Foto Vasco Szinetar

Convidado para a 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2010, o jornalista peruano Julio Villanueva Chang revelou, em entrevista concedida a Sylvia Colombo, do jornal Folha de São Paulo, como escolhe os personagens de seus perfis:

Por razões tão evidentes como misteriosas. Há algo exemplar que me fascina neles e que tento explicar a todos. Mas, às vezes, há algo deles que tem a ver comigo e que não posso explicar nem sequer a mim mesmo. A história do prefeito cego é a de um homem que perdeu a visão quando criança e que desde então luta para ser tratado como pessoa normal. Escrevo sobre o que não entendo e cada um dos meus perfis é também um ensaio sobre a minha ignorância. O que me atrai num personagem é o fato de encarnar uma ideia contraditória e inexplicável e que sua vida não explique somente a ele, mas a muitas pessoas.
Em abril, a Editorial Germinal imprime duzentos exemplares do De Cerca Nadie Es Normal, uma compilação extraída do primoroso Elogios Criminales. O editor da revista Etiqueta Negra lançará a pequena coletânea amanhã, dia 12, na Central FIA Letras, Costa Rica. Os números serão distribuídos somente nos países da América Central.
Elogios Criminales reúne grandes reportagens que fez com figuras singulares com destaque para os perfis do chef espanhol Ferran Adrià, do dentista do escritor colombiano Gabriel García Márquez e do tenor peruano Juan Diego Flórez. O livro é uma referência. O problema é encontrar, mas vale a tentativa.
De Cerca Nadie Es Normal
 

 

 

 

 

 

 

 

A Coletora de Flores

maio 14, 2013

Histórias de um país desconhecido, feitas para o povo brasileiro…

aguarde!

 

Capivari, Minas Gerais

Fomos ao encontro de Dona Anita. O carro ficou para trás da cerca; nós seguimos adiante. De um lado, os picos rochosos do Itambé. Do outro, a mata rasteira com variações verde acinzentadas. Alguns metros à frente e lá estavam, sobre a pedra, os primeiros sinais da senhora pequerrucha, dourada de sol, sorvida pelo tempo, humana até o último fio do cabelo trançado. Eram ramalhetes de flores sempre-vivas, geometricamente amarrados e bem distribuídos. A cena cabia precisa na descrição que eu tinha dela. Paramos ali com os olhos pregados nos pastos a sua procura. Nada! Voltamos para a estrada de chão batido. Estávamos perto de sua casa. Ao aproximarmo-nos, pouco a pouco, sua figura ampliava. Dona Anita estava sentada sobre o gramado, pernas esticadas, lenço na cabeça, tronco curvado, mãos firmes a armar os molhos de macela, todos a formar um círculo amarelo ao redor de seu corpo enxuto. Trocamos cumprimento. – “Oi, prazer!” Seus olhos grandes e verdes transmitem serenidade e disposição. Apesar de maltratada pela lida, ela mantém o brilho d’alma intacto. Tem fala ligeira; é preciso tento para entender o que diz. A simplicidade se apresenta tão bela quanto a doçura de seu todo… uma constituição inteira, graciosa, desprovida de ruídos. A senhora solitária e trabalhadeira nos recebeu de braços abertos. Bastante expressiva, levantou-se para nos estender a palma da mão dura e forte. – “Vamo entrano. Tem café coado.” Mora numa casinha erguida no muque pela companheira de cata, Lurdes. Só Anita, vive ali há 28 anos. A tapera com telhado baixo e piso de barro fica nos altos da serra, isolada, quieta entre um quintal de limoeiros, pés de cana e quaresmeiras, a árvore que mais se avista nas redondezas. Bom que estamos em época de floração. Há tantas que basta perambular um tiquinho para dar de fuças com pencas de suas flores roxas.

 

Foto Tom Alves

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