Cabras da Peste

agosto 21, 2010

Sá & Guarabira

Estou acompanhando a novela A História de Ana Raio e Zé Trovão, que, diga-se de passagem, depois de Pantanal, foi a coisa mais revolucionária que a teledramaturgia brasileira produziu. Saboreio cada capítulo. Uma orgia.

Naquela época – o folhetim foi ao ar pela primeira vez em 1991 (hoje é o SBT que transmite) –, novelas eram obras originais da criação do roteiro à concepção da trilha sonora. As músicas eram compostas especialmente para elas. Cada personagem de destaque tinha a sua canção. Não que isso fosse uma regra. Algumas músicas eram selecionadas após período de pesquisa.

Lenine

Entre as belas canções que integram a trilha de Ana Raio e Zé Trovão, há três verdadeiros primores: Atrás Poeira, de Ivan Lins e Vitor Martins; Ana Raio, de Xangai, um monstro sagrado da música caipira; e As Voltas que o Mundo Dá, de Lenine. A versão escolhida da primeira foi gravada por Sá & Guarabira, dupla de excelência que faz um fabuloso trabalho vocal. Lembro aos leitores que Atrás Poeira é anterior ao folhetim.

Exceções à parte, todas são obras de craques da MPB. Publico-as na página, deixando o registro para a posteridade. Divido este tesouro, cem por cento brasileiro, com os andantes que pelo blog vagueiam. Aplausos para os nossos cantadores. Cambada de cabras da peste. Puro heave metal, como diria o maestro soberano Antônio Carlos Jobim. O Brasil que o Brasil não conhece era o slogan de abertura das chamadas da novela. E não conhece mesmo.

Xangai

Sobre Xangai, encontrei ainda a riqueza a seguir, escrita por Elomar, outro grande nome do cancioneiro nordestino.

“Xangai, um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas inimigas. Remanescente que teima guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra a multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz. Lá vai ele recalcitrante e contumaz cavaleiro, perdulário da bem querência que deixa a índole dissoluta de um pobre povo que habita o espaço rico de uma pátria que ainda não nasceu (…)”

Casa dos Carneiros, minguante de maio de 1991

Elomar Figueira Mello

Publico também o site oficial de Elomar para todos os brasileiros. Um gênio chamado por Vinícius de Moraes de o Príncipe da Caatinga.

1.

2.

3.

Lusco-Fusco

junho 17, 2010

Nos últimos tempos, ouço Chico dia sim e noutro também. Sua música tem rimado com todos os lusco-fuscos de minhas andanças. Está dito: Chico combina com tudo a qualquer hora. Falar o quê?

Há uma canção que ele compôs em parceria com o Edu Lobo, outro danado de nossa MPB, chamada Valsa Brasileira. Fazia anos que não a escutava quando, de repente, ela veio de regresso. Interessante, pois a história que ele conta, fala de uma busca. “…é o B da canção…” já diria o próprio em um especial bárbaro gravado há anos. Não que esse ‘B” citado tivesse algo a ver com a letra curta, com alma destemida, dessa música. O que importa é que no embalo delicado da valsinha, a procura levou ao encontro! Gostei de te rever. Compartilho aqui a tal chegada. E por que não?

 

VALSA BRASILEIRA

Chico Buarque de Hollanda & Edu Lobo

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer

O Trem Correria

junho 15, 2010

Sacudiu-me o desejo de prestar nova homenagem ao circo. O sopro de um sorriso fagueiro revelou-se aos solavancos. Veio feito lampejo de sonoras gargalhadas. O toque de graça acendeu-me inteira como a um lampião em dia de festa. Que bela imagem tingiu a face daquele palhacinho manhoso a assoviar fanfarras em meu ouvido. Sorri. Ele movia-se para lá e cá, deslizando os sapatões pela terra batida de alegria. Trazia consigo a essência de um cometa azul. Largas risadas batiam serpentinas ao redor de minhas vistas. Pareciam asas de passarinhos incandescentes.

O homem colorido falou-me de peripécias. Soltei as mãos da boca ao som estalado da beijoca que lancei aos ares. Ele a catou no amanhecer, movendo a mão abotoada pela luva para dentro do bolso. Certo que a guardou para colar à bochecha quando o relógio soar o tim tom da badalada derradeira. O espetáculo vai terminar. Atenção para a despedida. A caravana parte a fim de tocar fogo na próxima parada. O palhaço me espia sorrateiro. Só mais uma vez. Dá uma piscadela, abana o chapéu de maçã e se vai, deixando dentro de meu pulso a semente de um sol criativo com gosto apurado de quero mais.

Tudo aconteceu enquanto eu atiçava a faísca de dias antigos. Tão bom que trouxe para o meu picadeiro esta obra prima da música brasileira. Na Carreira – composição de Chico Buarque e Edu Lobo – é uma canção que entrega à plateia histórias inebriantes sobre a trupe mais carismática de todos os tempos. Com um clique, ela transforma toda esta linguagem apaixonada na mais pura realidade. Para o circo, com amor.

NA CARREIRA

(Chico Buarque de Hollanda & Edu Lobo)

Pintar, vestir,
Virar uma aguardente para a próxima função
Rezar, cuspir,
Surgir repentinamente na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade pra se apaixonar
Querer casar, pedir a mão
Saltar, sair,
Partir pé ante pé antes do povo despertar
Pular, zunir,
Como um furtivo amante antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia ali já foi feliz
Criar raiz e se arrancar
Hora de ir embora, quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir
Chegar, sorrir,
Mentir feito um mascate quando desce na estação
Parar, ouvir,
Sentir que tatibitati que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade para enlouquecer
O bem querer, o turbilhão
Bocas, quantas bocas a cidade vai abrir
Pr’uma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar
Voar, fugir,
Como o rei dos ciganos quando junta os cobres seus
Chorar, ganir,
Como o mais pobre dos pobres dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás
E nem jamais, jamais dizer
Adeus

Rascunho

junho 12, 2010

Dia 12 de junho de 2010, eu estava dentro do ônibus, sentada na janela, absorvida pela quietude do horizonte recém-nascido. Seguia em direção ao Centro da Ilha. O relógio marcava 7h15. Liguei o rádio, ajustei os fones, sintonizei a Itapema FM. Tocava Love is a losing game, linda canção de Amy Winehouse. Achei curiosa a coincidência.

Love is a losing game (Amy Winehouse)

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game

Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed… profound
Till the chips were down
…know you’re a gambling man
Love is a losing hand

Though I’m rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game

Otis

junho 7, 2010

Para engatarmos bem a semana, deixo na página um pouco da música espetacular de Otis. Cris, dê só uma olhada nisso. Tenho certeza que você vai gostar. Moçambicano, saxofonista e dono de um talento que eleva a música eletrônica ao top de meu playlist.

Boa segunda para todos. Toco y me voy…

Andale!

Sopa de Letrinhas

maio 23, 2010

Em dia de outono chuvoso

Estou aqui, a macaquear em dia de tormenta com acanhados intervalos de calmaria – a pensar em música enquanto levanto da cama, escovo os dentes, tomo o meu café e visto uma roupa quente. Sem mais nem por que, ocorre-me: vou ouvir algo enquanto preparo computador, livros, revistas e toda a tralha cabível à célebre rotina macacal dos dias de maio.

Espio pela janela, encosto-me na ponta da abertura e constato que o dia permanecerá, impiedosamente, cor de chumbo. Dá-lhe água lá fora. Belisco o primeiro par da torrada que preparei com vontade, degusto o gole e tal do café recém passado.

Click, meu playlist principia jornada…

Bob Dylan

A worried man with a worried mind. No one in front of me and nothing behind. There’s a woman on my lap and she’s drinking champagne. Got white skin, got assassin’s eyes. I’m looking up into the sapphire tinted skies. I’m well dressed, waiting on the last train (…)

Um vento fino sopra em meio ao úmido reboliço outonal. A temperatura deve estar em uns 15ºC. Frio discreto. Humm. Não é excitante o sabor do viver faça chuva ou sol? Com o olhar a passear pelos jardins da redondeza, rasga-me os beiços um sorriso fortuito. Nova faixa…

Sit there, hummm, count your fingers. I know what else, what else can you do? Ooh and I know how you feel. I know you feel like you’re through (…)

Que maravilha! Nunca ouvi nada parecido com Janis Joplin. Considero-a A VOZ feminina do século XX. Insuperável em sua paixão, intensidade e beleza. A canção toma o quarto, minha respiração muda, arrepio-me, meus olhos marejam, a emoção invade e silencia o pensamento.

Arrisco outro gole de café. Aos poucos, volto a mim, sempre ao som da música. Poxa, faz tempo que não me sinto tão sozinha. Qual a razão para tamanha falta de todos? Não sei. Penso que há fases em que a vida empurra para dentro. Devo estar em uma delas, a circular por minhas partes.

Não importa. Minha cartilha é feita de esmero, ingrediente ardido para quem deseja a realização. Ser feliz, acredito, é a comunhão do todo voltado primordialmente para aqui e agora. Há que focar. Há que planejar. Há que persistir. Acima de tudo, há que estar presente no correr das horas. Cada instante é singular, válido, oportuno.

Eu estou bem. MESMO! Atenho-me ao outro par da torrada. Meu olhar permanece encostado na rua, lá fora, onde chove sem parar. Do café pouco resta. Mais um gole talvez. Outra faixa…

Led Zeppelin

I’ve been working from seven to eleven every night. Ohh yeah, It really makes life a drag, drag, drag, I don’t think that’s right. I’ve really, really been the best, best, best of fools, ohh, I did what I could (…)

Uou! Que potência fenomenal se impõe acorde após acorde. Pego-me a sorrir outra vez. Que som do Olimpo. Fecho os olhos sem pressa. Uma ideia acende o meu gozo: porei um tanto disso no meu blog. Farei-o e é pra já. Dei um pulo, zump. Quebrei o encanto da hora e pus-me prontamente à frente do notebook. Mãos limpas, guardanapo enroscado dentro da caneca em cima do prato, o conjunto posto no canto da mesa. Voilà! No decorrer do preparo caprichei na mão, não economizei fermento, lambuzei o avental, fiz como deve ser. Nada de seguir receitas. Criatividade é o diferencial quando somada à embevecida pitada de bom gosto, of course.

Com a alegria intrépida contida no término de uma tarefa, deixo para os meus leitores oesta apetitosa sopa de letrinhas em dia de outono chuvoso.

R

Led Zeppelin

O

The Beatles

C

Janis Joplin

K

Jimi Hendrix

A

Pink Floyd

N

The Rolling Stones

D

Jethro Tull

R

Rush

O

Queen

L

Bob Dylan

L

Elvis Presley

Era uma vez o circo

dezembro 3, 2009

Imagens Web

Fui uma criança apaixonada pelo picadeiro, pela atmosfera mágica que penetra sob a lona e hipnotiza a plateia, incendeia o coração, extravasa cor, brilho, expressão, plasticidade, dramaturgia, vida. Lembro-me da vez em que escrevi uma matéria sobre o tema, de toda a movimentação que fiz na busca de fontes, informações e referências históricas. Incrível a experiência. Coincidiu com a passagem do Grande Circo Moscou por Porto Alegre. Estive lá, assisti ao espetáculo, percorri os camarins, trailers, circulei pelos bastidores. O que ouvi e senti naquele lugar foi extraordinário.

Jamais vi coisa igual. Uma lástima constatar que as crianças de hoje mal podem sair de casa. O mundo se tornou um campo de guerra. Raras são as cidades em que há crianças brincando nas ruas, nas praças, nos parques, nos quintais. O homem do século XXI cresce cercado por grades e muros. O lar virou sinônimo de bunker. Pena, pois não há o que estimule mais a imaginação, peça fundamental do desenvolvimento humano, do que os contornos invisíveis do horizonte. As pessoas não sabem mais o que é o circo. Afora a potência mundial em que se transformou o Cirque du Soleil, grandioso e belo, que outro contato temos com as peripécias do povo mambembe?

No decorrer das horas e entrevistas que fiz com palhaços, trapezistas, bailarinas, contorcionistas e mágicos, descobri uma realidade diferente, de pessoas que vivem em outro universo, distante da concretude racional. Os saltimbancos transportavam, de um lado para o outro, suas histórias fantásticas de legado transmitido de geração para geração. A herança circense passa de pai para filho, e assim sucessivamente. Carregavam no olhar, todavia, a dúvida sobre serem parte de um grupo seleto, talvez composto pelos últimos sobreviventes de uma raça.

Infelizmente, os portões que encerram o mundo espirituoso do circo sofrem a pressão do mercado.  Os novos conceitos batem em suas portas de tal modo que em algum momento hão de romper a barreira. Qual será a tendência a partir daí? O circo e o povo que o integra desaparecerão? Estão fadados ao esquecimento? Para dar ênfase às respostas, farei o seguinte, acompanhem-me:

– Após cinco anos desde a sua publicação – eu ainda era uma estudante, estava no penúltimo semestre da faculdade quando escrevi o texto –, decidi rever o meu trabalho. Abri o envelope antigo, reli página por página, e pensei, quer saber, trarei meu texto à vida novamente. Segue abaixo, para os leitores de qualquer época, um trecho da matéria. Fiz questão de não alterar uma vírgula sequer. Deixei-o em sua forma original.

CIRCO: UM DOS MAIORES ESPETÁCULOS DA TERRA

Apesar das dificuldades de encontrar espaço dentro da sociedade contemporânea, o circo ainda se mantém e segue estrada sem fronteiras

“Respeitável público, com vocês o maior espetáculo da terra”, anuncia o mestre de cerimônia do Circo Moscou, instalado em Porto Alegre há mais de um mês. É tarde de domingo, o sol a pico no céu, a temperatura chega a 32º, o calor toma conta do picadeiro e das cadeiras embaixo da lona colorida, remendada, desgastada e envelhecida pelo tempo.

Ainda assim, há brilho nos olhos das crianças e dos adultos que recobrem a platéia de sorriso e expectativa. O que estará por vir? A curiosidade é parte da magia que inunda a atmosfera de alegria num compasso de sons e ritmos contagiantes. O show vai começar.

Contorcionistas, malabaristas, acrobatas, trapezistas, mágicos, palhaços, equilibristas, animais adestrados, o homem vulcão, o globo da morte, bailarinas e vendedores ambulantes: churrus, pirulitos, balas, pipoca, algodão doce, refrigerante, maçã do amor e batatinhas são alguns dos petiscos oferecidos nos intervalos de uma apresentação que dura cerca de duas horas.

A história das artes circenses é antiga e repleta de detalhes. Estudos revelam que o circo nasceu na China. Entre artefatos encontrados em escavações estão pinturas rupestres de 5 mil anos, imagens de contorcionistas, equilibristas e acrobatas.

(…) Na matéria, fiz uma retrospectiva histórica, passando por alguns momentos do circo em âmbito mundial até chegar ao surgimento do Cirque du Soleil. Trata-se de uma reportagem de 33 páginas. Como especifiquei acima, publico no blog apenas um trecho.

Parte final:

À porta do Circo Moscou

A rampa é de madeira pintada de azul. São quatro passos para subir e mais quatro para descer e lá está: trailers e ônibus separam o mundo lá fora do que ali se encontra. Uma lona azul, vermelha e branca cobre a tenda principal. Lá dentro, cadeiras circundam um picadeiro modesto, porém grandioso aos olhos de quem chega. É o circo! O terreno se localiza no Parque da Harmonia, à beira do Guaíba, próximo ao anfiteatro Pôr-do-Sol.

Ao entrar, o que se vê é uma comunidade formada por uma grande família. Sob a lona circular, malabaristas e acrobatas fazem um último ensaio antes da apresentação noturna de uma quinta-feira de primavera. A equipe de apoio, chamada pela trupe de barreira, prepara o local. O sol cai no horizonte. Dentro de poucas horas, o público começará a chegar para assistir ao espetáculo, marcado para às 21h30.

Em um ônibus preto, de portas e janelas abertas, uma família de artistas circenses se movimenta de lá para cá. Eles estão arrumando a sua casa, organizando objetos pessoais e utensílios que serão utilizados durante o show. Antolin Olguin e sua esposa Beatriz (era aramista quando jovem), ele 58 anos e ela 51, uruguaio e brasileira, são o pai e a mãe de Jonathan, um espanhol de 27 anos, trapezista e casado com Vanessa, brasileira, que trabalha com magia e chicote.

Antolin e sua família nasceram e foram criados em um picadeiro, assim como os seus pais. “A paixão pelas artes circenses está no sangue. Passou do meu avô para o meu pai, do meu pai para mim e do meu filho passará para os meus netos”, afirma o homem de meia idade, cabelos pretos, bigode e pele morena, típico latino, de expressão tão cativante que com um singelo sorriso infesta o ar de alegria.

Olguin conta que começou a carreira como palhaço no circo do pai, Circo Petit, passando depois para o trapézio. “Para mim, esta vida é pura magia. Iniciei como palhacinho, fui trapezista, e após abandonar às alturas com a chegada da idade, retomei a minha função de infância”, esclarece.

No Circo Moscou ele é Taruguito. “Personagem e figurino criados por mim”, relata orgulhoso o artista, e acrescenta, “quando entro no picadeiro deixo de ser o Antolin e passo a ser o Tarugo, meu nome de palhaço. Acho o sorriso das pessoas a coisa mais maravilhosa que existe. Não há nada tão lindo do que gente que sorri.”

A família Olguin trabalha no Moscou há três anos. Alguns vieram primeiro, outros depois. Antolin explica que existe muita diferença entre o circo de ontem e o de hoje. “As pessoas não dão mais importância para o circo. Olham para fora e não para dentro, para o que realmente há por aqui. Lá fora é só a lona”, diz.

O entusiasmo tomava conta da população de uma cidade quando o circo chegava nela. Sua passagem era motivo de euforia para a trupe. O palhaço avalia os sinais de mudança. “É como a morte da magia. No passado as crianças gostavam de ouvir histórias, as brincadeiras eram inventadas, surgiam do inesperado, hoje elas não se interessam mais por isso. Há robôs e todas estas coisas por aí”, enfatiza.

Nesta temporada, o Circo Moscou percorreu os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina entre o litoral e as fronteira com o Uruguai e a Argentina.  Segundo Jonathan Olguin, não se sabe qual será a próxima parada. A procura por terrenos é desgastante, a incerteza é cotidiana. “Nada parece abalar a trupe. Somos gente apaixonada pelo que faz, que traz no peito satisfação e coragem para enfrentar a dureza do dia-a-dia de cabeça erguida”, reitera.

O público que procura o Circo Moscou tem gosto variado. Muitos adoram ver os palhaços, há quem prefira o globo da morte, o barulho, o perigo, a vibração do solo. Aramistas e trapezistas são grandes atrações. Seus movimentos e a sensação de vê-los nas alturas silenciam a platéia.

O Moscou conta com uma agenda extensa. Durante os finais de semana, são quatro espetáculos no sábado e no domingo. Em dias úteis, há somente um show noturno. A exceção ocorre quando as escolas agendam horários para turmas de alunos. As apresentações, nesse caso, são fechadas. Antolin festeja a chegada da meninada. “O circo faz muito bem para a criança, é o melhor que há. O espetáculo mais sábio para os pequenos. Aqui, a imaginação deles voa”, comenta.

Em um trailer próximo à entrada, mora Ana Karla Giovane Silva, baiana, nascida em Mucugê, a 500 km de Salvador. Aos 25 anos, 16 de profissão, a bailarina e equilibrista divide a casa – “esta é a nossa casa, alegra-se ao falar” – com Wili Marcio Palácio, globista, irmão do dono do circo. Ao lado da mesa em que há pãezinhos, leite, margarina, biscoitos e café preto, Ana Karla esfrega as mãos com base. Ela se maquia, preparando-se para a hora de sua entrada. “O circo é tudo para mim, eu não me imagino fazendo outra coisa”, diz.

Relembra de quando começou, seu primeiro número foi aos nove anos, no circo do pai. Ela morre de rir ao buscar na memória uma de suas passagens pelo picadeiro. “Cômica”, ressalta. “Dia de casa cheia, eu tinha lá meus 13 anos, fazia um número de contorção e, de repente, meu top desamarrou…pááá, abriu e lá fiquei eu, com tudo de fora. Ainda bem que eram pequenos na época.”, conta às gargalhadas. “E você acha que a platéia sossegou? Que nada. Enquanto eu não saí dali, lógico que fiquei até o fim, todo mundo gritava, deixa cair de novo, vai! Eu só sei que amarrei a roupa e continuei o que estava fazendo. Morri de vergonha, claro. Ai, ai, cada coisa que acontece com a gente”, afirma.

Ana acredita no circo, tem esperança que ele permaneça vivo. “O circo é alegria, cultura, beleza. Ele estará sempre na estrada”, diz. Antolin Olguin, o palhaço palhacinho, compartilha a opinião. “Morrer ele não morre porque sempre haverá uma criança que goste do circo”, comemora.

William Peterson que o diga. Filho de seu Adilson – o manobrista –, aos 10 anos, ele se encanta ao experimentar o que está ao seu redor. “Eu gosto de olhar, de ajudar a montar a cama elástica, gosto de tudo por aqui”, conta.

A forma como o mestre de cerimônia do Moscou reverencia a platéia com suas palavras, no final do espetáculo, resume o sentimento da família circense, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

– Enquanto houver uma estrela no céu e uma criança sobre a terra, o circo seguirá o seu caminho.

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O picadeiro em prosa

Há uma canção do Dead Can Dance, chamada The Carnival Is Over (álbum Into the Labyrinth), que retrata muito bem o circo e sua atmosfera mágica, contagiante e misteriosa. Conheço Dead Can Dance há 12 anos e sempre que ouço esta música, transporto-me automaticamente para o mundo do circo.

Vejo uma vila perdida em meio ao inóspito. O silêncio desprende-se conciso pelos poros do lugar. A poeira seca e vermelha percorre a única rua, a brisa levanta folhas em dia de sol ameno. Os poucos moradores estão entretidos com seus afazeres diários. Uns trabalham a lavoura de tons pastéis, outros afiam facas, mulheres torcem roupa, algumas se botam à beira das janelas, a meninada corre junto a dispersas árvores de copas alaranjadas. É outono.

De repente, um som distante quebra a rotina. Tambores, chocalhos, malabares, palhaços, contorcionistas, homens que cospem fogo, mulheres equilibristas, cores vibrantes, é a mágica circense que, sem aviso prévio, irrompe a linha da estrada. A atenção dos moradores passa a ter somente um foco: o desfile de saltimbancos. A lépida faísca acende os olhos das crianças, o toque de graça realça a face dos adultos. Em questão de instante, a vila era como o sopro de um sorriso contagiante.

A força dramática do momento gera contentamento, causa uma impressão imediata e marca, de forma irreversível, a alma do lugarejo. Nada será como antes. Conforme o trajeto é consumido pelos passos da trupe, a névoa inebriante confunde os olhares absortos.

Uma moça, vê-se misturada à beleza e ao mistério. Ela acompanha cada movimento. Levada pelo transe intrépido, a garota vibra. Seu vestido florido cobre o corpo alvo. Sandálias baixas, de couro macio, vestem os pés. O cabelo castanho e levemente ondulado é comprido, compondo delicadamente o conjunto juvenil de feições suaves e corpo delgado. A visão a cega de imediato, é paixão que sente correr por dentro, transformando-a em vulcão.

A cena segue, o circo se afasta, a vila retoma o eixo, a população desperta. A moça pisca os olhos e, em questão de instante, nota que ficou para trás. O circo se despede, deixando na memória dos moradores um vestígio de alegria, e no semblante da garota, a certeza de que existe. Ela perde a trupe de vista, os saltimbancos desaparecem horizonte adentro. Ela mantém o olhar fixo naquela direção, e ao esfregar os dedos das mãos sente uma picada. Arrepia-se. Espia para ver o que a beliscou. Há uma rosa vermelha em sua mão esquerda. Ela aproxima a flor do rosto, a cheira, concentra-se no recorte perfeito das pétalas, e sorri, docemente.

Dead Can Dance (The Carnival Is Over)

Outside
The storm clouds gathering
Moved silently along the dusty boulevard
Where flowers turning crane their fragile necks
So they can in turn
Reach up and kiss the sky

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye
Someone is calling

I remember when you held my hand
In the park we would play when the circus came to town
Look! Over here

Outside
The circus gathering
Moved silently along the rainswept boulevard
The procession moved on the shouting is over
The fabulous freaks are leaving town

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye

Someone is calling
The carnival is over

We sat and watched
As the moon rose again
For the very first time