Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

Anúncios

Sabores do Brasil

janeiro 17, 2013

Guaraná de origem é a nova reportagem do especial Guardiões do Sabor, produzido pelo querido Xavier Bartaburu para o portal da National Geographic Brasil. Trabalho repleto de Brasil, que traz à tona as histórias de um dos alimentos típicos do país ameaçados de extinção. Saiba como os índios Sateré-Mawé estão transformando a sua realidade por meio de um projeto pioneiro e revelador da cultura milenar que vive sobre o abrigo dos recônditos amazônicos.

 

Imagem

 

O trecho a seguir integra a reportagem Cerrado: um drama em silêncio. Publicada em 2008 na National Geographic Brasil, ela está integralmente disponível no portal Planeta Sustentável, da Editora Abril. Histórias e denúncia da devastação em uma das regiões mais ricas em biodiversidade do Brasil. Bota suingue da dupla de indomáveis Washington Novaes e Luciano Candisani. “A água foi um dos fios condutores desse trabalho. Queria mostrar que, ao contrário do que a maioria pensa, o Cerrado não é um deserto e, sim, um verdadeiro berço de águas, cheio de rios e nascentes”, relata o fotógrafo.

Diz a história fundamental dos carajás que eles foram criados como peixes – aruanãs – e viviam, imortais, no fundo do grande rio. Como em todo mito de origem, estavam submetidos a uma proibição: não podiam passar por um buraco no fundo das águas. Um dia, porém, um aruanã quebrou a proibição, entrou pelo buraco e saiu numa das deslumbrantes praias de areia branca do Araguaia. Fascinado, retornou ao fundo do rio e contou sua saga a seu povo. E foram todos, juntos, pedir a seu herói criador, Kananciué, que lhes permitisse viver naquela praia branca. Kananciué argumentou que, para isso, teriam de deixar de ser peixes e de ser imortais. Eles aceitaram, e passaram a ser os carajás e a viver à beira do rio. O saudoso psicanalista Hélio Pellegrino costumava dizer que esse mito é uma síntese do que deve ser a sabedoria humana: aceitar a mortalidade para começar a viver.

 

Imagem

 

O plantador de florestas

junho 22, 2011

Seu nome é Jorge Bellix de Campos, ele tem 50 anos, mora em uma cidadezinha chamada Pedreira, no interior de São Paulo, preside uma ONG que tem como objetivo a preservação de matas ciliares e a educação ambiental de crianças e adultos, e é o responsável pelo plantio de 9 milhões de árvores de mais de 250 espécies nativas da região em que atua. São 18 municípios do estado atendidos em mais de 20 anos de trabalho em prol da conservação da natureza.

Hoje, durante minha peregrinação matinal na busca por informação, encontrei a matéria abaixo. Fiquei impressionada com o ímpeto e a garra de Jorge e decidi espalhar pela blogosfera as sementes que ele transforma em vida. Um exemplo como o dele merece a nossa atenção.

Boa leitura.

 _______________

* Matéria publicada originalmente na National Geographic Brasil, em 05/2011.

ELE PLANTOU 9 MILHÕES DE ÁRVORES

O engenheiro agrônomo Jorge Bellix de Campos trabalha voluntariamente como presidente da ONG Associação Mata Ciliar

 

Por Liana John

Foto Liana John

 

Deste viveiro da Associação Mata Ciliar, localizado em Pedreira (SP), saem de 700 a 800 mil mudas por ano para proteger nascentes e margens de rios.

 

No fundo de seu quintal, o menino Jorge Bellix de Campos só tinha olhos para duas coisas: as jabuticabas pretinhas, pedindo para serem colhidas e devoradas ali mesmo, e a vista privilegiada do Morro do Cristo. Aos 10 anos, ele já sonhava em cobrir com árvores aquelas encostas peladas. Se possível, incluindo muitas jabuticabeiras, para dividir com os passarinhos, e talvez algum jequitibá, a espécie predileta do avô libanês.

Hoje, aos 50 anos, Jorge ainda mora na mesma casa, em Pedreira, interior de São Paulo. Lembra com carinho das primeiras lições de jardinagem aprendidas em família, em especial com uma tia, pintora de mão cheia e amante da natureza. Recorda os ensinamentos do avô, admirador das matas brasileiras. Continua fã de jabuticabas e jequitibás. Formou-se engenheiro agrônomo e multiplicou o sonho de criança por muitas encostas e vales de todo o Estado – e até dos estados vizinhos.

Seja como profissional da Casa da Agricultura ou como presidente voluntário da Associação Mata Ciliar, ele é responsável pelo plantio de cerca de 9 milhões de árvores nativas. Por enquanto…

A grande maioria foi destinada à restauração ou ao enriquecimento de matas ciliares e à proteção de nascentes. Quer dizer, além de plantador de florestas, Jorge Bellix é protetor das águas. Avesso a confetes, porém, ele não hesita em declinar do tapete vermelho para percorrer as trilhas de barro das florestas recém-plantadas ou as ‘ruas’ lotadas de mudas em formação, no viveiro da ONG, de onde saem 800 mil futuras árvores por ano, de 250 espécies diferentes. Chega a rodar 300 km por dia em estradas vicinais para orientar produtores rurais ou dar palestras em escolas.

Foi durante o trabalho de educação ambiental na escola do Jardim São Nilo, aliás, que surgiu a ideia de reflorestar a beira do rio Jaguari, sua primeira campanha de peso. O bairro era isolado do resto da cidade de Pedreira e um dos objetivos do plantio era fazer a conexão com o centro. A comunidade abraçou o plantio. De 1986 a 1992, mutirões de crianças, pais e professores plantaram e cuidaram das mudinhas numa faixa de 2 quilômetros por até 20 metros de largura. Aos poucos, o verde se interpôs entre a estrada e o rio. As aves voltaram, ajudaram a adensar o plantio, e outros animais repovoaram a área. Passados 25 anos, visto de cima, o rio mal aparece por detrás das copas fechadas!

Algumas daquelas crianças agora são professores, mas continuam a chamar Jorge para cursos e palestras, e novas campanhas de plantio. Ou simplesmente para mostrar aos alunos que ele existe, confirmando as histórias contadas em aula. De vez em quando, um jovem segura o plantador de florestas pelo braço e agradece suas lições. Lições de mudar vidas. Que prêmio poderia ser melhor?

Mesmo com resultados assim, ainda há muito trabalho pela frente. “Segundo dados oficiais, o Estado de São Paulo tem um déficit de 100 mil quilômetros lineares de matas ciliares. Isso significa bilhões de mudas! E não basta plantar: é preciso cuidar, proteger do fogo, das pragas e do gado, roçar, adubar”. Como se não bastasse, é preciso vencer barreiras culturais também. Além de equilibrar pontes sobre o imenso fosso entre a realidade e a legislação feita em gabinetes, longe de quem trabalha a terra. “Passamos 20 anos convencendo o produtor a plantar mata ciliar, a abrir mão de um pouco da produção para ganhar em qualidade de água, tentando compensar no ganho de produtividade. Conseguimos demonstrar que investir em floresta não é fazer papel de bobo”, pondera Jorge. “Então, há pouco mais de 5 anos, acirrou-se a discussão sobre o Código Florestal e o poder público veio com obrigações, multas e prazos. Quebrou-se a confiança. Voltamos à situação dos anos 1970!”

Com paciência, o agrônomo procura esclarecer as dúvidas sobre os encargos despejados sobre os agricultores. Explica qual tipo de manejo se pode fazer em Reservas Legais; como deve ser delimitada a faixa de Áreas de Preservação Permanente; onde plantar; o que plantar; como obter matas mais vigorosas. A carência de informações se estende, inclusive, até a casa dos produtores rurais. “Detectamos a necessidade de instalação de fossas sépticas. Começamos um projeto em 2007 e instalamos 180 unidades, evitando que o esgoto seja jogado in natura nos rios. Até o final de 2012 instalaremos mais 300 fossas. Nossa meta é chegar, um dia, às pocilgas e aos currais, evitando também a descarga de dejetos de animais na água”.

É uma meta ambiciosa, bem ao estilo do presidente da Associação Mata Ciliar. Como tem feito ao longo dos últimos 25 anos, ele certamente conseguirá garimpar patrocínios e contará com a dedicada equipe de amigos e voluntários para viabilizar mais um sonho em favor do bem comum.

E aquelas encostas peladas da infância? Ainda não estão como Jorge Bellix quer, inteiramente cobertas. Mas os pés do Morro do Cristo não estão mais descalços, hoje se refrescam à sombra das árvores plantadas às margens do rio Jaguari. E uma matinha tímida cresce também num dos flancos. Mais alguns anos e o inveterado plantador de florestas estica seu dedo verde até o topo! Quem viver verá…

Mais informações sobre a Associação Mata Ciliar.

Matéria disponível também em National Geographic Brasil.