Loreena McKennitt para todos

novembro 20, 2009

Fotos Web 

 

Eu tinha 20 anos quando ouvi Loreena McKennitt pela primeira vez. A época era de transformações para mim, em vários sentidos. Lembro-me, hoje, do quão emblemático foi estar em contato mais íntimo com Florianópolis. Recém-chegados à ilha – dois anos depois retornei a Porto Alegre –, morávamos eu e minha família em apartamento com amplas aberturas. Por elas o dia entrava intenso, ora voluptuoso, ora introspectivo. Divino. Todas as janelas frontais ofereciam uma vista espetacular da Baía Norte. O mar sempre me trouxe múltiplas sensações. Enxergo-o forte, tempestuoso, e, ao mesmo tempo, apaziguado, terno. A mistura causa em mim o que chamo de indescritível. Não me lembro de nada que me deixe absolutamente sem palavras, tão entregue, tão pequena grandiosa. Não é à toa que chamamos a Terra de Planeta Água. Os oceanos são os senhores de nossa História. Em sua imensidão repousa silencioso o nosso princípio e dela brotará com veemência a nossa extinção. A dinâmica da vida tem neles a sua mais significativa referência. Sinto-me privilegiada por ter o mar próximo, tocável, visível. Cresci afastada dele, mas jamais distante. Nasci em uma cidade litorânea e parte de minhas cinzas, um dia, será jogada em águas marinhas. Se Deus existe, e acredito que sim, ele se apresenta aos olhos da humanidade por meio deste Rei felino e apaixonado.

Era final de tarde chuvosa, cinzenta, enevoada. A meia luz cobria a atmosfera e os ânimos da cidade. Sentia-me muito bem, estava a trabalhar em algum exercício para o cursinho, não recordo ao certo, quando a música invadiu o ar e me chamou a atenção de forma instantânea. Era Loreena McKennitt. Com o toque em um botão, o álbum The Visit seguiu caminho por tempo que, agora, não saberia precisar. Não importa. As primeiras notas logo me tomaram o pensamento, abandonei o que estava fazendo e caminhei em direção à sala. Lá estava o meu irmão, Cristiano, sentado em uma berger ao lado da janela, quieto, absorvido pela música, vidrado na paisagem. Com a minha chegada, ele começou a contar sobre a cantora e compositora canadense, pianista, harpista, de origem celta e dona de uma sonoridade fora do comum. Mostrou-me o álbum, o encarte do cd, as fotos e as letras, entrou em detalhes; enfim, colocou-me a par de tudo o que eu precisava saber a respeito do que ouvia ao fundo. Meu irmão sempre teve o dom de capturar informações mil sobre assuntos relevantes. Não é por outra razão que se tornou um excelente historiador, além de um homem de muito bom gosto.

Foi uma experiência única. Desde então ouço Loreena McKennitt, sempre por intermédio do Naninho, que foi adquirindo um álbum depois do outro. Todos excelentes! Um em particular, atraiu-me primeiro pela qualidade das canções, como esperado, depois pelo relato que ela, a compositora, fez sobre a viagem que havia empreendido em busca de suas raízes. Sem querer terminou em um trem rumo à Sibéria e quando deu por si estava em Istambul. No encarte de The Book of Secrets há um verdadeiro diário desta jornada. Cada palavra me transportou para longe, trouxe-me impressões diversas das culturas, pessoas, dos lugares, países pelos quais passou. Lembro-me de um trecho, o qual trago bem guardado, em que ela fala sobre a experiência de viajar, de como esta se revela enriquecedora e extraordinária, de como se manifestam as sensações no decorrer do caminho, nos meandros do trajeto, da importância de nos deixarmos levar pelos acontecimentos para que possamos nos perder para nos encontrar, rompendo assim barreiras que jamais imaginávamos que existissem dentro e fora de nós mesmos. Loreena entrega ao público por meio dos escritos um pouco do que experimentou estrada afora, complementando o contexto de sua obra musical a partir do que viveu neste momento específico de sua história pessoal e carreira.

Há algumas semanas, senti-me surpresa ao escutar Loreena em pleno horário nobre da televisão brasileira. Confesso que foi a primeira vez que a ouvi em uma novela transmitida pela Rede Globo. Ôpa! Ocorreu-me que tal feito só poderia ter as mãos de Jayme Monjardim, diretor do núcleo de Viver a Vida. Pelo pouco que acompanhei de sua carreira, tenho como evidente o fato dele ter gosto apurado, sensibilidade e excelência em trazer técnicas do cinema para a televisão, consciente do quanto isso amplia no telespectador o conhecimento sobre cultura clássica e erudita, cujo grau de informação é acessível, na maior parte das vezes, a poucos. Admirável a postura de Monjardim por não subestimar a inteligência e o grande potencial do povo brasileiro, capaz de absorver um leque amplo de dados e elementos independente de serem mais elaborados. Outro ponto para o diretor, que mostra com clareza o quão estúpido e paralisante é o preconceito e o estado padrão.

Com prazer publico na página o clipe de uma versão ao vivo da canção Dante’s Prayer. Na introdução do vídeo, a artista comenta um pouco sobre a sua a viagem, a leitura da obra de Dante Alighieri – que teve influência direta na composição das músicas que integram o álbum –, e a marca que a experiência deixou em sua vida. A canção é parte da trilha sonora da novela Viver a Vida. Muito bom saber que o nosso telespectador tem a oportunidade de conhecer Loreena McKennitt e sua obra musical, de grande valor para a contemporaneidade.

 

 

Dante’s Prayer, by Loreena McKennitt

When the dark wood fell before me
And all the paths were overgrown
When the priests of pride say there is no other way
I tilled the sorrows of stone

I did not believe because I could not see
Though you came to me in the night
When the dawn seemed forever lost
You showed me your love in the light of the stars

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me

Then the mountain fell before me
By the deep well of desire
From the fountain of forgiveness
Beyond the ice and the fire

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me

Though we share this humble path, alone
How fragile is the heart
Oh give these clay feet wings to fly
To touch the face of the stars

Breathe life into this feeble heart
Lift this mortal veil of fear
Take these crumbled hopes, etched with tears
We’ll rise above these earthly cares

Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me…