Um certo Rodin

junho 22, 2015

Fotos Arquivo Pessoal

 

Porta do Inferno, Rodin levou 37 anos para esculpir

Porta do Inferno

 

Mais um fim de domingo organizando anotações e fotos de viagem. Desta vez, mexo no material que trouxe da França. Impressionante: por mais que ponhamos ordem na bodega, como dizia um amigo, a bagagem sempre traz novidades. A história da imagem acima, que fiz em novembro de 2014, por exemplo, conta sobre um dia que reservei também para conhecer o Musée Rodin, em Paris. Menor, mais intimista, ele está entre os quais se pode passar horas explorando o contexto e as particularidades de cada pequeno canto longe daquele tumulto desgastante causado pelos turistas.

Fiquei uma manhã inteira andando, lendo, olhando, aprendendo, absorvendo o máximo do lugar. Durante anos, Rodin usou o espaço do antigo Hôtel Biron como residência e oficina. Descobriu-o por meio do poeta e amigo Rainer Maria Rilke. Já no fim da vida, doou sua coleção inteira para o Estado francês com a condição de que transformassem o prédio num museu dedicado às suas obras. E assim o fizeram. Adorável principalmente porque muitas das esculturas estão expostas pelos jardins. A integração entre elas e o ambiente é incrível!

Acho Rodin apaixonante. Sua inquietude – visível nos traços e gestos das estátuas – revela muito da personalidade humana sob diversos ângulos. São obras que se expressam o tempo todo. Contestam. Argumentam. Interrogam. Arrebatam. Uma que me pegou de jeito foi a Porta do Inferno. Inspirada no inferno de Dante, contém mais de 100 pequenas esculturas como O Pensador, a figura universal, ao centro, rodeado por uma multidão de sombras. Ele representa a luz, a reflexão, o conhecimento, e os demais a torrente perturbadora de nossas emoções. Ali, em frente à porta, perde-se a noção do tempo. Pressa pra quê? Afinal, estamos falando de 37 anos dedicados à criação de uma escultura. É sim, de tirar o fôlego!

A seguir, outros registros. Dá uma olhada!

 

Mais Rodin

Os Burgueses de Calais

 

O Pensador

Peça autônoma de O Pensador

 

Outro Rodin

Pierre de Wissant

 

Musée Rodin

Jacques de Wissant

 

Rodin

Detalhe da escultura de Jacques de Wissant

 

Mais informações sobre o museu e o artista:

Guia de Viagem

Auguste Rodin – Filmed Sculpting in his Studio

Rodin mudou-se para o Hôtel Biron em 1908. Anteriormente, viveu na Villa des Brillants, em Meudon, local que também abriga um museu com outras obras de seu acervo.

 

Je suis Quem?

janeiro 13, 2015

Foto Web

foto para post no blog

 

Eu não gosto do humor feito pela Charlie Hebdo. Na verdade, tive pouco contato com a publicação durante a faculdade. Mas isso é o de menos. Se gosto ou desgosto, pouco importa. O que me incomoda é o fenômeno que acontece dentro e fora desta world wide web. De repente, muita gente se tornou especialista. Pessoas que, da noite para o dia, passaram a conhecer a fundo o histórico da revista francesa. Uns a louvam. Outros a massacram. Alguns assustadoramente acham que os jornalistas assassinados arcaram com as consequências de seus atos.

O mundo às avessas de Galeano está cada vez mais às vistas e o que resta ainda está em fase de gestação. Arrepia imaginar a proporção dos fatos, já que o fundamentalismo impera. E não é de hoje. Fundamentalismo religioso, político, midiático, social, econômico, cultural, ambiental e assim por diante. O que aconteceu dentro da redação e nas cercanias do prédio, em Paris, não é justificável. Da mesma forma que não se justifica o assassinato dos suspeitos pelo crime sem provas. A polícia matou às cegas com o amparo da lei. Não seriam ambos os atentados atrozes por ferirem o direito à vida?

Outra coisa que me faz pensar é a comoção internacional com foco. Por que o mundo se mobiliza tanto com uma chacina no Marais enquanto há tantas acontecendo ao mesmo tempo bem debaixo de todos os narizes do planeta? Faz sentido se abalar com uma e ignorar conscientemente a(s) outra(s)? A reação em cadeia é sintomática ou nada a ver? Sinceramente? Acho que falta reflexão. Não dá para apontar o dedo seja para o lado que for sem antes analisar o que se passa. Não é lendo matéria, artigo ou opinião de jornalista, como a minha, que expresso agora, por exemplo, que se chega a uma conclusão. Para enxergar o contexto é imprescindível que se realize uma investigação criteriosa. Mas em época de instantâneos, quem se disporia a dedicar as suas preciosas horas a tal propósito? Opiniões críticas e embasadas se formam ao longo do tempo. Que eu saiba. Ou pirei?

Ainda estou digerindo o que aconteceu. Lanço apenas uma ideia aqui. Não acredito em certezas nem tampouco em imparcialidade. Cada um que assuma a posição que melhor lhe parecer. Só cuidado, pois é muito fácil tropeçar nas próprias convicções. A colocação que faço pode soar como pura retórica. Que seja. Não deu para calar frente à tamanha brutalidade. Refiro-me a tudo o que se espalha por aí e não somente aos disparos ocorridos no dia 7 de janeiro. Segundo Galeano, o mundo às avessas é um mundo mal parido. Quem sabe chegou a hora de parirmos um novo mundo? É utópico acreditar que é possível? O uruguaio afirma que é ela, a utopia, que nos leva adiante. Serve para caminharmos. E nesta, estou com ele e não abro!

 

Les Bicyclettes

novembro 21, 2014

As notas a seguir foram escritas de outubro a novembro, durante a minha passagem pela Itália e França. Nada como perambular, experiência que dá fôlego ao exercício de enxergar o mundo. Aproveito a deixa para publicar na página pequenas impressões, pitadas de um todo só para dar cor aos ânimos de quem se aventura pelas bandas de cá. Bon appétit! “A verdadeira viagem da descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.”

 

Paris, 9 de novembro de 2014

Ontem, a cidade ferveu à noite. Empolgante ver todos na rua. Uma das coisas que me chama a atenção é a forma das pessoas se relacionarem com o espaço urbano. O grande barato dos moradores é sair de casa e compartilhar o mundo. Pelo menos, enquanto as temperaturas não despencam. Tá muito frio, mas ainda é época de confraternizar lá fora. A boa nova: tem muita bicicleta rodando em meio ao trânsito caótico, mas ordenado. Quando não circulam, ficam assim ó, estacionadas a espera de seus respectivos parceiros de jornada.

 

Le Marais

Le Marais

 

Estação de Metrô Varenne

Estação de Metrô Varenne

 

Paragens

novembro 21, 2014

Paris, 8 de novembro de 2014

 

Uma das horas que mais gosto do dia é o cair da tarde. Na volta para casa, sempre paro na beira do Sena, sento num banco qualquer, ouço a música que vem das ruas – há diversos artistas bons tocando sobre as pontes, na frente de igrejas, dentro das estações de metro – e me deixo levar pelos ares leves de Paris. É uma cidade ritmada, sem sobressaltos, porém intensa em cada pequeno detalhe. Quanta poesia enxergo dali, do canto que escolhi para sossegar. Há tanta vida ao redor. Tanta força histórica e de histórias a passar por mim – um pra lá e pra cá de gente em seus mundos. Pessoas de todas as partes. De repente, a lua surge imensa e amarela. Em seguida, um rapaz se aproxima. Ele traz uma garota pela mão. Ambos param para admirar o cenário típico de outono. Abraçam-se! Silencio. Dizer o quê? É Paris. Ô, se é!

 

Luar sobre o Sena

 

Instante que remete à adorável Françoise Hardy. Voilà!

 

 

Mobilidade Urbana

abril 30, 2011

Que tipo de lugar você quer para viver?


Sessão 2 – Andar de Bicicleta e Andar a Pé: Uma nova perspectiva para as sociedades dependentes de carros

Participei do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, realizado em Florianópolis nos dias 26 e 27 de abril. O evento serviu de espaço para o debate em torno de temas como a acessibilidade de pedestres e ciclovias, as estratégias e o planejamento para soluções em mobilidade urbana e o futuro das tecnologias modais. Houve a participação de grandes nomes da mobilidade urbana internacional como Guillermo (Gil) Peñalosa – coordenador da ONG “8-80 Cities” (Canadá); Niklas Sieber – secretário executivo da Transport Training Initiative – TTi – (Alemanha); Ton Daggers – diretor da Movilization Foundation (Holanda); Rodney Tolley – diretor do Walk 21 (Inglaterra); e Patrick Daude – coordenador Cities For Mobility (Alemanha).

Os especialistas apresentaram projetos implantados em cidades como Stuttgart, Paris, Sevilha e Amsterdã. Processos efetivos de transformação urbana contaram com a inclusão do sistema cicloviário e dos espaços públicos para a circulação de pedestres nos mapas daqueles municípios. A meta foi reduzir o uso de veículos automotores em prol da qualidade de vida dos habitantes. Não há como negar, o excesso de carros circulando por ruas e avenidas cada vez mais estranguladas gera um problema grave em centros urbanos do mundo inteiro. “What kind of place do you want to live?” foi a pergunta chave que norteou as discussões.

Os palestrantes esclareceram sobre o quão importante é: 1. produzir um plano mestre para a utilização de diferentes tipos de modais, 2. integrar rotas cicloviárias inteligentes para facilitar o deslocamento dos usuários e 3. haver pesquisas periódicas junto à comunidade para que as pessoas possam se informar a respeito, entre outros. Destacaram também a necessária promoção de políticas públicas que priorizem a diminuição do tráfego de carros nas cidades e a criação de espaços de convivência em locais que abrigam ruas congestionadas.

Fiquei muito bem impressionada com a competência com que foram realizados tais projetos na Europa. Há, entretanto, um hiato pedregoso entre a visão de países desenvolvidos e países como o Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, o grupo Ciclobrasil, integrado ao Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID/UDESC), busca há sete anos o respaldo do Governo (Municipal, Estadual, Federal) para o lançamento da Plataforma Catarinense de Mobilidade Sustentável (PCMS). Florianópolis é palco de reivindicações de moradores, como os do bairro Lagoa da Conceição, pela construção de ciclovias. Em 2011, a luta pelo início das obras da ciclovia na Rua Osni Ortiga, uma das mais perigosas da cidade, completa 16 anos. Ao pedalar pelo Centro da Capital, o ciclista se depara com filas quilométricas de carros estacionados em ciclofaixas. Eles reclamam, entram em contato com a Guarda Municipal e Polícia Militar e nada, não há fiscalização ou punição aos infratores. São inúmeros os entraves existentes para que haja uma mudança de postura qualitativa da sociedade brasileira no que diz respeito ao desenvolvimento de metas reais para a área.

Outro fator é a falta de vontade política, empenho das autoridades, inclusão do tema Mobilidade Urbana Sustentável na agenda de nossos governantes. Deliberações sobre uma questão primordial como esta não costumam levar décadas. Foram necessários dez anos para a modificação generalizada do cenário urbano de Stuttgart. Refiro-me a todo o processo de reordenação espacial da cidade, desde a elaboração do projeto até o término das obras.

Consciência individual já é um começo. Se cada um fizer a sua parte, cumprindo o seu papel social, poderemos ganhar voz para pressionar o poder público, de modo que ele trabalhe em nosso benefício, e não o contrário. Pense nisso.