Brasil:”nunca mais”

abril 19, 2016

Foto Web Cartum Laerte

 

Laerte

Nunca pensei que fosse viver para assistir a um espetáculo de horrores como o destes dias atuais. Um gangster liderando uma casa de canalhas em prol do impeachment de uma presidente honesta. Poderia dizer que é só no Brasil, mas não. Parece-me que a verdade tem proporções abissais. O golpe em curso traz consigo o poder dilacerante de um sistema que sangra a humanidade ao mesmo tempo que reflete a sua face com a precisão de uma bala. O olhar vidrado de narciso é poeira rala nesta estrada de morte anunciada. Quem diria que na rabeira de 17 de abril, sem forças, palavras ou perspectiva, eu encerraria os trabalhos com uma frase de bandido? Não a proferiu em ato falho. Ele sabia exatamente os o ques e por ques de bailar sobre o precipício galhofando de todos nós. “Que Deus tenha misericórdia dessa nação.”

 

votação impeachment

 Câmara dos Deputados vota impeachment de Dilma Rousseff

 

 

 

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Je suis Quem?

janeiro 13, 2015

Foto Web

foto para post no blog

 

Eu não gosto do humor feito pela Charlie Hebdo. Na verdade, tive pouco contato com a publicação durante a faculdade. Mas isso é o de menos. Se gosto ou desgosto, pouco importa. O que me incomoda é o fenômeno que acontece dentro e fora desta world wide web. De repente, muita gente se tornou especialista. Pessoas que, da noite para o dia, passaram a conhecer a fundo o histórico da revista francesa. Uns a louvam. Outros a massacram. Alguns assustadoramente acham que os jornalistas assassinados arcaram com as consequências de seus atos.

O mundo às avessas de Galeano está cada vez mais às vistas e o que resta ainda está em fase de gestação. Arrepia imaginar a proporção dos fatos, já que o fundamentalismo impera. E não é de hoje. Fundamentalismo religioso, político, midiático, social, econômico, cultural, ambiental e assim por diante. O que aconteceu dentro da redação e nas cercanias do prédio, em Paris, não é justificável. Da mesma forma que não se justifica o assassinato dos suspeitos pelo crime sem provas. A polícia matou às cegas com o amparo da lei. Não seriam ambos os atentados atrozes por ferirem o direito à vida?

Outra coisa que me faz pensar é a comoção internacional com foco. Por que o mundo se mobiliza tanto com uma chacina no Marais enquanto há tantas acontecendo ao mesmo tempo bem debaixo de todos os narizes do planeta? Faz sentido se abalar com uma e ignorar conscientemente a(s) outra(s)? A reação em cadeia é sintomática ou nada a ver? Sinceramente? Acho que falta reflexão. Não dá para apontar o dedo seja para o lado que for sem antes analisar o que se passa. Não é lendo matéria, artigo ou opinião de jornalista, como a minha, que expresso agora, por exemplo, que se chega a uma conclusão. Para enxergar o contexto é imprescindível que se realize uma investigação criteriosa. Mas em época de instantâneos, quem se disporia a dedicar as suas preciosas horas a tal propósito? Opiniões críticas e embasadas se formam ao longo do tempo. Que eu saiba. Ou pirei?

Ainda estou digerindo o que aconteceu. Lanço apenas uma ideia aqui. Não acredito em certezas nem tampouco em imparcialidade. Cada um que assuma a posição que melhor lhe parecer. Só cuidado, pois é muito fácil tropeçar nas próprias convicções. A colocação que faço pode soar como pura retórica. Que seja. Não deu para calar frente à tamanha brutalidade. Refiro-me a tudo o que se espalha por aí e não somente aos disparos ocorridos no dia 7 de janeiro. Segundo Galeano, o mundo às avessas é um mundo mal parido. Quem sabe chegou a hora de parirmos um novo mundo? É utópico acreditar que é possível? O uruguaio afirma que é ela, a utopia, que nos leva adiante. Serve para caminharmos. E nesta, estou com ele e não abro!

 

Adelante

novembro 21, 2014

Galeano é um homem com quem tenho o maior orgulho de dividir o mesmo momento histórico. Olha que reflexão ele faz sobre a experiência humana dentro do universo!

 

“Para que serve a utopia? Para caminhar!”

 

O Guerreiro Audacioso

junho 2, 2012

 

abre entrevista Araquém

 

Confira a íntegra da entrevista que publiquei na Revista Aventura&Ação com o ícone da fotografia de natureza: Araquém Alcântara. A trajetória, os livros, as histórias do fotógrafo que documentou o Brasil como nenhum outro. Colecionador de mundos, ele marca a alma do espectador com registros que deram origem ao maior banco de imagens da fauna e flora do país. Um dos grandes expedicionários da era contemporânea, Alcântara fala com entusiasmo de sua grande paixão pela fotografia, de suas andanças pelas matas brasileiras, e conta ainda sobre os novos rumos de sua carreira.

 

TROPA CRIOULA: Gaúcho toca cavalos da raça típica da região, em alvorada de Dom Pedrito (RS). Do livro “Araquém Alcântara: Fotografias”

 

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* Entrevista publicada originalmente na edição 167 da Revista Aventura&Ação.

 

Ele não crê em submissão a regras e fórmulas para o alcance do espírito criador, livre, íntegro. Acredita no olhar autêntico, desprendido, perseverante. Para o fotógrafo que documentou como nenhum outro a cultura, a face e a alma do povo e das florestas do Brasil, qualquer profissional que opta pelo registro do mundo por meio da imagem deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo.

Fotos Arquivo Pessoal/Araquém Alcântara

 

Araquém em ação no Pantanal Mato-grossense

Semblante incisivo, olhar certeiro, gestos articulados e voz calorosa: com a postura de um combatente impetuoso, Araquém Alcântara bate a campainha de sua editora carregando consigo uma pilha de livros, resultado de empenho e contumácia. Pouco antes do início de uma entrevista que levaria cerca de duas horas, ele anuncia a sua equipe – “preciso de agenda, um copo d’água, dois minutos para um telefonema e começamos”. O obstinado colecionador de mundos, fotógrafo com 40 anos de histórias para contar, peregrinações pelo Brasil de todos os brasileiros, real e pouco explorado, cheio de nuances, contrastes, exuberância e barbárie, passou feito relâmpago pela sala de espera, simpático, expressivo e pronto para trabalhar. – “Vamos focar em criatividade, ok?”, desafia.

Ao longo de uma carreira que soma 42 livros publicados e dezenas de prêmios, o catarinense criado em Santos (SP) exalta a diversidade e a grandeza do País com nome de árvore. “Eu sou um intérprete do Brasil, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas”, diz. Para o seu livro “TerraBrasil”, o fotógrafo, incansável em sua saga de trazer o Brasil profundo para o urbano, percorreu, durante nove anos, todas as Unidades de Conservação do País. O trabalho, minucioso e pioneiro, deu origem ao maior banco de imagens da fauna e flora nacionais, inspirando também o nome da editora fundada por Araquém. O objetivo da casa editorial, especializada no registro do patrimônio natural brasileiro, é defender a sua biodiversidade por meio da documentação e denúncia.

Às vésperas de lançar mais dois livros, embrenhado em projetos cinematográficos, preparado para ganhar o mundo em empreitadas pela Tanzânia, na África, Araquém acredita na arte como uma ação revolucionária, um poderoso instrumento de mexer com o inaudível, com o não perceptível, com a alma. “Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo”.

 

A&A: Como surgiu o interesse pela fotografia?

Araquém Alcântara: Eu comecei a fotografar depois que eu vi um filme fantástico, que fez a minha cabeça, chamado “A Ilha Nua”, de Kaneto Shindo. Foi uma coisa impressionante porque o meu negócio era ser escritor. Ao sair da sessão, eu estava absolutamente transtornado. Estranho, eu nunca tinha sentido aquilo antes, a magia de ter visto uma obra de arte que tinha me tocado. Depois, houve um livro, “O Budismo Zen”, de Alan W. Watts. Quando eu o li, em 1969, foi como se houvesse também uma revelação: uma obra de arte pode transformar. Quando há sintonia, quando o observador entra no mesmo dial do que ele está vendo, há uma transformação coletiva, uma revolução. A obra se transforma, o autor se transforma e o espectador se transforma. Aí cria-se um triângulo: obra, autor, espectador. Sem querer, intuitivamente, nesse final dos anos 60, eu comecei a entender a arte como uma ação revolucionária. A obra precisa provocar. O importante é que essa transformação que gerou tudo isso que eu sou – eu só penso em produzir, sou totalmente uma usina, pilhado, o meu negócio é criar – veio após assistir a esse filme, quando percebi que poderia dizer as coisas por meio de imagens.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Criança da tribo Tucano se banhando em Pari-Cachoeira (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Qual foi a sensação da primeira foto? Onde e quando aconteceu?

A.A.: Começou nos anos 60, quando o filme me convocou para essa linguagem. Eu ainda demorei dez anos para assumir a fotografia. Lá por 1978 é que eu deixei o texto para virar fotógrafo, unicamente. Comecei a me enveredar pelas matas, entrei na Mata Atlântica e a minha vida mudou. Quando eu conheci a grande floresta virgem brasileira, na época em que o Governo desapropriara uma grande área para construir usina atômica, a minha fotografia ganhou ideologia. Então, ela sempre teve um caráter de documentação social. Mas o aprendizado, os exercícios de texto, tudo isso foi importante para que eu conseguisse chegar onde estou. A minha fotografia sempre foi engajada, com um propósito de seduzir as pessoas para o meu modo de ver o mundo, para espalhar conhecimento e informação, para revelar o Brasil para os próprios brasileiros. Depois de 40 anos, ela se livra de tudo isso, de natureza, de jornalismo, para se transformar em uma fotografia livre de qualquer tema, amarra, fórmula. O meu último livro comprova isso. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Benny de melhor livro de arte em 2011.

A&A: E quanto às temáticas a serem fotografadas? Como se enveredou pela fotografia de natureza?

A.A.: A fotografia de natureza só se revelou quando eu entrei na floresta selvagem, na Mata Atlântica da Juréia, onde tem bicho. De repente, você está quieto e passam 30 porcos-espinhos do seu lado. Não é florestinha, não. É coisa grande, de bichos grandes. Foi aí que eu comecei a entender essa outra sociedade. A floresta se transformou na minha matriz criativa, no meu modelo de universo. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, Amazônia, Caatinga, Cerrado, e que está em processo de destruição. A maioria das pessoas passa por essa vida sem entender a grandeza, a importância, a maravilha que é ser um país que tem nome de árvore, Pau Brasil.

A&A: O que imprime a marca pessoal do fotógrafo à fotografia?

A.A.: Lembro-me que, com sete, oito anos, eu já escrevia uns textos que as pessoas liam e diziam: “nossa, mas que texto lindo!”. Depois, eu comecei a ler. O gosto pela leitura chegou muito cedo. O meu universo, a minha percepção do mundo foi ampliando. A cultura sempre esteve presente. Só que eu jamais imaginei fotografia. Alguma coisa muito especial me convocou para outro lado. O fotógrafo, hoje, é um artista plástico, tem que ter um grande repertório cultural. Uma vez, para você ter uma ideia, um diretor de uma galeria em Santos me disse: “Araquém, a fotografia não é arte, eu não posso expor você aqui, mas eu tenho um corredorzinho que dá no banheiro, ok?” Aí você vê quanta batalha. Ainda mais que a minha fotografia era de Brasil, feita para gente que só queria saber de Cancún e Miami, uma elite que queria só copiar o exterior e não olhava para seu próprio país. Ou seja, o meu trabalho sempre foi de briga. A minha fotografia sempre foi de combate. Diante de tudo isso, o que imprime uma marca pessoal? A vivência, a experiência. Com aquele filme, eu comecei a perceber que a minha fotografia sobre o Brasil seria muito simples, mas sofisticada nos detalhes, com uma riqueza de formas muito grande. O mais importante é que percebi que eu iria documentar o povo e a natureza brasileira, que teria que começar a andar. Sou um fotógrafo andarilho.

 

QUEIMADA: Plantação de cana-de-açúcar é incendiada por produtores para facilitar o corte em propriedade de São Manuel (SP). A prática será proibida por causar danos ao meio ambiente. Do livro “Cachaça”

 

A&A: Você tem um trabalho com uma temática social, de protesto. Qual é o poder da imagem?

A.A.: Ela tem um grande poder tanto para o bem, quanto para o mal. Tem um poder de transformar consciências, de enriquecer a cultura, de revelar.

A&A: Quando a fotografia se torna uma forma de intervenção social?

A.A.: Ela não é somente uma forma de intervenção social, mas um poderoso instrumento de discussão da realidade. No momento em que o fotógrafo documenta a realidade, não significa que ele é um artista. Ele pode ser um documentador. A sua interpretação, o seu modo de registrar essa realidade é que pode fazer dele um artista. A fotografia é um grande documento social quando ela passa a revelar o caráter de um povo, a sua história. Quanto mais você se aproxima de um povo, mais próximo você está de revelar as suas angústias, buscas e alegrias. É aquela coisa de ir onde o povo está, de se jogar nessa viagem de documentar a sua aldeia.

A&A: Como você definiria o Brasil?

A.A.: É impossível. Ninguém define essa grandeza. O Brasil é um enigma. O Brasil são muitos “Brasis”. Para definir o Brasil, eu recomendaria aos meus alunos que lessem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, e por aí vai. Tem que ler também Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Tem que ver Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor. Aliado a isso, é importante que as pessoas andem pelo Brasil. Ele precisa ser conhecido. Não adianta só ler. Escola é bom, mas é preciso andar. O Brasil tem uma multiculturalidade impressionante, uma miscigenação que nos torna plurais.

 

AMAZÔNIA: Pescador Zezão retira pirarucu da água na Reserva Extrativista Médio Juruá (AM). Do livro “Amazônia de Araquém a Atala”

 

A&A: Como estabelece relações com as pessoas que fotografa em comunidades remotas? Como retratar sem invadir?

A.A.: A primeira coisa é quebrar as diferenças. É claro que você causa estranhamento chegando a uma comunidade perdida da Amazônia. Todo mundo fica olhando. Daí, você começa a se relacionar. Daqui a pouco, você está jogando futebol com eles, conversando com o mais velho, ouvindo os mais jovens, pescando, está dentro da mata com eles. Quando menos espera, as fotos surgem naturalmente. O grande segredo é ouvir, dar atenção e trocar com eles de igual para igual. O fotógrafo de natureza, viajante, tem que se aproximar de uma comunidade para registrara vida real do lugar.

A&A: Para a sociedade, qual é o impacto gerado pela fotografia das comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras?

A.A: O fotógrafo levanta esse véu do que está oculto, faz certas coisas que ficaram para trás ressurgirem. Ele esclarece páginas esquecidas da história. A fotografia é resgate. Esse é um País desconhecido pelos brasileiros, onde, em muitos lugares, o Estado não existe, não há lei. O fotógrafo toca nessas feridas. Por outro lado, ele pode ser só um poeta. Fotografia também é síntese, celebração da beleza, aquela coisa que você não pode pegar. Não tem que se prender a regras nem a terminologias.

A&A: Quais os métodos para fotografar animais silvestres, lugares afastados, comunidades isoladas? Como você equilibra técnica e sensibilidade?

A.A: É preciso uma profunda disposição para você ir a lugares distantes desse País. Você tem que estudar, mapear, buscar guias que o levem na comunidade. Há um tempo para descobrir o que se quer na fotografia. É preciso exercitar constantemente e mergulhar até a exaustão em um tema. Aí você faz um ensaio, depois outro, e assim por diante.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Onça-pintada surge entre a mata na Amazônia (PA). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Quais as principais aventuras que já enfrentou por uma imagem?

A.A.: A expedição para a região do Monte Roraima. Tivemos uma canoa desgovernada que foi para cima de uma cachoeira (a Grande). Tive que me agarrar em uma pedra para não ser levado pela correnteza. Houve, também em Roraima, um monomotor que passou por uma tempestade tenebrosa. Foi um susto. Outra situação marcante ocorreu no Pará. Eu, meu assistente, o guia e o barqueiro fomos seqüestrados por índios Caiapó, enquanto cruzávamos o Rio Curuá, afluente do Xingu. Eles estavam em pé de guerra com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Federal, que havia apreendido o garimpo de onde eles estavam ganhando comissões. Pediram como resgate R$ 1,5 mil, 150 litros de gasolina de avião e dois quilos de pimenta verde. Passamos dias comendo apenas macaxeira até que fui levado à cidade mais próxima, retirei uns R$ 300,00 e o grupo foi libertado.

A&A: Qual é o seu maior desafio?

A.A.: Eu tenho um profundo amor por esse País. Sou um intérprete dele, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas. Já fiz 42 livros celebrando esse Brasil. Agora, eu começo a fazer cinema. Começo também a derivar o meu trabalho para as crianças. Meu trabalho espalha benefícios, conhecimento, informação, arte. A minha bem-aventurança, eu costumo dizer, é criar e repartir belezas.

A&A: Qual foi o seu maior aprendizado?

A.A: Ando há 40 anos pelo País e só agora eu aprendi a entender a alma desse povo dos sertões, dos ermos, um povo que ainda é esquecido, espoliado.

 

CARVOEIRA: Trabalhador manuseia carvão no Vale do Jequitinhonha (MG)

 

A&A: O que nunca fez e gostaria de fazer?

A.A: Eu serei o consultor criativo e fotógrafo de um filme sobre a Amazônia chamado “Planeta Verde”. O misto de documentário e ficção será produzido por Gullane Entretenimento e Gedeon Filmes. O projeto me levará a cinco grandes expedições pela Amazônia. É um novo caminho. Acabei de fazer um livro com Alex Atala, “Amazônia de Araquém a Atala”; outro com o Manoel Beato, Cachaça. Nos próximos anos, farei um livro sobre o Cerrado, três sobre a Amazônia (“Amazonas, o Rio”; “Os Amazônidas” e “Viagem pela Amazônia”) e outro sobre a fauna do Brasil.

A&A: Você falou, no início da entrevista, que a sua fotografia é de batalha, de combate. O que deve esperar quem está começando agora nesse ramo?

A.A.: Eu acho que tem que conseguir dizer de uma maneira pessoal, original, para que isso seja uma contribuição. O exercício exige talento, perseverança, é uma busca constante de autoconhecimento, de crescimento espiritual. Você trabalha para os outros e para si. Quando você começa a desenvolver uma coisa própria, já está em um caminho autoral, tem algo que já virou um grande aliado, que é a forma de espalhar benefícios. Muitos não conseguem chegar ao caminho autoral, pois ele exige desprendimento, não é comercial.

 

SUMAÚMA DO RIO NEGRO: Crianças ribeirinhas se divertem nas raízes de uma Sumaúma, árvore típica da Floresta Amazônica, em Barcelos (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

Mais informações sobre o fotógrafo e o seu trabalho em www.araquem.com.br

 

A natureza em foco por 168 horas. E depois?

Fotos Araquém Alcântara

 

De 1º a 8 de junho de 2011 acontece a Semana Mundial do Meio Ambiente. A biodiversidade do planeta toma o seu acento no meio social. Durante sete dias, não se fala em outra coisa: é a natureza em foco. Há discussões contumazes a respeito do tema, algumas necessárias, outras protocolares; uma diversidade fantástica de programação referente ao verde espalha-se por cidades; delimita-se um espaço amplo para a troca de informações sobre a relação do homem com as florestas. Tal alvoroço leva a uma comunhão de valores entre as partes que compõem o sistema com a finalidade de demonstrar engajamento com a causa ambiental. A mensagem transmitida por meio deste emaranhado de sinais percorre os quatro cantos, multiplica-se em ações destemidas, anuncia um comportamento ecologicamente correto de indivíduos em torno de um único propósito: a preservação da vida. São 168 horas anuais de manifestações em prol do futuro da humanidade.

Parei para pensar na parafernália que se alastra pelo curto intervalo de tempo. Para que serve tamanha indumentária, na prática, se o ano possui 8.760 horas e nas 8.562 que não integram a semana sustentável pouco se faz pela conservação da natureza? O que, de fato, significa agir em defesa do meio ambiente? Qualquer resposta a uma questão tão prosaica soaria paliativa, se não fosse a absoluta falta de noção de uma quantidade significativa de pessoas sobre o quão prejudicial pode ser para o planeta a forma com a qual nos movimentamos dentro do contexto sócio-político em que vivemos. Transformamo-nos em peças de um mecanismo atrelado ao interesse do capital. O que move a máquina a qual ajudamos a alimentar diariamente é o dinheiro e os meios que nos levam a adquiri-lo para que possamos sobreviver. Existe, portanto, um conflito mutante, já que o sistema busca sempre brechas de adaptação, entre a sociedade e sua dinâmica, e o meio ambiente, a natureza. De nada adianta debatermos durante 168 horas se não tivermos condições de, em algum momento, abrirmos os olhos para tal realidade, pararmos efetivamente para pensar a respeito e procurarmos por maneiras adequadas de convivência com o planeta que habitamos.

Retomo a pergunta: O que, de fato, significa agir em defesa do meio ambiente? O meu desejo era o de evitar a palavra defesa, pois somos elos uns dos outros, formamos todos, seres universais, este magnífico e gigantesco coração chamado vida. Somos a natureza, um de seus braços. Para falar sobre ela e nossa relação com a Terra, preferiria utilizar termos como compartilhar, somar, distribuir, mas infelizmente, para que possamos usufruir de expressões tão belas e relevantes precisamos primeiro conhecer o entorno e sabermos como nos posicionar diante dele. Há possibilidade de continuar a mover a manivela econômica sem causar danos ao meio ambiente? Cientistas do mundo inteiro lançam mão de métodos viáveis e eficazes, cujo foco é a sustentabilidade.

Código Florestal Brasileiro em perigo

Estamos atrelados a uma Era corroída por desastres ambientais de larga escala, graves, muitas vezes irremediáveis. Chegamos ao limite de esgotamento dos recursos naturais do planeta e mesmo assim, na Amazônia, por exemplo, os desmatamentos, que não cessam, cresceram 500% em março e abril de 2011 se comparados ao ano anterior. O país passa por um dos momentos mais sérios de sua história com a aprovação, no dia 24 de maio, do novo Código Florestal Brasileiro pela Câmara dos Deputados. Dos parlamentares que participaram da sessão extraordinária realizada em Brasília, 410 votaram a favor do relatório do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), 63 contra e houve uma abstenção. Um número expressivo de deputados corroborou com o maior retrocesso da política ambiental brasileira, dando fé a um projeto que anistiará desmatadores e retirará a proibição de novos desmatamentos em todas as propriedades rurais brasileiras por cinco anos a partir da publicação da nova Lei, entre outros. Centenas de milhares de hectares de matas nativas do Brasil estarão ameaçadas.

A Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciências (ABC) disseram não ao desmonte da legislação ambiental brasileira e pediram mais dois anos de análises sobre possíveis modificações no texto atual. A finalidade é a construção de uma lei segura e sustentável. O documento científico com mais de 100 páginas foi entregue também ao deputado Rebelo, cuja resposta dada sobre o seu conteúdo foi: “Li e ignorei.” O projeto seguirá para o Senado e, em seguida, para a sanção da presidente Dilma Rousseff.

Publico abaixo o artigo Lei ambiental: a mudança será para pior, de Vania Neu. Considero fundamental apresentar o parecer de um especialista para aprofundar o tema e as questões que estão por traz das alterações propostas no novo Código. A autora é bióloga com mestrado e doutorado em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professora e pesquisadora da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFAM), na linha de biogeoquímica com ênfase no ciclo do carbono. Direta, contundente e bem embasada, Vania faz uma leitura completa da história do Código e destrincha os por menores ocultos na flexibilização das leis ambientais do País. Detalhe primordial que ninguém vê, muitos não sabem que existe ou fazem que não sabem e a grande imprensa não noticia.

Mudança de comportamento

Estamos na Semana Mundial do Meio Ambiente. Creio não haver razão para restringirmos as nossas ações aos sete dias que a compõem. Faz-se urgente que comecemos a nos articular em direção à transformação. O primeiro passo para a construção de um convívio saudável e inteligente com a natureza se revela na mudança de comportamento. Precisamos mudar os nossos hábitos, a nossa visão, a nossa forma de ser e estar no mundo para que causemos, ao nos movimentarmos e alimentarmos o sistema, cada vez menos impacto. Você separa o lixo? Economiza energia elétrica, água, produtos de uso diário? Sabe que o consumo ponderado de eletrônicos, por exemplo, reduz em níveis consideráveis o lixo tóxico acumulado nos aterros sanitários de grandes centros urbanos? E o óleo de cozinha, você guarda em recipientes para futuro descarte em postos de coleta do seu bairro? Conhece estes locais espalhados pelo seu município? Você utiliza sacolas ecológicas para fazer compras? Opta por embalagens biodegradáveis? Usa de forma consciente o papel, imprimindo o menor número de documentos possível? Utiliza menos o carro e mais os meios de transporte alternativos de sua cidade como o ônibus, o metrô, o trem e a bicicleta? Sabe que o monóxido de carbono emitido pelos veículos automotores é o gás que mais polui a atmosfera? Conhece as leis ambientais do seu país?

As grandes mudanças surgem de pequenos gestos, das pequenas coisas. Se cada um fizer a sua parte, nós conseguiremos reduzir as consequências trágicas do maltrato secular sofrido pelo planeta na vida de todos os seres que o habitam, tornando assim, o nosso futuro possível. Do contrário, estaremos nos condenando, lenta e gradativamente, à morte. A escolha é sua. Pense nisso. Abrace essa causa. Engaje-se. Reivindique. Informe-se.

O nosso amanhã está em nossas mãos.

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* Artigo publicado originalmente no portal ((o)) Eco Amazonia, em 28 de abril de 2011.

Por Vania Neu

 

O Código Florestal Brasileiro em vigor foi instituído em 15 de setembro de 1965, pela Lei 4.777, com objetivo de ser um instrumento legal para evitar a perda da biodiversidade, erosão e empobrecimento do solo assim como o assoreamento dos rios e demais corpos d’água. Um pequeno grupo de pessoas, porém muito poderoso em termos econômicos, alega que o Código Florestal está defasado, engessando o crescimento do país, além de comprometer a produção de alimentos, por reduzir a área destinada à agropecuária. Os argumentos acima citados não têm embasamento científico.

O primeiro argumento relacionado à defasagem não está correto, pois mesmo sendo instituído em 1965, o Código Florestal passou por inúmeras revisões e medidas provisórias, que foram adequando-o às condições atuais. A segunda afirmativa também não é verdadeira, pois os grupos que estão descontentes com o atual Código Florestal em sua maioria são latifundiários, empresários do agronegócio, produtores de commodities destinadas predominantemente à exportação. Grande parte da produção originária do agronegócio, que detêm 75% das terras do nosso país, consiste em matéria prima para exportação, enquanto a agricultura familiar, detendo apenas 25% das terras, produz em torno de 77% do nosso alimento (MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário).

A alegação de que a legislação ambiental compromete a produção de alimentos devido à redução de áreas destinadas à agropecuária é facilmente derrubada pelos dados do pesquisador Gerd Sparovek da renomada Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (ESALQ). Em seus trabalhos, Gerd mostra que atualmente existe no país mais de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser recuperadas e tornarem-se áreas produtivas. Esta área é imensa quando comparada aos 67 milhões de hectares atualmente ocupados pela agricultura. Além dos atualmente 211 milhões de hectares ocupados pela pecuária num modelo de baixíssima produtividade, produzindo 1,1 animais por hectare.

Hoje existem inúmeros trabalhos científicos mostrando que a produtividade do setor agropecuário pode facilmente ser dobrada, sem derrubar uma árvore, e respeitando os dispositivos do atual Código Florestal. O Projeto de Lei 1.876/99 foi construído para atender os interesses da minoria anteriormente citada, as quais têm a maior fração de terras em nosso país e possuem o maior passivo ambiental. Em nenhum momento a comunidade científica do nosso país foi convidada a participar da construção de uma nova proposta.

Por outro lado, pesquisas mostram que a nossa sobrevivência depende de um conjunto de benefícios advindos dos serviços ecossistêmicos. Estes serviços são os benefícios que as pessoas recebem dos ecossistemas, e as florestas são de extrema importância, pois nos fornecem uma série de serviços como as chuvas, purificação das águas, preservação dos recursos hídricos, fonte de alimento, resinas, fármacos, produção de oxigênio, ciclagem de nutrientes, dentre vários outros. Estes serviços são comprometidos quando as áreas de florestas são substituídas por outros usos do solo (Milenio, 2006).

O Projeto de Lei 1.876/99 tira a função ambiental de preservação das Áreas de Proteção Permanente (APPs). Como o próprio nome diz, as áreas de APP devem ser preservadas e não apenas conservadas como propõem o substitutivo. A proposta também retira da categoria de APP os topos de morros, montes, montanhas, serras e áreas com altitude superior a 1.800m. A cada dia, recebemos inúmeras notícias via meios de comunicação, sobre relatos trágicos com a perda de centenas de vidas devido à ocupação irregular das áreas de encostas. Até mesmo os leigos neste assunto sabem da importância em se preservar estas áreas. Não são necessários dados científicos, para entendermos a importância da preservação das APPs, basta assistir diariamente as noticias em nosso país.

Outra categoria de APP que está seriamente ameaçada, ou seja, deixará praticamente de existir, são as matas ciliares, nas margens dos rios. O código em vigor institui como área de APP as margens dos rios, considerando o leito maior do rio, ou seja, o leito do rio durante o período de cheia. O PL 1876/99 propõe que se considere a margem do rio levando em conta o leito menor.

Imaginamos o exemplo do rio Uatumã, que o Professor Fernando Jardim citou em recente debate na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que apresenta na seca largura de 100 m, enquanto no período de cheia 5.000 m. Ao aprovar o PL 1876/99, a área de APP, calculada a partir do leito menor do rio (período de seca), ficaria restringida a 200 m. Dessa forma, os 500 metros de faixa marginal que hoje é considerada APP poderiam ser totalmente desmatados, e 4.800 m, ou seja, 96% do canal do rio, estariam livres para qualquer uso. Além das áreas de APPs desaparecerem, o leito do rio poderá ser ocupado.

Ao aceitar a proposta do substitutivo, podemos amanhã estar construindo nossas casas ou mesmo plantando soja, cana-de-açúcar, fumo dentre outras culturas dentro do leito dos rios. E quando o rio encher e levar nossas casas e nossas plantações, de quem será a culpa? Foi simplesmente castigo de Deus?

Como já foi demonstrada em vários trabalhos, a mata ciliar é o ecossistema de maior importância para a manutenção da vida aquática dos rios. Ela serve como filtro na retenção de sedimentos, agrotóxicos e fertilizantes originários das áreas alteradas, seja pela ocupação urbana ou rural. À medida que eliminamos as matas ciliares, estamos também ameaçando os peixes, fonte de proteína de extrema importância para comunidades tradicionais ribeirinhas, indígenas, caboclos, que, em muitos casos, são comunidades com a maior carência de alimento, as quais dependem dos rios para sua sobrevivência.

Outra grande ameaça está relacionada à Reserva Legal (RL), a qual o atual Código Florestal caracteriza como necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos e à conservação da biodiversidade. O uso sustentável, no referido código, permite o uso e manejo das áreas de Reserva Legal. Pelo PL 1876/99, a Reserva Legal passará a ter como função principal o uso econômico, e a conservação passa a ser uma função auxiliar. Permite ainda que, no caso da ausência de Reserva Legal no imóvel, poderá ser realizada a compensação ambiental da área sob regime de servidão ambiental em outra bacia hidrográfica, ou seja, podemos desmatar em Paragominas (PA), e compensar em Xapuri no Acre.

Ao falar em Reserva Legal, não podemos esquecer que a floresta é responsável por grande parte das chuvas, pois, via evapotranspiração, joga umidade para atmosfera. Segundo Antônio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), “A Amazônia é uma bomba hidrológica impressionante, que lança diariamente 20 bilhões de toneladas de água na atmosfera, garantindo que uma área responsável por 70% do PIB sul-americano seja devidamente irrigada.” Em 1985, o pesquisador Eneas Salati já mostrava que, na Amazônia, no mínimo 50% da chuva tem origem na umidade que a própria floresta produzia. Além da regulação climática de temperatura, umidade e precipitação, as florestas são de extrema importância para manutenção dos estoques de carbono armazenados na biomassa viva.

No processo de corte e queima da vegetação, ocorre grande emissão de carbono para a atmosfera. Atualmente, dos 7,6 bilhões de toneladas de carbono liberadas anualmente para a atmosfera, a queima de florestas tropicais ainda é responsável pela emissão de 1,6 bilhões de toneladas. Neste cenário, o Brasil é considerado um dos países que mais contribui para este tipo de emissão, devido ao desmatamento principalmente do bioma Amazônico. Segundo estimativas do Observatório do Clima, caso aprovadas as alterações no Código Florestal, estaremos legalizando uma emissão em torno de 25 bilhões de toneladas de CO2 , ou seja, emissão 13 vezes superior as que ocorreram no ano de 2007. Como iremos cumprir os acordos internacionais assinados, nos quais o Brasil se comprometeu em reduzir as emissões de gases de efeito estufa, se estamos aprovando uma legislação que estimula e legaliza o desmatamento de milhões de hectares de vegetação nativa?

A liberação de milhões de hectares de vegetação nativa para o desmatamento elevará ainda mais as concentrações dos gases de efeito estufa na atmosfera, e os efeitos sobre o clima poderão ser mais intensos. Ao falar em mudanças climáticas, devemos citar o estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinhas (UNICAMP) (Pellegrino, G. Q., Assad, E. D.; Marin, F. R.) publicado na Revista Multiciência, Campinas, no ano de 2007. Segundo este estudo, num cenário bastante otimista com o aumento de apenas 3° C da temperatura, as áreas hoje utilizadas pela agricultura não terão aptidão para as mesmas culturas, e enfrentaremos nos próximos anos sérios riscos no que diz respeito à segurança alimentar em nosso país. Dados deste estudo indicam a redução das áreas para as culturas como feijão (11%), arroz (18%), café (58%), milho (7%) e a soja (39%). A única cultura que será beneficiada com o aumento da temperatura é a cana-de-açúcar, a qual poderá dobrar sua área de produção, ou seja, estamos reduzindo a produção de alimento e estimulando a produção de etanol.

O Projeto de Lei 1.876/99 propõe ainda a isenção de recuperação da reserva legal para propriedades com até quatro módulos fiscais. Módulo fiscal é uma unidade de área estabelecida criada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) que varia em área de 5 a 110 hectares, dependendo da região. O projeto prevê ainda que em grandes áreas, a recuperação deverá ser realizada somente na área que exceder aos 4 módulos fiscais, ou seja, uma propriedade de 500 ha, onde o módulo fiscal é de 100 ha, localizado no bioma amazônico que prevê reserva legal de 80%, existiria a necessidade de recuperar apenas 80 hectares.

Qualquer pessoa, com um mínimo de instrução, pode fazer uma rápida revisão bibliográfica e constatar que hoje, ao avançar com o desmatamento sobre as áreas de floresta, a nossa produtividade num futuro próximo poderá ser limitada pela falta de água. Segundo José A. Marengo, pesquisador do CPTEC – INPE, a floresta amazônica é capaz de gerar diariamente níveis de vapor d’água oriundos do processo de evapotranspiração, em quantidades altamente significativas, alimentando a atmosfera com umidade e formando os “rios voadores”, que conforme os movimentos da circulação geral da atmosfera são deslocados para a região centro-oeste, sudeste e sul do país. No momento em que ocorre uma grande supressão da vegetação no Bioma Amazônico, grande parte do Brasil deixará de ser beneficiado com a umidade da Amazônia.

Se o Projeto de Lei 1.876 for aprovado, será um grande retrocesso em termos de desenvolvimento, enquanto a comunidade internacional fala em sustentabilidade, redução de impactos ambientais, estamos aprovando uma legislação que legaliza justamente o contrário. Além de favorecer uma pequena minoria, estaremos estimulando as emissões de gases de efeito estufa, mudanças climáticas com aumento da temperatura, sérias interferências sobre o ciclo hidrológico com secas e enchentes cada vez mais extremas, aumento do nível do mar, salinização dos rios, perda irreversível da biodiversidade, insegurança alimentar, ameaça às populações mais pobres, já que estas vivem nas áreas menos favorecidas, dentre várias outras conseqüências.

Hoje dispomos de tecnologia para aumentar a nossa produtividade, com técnicas de plantio direto, sistemas agroflorestais, sistemas agrossilvopastoris que além de aumentar a produtividade, minimizam os impactos sobre os recursos hídricos. Também possuímos técnicas eficientes para a recuperação de áreas degradada para tornar novamente produtivo os sistemas degradados. É hora de a sociedade refletir e debater sobre como conciliar economia e meio ambiente, produção e soberania alimentar, agricultura e democratização do acesso à terra, e não ficarmos reféns de um modelo produtivista excludente e depredador dos recursos naturais.

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Artigo disponível também em ((o)) Eco Amazonia.

Os distribuidores da vida por Louie Schwarzberg

 

 

Mobilidade Urbana

abril 30, 2011

Que tipo de lugar você quer para viver?


Sessão 2 – Andar de Bicicleta e Andar a Pé: Uma nova perspectiva para as sociedades dependentes de carros

Participei do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, realizado em Florianópolis nos dias 26 e 27 de abril. O evento serviu de espaço para o debate em torno de temas como a acessibilidade de pedestres e ciclovias, as estratégias e o planejamento para soluções em mobilidade urbana e o futuro das tecnologias modais. Houve a participação de grandes nomes da mobilidade urbana internacional como Guillermo (Gil) Peñalosa – coordenador da ONG “8-80 Cities” (Canadá); Niklas Sieber – secretário executivo da Transport Training Initiative – TTi – (Alemanha); Ton Daggers – diretor da Movilization Foundation (Holanda); Rodney Tolley – diretor do Walk 21 (Inglaterra); e Patrick Daude – coordenador Cities For Mobility (Alemanha).

Os especialistas apresentaram projetos implantados em cidades como Stuttgart, Paris, Sevilha e Amsterdã. Processos efetivos de transformação urbana contaram com a inclusão do sistema cicloviário e dos espaços públicos para a circulação de pedestres nos mapas daqueles municípios. A meta foi reduzir o uso de veículos automotores em prol da qualidade de vida dos habitantes. Não há como negar, o excesso de carros circulando por ruas e avenidas cada vez mais estranguladas gera um problema grave em centros urbanos do mundo inteiro. “What kind of place do you want to live?” foi a pergunta chave que norteou as discussões.

Os palestrantes esclareceram sobre o quão importante é: 1. produzir um plano mestre para a utilização de diferentes tipos de modais, 2. integrar rotas cicloviárias inteligentes para facilitar o deslocamento dos usuários e 3. haver pesquisas periódicas junto à comunidade para que as pessoas possam se informar a respeito, entre outros. Destacaram também a necessária promoção de políticas públicas que priorizem a diminuição do tráfego de carros nas cidades e a criação de espaços de convivência em locais que abrigam ruas congestionadas.

Fiquei muito bem impressionada com a competência com que foram realizados tais projetos na Europa. Há, entretanto, um hiato pedregoso entre a visão de países desenvolvidos e países como o Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, o grupo Ciclobrasil, integrado ao Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID/UDESC), busca há sete anos o respaldo do Governo (Municipal, Estadual, Federal) para o lançamento da Plataforma Catarinense de Mobilidade Sustentável (PCMS). Florianópolis é palco de reivindicações de moradores, como os do bairro Lagoa da Conceição, pela construção de ciclovias. Em 2011, a luta pelo início das obras da ciclovia na Rua Osni Ortiga, uma das mais perigosas da cidade, completa 16 anos. Ao pedalar pelo Centro da Capital, o ciclista se depara com filas quilométricas de carros estacionados em ciclofaixas. Eles reclamam, entram em contato com a Guarda Municipal e Polícia Militar e nada, não há fiscalização ou punição aos infratores. São inúmeros os entraves existentes para que haja uma mudança de postura qualitativa da sociedade brasileira no que diz respeito ao desenvolvimento de metas reais para a área.

Outro fator é a falta de vontade política, empenho das autoridades, inclusão do tema Mobilidade Urbana Sustentável na agenda de nossos governantes. Deliberações sobre uma questão primordial como esta não costumam levar décadas. Foram necessários dez anos para a modificação generalizada do cenário urbano de Stuttgart. Refiro-me a todo o processo de reordenação espacial da cidade, desde a elaboração do projeto até o término das obras.

Consciência individual já é um começo. Se cada um fizer a sua parte, cumprindo o seu papel social, poderemos ganhar voz para pressionar o poder público, de modo que ele trabalhe em nosso benefício, e não o contrário. Pense nisso.

Caso Osni Ortiga (3)

abril 25, 2011

Crédito de foto: Rosane Lima/ND

Florianópolis

Na segunda-feira passada, dia 18 de abril, eu finalmente consegui terminar de colher informações atualizadas sobre um caso que se desenrola há mais de uma década na região leste da Capital: a construção da ciclovia na Rua Osni Ortiga, localizada no bairro Lagoa da Conceição. Das partes envolvidas no processo, estavam em aberto os pareceres da Fundação do Meio Ambiente (FATMA) e da Secretaria Municipal de Obras. A cobertura completa pode ser lida a partir dos posts anteriores Caso Osni Ortiga e Caso Osni Ortiga (2). O retorno que recebi da FATMA via assessoria de imprensa:

“A FATMA recebeu da Secretaria de Obras o projeto de execução da ciclovia e solicitará da Prefeitura Municipal a produção de um Relatório Ambiental Preliminar (RAP). Apesar da obra não ter um porte significativo – o projeto foi enquadrado como melhoria da rodovia –, a construção do passeio exigirá um estudo ambiental complementar. O ofício será encaminhado às autoridades encarregadas de realizar o RAP o mais rápido possível.”

Estive com o Secretário de Obras de Florianópolis, o Sr. Luiz Américo Medeiros. Ele afirmou que:

“Não há retorno da FATMA, estamos aguardando uma resposta sobre o projeto de execução da ciclovia. Após recebermos o parecer da FATMA, teremos condições de dar o próximo passo. Se eles solicitarem a realização de um RAP, nós providenciaremos o mesmo”, diz. Medeiros esclarece que não há previsão de início das obras. “Depois de finalizado o relatório ambiental, o documento será novamente encaminhado aos técnicos da FATMA. Após a sua aprovação, a Secretaria de Obras abrirá licitação para definir a empresa que realizará a obra. Falta verba municipal, mas o projeto foi incluído nos Programas Regionais de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR), do Ministério do Turismo, entre outros. Na melhor das hipóteses, a construção da ciclovia começará em 2012.”

Enquanto isso, os moradores da Lagoa seguem articulados e atentos aos movimentos da Prefeitura. O objetivo da comunidade é manter-se unida na luta pelo início das obras. “Este é um direito que temos e exigimos a tomada de uma providência imediata. Chega de espera. Queremos ação”, comenta Hanna Betina Götz, moradora da região.

MAIS INFORMAÇÕES

movimentociclovianalagoaja.blogspot.com

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Aproveito a oportunidade para disponibilizar na página uma publicação direcionada a todos que acreditam e priorizam a conservação da natureza. O livro O Passeio da Fleur – produzido pela Direção Geral (DG) do Ambiente da Comissão Europeia – conta uma história comovente, simples e estimulante.

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Nos dias 26 e 27 de abril será realizado em Florianópolis o Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. O evento contará com a participação de especialistas de vários países e abordará temas como a acessibilidade de pedestres e ciclovias, as estratégias e o planejamento para soluções em mobilidade urbana e o futuro das tecnologias modais. A finalidade é promover a troca de experiências entre cidades na busca de soluções para o problema.