Expedição Canastra

junho 16, 2016

Etcétera Oficinas Temáticas de Jornalismo Comunitário

São Paulo — a primeira de uma série que promoveremos nos próximos anos. Na Canastra, ensinaremos os alunos da Escola Municipal Guia Lopes a criar um jornal mural — veículo que destaca a função social da leitura e escrita, estimulando nos participantes a análise crítica das informações que absorvem diariamente.

A partir do ponto de vista regional, debateremos com a turma a produção artesanal de queijo, as histórias por trás desta tradição, as nascentes do Rio São Francisco, a vida do ribeirinho, que depende das águas para sobreviver, a fauna e flora do Parque Nacional e a importância da conservação da natureza para a manutenção das comunidades tradicionais da região.

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Ideias têm, por si, a força abençoada de uma perspectiva original, um olhar único, uma composição autêntica.

Não saiam daí, que este papo tá só começando…

Foto do parceiro pé na lama (com muito orgulho) Fellipe Abreu

 

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Realização Nascente Casa Editorial

Apoio Prefeitura Municipal de São Roque de Minas

 

Man in Profile

maio 27, 2016

Foto Arquivo The New Yorker

Joseph Mitchell outside Sloppy Louie’s restaurant with Louis Morino, the subject of Mitchell’s 1952 <i>New Yorker</i> profile ‘Up in the Old Hotel’O texto é antigo, mas indico fortemente. A legenda abre com duas qualidades imprescindíveis em um repórter: precisão e paciência. Precursor do new journalism, mestre da arte de gastar sapatos, Joseph Mitchell foi um dos jornalistas mais talentosos da The New Yorker. Os seus McSorley’s Wonderful Saloon, Up in the Old Hotel e Old Mr. Flood são verdadeiros marcos da reportagem do século XX.

O mistério sobre o seu silêncio atravessou décadas após o lançamento de sua obra-prima, em 1964. Começou a ser revelado nos anos 2000, em textos inéditos de Mitchell publicados pela própria The New Yorker. O material foi descoberto pelo escritor Thomas Kunkel, que lançou a biografia do jornalista, Man in Profile: Joseph Mitchell of The New Yorker, em 2015. Eu sou suspeita para falar, mas tem um trecho de um artigo que li sobre ele há anos e que nunca saiu da minha cabeça. Chamo de pura revolução.

Em seu Becoming part of the city, Mitchell revela algumas facetas como a obsessão por perambular. “Visitei e fucei as centenas de vizinhanças que compõem a cidade, Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Richmond – para isso, tomava de 15 a 20 ônibus todos os dias.” Como disse V. H. Brandalise, “em tempos de tantas mudanças, apurar o olhar sobre o que permanece – e tentar entender porque permanece – é um exercício de compreensão a respeito de nós mesmos.”

Ainda sobre Mitchell, recomendo também o The Master Writer of the City, de Janot Malcolm.

 

Refugiados: quem são?

setembro 15, 2015

Fotos Lilo Clareto, Nilüfer Demir e Sebastião Salgado

 

refugiados do desenvolvimentoA primeira vez que vi os refugiados da contemporaneidade foi em Êxodos, trabalho primoroso de Sebastião Salgado. Entre saber e enxergar há uma distância considerável. Vide o corpo do menino sírio que chegou à praia na Turquia. Todos sabiam que milhares de pessoas estão em trânsito pelo mundo, mas somente depois da foto do menino morto ser estampada em todas as timelines e afins é que a barbárie da guerra na Síria causou algum tipo de “movimento.” Um mexer-se indiferente. Qualidade comum ao Ocidente.

As imagens de Êxodos me tiraram da redoma em que nasci, protegida pelo privilégio de fazer parte de menos de 10% da população do planeta, e colocaram dentro do contexto global. A realidade sem meio termo. Desde então convivo com a consciência de que populações inteiras vagam sem destino por estarem à margem do sistema, por terem sido expulsas de suas terras, pela falta de perspectiva, porque há muito foi instituído pela sociedade que o sentido da vida está em ter. Quem sou eu se não tenho? À resposta cabem muitos dos valores definidos pelo homem moderno – valho se, e somente se tiver acesso a bens de consumo; se, e somente se rentabilizar o suficiente para adquiri-los. Do contrário? Não sou ninguém. Não valho nada.

Pois, se a palavra ser está invariavelmente conectada à gênese do lucro; se nos moldamos assim, dependentes dos jogos de mercado, do plano financeiro; então, sabemos: o corpo daquele menino sírio na praia é reflexo deste modelo estabelecido do qual todos somos cúmplices. Cada um de nós, quer queira ou não, ajuda a alimentar esta gigantesca máquina de entortar homens. No Brasil, o cenário não é menos alarmante. Há um número inestimável de gente sem rumo, “que já não encontra o destino dos pés”. São refugiados do desenvolvimento. Um deles, uma mulher chamada Antonia Melo, é personagem desta coluna da Eliane Brum. Recomendo a leitura e, de lambuja, a reflexão!

 

corpo do menino síria na praia turca

 

Êxodos Sebastião Salgado

 

Mais sobre a jornalista no seu blog Desacontecimentos e sobre Antonia Melo, uma das principais líderes comunitárias em Altamira (PA), no site do Movimento Xingu Vivo Para Sempre.

No link a seguir, informações de como ajudar os refugiados sírios no Brasil e no mundo.

 

Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB

 

O Retorno da Terra

janeiro 13, 2015

Foto Daniela Alarcon

Recebi o convite e aceitei na hora. O melhor foi descobrir uma dupla que realiza, há quatro anos, um trabalho fantástico com os Tupinambá. Jornalista e documentarista estarão no queridíssimo Las Magrelas no sábado, dia 17, para contar sobre o curta-metragem que estão produzindo. A campanha está no catarse e quem aparecer contribui para o desenvolvimento do projeto. Bora saber mais sobre as histórias de um povo que luta pela permanência na terra! Trata-se de um Brasil que o Brasil precisa conhecer. Como disse Eliane Brum no prólogo do artigo da Daniela Alarcon: “Sejamos, nas palavras de outro povo indígena, os Guarani Kaiowá, “palavra que age”.

 

Foto Daniela Alarcon

 

Mais informações

O evento

O artigo

 

Je suis Quem?

janeiro 13, 2015

Foto Web

foto para post no blog

 

Eu não gosto do humor feito pela Charlie Hebdo. Na verdade, tive pouco contato com a publicação durante a faculdade. Mas isso é o de menos. Se gosto ou desgosto, pouco importa. O que me incomoda é o fenômeno que acontece dentro e fora desta world wide web. De repente, muita gente se tornou especialista. Pessoas que, da noite para o dia, passaram a conhecer a fundo o histórico da revista francesa. Uns a louvam. Outros a massacram. Alguns assustadoramente acham que os jornalistas assassinados arcaram com as consequências de seus atos.

O mundo às avessas de Galeano está cada vez mais às vistas e o que resta ainda está em fase de gestação. Arrepia imaginar a proporção dos fatos, já que o fundamentalismo impera. E não é de hoje. Fundamentalismo religioso, político, midiático, social, econômico, cultural, ambiental e assim por diante. O que aconteceu dentro da redação e nas cercanias do prédio, em Paris, não é justificável. Da mesma forma que não se justifica o assassinato dos suspeitos pelo crime sem provas. A polícia matou às cegas com o amparo da lei. Não seriam ambos os atentados atrozes por ferirem o direito à vida?

Outra coisa que me faz pensar é a comoção internacional com foco. Por que o mundo se mobiliza tanto com uma chacina no Marais enquanto há tantas acontecendo ao mesmo tempo bem debaixo de todos os narizes do planeta? Faz sentido se abalar com uma e ignorar conscientemente a(s) outra(s)? A reação em cadeia é sintomática ou nada a ver? Sinceramente? Acho que falta reflexão. Não dá para apontar o dedo seja para o lado que for sem antes analisar o que se passa. Não é lendo matéria, artigo ou opinião de jornalista, como a minha, que expresso agora, por exemplo, que se chega a uma conclusão. Para enxergar o contexto é imprescindível que se realize uma investigação criteriosa. Mas em época de instantâneos, quem se disporia a dedicar as suas preciosas horas a tal propósito? Opiniões críticas e embasadas se formam ao longo do tempo. Que eu saiba. Ou pirei?

Ainda estou digerindo o que aconteceu. Lanço apenas uma ideia aqui. Não acredito em certezas nem tampouco em imparcialidade. Cada um que assuma a posição que melhor lhe parecer. Só cuidado, pois é muito fácil tropeçar nas próprias convicções. A colocação que faço pode soar como pura retórica. Que seja. Não deu para calar frente à tamanha brutalidade. Refiro-me a tudo o que se espalha por aí e não somente aos disparos ocorridos no dia 7 de janeiro. Segundo Galeano, o mundo às avessas é um mundo mal parido. Quem sabe chegou a hora de parirmos um novo mundo? É utópico acreditar que é possível? O uruguaio afirma que é ela, a utopia, que nos leva adiante. Serve para caminharmos. E nesta, estou com ele e não abro!

 

Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, foi capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.

Leia a íntegra, já disponível no site da publicação.

 

matéria de capa Revista Sagarana

 

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder o largo sorriso que estampa no rosto. Deixo na página o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!

 

 

 

Nota sobre a viagem

Esta é a primeira de uma série de reportagens que eu e o fotógrafo André Dib produziremos sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Estivemos em uma região de hábitos extrativistas, onde as comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora local uma alternativa para o desenvolvimento. Com a criação de áreas protegidas no entorno de inúmeros vilarejos, os moradores que tiravam o sustento da terra há séculos ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais. A falta de uma contrapartida do Governo gerou uma crise que se estende há mais de dez anos no centro-norte mineiro. O clima de tensão permanece. Entretanto, o trabalho conjunto entre população e agentes como empresas particulares e Universidades vem transformando a realidade social de dezenas de pessoas.

Projetos que integram preservação do meio ambiente e beneficiamento sustentável da matéria-prima disponível na natureza ampliam as perspectivas das famílias residentes. O texto e as fotos a seguir contam sobre a conquista de pessoas simples, que lutam pela permanência no seu lugar de origem. A roça é a razão de viver de quem nasceu e cresceu na zona rural. Passo a passo, os habitantes encontram um caminho próspero, que multiplica ideias e consolida a tradição. Tive o privilégio de conhecer esse universo de perto. Trata-se de um Brasil distante, invisível para muitos. A intenção de trazê-lo à tona é uma constante em minha trajetória como jornalista. Descobri na reportagem um instrumento de resgate da essência do povo brasileiro. A informação desperta a curiosidade, instiga a reflexão e abre portas para o diálogo entre as partes. A sociedade cosmopolita pode e deve conhecer melhor o interior do país. Vejo na troca de conhecimento uma possibilidade de fortalecimento da nossa cultura popular. Coloco o primeiro resultado de minha jornada ao lado do André à disposição dos leitores do blog. Espero que gostem.

 

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* Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2013 da Revista Terra da Gente.

Fotos André Dib

 

abre Revista Terra da Gente para FB

 

Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo. A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda dos habitantes dos prados do Vale do Jequitinhonha.

O extrativismo é a prática que sustenta as famílias residentes, formadas em grande parte por coletores, garimpeiros e lavradores. Mais de cinco mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil. Pesquisas realizadas nas áreas de ocorrência da Eriocaulaceae – a família da autêntica sempre-viva – apontam que 70% das espécies do mundo estão concentradas na cordilheira do Espinhaço, fator de grande apelo para a criação, em 2002, do Parque Nacional (Parna) das Sempre-Vivas.

Parque nacional das sempre-vivasO Parna integra o Mosaico de Unidades de Conservação (UCs) do Espinhaço e divide os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Tem relevo acidentado, nascentes d’água, montanhas vincadas atravessando o piso serenado dos campos repletos de bichos graúdos. Onças, tatus e tamanduás vagueiam pelo raso de veredas e buritizais. De geração em geração, a presença humana causou impactos na natureza. Segundo o biólogo Renato Ramos da Silva, coordenador de projetos na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), atividades desenvolvidas ao longo dos anos, como a coleta indiscriminada e a mineração, provocaram o esgotamento de mananciais e flores. “No final da década de 1990, espécies de sempre-vivas como a pé-de-ouro e a vargeira foram colocadas na lista de extinção. Houve a proibição do extrativismo dentro do Parque. A medida desencadeou um entrave que atingiu diretamente as comunidades tradicionais”, afirma.

O estopim para o conflito foi a falta de informação. “O governo criou a Unidade sem a participação das pessoas, que não tinham consciência de que, na região, havia uma reserva. Foi uma experiência traumática”, diz Silva. Dois agravantes são a instabilidade do manejo da flora – a coleta é irregular – e a indefinição sobre o ressarcimento dos donos da terra, pois nenhum hectare da UC foi desapropriado. O imbróglio ultrapassa as fronteiras da área protegida, multiplica demandas, gera crise de interesses e um desajuste econômico que restringe o desenvolvimento regional.

Márcio Lucca, biólogo e chefe do Parna das Sempre-Vivas, esclarece que um ponto fundamental é qualificar a informação com foco na ação conjunta. “Os proprietários nos cobram um retorno, mas não cabe somente ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque, regularizar as propriedades. Não temos um levantamento das terras para saber quais são as particulares, as da União, as que estão em situação de posse por usucapião. Tal limitação nos impede de delimitá-las”, diz.

 

Antônio Borges - galheiros

 

O estilo de vida peculiar dos povoados tradicionais revela a personalidade cativante de uma gente corajosa. Do anseio coletivo brota o ímpeto capaz de transformar a realidade social de inúmeras famílias. Projetos de manejo adequado da flora local surgem como alternativa que alia a preservação das espécies ameaçadas ao desenvolvimento sustentável da região. As novas perspectivas asseguram fonte lucrativa de trabalho e renda para os habitantes do Jequitinhonha.

LUCRO

Na comunidade de Galheiros, zona rural de Diamantina, os moradores substituem, há 12 anos, o extrativismo indiscriminado pela exploração planejada. Com o auxílio do Instituto Centro Cape, organização com foco no estímulo de competências empreendedoras dentro do setor informal, um grupo de mulheres atentou para a importância de realinhar o trabalho, criando, por meio da produção artesanal, amplas oportunidades de comércio. De acordo com a coletora e artesã Ivete Borges da Silva, a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de pai para filho. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos.”

 

Comunidade Rai¦üz - Maria Terezinha Alves

 

Para afastar a iminência de extinção das espécies e capacitar as famílias coletoras, técnicos especializados prestaram serviços de consultoria em gestão, custos e cadeia produtiva. Houve oficinas para inserção de metodologias que agregassem valor ao processo produtivo. “Com apenas 10 gramas de flor é possível conseguir o dobro do valor do quilo no mercado se você souber como transformar a matéria-prima”, diz Ivete. As mercadorias manufaturadas aumentaram a margem de lucro sobre cada produto e, consequentemente, o poder aquisitivo dos artesãos.

Fundada em 2001, a Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas é espaço de planejamento que impulsiona um negócio cada vez mais rentável. Há seis anos, os associados cultivam as espécies ameaçadas de extinção pé-de-ouro e chuveirinho para atender a um contrato com a rede de lojas de varejo Tok & Stok. Entre as peças produzidas estão luminárias, abajures, porta-guardanapos e arranjos de mesa. A matéria-prima vem de um campo experimental de 300 metros quadrados. Cada mês colhe-se um tipo de flor e cada associado extrai de 20 a 30 quilos por espécie.

Os artesãos também expõem em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte e participam de eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há dois meses, ganharam o mundo participando da mostra Mulher Artesã Brasileira, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva foi escolhida para representar Galheiros na exposição, que reuniu 15 artesãs de 12 estados brasileiros.

AUTONOMIA

Antônio de Zé Basílio(5)No interior da cadeia do Espinhaço, marcada historicamente pelo garimpo de ouro, diamante, cristais e minério de ferro, o berço de novidades não dá trégua. Imersa no jardim que germina rente aos paredões rochosos, outra iniciativa reacende a esperança nos povoados de Andrequicé e Raiz, distritos do município de Presidente Kubitschek. Em 2009, grupos de produtores passaram a investir na estrutura de viveiros de plantas com o intuito de resgatar espécies em extinção. Por meio do Projeto Flores das Gerais, que conta com a assistência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram instalados matrizeiros nas comunidades. A bióloga Luciana Teixeira Silva, gestora do projeto, conta que os participantes inseridos em um novo modelo de negócio têm o suporte de investimentos de pesquisa para o desenvolvimento de produtos diferenciados. “O ponto crucial é capacitar as famílias para que aprendam a se autogerir”, afirma.

Entre testes e diagnósticos, alguns anos de relutância se passaram. Em Raiz, os moradores, acostumados com o artesanato de capim-dourado – “uma espécie de sempre-viva”, diz Luciana –, resistiram a aderir ao trabalho de reproduzir em viveiros as riquezas do Cerrado. Sirley Ferreira Alves, artesã que abraçou a ideia desde o início, conta que “muitos ficaram sem saber se alguém ia querer comprar as plantas. Eu falei que ainda ia comprar o meu carro com essas mudas. Ninguém acreditou. Mas quando o caminhão parou aqui para levar o carregamento, começaram a pensar melhor.”

O caminho a ser seguido pelas comunidades isoladas do Vale do Jequitinhonha já aponta no horizonte. Uma simples comparação de preço incentiva o andar contínuo rumo a um novo tempo. O quilo das sempre-vivas mais comuns, como espeta-nariz, jazida, e botão-branco, não ultrapassa os R$ 3,00; enquanto o de uma muda cultivada pode chegar a R$ 25,00. Filha de Maria Flor de Maio, de 71 anos, que carrega no nome a constância arraigada da sempre-viva, Maria da Conceição Aparecida Ferreira, presença decisiva nos dois núcleos do projeto em Raiz, afirma: “As flores são tudo para a gente. Graças a elas, conquistamos os nossos sonhos.” E desta forma, os campos dos Gerais remetem a um Brasil distante, mas auspicioso. Para conhecê-lo, é preciso fazer mais do que percorrer estradas; é indispensável travar atenciosa travessia.

 

Campos de Sempre-Vivas Parque Nacional Sempre-Vivas (7)

Foto Vasco Szinetar

Convidado para a 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2010, o jornalista peruano Julio Villanueva Chang revelou, em entrevista concedida a Sylvia Colombo, do jornal Folha de São Paulo, como escolhe os personagens de seus perfis:

Por razões tão evidentes como misteriosas. Há algo exemplar que me fascina neles e que tento explicar a todos. Mas, às vezes, há algo deles que tem a ver comigo e que não posso explicar nem sequer a mim mesmo. A história do prefeito cego é a de um homem que perdeu a visão quando criança e que desde então luta para ser tratado como pessoa normal. Escrevo sobre o que não entendo e cada um dos meus perfis é também um ensaio sobre a minha ignorância. O que me atrai num personagem é o fato de encarnar uma ideia contraditória e inexplicável e que sua vida não explique somente a ele, mas a muitas pessoas.
Em abril, a Editorial Germinal imprime duzentos exemplares do De Cerca Nadie Es Normal, uma compilação extraída do primoroso Elogios Criminales. O editor da revista Etiqueta Negra lançará a pequena coletânea amanhã, dia 12, na Central FIA Letras, Costa Rica. Os números serão distribuídos somente nos países da América Central.
Elogios Criminales reúne grandes reportagens que fez com figuras singulares com destaque para os perfis do chef espanhol Ferran Adrià, do dentista do escritor colombiano Gabriel García Márquez e do tenor peruano Juan Diego Flórez. O livro é uma referência. O problema é encontrar, mas vale a tentativa.
De Cerca Nadie Es Normal