Um certo Rodin

junho 22, 2015

Fotos Arquivo Pessoal

 

Porta do Inferno, Rodin levou 37 anos para esculpir

Porta do Inferno

 

Mais um fim de domingo organizando anotações e fotos de viagem. Desta vez, mexo no material que trouxe da França. Impressionante: por mais que ponhamos ordem na bodega, como dizia um amigo, a bagagem sempre traz novidades. A história da imagem acima, que fiz em novembro de 2014, por exemplo, conta sobre um dia que reservei também para conhecer o Musée Rodin, em Paris. Menor, mais intimista, ele está entre os quais se pode passar horas explorando o contexto e as particularidades de cada pequeno canto longe daquele tumulto desgastante causado pelos turistas.

Fiquei uma manhã inteira andando, lendo, olhando, aprendendo, absorvendo o máximo do lugar. Durante anos, Rodin usou o espaço do antigo Hôtel Biron como residência e oficina. Descobriu-o por meio do poeta e amigo Rainer Maria Rilke. Já no fim da vida, doou sua coleção inteira para o Estado francês com a condição de que transformassem o prédio num museu dedicado às suas obras. E assim o fizeram. Adorável principalmente porque muitas das esculturas estão expostas pelos jardins. A integração entre elas e o ambiente é incrível!

Acho Rodin apaixonante. Sua inquietude – visível nos traços e gestos das estátuas – revela muito da personalidade humana sob diversos ângulos. São obras que se expressam o tempo todo. Contestam. Argumentam. Interrogam. Arrebatam. Uma que me pegou de jeito foi a Porta do Inferno. Inspirada no inferno de Dante, contém mais de 100 pequenas esculturas como O Pensador, a figura universal, ao centro, rodeado por uma multidão de sombras. Ele representa a luz, a reflexão, o conhecimento, e os demais a torrente perturbadora de nossas emoções. Ali, em frente à porta, perde-se a noção do tempo. Pressa pra quê? Afinal, estamos falando de 37 anos dedicados à criação de uma escultura. É sim, de tirar o fôlego!

A seguir, outros registros. Dá uma olhada!

 

Mais Rodin

Os Burgueses de Calais

 

O Pensador

Peça autônoma de O Pensador

 

Outro Rodin

Pierre de Wissant

 

Musée Rodin

Jacques de Wissant

 

Rodin

Detalhe da escultura de Jacques de Wissant

 

Mais informações sobre o museu e o artista:

Guia de Viagem

Auguste Rodin – Filmed Sculpting in his Studio

Rodin mudou-se para o Hôtel Biron em 1908. Anteriormente, viveu na Villa des Brillants, em Meudon, local que também abriga um museu com outras obras de seu acervo.

 

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Je suis Quem?

janeiro 13, 2015

Foto Web

foto para post no blog

 

Eu não gosto do humor feito pela Charlie Hebdo. Na verdade, tive pouco contato com a publicação durante a faculdade. Mas isso é o de menos. Se gosto ou desgosto, pouco importa. O que me incomoda é o fenômeno que acontece dentro e fora desta world wide web. De repente, muita gente se tornou especialista. Pessoas que, da noite para o dia, passaram a conhecer a fundo o histórico da revista francesa. Uns a louvam. Outros a massacram. Alguns assustadoramente acham que os jornalistas assassinados arcaram com as consequências de seus atos.

O mundo às avessas de Galeano está cada vez mais às vistas e o que resta ainda está em fase de gestação. Arrepia imaginar a proporção dos fatos, já que o fundamentalismo impera. E não é de hoje. Fundamentalismo religioso, político, midiático, social, econômico, cultural, ambiental e assim por diante. O que aconteceu dentro da redação e nas cercanias do prédio, em Paris, não é justificável. Da mesma forma que não se justifica o assassinato dos suspeitos pelo crime sem provas. A polícia matou às cegas com o amparo da lei. Não seriam ambos os atentados atrozes por ferirem o direito à vida?

Outra coisa que me faz pensar é a comoção internacional com foco. Por que o mundo se mobiliza tanto com uma chacina no Marais enquanto há tantas acontecendo ao mesmo tempo bem debaixo de todos os narizes do planeta? Faz sentido se abalar com uma e ignorar conscientemente a(s) outra(s)? A reação em cadeia é sintomática ou nada a ver? Sinceramente? Acho que falta reflexão. Não dá para apontar o dedo seja para o lado que for sem antes analisar o que se passa. Não é lendo matéria, artigo ou opinião de jornalista, como a minha, que expresso agora, por exemplo, que se chega a uma conclusão. Para enxergar o contexto é imprescindível que se realize uma investigação criteriosa. Mas em época de instantâneos, quem se disporia a dedicar as suas preciosas horas a tal propósito? Opiniões críticas e embasadas se formam ao longo do tempo. Que eu saiba. Ou pirei?

Ainda estou digerindo o que aconteceu. Lanço apenas uma ideia aqui. Não acredito em certezas nem tampouco em imparcialidade. Cada um que assuma a posição que melhor lhe parecer. Só cuidado, pois é muito fácil tropeçar nas próprias convicções. A colocação que faço pode soar como pura retórica. Que seja. Não deu para calar frente à tamanha brutalidade. Refiro-me a tudo o que se espalha por aí e não somente aos disparos ocorridos no dia 7 de janeiro. Segundo Galeano, o mundo às avessas é um mundo mal parido. Quem sabe chegou a hora de parirmos um novo mundo? É utópico acreditar que é possível? O uruguaio afirma que é ela, a utopia, que nos leva adiante. Serve para caminharmos. E nesta, estou com ele e não abro!

 

Les Bicyclettes

novembro 21, 2014

As notas a seguir foram escritas de outubro a novembro, durante a minha passagem pela Itália e França. Nada como perambular, experiência que dá fôlego ao exercício de enxergar o mundo. Aproveito a deixa para publicar na página pequenas impressões, pitadas de um todo só para dar cor aos ânimos de quem se aventura pelas bandas de cá. Bon appétit! “A verdadeira viagem da descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.”

 

Paris, 9 de novembro de 2014

Ontem, a cidade ferveu à noite. Empolgante ver todos na rua. Uma das coisas que me chama a atenção é a forma das pessoas se relacionarem com o espaço urbano. O grande barato dos moradores é sair de casa e compartilhar o mundo. Pelo menos, enquanto as temperaturas não despencam. Tá muito frio, mas ainda é época de confraternizar lá fora. A boa nova: tem muita bicicleta rodando em meio ao trânsito caótico, mas ordenado. Quando não circulam, ficam assim ó, estacionadas a espera de seus respectivos parceiros de jornada.

 

Le Marais

Le Marais

 

Estação de Metrô Varenne

Estação de Metrô Varenne

 

Paragens

novembro 21, 2014

Paris, 8 de novembro de 2014

 

Uma das horas que mais gosto do dia é o cair da tarde. Na volta para casa, sempre paro na beira do Sena, sento num banco qualquer, ouço a música que vem das ruas – há diversos artistas bons tocando sobre as pontes, na frente de igrejas, dentro das estações de metro – e me deixo levar pelos ares leves de Paris. É uma cidade ritmada, sem sobressaltos, porém intensa em cada pequeno detalhe. Quanta poesia enxergo dali, do canto que escolhi para sossegar. Há tanta vida ao redor. Tanta força histórica e de histórias a passar por mim – um pra lá e pra cá de gente em seus mundos. Pessoas de todas as partes. De repente, a lua surge imensa e amarela. Em seguida, um rapaz se aproxima. Ele traz uma garota pela mão. Ambos param para admirar o cenário típico de outono. Abraçam-se! Silencio. Dizer o quê? É Paris. Ô, se é!

 

Luar sobre o Sena

 

Instante que remete à adorável Françoise Hardy. Voilà!

 

 

O tamanho de um sonho

abril 28, 2013

 

abre entrevista Raineri

 

Leia a íntegra da entrevista exclusiva com Rodrigo Raineri, um dos maiores alpinistas do Brasil. Ele fala de suas singulares e intensas experiências nos mais altos e longínquos montes do planeta, capazes de inspirar outros expedicionários que também sonham em se lançar em aventuras por cenários remotos, enfrentando condições extremas de sobrevivência. Conta também sobre o lançamento e a repercussão de seu livro No Teto do Mundo, escrito em parceria com o jornalista Diogo Shelp e sobre o seu projeto de decolar de paraglaider do Everest. Publiquei o trabalho na edição 168 da Revista Aventura&Ação, em janeiro de 2012.

Fotos Arquivo Pessoal/Rodrigo Raineri

 

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Imagem

NO TOPO DO MUNDO: Rodrigo Raineri pela primeira vez no cume do
Everest (8.848 m), em 27 de maio de 2008, com a foto do filho nas mãos


Sentir-se parte dos lugares, da explosão de vida dos vales às condições adversas para a existência como no cume da Chomolungma – palavra tibetana que quer dizer “a Deusa Mãe do Mundo” –, o Monte Everest, o mais alto do planeta, a 8.848 m de altitude. Com 23 anos de uma carreira vitoriosa no segmento das atividades de aventura, um dos alpinistas mais experientes do Brasil revela as venturas e os percalços de uma escolha, cuja intenção converge com o ritmo da natureza. O segredo? Procurar um caminho, assumir riscos, conhecer-se aos poucos, desfrutar o ambiente, sempre entregue aos desafios a que se propõe de forma única, plena e dinâmica

 

O céu cor de chumbo anunciava uma tarde inquieta em Campinas, localizada a 96 km da capital paulista. Na sede da Grade 6, empresa fundada por Rodrigo Raineri, em 1993, vestígios de uma vida em sintonia com o horizonte apontavam o caminho a seguir. Cada pequeno detalhe trazia o mundo outdoor para perto dos olhos: a movimentação da equipe pelos corredores; as fotos e peças decorativas trazidas de jornadas pelos quatro cantos do globo; as árvores garbosas que separavam a casa da rua; a parede de escalada proeminente em meio ao quintal. Eis o ponto de partida de uma história repleta de aventuras, encontros, despedidas e, acima de tudo, de disponibilidade para o alcance da maior conquista de um homem: o autoconhecimento.

Raineri irrompeu a recepção em uma quinta-feira de verão, com um rastro inconfundível de dia agitado. Havia nele um conjunto harmônico que integrava postura serena, sorriso vasto e afinco para realizar todas as tarefas para as quais havia se planejado, apesar dos imprevistos, que não foram poucos a surgir durante a tarde. O garoto de Ibitinga, como é carinhosamente chamado por amigos, cresceu no mato, explorando, na infância, as regiões selvagens do interior de São Paulo. Aos 19 anos, lançou-se em sua primeira escalada. O pico escolhido foi o das Agulhas Negras, ponto culminante do Rio de Janeiro, com 2.792 m de altura. Desde então, o jovem, destemido e curioso, desbrava montanhas, vulcões e paredes – continentes afora –, de tipos de rocha variados, sob temperaturas extremas, ventos fortes e ar rarefeito.

Participou de dezessete expedições para a Cordilheira dos Andes, tendo alcançado o cume do Aconcágua em seis delas, a incluir uma pela temida Face Sul. Esteve quatro vezes na Cordilheira do Himalaia; em duas delas, conquistou o cume do Everest. Há três anos, decidiu integrar o parapente aos seus projetos, decolando do Mont Blanc, na França, em um voo que durou 29 minutos e meio. Em 2013, pretende que o voo parta do topo do Everest. Por mais de duas décadas de trajetória na natureza, Raineri superou obstáculos impostos pelo ambiente hostil de alta montanha, pela dor da perda de um amigo, em uma de suas expedições ao Everest, pela precariedade da infraestrutura e por problemas de saúde como o bloqueio de suas vias aéreas, causado pela hipoxia (baixo teor de oxigênio nos tecidos do corpo), ocorrente em grandes altitudes. Ao comemorar o sucesso de vendas do seu livro “No Teto do Mundo”, escrito em parceria com o jornalista Diogo Schelp, o alpinista, obstinado e confiante na vida, enfatiza que a escolha do que somos se encaixa com precisão ao limite do que queremos para nós: “O homem é do tamanho dos seus sonhos”.

 

NO LIMITE: Raineri vence trecho íngreme da cascata do khumbu, o lugar mais perigoso do lado sul do Everest

 

A&A: Quando decidiu ser alpinista? Quais foram as bases de sua escolha?

Rodrigo Raineri: Na verdade, eu sempre gostei de ambientes naturais. Eu gosto de outras atividades na natureza como canionismo, espeleologia, surfe. Em 1993, fiz um estágio remunerado pela Unicamp, na Holanda. Durante o período na Europa, escalei o Mont Blanc. Eu voltei para o Brasil decidido a trabalhar com esportes de aventura, com alpinismo. Resolvi ser um empresário desse segmento. Comecei guiando expedições. Na faculdade, já dava cursos de escalada, vendia equipamentos na minha casa, e, assim, ganhava dinheiro para fazer as minhas viagens. Em 1994, abri a empresa, a Grade 6, deixando a carreira de engenheiro para trás e me dedicando ao que realmente queria para a minha vida.

A&A: “Com um lugar desses, é difícil entrar em sintonia. Minha técnica é pensar que estou fazendo parte daquele pedaço da natureza temporariamente. Vejo isso quase como uma missão: durante determinado período, levo vida (a minha própria) a um ambiente hostil, antes de voltar ao meu lugar, nas baixas altitudes”. Que razões o levam a investir contra um ambiente em que a linha divisória entre a vida e a morte é tão tênue? Qual a principal motivação?

R.R.: Eu não vou contra o ambiente, ao contrário. A dificuldade é você entrar em sintonia, adaptar-se a ele. Você tem diversos obstáculos: frio, ar rarefeito, fome, sono, e o objetivo é aprender a viver em um ambiente hostil. Você está lutando contra as adversidades, mas tem que se sentir parte do lugar, saber que as privações integram a vivência para que a sua estada não se transforme em uma guerra. Eu não me sinto conquistando alguma coisa, embora a gente fale muito em conquista. Eu sinto como se aquela experiência estivesse sendo concedida a mim, entende? A de eu estar na natureza, na montanha. Por outro lado, eu também estou me permitindo fazer tudo aquilo, deixando-me levar pela correnteza. Quando você está sendo levado por ela, precisa nadar na diagonal, não contra. Tem que entrar no ritmo da natureza e procurar seguir um caminho, independente de um turbilhão de coisas que podem vir a acontecer.

A&A: Como é o dia a dia de uma expedição, cuja meta é conquistar o cume do Monte Everest, o mais alto do mundo, a 8.848 m de altitude?

R.R.: Primeiro, você tem que chegar à base da montanha. São várias fases e o seu dia a dia vai mudando de acordo com as fases do projeto: o antes e depois de partir, a chegada em Katmandu, a organização de tudo e a aproximação até chegar à montanha. Uma vez na sua base, a rotina passa a ser mais intensa: subir equipamentos para os acampamentos superiores, acostumar o corpo com as altitudes, fazendo subidas e descidas de aclimatação. Depois, vem um período de descanso, de preferência, antes do ataque ao cume, etapa que acontece durante sete dias de grande esforço. E a volta é aquela euforia de saudade, checagem de um monte de coisas. Para realizar a expedição, de modo geral, temos que sair daqui com pelo menos dois meses e meio livres, sem data de volta. Uma das grandes belezas desses projetos é você conseguir adequar a sua competência técnica, física e emocional ao desafio. Então, se você pega uma coisa muito difícil, a sua chance de sucesso é pequena. Se pega uma muito fácil, perde-se um pouco da graça. Se pega algo que está de acordo com o seu limite, aí é ótimo!

 

A HORA DO ANGELUS: O nascer da lua no Everest, a maior montanha do planeta, visto de Kala Patar, um dos montes do Himalaia, com 5.450 m de altitude

 

A&A: Como é o processo de preparação, o treinamento, a sua rotina em Campinas?

R.R.: Depende. Nos últimos anos, eu tenho trabalhado muito no escritório, administrando a Grade 6. Emendo final de semana, feriado, não paro. Faço eventos, ministro palestras, fiz o livro. Com ele, trabalhava à noite, de madrugada, sempre com muita energia. Costumava brincar quando as pessoas me perguntavam: como você treina para o Everest? Eu respondia: ah, eu trabalho o dia inteiro. Para atacar o cume também, você não dorme. Mas claro, eu tento ter uma política um pouco mais rígida de treino quando me proponho a escalar uma montanha. Vou voltar para o Everest em 2013 e tentarei fazer três macrociclos de treinamento. Já estou um pouco mais velho, o corpo não responde tão bem. Em 2012, quero me dedicar mais ao preparo físico. E os tipos de exercícios são musculação, para preservar ligamentos, e aeróbica, para alcançar performance. Faço esteira, natação, bike. Gosto bastante de treino externo, não sou muito fã de academia. Eu só vou porque a academia que frequento é muito legal, tem professor, incentivo, uma série de coisas boas.

A&A: Como é a sensação de retornar de uma longa viagem à montanha? O que você traz lá de cima?

R.R.: O que eu vivo em uma expedição de dois meses e meio na montanha, em termos de riqueza, aprendizado, é muito mais intenso do que o que vivo em um mesmo período passado aqui, na cidade. A gente volta mudado, dando muito mais valor para questões básicas. Você percebe que não precisa de muita coisa para ser feliz. O fato de ter um corpo saudável, os cinco sentidos em perfeito estado, um filho, uma boa formação já faz toda a diferença. Tudo o que é simples, mas essencial, acaba sendo incorporado ao seu modo de viver. Há um contentamento. Aqui, a gente tem uma cobrança muito grande por ter mais e mais. Às vezes, você vê pessoas que têm tudo e não são felizes com o que têm. Vejo nessa tomada de consciência algo de muito legal. Não por menos, trabalho com isso. É maravilhoso! Eu gosto de tentar ensinar isso para as pessoas que eu levo para a montanha.

A&A: O que faz quando nota que está só consigo mesmo a milhares de metros de altura, em um lugar em que o contato com seres vivos é praticamente nulo?

R.R.: Eu sei que aquele não é um lugar feito para a gente. A vida se dá nos vales. Um dos primeiros ensinamentos do curso de montanha é esse. A gente vai lá, desfruta do meio e da montanha, mas tem que sair. Se ficar, morre. Todos os povos do mundo vivem nos vales. Eu me sinto privilegiado por estar em um lugar de difícil acesso, onde poucas pessoas chegam, mas sei também que aquela experiência é temporária, que eu preciso me adequar ao ambiente hostil, fazer o que eu quero, que é estar na montanha, para depois voltar ao vale.

 

EM EXPEDIÇÃO: Rodrigo Raineri e Vitor Negrete com o Everest ao fundo, durante a fase de aclimatação, na expedição de 2005

 

A&A: O momento mais difícil pelo qual passou como alpinista foi a perda do seu melhor amigo, o Vitor Negrete, em uma expedição ao Everest, em 2006. Como lida com isso? E como foi seguir sem ele?

R.R.: A perda dele foi muito difícil. Por mais de um mês, após a sua morte, eu sonhei com o Vitor todos os dias. Tudo muito complicado. Ter de cuidar, no Nepal, da parte burocrática, de atestado de óbito, decidir o que iríamos fazer com o corpo. No final, a gente acabou sepultando ele na montanha mesmo. Mas essa escolha, para nós, ocidentais, é muito difícil. Para eles, lá, não, porque a montanha é sagrada e há uma série de simbologias. Mas para nós é difícil. Este é um assunto com o qual tenho que lidar nas minhas escaladas, apresentações, no livro. O Vitor está presente em praticamente todo o meu trabalho, no meu dia a dia. O livro possui inúmeras fotos dele. Em 2007, fiquei em um vai não vai e falei para mim mesmo: ah, eu vou continuar. Infelizmente, aconteceram milhões de tragédias. A Fórmula 1 não terminou depois que o Airton Senna faleceu, o aeroporto de Congonhas não fechou depois de todos os acidentes que ocorreram lá; enfim, a vida continua. A perda é irreparável, mas para eu ser uma pessoa feliz e realizada, tenho que fazer o que eu gosto. Não vou deixar de fazer por medo de que aconteça alguma coisa. Minha hora vai chegar, subindo ou não a montanha. Ao viajar pelas estradas do Brasil, dando palestras, eu também corro um sério risco, talvez até maior. O risco está em todo o lugar, não apenas no Everest. Se a gente sabe o que está fazendo, assume que algumas coisas realmente podem dar errado.

A&A: Sua concepção de escalada mudou muito com o passar dos anos? O que aprimorou?

R.R.: Quando eu era mais jovem, tinha alguns projetos que talvez me consumissem demais. Se os tivesse levado adiante, eu não poderia ter essas outras vidas, a de empresário, palestrante e pai. Eu seria apenas escalador, alpinista e ponto final. Se fosse fazer as 14 montanhas mais altas do mundo tendo filho, eu não sei que educação e atenção eu daria para ele. Por isso, comecei a ponderar um pouco mais. Claro que montanhismo é o que eu gosto mais de fazer, mas acho legal ter essa parte familiar, empresarial, de estar inserido no mercado de trabalho. No fim das contas, eu acredito que não seria feliz se fosse só escalador, se ficasse na montanha o tempo todo, se não tivesse a minha família, os desafios na empresa, se não tivesse outros meios de contribuir. Acho que aprimorei isso. Eu me cobro um pouco menos em relação a projetos que demandariam muito tempo e energia. O principal é sentir-se feliz com os resultados. Chegar a 50 m do cume e voltar satisfeito para a casa.

A&A: “No Teto do Mundo” é o seu maior relato sobre as suas investidas, impressões e aventuras pelos picos mais altos do planeta. Como foi o processo de produção desse livro?

R.R.: Eu comecei em 2002, depois que escalei a Face Sul do Aconcágua. Quando eu resolvi que iria ser alpinista, eu já tinha essa ideia de que faria grandes projetos, de escrever, dar palestras, viver do esporte. Mas não conseguia terminar. Fui mexendo, voltando a capítulos anteriores, até que um dia decidi procurar a ajuda de um especialista. Um amigo me disse que o irmão, o Diogo Schelp, que trabalhava na Veja, poderia me indicar alguém. Liguei e o irmão me disse que ele mesmo poderia me ajudar, que já conhecia o meu trabalho, a minha história. Eu já tinha um monte de manuscritos, diários que estavam digitalizados, entrevistas, sonoras. Havia muito material. Foram nove anos para lançá-lo, mas consegui. Quando eu peguei o primeiro exemplar impresso, fiquei muito feliz. Acho que está bem escrito, bem ilustrado, que está muito legal. O resultado tem sido muito gratificante. Você faz uma coisa para as pessoas lerem, elas leem e gostam. Isso tudo é espetacular.

 

ENTRE VALES E MONTANHAS: Caravana de iaques (bois tibetanos) no caminho para o acampamento base do Everest

 

A&A: Você decolou de parapente do Mont Blanc, em 2009. Tentou decolar do Everest, em 2011, desistindo apenas pela falta de visibilidade incidente na região onde iria pousar. Determinado, planeja nova investida, em 2013, para realizar a decolagem. Como surgiu esse projeto?

R.R.: No Everest, você já vê tudo de cima. Imagina ver de cima e voando? Deve ser um negócio fantástico. Você vai com alguns pontos predeterminados. Eu pousarei em Gorak Shep (5.100 m). Em caso de necessidade, os pousos de emergência aconteceriam no Campo 2 (6.400 m) ou no acampamento base (5.350 m). E entre o campo base e Gorak Shep ainda teria um lugar, que seria uma roubada tremenda, mas eu me jogaria lá se fosse preciso, que é o canto esquerdo do glaciar. No dia em que fiz o cume, em 2011, eu não conseguiria atingir nenhum desses lugares. Se a nuvem estivesse mais baixa, talvez pudesse decolar para pousar no Campo 2, mas eu não quis arriscar. No Mont Blanc, eu desci voando em 29 minutos e meio. Normalmente, você leva um dia para descer até o refúgio e, de lá, descer de teleférico. Ou ainda dois dias, se optar por descer tudo a pé. Então, descer em 29 minutos e meio é muito mais seguro. É lindo! Voar no Everest leva mais ou menos o mesmo tempo por causa do desnível. A diferença é o ar mais rarefeito, que gera uma taxa de afundamento maior. Por isso, muito provavelmente o voo vai durar menos.

A&A: Você possui 23 anos de vasta experiência em gelo, rocha e alta montanha. No currículo, acumula grandes feitos como a conquista do cume do Aconcágua, por seis vezes, e a do Everest, por duas, além de já ter descido a cachoeira do Pai Nosso, no Amazonas, a mais alta do Brasil, com 353 m de altura. Quais são, a seu ver, as principais características que um alpinista precisa ter para vencer barreiras e conquistar seus sonhos?

R.R.: A primeira é adequar os sonhos à realidade, seja qual for o seu nível emocional, físico e financeiro. Não comecei a sonhar com o Everest quando eu ainda não tinha escalado nada. Eu comecei a tentar vender os projetos aos poucos. Assim, fui ganhando experiência e entendendo o que o meu cliente precisava para que pudesse vender bem. Isto é muito importante, tentar adequar o desafio aos nossos sonhos, às capacidades e competências. Uma das características mais difíceis de conquistar é saber diferenciar os tipos de empreendedorismo. Se você escala uma montanha, você é um empreendedor da natureza. Mas se quiser viver disso, trabalhar com isso, você precisa ser um empreendedor do mundo moderno, de hoje, com e-mail, Facebook, conexão via satélite. São duas coisas muito distintas. É necessário unir esses dois mundos para conseguir vencer no mercado de esportes da natureza. Você precisa olhar para os projetos como negócios. Eu vendo, eu recebo, eu entrego. Não tem incentivo. Às vezes, as pessoas me perguntam como eu faço para pedir um patrocínio. Eu nunca pedi um patrocínio para ninguém. Nunca falei: “ah, me ajuda aí”. Se você me ajuda, eu também te ajudo. O negócio é bom para todo mundo, é um ganha-ganha. Temos algumas parcerias com empresas que gostam do meu trabalho, mas também gostam do retorno que o meu trabalho dá a elas. Você tem que ser competente tecnicamente, em campo, e administrativamente, dentro do escritório. Juntar tudo é difícil, mas é uma escolha possível.

 

Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004

A CONQUISTA: Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004