Les Bicyclettes

novembro 21, 2014

As notas a seguir foram escritas de outubro a novembro, durante a minha passagem pela Itália e França. Nada como perambular, experiência que dá fôlego ao exercício de enxergar o mundo. Aproveito a deixa para publicar na página pequenas impressões, pitadas de um todo só para dar cor aos ânimos de quem se aventura pelas bandas de cá. Bon appétit! “A verdadeira viagem da descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.”

 

Paris, 9 de novembro de 2014

Ontem, a cidade ferveu à noite. Empolgante ver todos na rua. Uma das coisas que me chama a atenção é a forma das pessoas se relacionarem com o espaço urbano. O grande barato dos moradores é sair de casa e compartilhar o mundo. Pelo menos, enquanto as temperaturas não despencam. Tá muito frio, mas ainda é época de confraternizar lá fora. A boa nova: tem muita bicicleta rodando em meio ao trânsito caótico, mas ordenado. Quando não circulam, ficam assim ó, estacionadas a espera de seus respectivos parceiros de jornada.

 

Le Marais

Le Marais

 

Estação de Metrô Varenne

Estação de Metrô Varenne

 

Paragens

novembro 21, 2014

Paris, 8 de novembro de 2014

 

Uma das horas que mais gosto do dia é o cair da tarde. Na volta para casa, sempre paro na beira do Sena, sento num banco qualquer, ouço a música que vem das ruas – há diversos artistas bons tocando sobre as pontes, na frente de igrejas, dentro das estações de metro – e me deixo levar pelos ares leves de Paris. É uma cidade ritmada, sem sobressaltos, porém intensa em cada pequeno detalhe. Quanta poesia enxergo dali, do canto que escolhi para sossegar. Há tanta vida ao redor. Tanta força histórica e de histórias a passar por mim – um pra lá e pra cá de gente em seus mundos. Pessoas de todas as partes. De repente, a lua surge imensa e amarela. Em seguida, um rapaz se aproxima. Ele traz uma garota pela mão. Ambos param para admirar o cenário típico de outono. Abraçam-se! Silencio. Dizer o quê? É Paris. Ô, se é!

 

Luar sobre o Sena

 

Instante que remete à adorável Françoise Hardy. Voilà!

 

 

Preâmbulo

novembro 21, 2014

San Gimignano, 22 de outubro de 2014

 

San Gimignano.4Hoje, antes de partir em direção a Cortona, uma pergunta me acendeu a ideia: quando encontro com Deus? A resposta veio de súbito, sacudida, como que para me mostrar que a vida é o toque de amor, o gosto da liberdade, a escolha do instante, a busca ininterrupta, o jeito simples, a coragem de dar o passo, a curiosidade de se lançar no mundo e assumir os riscos consciente de que não existem certezas, apenas oportunidades. “Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme, a grande, universal, solene pausa antes que tudo em tudo se transforme.”

 

Piazza della Cisterna

Piazza della Cisterna

 

Collegiata di Santa Maria Assunta

Collegiata di Santa Maria Assunta

 

Vista Panorâmica da Torre

Vista Panorâmica da Torre

 

Veneza, 28 de outubro de 2014

 

A arte de gastar sapatos é uma experiência capaz de causar reviravoltas. O olhar atento de quem caminha abre brecha para a relação direta com o espaço ao redor. Na cidade, a vida se expressa criativa, diversa, incessante. Tudo vibra em tons multiplicáveis. Cada pequeno gesto se espalha pelas ruas com a mesma rapidez com que desaparece. Num piscar de olhos e puf, foi-se o instante. Os traços e jeitos; as falas e sutilezas; não há o que escape ao movimento. Cenas inusitadas, discretas entre esquinas, são as mais reveladoras. É o lusco-fusco, momento de transição que faz do mundo um lugar melhor. Nada como a simplicidade, aquele sopro de luz na passagem das horas.

 

O florista

O florista

 

O leitor

O leitor

 

Um lá

novembro 21, 2014

Roma, 18 de outubro de 2014

Foto Mimmo Fabrizi

 

Último dia na capital italiana e me invade a certeza de que caminhar é o verbo que melhor se encaixa a descobertas. Quanto mais se anda, mais se aprende, compreende, deixa estar. Roma é uma cidade muito viva! Há tanto pelas ruas que se perder é apenas um pretexto para se encontrar. Suas cores, sua intensidade, sua alegria tomam conta desde o primeiro passo. O tempo inteiro me deparo com becos. Estão por toda a parte pequeninos, bem guardados. São como um respiro em meio ao caos cosmopolita. Quem os habita conhece de perto o significado da palavra aconchego. Foi batendo perna que esbarrei com este lugar. Tempos depois, lá estava ele registrado em postal. Comprei na hora. Linda imagem que seguirá rumo ao Brasil nos próximos dias junto com outras mais. Amigos, aguardem-me na caixa de correio…

 

Roma

 

A recruta malabares

setembro 1, 2013

monkey_typing

Autora sacode a poeira e volta à cena para dar o recado.

Confira os porquês da escassez de bananas na árvore mais robusta da selva às avessas. A floresta do inverso atende pela alcunha de realidade, a imperativa sinhá do hoje e sempre.

 

O chavão ‘estar com a macaca’ coube na símia como tailleurzinho by Chanel. A rotina de trabalho, inexorável de março para cá, tomou a bichana de tal maneira que quase tudo a tem levado ao contumaz bater de teclas. Em ritmo frenético de entrada da primavera, o que poderia encaixar melhor em constituição rotunda do que incontáveis horas de labuta? Ao corpanzil da macaca se integram desafios para além do feijão com arroz. O princípio tem a ver com experimentar novidades, aprender com o que a vida traz de fresco, desbravar mundo ao lado do que há de mais transformador, a superação de limites, dia após dia.

São milhares de caracteres a tomar páginas e mais páginas, definição de pautas, distribuição de tarefas, apuração de monkey_booksinformações, saídas a campo, inúmeros telefonemas, acertos com equipe, ajustes de projetos, revisão de materiais, fechamento de arquivos, checagem de provas, e para tudo há que se montar plano e manter foco absoluto na meta. Engana-se quem pensa que a história tem um ponto final. Reza a lenda que a dita faz o tipo sem fim.

O encerramento de cada capítulo exige mais do que o processo inteiro: contatos, ampliação de network, desdobramentos, imprevistos, decisões rápidas, objetividade, reuniões de última hora, e a lista segue sem freio por tempo indeterminado.

monkey_phoneQuem disse que é fácil? Viver em contexto contemporâneo é de ouriçar o fio do bigode. Cada passo, contudo, vale a pena. A símia transborda prazer em cada pequena coisa para a qual se dedica. Garra e paixão combinam com a escolha que fez para si. As últimas experiências, por exemplo, a fizeram encontrar caminhos e conhecer realidades surpreendentes. O que poderia ser mais fascinante do que o contato consigo mesma? Em meio ao turbilhão, somam-se constatações inesperadas, pois não há o que pareça mais complexo do que a maturação de quem somos.

A macaca olha para si com orgulho. Transpor barreiras é promover revolução. Esta vitória tem significado amplo, não se resume ao término de projetos profissionais, embora eles representem parte inebriante do todo. Não é específica. O brilho de seus olhos interage diretamente com a exploração de suas vias internas, canais por onde a força pulsa certeira; vincula-se ao reconhecimento de um valor próprio de quem sabe se relacionar com as suas verdades, sejam elas quais forem. – Voilà! Exclama de peito cheio.

Paul Auster abre o seu livro A Invenção da Solidão – excelente leitura –, com uma frase que a macaca considera fantástica. É de Heráclito. Diz assim: “Ao buscar a verdade, esteja pronto para o inesperado, pois é difícil de achar e, quando a monkey_resumeencontramos, nos deixa perplexos.”

Convidativo é o amanhã. Afinal, já diziam os antigos, o melhor ainda está por vir.

* * *

Psicodelia Jobiniana

Para dar fôlego ao rabisco inusitado, nada mais bem posto do que o som acalorado do maquinário a movimentar os dedos sobre as teclas. Trem de Ferro, poema de Manuel Bandeira musicado pelo maestro soberano Antônio Carlos Jobim, ajusta-se preciso a este deflagrado perambular.

a macaca em

junho 2, 2012

O Retorno Desvairado

Uma alusão ao sumiço da autora que vos escreve, que desde a sua mudança para São Paulo não conseguia agarrar faísca de tempo que fosse para se dedicar ao blog. Nada como um dia depois do outro…

 

DA FLORESTA CHAMADA REALIDADE: Macaca solta o verbo depois de intervalo prolongado em meio aos desvarios da vida selvagem

Reza a lenda que macaca saltita sem perder o rebolado. Tenho cá as minhas dúvidas, já que remelexos à parte, eis que a símia desapareceu por um ano após trocar a Ilha da Magia pela Grande Floresta.  O maior conglomerado de mata cachorro do seu país é habitat dos aturdidos pelo insano soar de tudo o que é Gigante, Infinito, Alucinado, e acima de tudo: Virado do Avesso. A macaca pula de um lado para o outro. Haja galhos para sustentar tamanha quantidade do que fazer.

A sua estada na nova morada tem sido uma aventura particularmente bela, conscientemente drástica. Encontros, descobertas, cada traço, cada senda abre uma nova janela de possibilidades. Tudo pode. Tudo serve. O contexto abrangente transforma a bichana em mais um elo universal de faces e formas. Na verdade, a floresta mais robusta das redondezas contempla o abstrato e o concreto ao mesmo tempo. A realidade bate nas fuças de quem chega na hora do pulo inicial. De galho em galho, o avesso se revela de maneira imperativa.

A macaca não sabe se ama ou odeia o lugar que escolheu para construir o seu caminho. Imagine um espaço onde aqueles que tudo podem e os que nada têm convivem amontoados e em contraste intolerável. São mais de 10 milhões de seres humanos trombando no alvoroço de trilhas abertas a qualquer custo em nome do progresso. Esse rebuliço de multimilionários e hiper miseráveis já foi chamado de A Locomotiva da Nação. Se o dito é válido, para aonde vai tanto dinheiro? A maioria dos animais residentes não vê a cor.

Em conversa de noite qualquer, um macaco nativo, falante e  nem um pouco pragmático contou à símia que, na mesma área desgastada pelas mãos do homem, o quádruplo de ratos se alastra por traçados subterrâneos. Ui. O quê?  Exato. Ao fazer a conta, melhor nem dar margem ao desdobrar dessa história. Prepare a mente e vá. A ‘rotunda ensimesmada’ coça a penugem capilar e indaga:

– Existe receita para um bicho alcançar o equilíbrio num centro desprovido de padrões básicos para o bem viver?

Sabe-se lá, mas o mais curioso para ela é constatar que, mesmo em meio ao ritmo surreal de uma selva tresloucada, os planos fluem, os sonhos ardem, e as coisas não param de acontecer. A símia para por um instante, espia o movimento frenético de cima do galho em que repousa após o dia de trabalho intenso e acena com a cabeça no lugar:

– A resposta é sim, valeu a pena arriscar.

Quem quiser, que conte outra.

E dá-lhe Caetano!

 

Olhar não é Enxergar

maio 31, 2011

Quando enxerguei São Paulo pela primeira vez, meu coração batia tão forte que mal cabia em meu peito. Passei a refletir sobre aquele emaranhado de sentimentos, todos disparados por uma única faísca: o contato. Creio que estar em algum lugar, habitar determinada cidade, circular por suas ruas e avenidas, partes e artérias não é a mesma coisa que explorar, desbravar, misturar-se, respirar, deixar-se levar, sentir-se imerso, contagiado por um espaço, seja ele urbano ou rural, familiar ou estrangeiro. Vida é a palavra que cabe como luva nesse quebra-cabeça chamado atualidade. Compartilhamos um mundo vazio de esperança, tenso em sua essência, reprimido por lobbies de mercado, murcho de humanidade. Onde reencontrar o brilho do olhar íntimo que adquirimos quando nos relacionamos com um jardim, uma praça ou alameda qualquer do bairro em que moramos?  Como lidar com a metrópole? Li agora um texto que me inspirou a retomar o palavrório que debruço sobre este pedaço de papel sintético. Chama-se O tempo em minha bicicleta. Escrito pelo jornalista Daniel Santini, autor do blog Outras Vias, ele conta com a participação de Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que Santini conheceu durante sua viagem para o Irã, realizada há meses. Trata-se de um relato belo, simples e instigante. Identifiquei-me com a leitura e decidi publicar no blog minhas primeiras impressões da cidade que não tem mais fim.

* * *

Em São Paulo

Seguem trechos de rabiscos meus para alguns. Divido com os meus leitores uma das experiências mais fortes e ricas de minha história. Por quê? Mudei-me para uma cidade que nem sequer o pé havia colocado, habito-a por conta e risco, carrego comigo a minha bicicleta e a força de quem conhece o seu valor. Minha intenção é a de conquistar.

Quer saber mais?

17 de maio de 2011

ENCONTRO

Cheguei em São Paulo no dia 16 de maio de 2011. Desde então, misturo-me com a cidade. Que sensação indescritível. Não é apenas o espaço urbano a me invadir inteira dia após dia, ou a quantidade de afazeres, a organização das coisas, mas sou eu, só, porém mais acompanhada de mim do que jamais estive na vida, a me abrir para um mundo completamente novo, a escrever uma nova página de meu caminho. Não consigo parar de tremer, tamanha a emoção a me desmontar e montar de novo, a me desarrumar por dentro para em seguida colocar no lugar. O que isso?

Afirmo de prumo: nunca foi tão bom sentir o coração bater.

24 de maio de 2011

Cada novo passo meu na capital paulista abre milhares de janelas, portas, gavetas e horizontes. Uma coisa descomunal e praticamente descontrolada, já que a enxurrada de informação a ser absorvida parece interminável. Se duvidar, acho que esse é o melhor termo para definir São Paulo: INFINITO. Tenho que me adaptar a essa nova realidade, já que vim de um pedacinho de terra maravilhoso, mas pequenino. Morei cinco anos e meio em uma Ilha com o número de habitantes que dois bairros de São Paulo possuem.

A vontade que tenho é de devorar tudo. Os meus novos amigos se divertem comigo. Dizem para ter “caaaaaaaaalma Carol, você terá tempo de conhecer tudo o que quiser. Devagar e sempre”…devagar e sempre? Paulistanos vivem em uma megalópole maluca e desenfreada e acreditam no vagar dos dias e das descobertas. Belo paradoxo.

Há contrastes de todos os tipos, belezas e feiúras, uma overdose de gente, concreto, poluição – vira e mexe, chega a doer respirar -, ruas, avenidas, carros, sobes e desces, barulho, comércio, arranha-céus, viadutos. Como um amigo comentou: moramos na cidade dos superlativos.

* * *

Para ilustrar o turbilhão, publico algumas fotos que andei tirando em minhas idas e vindas.

Arquivo Pessoal
 

Avenida Paulista

Uma das inscrições que integram a fachada do Hospital Santa Catarina. Assino embaixo.

Prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)

Museu de Arte de São Paulo (Masp)

Avenida 23 de Maio entre 15h30 e 16h

Viaduto do Detran com bicicletinhas pintadas por Marcelo Siqueira

Parque Ibirapuera

Há Araucárias no Ibirapuera

Grafitagem, Museu Afro Brasil, Ibirapuera

Pôr-do-Sol em São Paulo

Parque da Aclimação

Sim, cruzo com cenas como esta em São Paulo

Imponência clara e verdadeira

Contraste. Olha a cidade lá fora, fazendo-se presente, mas sem abalar a força das árvores

Bicicletada de maio. Pedal de 3h percorreu o Centro antigo. A cidade pulsa por todos os seus poros

Marcha da Liberdade pelo direito à expressão, pela democracia do espaço, por uma cidade plural

Instante

março 20, 2011

Ontem à noite, tive o privilégio de assistir a um dos luares mais bonitos de minha vida. Estava quieta em meio ao silêncio da brisa, era eu intensamente, talvez um pouco mais do que isso, mas nada além de mim mesma. Lembrei-me de poemas que caberiam ao sabor do que sentia. Os que seguem abaixo acompanham o meu regalo a todos que comigo estavam, mesmo que distantes. Fiz também um pequeno registro do céu para ilustrar a cantoria.

 

Never give all the heart

William Butler Yeats

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
Oh never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

Poética

Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Amar

Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Para ser grande

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

Imagens Internet
 
 
Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero) do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by “The King of the World”. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, yankee guys classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que murmuram “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro (eco)! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de por assim dizer. Quá! A macaca sabe que em se tratando do espaço mais exótico do planeta tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. Um herói da selva às avessas.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pelos bailes da vida, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.

Fotos Internet
 
 

Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero)

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser. Quá!

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de somar ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha? Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Onde isso vai parar?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro (eco). Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o “bem da humanidade”, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. “King of the World”.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, pera aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah!

A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

– O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro (eco). Vixi!