídia passa primeiro pelas salas de redação e agências de notícias espalhadas pelos quatro cantos do globo. Surgem, então, em minha pequena visão de estudante já na porta do mercado, termos como uniformização e padronização. As técnicas de persuasão e manipulação das mensagens utilizadas pelas empresas jornalísticas são teoricamente comprovadas por estudiosos e pesquisadores do ramo. Não é novidade dizer, portanto, que o conceito de imparcialidade é relativo e que seu usufruto sob a égide de quem dá suporte a tais empresas torna-se um objeto deveras perigoso. O comportamento do jornalista, neste caso, é algo que se deve sempre polemizar, já que o desempenho da profissão está vinculado a uma função social.

O que dizer? Tenho medo. Aflige-me as ideias ter na consciência a chance de vir a ser parte de uma enorme máquina de entortar homens; de que possamos nós, profissionais da comunicação, estar adormecidos; de que movendo uma peça aqui outra ali nesse imenso tabuleiro que é a vida, e mais próximo da nossa realidade como comunicadores, do que representa a informação como argumento, possamos estar fazendo pessoas adormecerem.

Hoje pela manhã, recebi de um amigo um livro de Antoine de Saint-Exupéry chamado Terra dos Homens. Saint-Exupéry, autor francês que durante parte do meu nascer e florescer, incansavelmente, apresentou-me um pouco dos tantos significados que tem a vida. Noto, após uma breve leitura do capítulo que me foi indicado, falo como pessoa e, reitero, futura profissional, que muito ainda tenho a aprender. Maravilhosa constatação. Confesso que este empurrão, tanto do amigo quanto do autor, serviu-me de fonte inspiradora para escrever este artigo.

Vitor Frankl disse que o homem é livre e responsável. Livre para fazer as suas escolhas e responsável pelas consequências de suas ações perante as escolhas que fez. Os meios de comunicação de massa passaram a exercer um papel estruturante na organização da sociedade mundial. Coloco a afirmação de Vitor Frankl em concordância simétrica com a minha: o jornalista, como profissional, também é livre e devidamente responsável pelos seus atos e por aquilo que a eles corresponder.

Acredito poder encaixar aqui algumas das palavras de Saint-Exupéry, que em uma viagem de trem da França à Polônia, ao observar operários em regresso à terra natal, certa vez rabiscou no papel: “E assim eles pareciam ter perdido um pouco da qualidade humana. Nos fardos mal arrumados, mal amarrados, eles haviam juntado apenas seus utensílios de cozinha, suas roupas de cama e cortinas. Mas tudo o que haviam acariciado e amado, tudo a que se haviam afeiçoado em quatro ou cinco anos de vida na França, o gato, o cachorro, os gerânios, tudo tiveram que sacrificar. A vida transmitia-se assim no absurdo e na desordem daquela viagem. Uma criança chupava o seio de sua mãe que de tão cansada parecia dormir. Olhei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo dobrado no desconforto do sono, preso nas suas vestimentas de trabalho, um rosto escavado com buracos de sombra e saliências de ossos. Aquele homem parecia um monte de barro. E ele, que hoje é apenas uma máquina de cavar e martelar, sentia assim no coração uma deliciosa angústia. O mistério está nisso: eles se terem tornado esses montes de barro. Por que terrível molde terão passado, por que estranha máquina de entortar homens? Um animal ao envelhecer conserva a sua graça. Por que a bela argila humana se estraga assim? Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, um homem se acostuma, como no ócio. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem a feiúra. É Mozart assassinado, um pouco em cada um desses homens.”

Qual é o valor da informação? Quero encontrar esta resposta nas faces do público que recebe e absorve a mensagem por nós, jornalistas, emitida. E que junto de mim esteja sempre a lembrança das palavras de Exupéry. Realista é o mercado. Eu sou uma futura profissional, que crê piamente na essência do significado deste ofício: a comunicação. Hei de levar comigo a seguinte frase: “Só o espírito, soprando sobre a argila, pode criar o homem.”

Portfólio

dezembro 13, 2010

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Nota em maio de 2016

O site da Nascente Casa Editorial está em fase de construção.

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