Expedição Canastra

junho 16, 2016

Etcétera Oficinas Temáticas de Jornalismo Comunitário

São Paulo — a primeira de uma série que promoveremos nos próximos anos. Na Canastra, ensinaremos os alunos da Escola Municipal Guia Lopes a criar um jornal mural — veículo que destaca a função social da leitura e escrita, estimulando nos participantes a análise crítica das informações que absorvem diariamente.

A partir do ponto de vista regional, debateremos com a turma a produção artesanal de queijo, as histórias por trás desta tradição, as nascentes do Rio São Francisco, a vida do ribeirinho, que depende das águas para sobreviver, a fauna e flora do Parque Nacional e a importância da conservação da natureza para a manutenção das comunidades tradicionais da região.

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Ideias têm, por si, a força abençoada de uma perspectiva original, um olhar único, uma composição autêntica.

Não saiam daí, que este papo tá só começando…

Foto do parceiro pé na lama (com muito orgulho) Fellipe Abreu

 

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Realização Nascente Casa Editorial

Apoio Prefeitura Municipal de São Roque de Minas

 

Refugiados: quem são?

setembro 15, 2015

Fotos Lilo Clareto, Nilüfer Demir e Sebastião Salgado

 

refugiados do desenvolvimentoA primeira vez que vi os refugiados da contemporaneidade foi em Êxodos, trabalho primoroso de Sebastião Salgado. Entre saber e enxergar há uma distância considerável. Vide o corpo do menino sírio que chegou à praia na Turquia. Todos sabiam que milhares de pessoas estão em trânsito pelo mundo, mas somente depois da foto do menino morto ser estampada em todas as timelines e afins é que a barbárie da guerra na Síria causou algum tipo de “movimento.” Um mexer-se indiferente. Qualidade comum ao Ocidente.

As imagens de Êxodos me tiraram da redoma em que nasci, protegida pelo privilégio de fazer parte de menos de 10% da população do planeta, e colocaram dentro do contexto global. A realidade sem meio termo. Desde então convivo com a consciência de que populações inteiras vagam sem destino por estarem à margem do sistema, por terem sido expulsas de suas terras, pela falta de perspectiva, porque há muito foi instituído pela sociedade que o sentido da vida está em ter. Quem sou eu se não tenho? À resposta cabem muitos dos valores definidos pelo homem moderno – valho se, e somente se tiver acesso a bens de consumo; se, e somente se rentabilizar o suficiente para adquiri-los. Do contrário? Não sou ninguém. Não valho nada.

Pois, se a palavra ser está invariavelmente conectada à gênese do lucro; se nos moldamos assim, dependentes dos jogos de mercado, do plano financeiro; então, sabemos: o corpo daquele menino sírio na praia é reflexo deste modelo estabelecido do qual todos somos cúmplices. Cada um de nós, quer queira ou não, ajuda a alimentar esta gigantesca máquina de entortar homens. No Brasil, o cenário não é menos alarmante. Há um número inestimável de gente sem rumo, “que já não encontra o destino dos pés”. São refugiados do desenvolvimento. Um deles, uma mulher chamada Antonia Melo, é personagem desta coluna da Eliane Brum. Recomendo a leitura e, de lambuja, a reflexão!

 

corpo do menino síria na praia turca

 

Êxodos Sebastião Salgado

 

Mais sobre a jornalista no seu blog Desacontecimentos e sobre Antonia Melo, uma das principais líderes comunitárias em Altamira (PA), no site do Movimento Xingu Vivo Para Sempre.

No link a seguir, informações de como ajudar os refugiados sírios no Brasil e no mundo.

 

Movido a Vinho

julho 12, 2015

Hoje, o destaque lá na fanpage da Nascente vai para o fotógrafo, amigo, chapa, irmão Tom Alves. O registro de fim de tarde é do lote 57, em Tuiuty, na serra gaúcha. A área de sete hectares leva o visitante a uma das melhores viagens pela história da colonização italiana no Brasil. A família Tomasi produz vinho no porão de casa, local em que recebe a quem chega com o famoso merendim, lanche típico repleto de delícias caseiras como pão, salame e queijo. Espaço mais do que convidativo para a degustação de um belo vinho artesanal.

Acesse a reportagem na íntegra aqui.

 

fazenda dos tomasi

 

Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB

 

Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

O Retorno da Terra

janeiro 13, 2015

Foto Daniela Alarcon

Recebi o convite e aceitei na hora. O melhor foi descobrir uma dupla que realiza, há quatro anos, um trabalho fantástico com os Tupinambá. Jornalista e documentarista estarão no queridíssimo Las Magrelas no sábado, dia 17, para contar sobre o curta-metragem que estão produzindo. A campanha está no catarse e quem aparecer contribui para o desenvolvimento do projeto. Bora saber mais sobre as histórias de um povo que luta pela permanência na terra! Trata-se de um Brasil que o Brasil precisa conhecer. Como disse Eliane Brum no prólogo do artigo da Daniela Alarcon: “Sejamos, nas palavras de outro povo indígena, os Guarani Kaiowá, “palavra que age”.

 

Foto Daniela Alarcon

 

Mais informações

O evento

O artigo

 

Rota dos Parques

dezembro 2, 2014

Fotos Tom Alves, Valdemir Cunha e Marcos Amend

 

Leia a íntegra da matéria que produzi sobre os potenciais desperdiçados e as perspectivas de gestão dos parques estaduais mineiros. O uso público das áreas protegidas como instrumento de desenvolvimento socioeconômico é uma realidade em diversos países. O turismo é uma das opções mais relevantes para a exploração indireta dos recursos de uma Unidade de Conservação. Quando bem operado, alia conservação e manejo sustentável da biodiversidade. Em larga escala, tal dinamização pode gerar uma receita de bilhões, contribuindo para o aumento do PIB nacional e impactando positivamente as comunidades que vivem no entorno das Unidades.

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* Publicada originalmente na edição 155 da Revista Horizonte Geográfico.

 

Abre divulgação

 

A campainha toca. Quem bate é o economista Aldenyr Jesus Rodrigues, que chega a São João da Chapada para participar de um curso de capacitação realizado nos arredores de Diamantina, norte mineiro. Está à procura de pouso. O homem de 30 e poucos anos soube por um amigo que na comunidade rural havia hospedagem domiciliar. Rodrigues prefere o contato direto com a cultura local. Não hesitou em buscar abrigo na casa de um morador. Minutos depois, a porta se abre e surge de dentro uma senhora carnuda, com sorriso solto: “Pois não?” Há oito anos, dona Valmira de Lurdes Miranda é sócia de um receptivo familiar no distrito de pouco mais de mil habitantes.

O Turismo de Base Comunitária, implantado na região em 2006, é uma modalidade que, aliada à prática do ecoturismo, amplia horizontes em povoados tradicionais localizados no entorno de Unidades de Conservação. O potencial de desenvolvimento é grande. Os parques estaduais mineiros abrangem montanhas a perder de vista, serras como a do Espinhaço, cavernas, cachoeiras, bacias hidrográficas e ainda os biomas cerrado, mata Atlântica e caatinga. Somam um total de 5.026 quilômetros quadrados, área equivalente a 500 mil campos de futebol. Tal conjunto de atrativos é suficiente para transformar essas unidades de conservação em verdadeiras potências do turismo sustentável, com medidas práticas de curto, médio e longo prazos.

Segundo Cecília Vilhena, gerente das unidades de conservação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), a melhor ação para ampliar o acesso é agilizar a regularização fundiária e os planos de manejo. “No Parque Estadual do Biribiri, por exemplo, nenhum dos 16,99 mil hectares está regulamentado”, afirma. Isso significa que as terras ainda não pertencem ao poder público e, por isso, não se pode construir estruturas de apoio e tampouco cobrar ingressos. Minas Gerais possui 11 unidades de conservação abertas ao público geral, sendo dois monumentos naturais e nove parques estaduais.

 

Benefícios para o entorno

 

P.Ibitipoca

 

De acordo com Maria Tereza Jorge Pádua, membro da Comissão Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), uma solução é priorizar a aquisição das áreas de visitação. “Os recursos para a regularização fundiária são reduzidos, então, às vezes, o que se pode fazer é comprar parte do terreno e começar o trabalho por ele”, explica. Foi o que aconteceu, com sucesso, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no estado, e também no Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Ela recomenda ainda a construção modular de infraestrutura, como recepção, à medida que os recursos forem liberados. Esperar para realizar todas as obras pode ser inviável.

O monumento cultural de Caral, no Peru, é uma boa referência nesse sentido. A UC recebe os visitantes com conforto em instalações simples e de baixo custo, com aproveitamento de bambu. Para Ana Luisa da Riva, diretora executiva do Instituto Semeia, responsável por um extenso estudo sobre as UCs brasileiras, é preciso pensar os parques estaduais como redutos de preservação e também de oportunidades para os moradores do entorno. “Sujeito a critérios bem definidos, o turismo sustentável pode ajudar a preservar”, diz. A especialista aconselha o envolvimento do setor privado por meio de parcerias público-privadas. Essas devem respeitar os planos de manejo, que estabelecem os parâmetros de gestão. Em Minas, dos 39 parques estaduais existentes, 15 têm esse planejamento concluído e podem firmar esse tipo de acordo.

 

Infraestrutura de ponta

 

Um primeiro passo nessa direção foi dado pelo governo de Minas Gerais no Parque Estadual do Sumidouro. Lá, estruturou-se um contrato que prevê a concessão da gestão administrativa do parque, com a transferência da receita das visitações para a iniciativa privada. Outra forma de empresas contribuírem é por meio de acordos de compensação ambiental. Entre os parques que se destacam, dois são referências internacionais. O primeiro, Ibitipoca, oferece em 1.488 hectares quatro roteiros: Circuito das Águas, da Janela do Céu, do Pião e da Parte Alta das Águas. Quem pisa ali se encanta com as cavernas de quartzito e tem a oportunidade de apreciar a das Bromélias e a do Martiniano, a segunda e terceira maiores do mundo. A divulgação de seus atrativos fez com que o número de visitantes chegasse a 61 mil em 2013.

Como resultado, evoluiu a renda do município de Lima Duarte, localizado em sua área de abrangência. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, a renda média dos moradores passou de 64,5% da média estadual para 83,3%, entre os anos de 2000 e 2010. Há mais a se conquistar. O parque Crystal Cove, de área similar nos EUA, por exemplo, arrecada o equivalente a 7 milhões de reais por ano, enquanto Ibitipoca alcançou 905 mil reais no mesmo período.

No segundo, Parque Estadual do Rio Preto, o turista tem acesso a 12.185 hectares com infraestrutura completa. Há passarelas, placas de sinalização, deques, alojamentos, camping e restaurante, além de uma equipe de guias especializados. Antônio Augusto Tonhão, gerente e fundador da unidade de conservação, diz que o diferencial do parque são as pessoas que ali trabalham: “Os funcionários têm oportunidade de crescer profissionalmente e, por isso, acabam vestindo a camisa e trabalhando bem”, conta. Seus principais atrativos são o pico Dois Irmãos, as cachoeiras do Crioulo e das Sempre-vivas e a chapada do Couto.

 

pe-rio-preto-por-marcos-amend

 

Outro caso de êxito de desenvolvimento turístico integrado, para o qual cinco cidades mineiras elaboraram planos em torno de um mesmo objetivo, é a Rota Lund. O roteiro foi feito em parceria entre órgãos estaduais, municipais e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais e abarca pontos arqueológicos e históricos, ligados ao famoso naturalista Peter Lund, em cada um dos municípios.

O condutor de turismo Carlos Giovanni Paulino, 32 anos, que trabalha há dez anos na região dos parques estaduais do Biribiri, Rio Preto e pico do Itambé, pede políticas públicas que valorizem a cultura local e os esportes de natureza. “Se houvesse incentivo nessas áreas, os jovens teriam mercado para trabalhar e não precisariam migrar para grandes centros, como fazem”, diz. Carlos e os moradores da região desenvolveram, por contra própria, o projeto de ecoturismo Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. “Mostramos aos visitantes os aspectos culturais das comunidades vizinhas aos parques. E também como a integração entre elas e as unidades favorecem a preservação”, conta. “Se tivéssemos apoio, ou mais iniciativas como a nossa, talvez esta região lotasse de turistas”, aposta.

De fato, quando a situação das unidades de conservação – não apenas a dos parques, mas a de todas – é analisada conjuntamente, fica ainda mais patente seu potencial. O país possui mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados de áreas protegidas federais, estaduais e municipais, ou seja, um território equivalente a três Franças. Figura em primeiro lugar no ranking de competitividade mundial de turismo em relação aos recursos naturais. No entanto, em lista divulgada pela revista Time, é apenas o 44º país em quantidade de visitantes, entre 165. Fazer mais e melhor pelos parques estaduais é um dos passos essenciais para mudar a situação.