Expedição Canastra

junho 16, 2016

Etcétera Oficinas Temáticas de Jornalismo Comunitário

São Paulo — a primeira de uma série que promoveremos nos próximos anos. Na Canastra, ensinaremos os alunos da Escola Municipal Guia Lopes a criar um jornal mural — veículo que destaca a função social da leitura e escrita, estimulando nos participantes a análise crítica das informações que absorvem diariamente.

A partir do ponto de vista regional, debateremos com a turma a produção artesanal de queijo, as histórias por trás desta tradição, as nascentes do Rio São Francisco, a vida do ribeirinho, que depende das águas para sobreviver, a fauna e flora do Parque Nacional e a importância da conservação da natureza para a manutenção das comunidades tradicionais da região.

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Ideias têm, por si, a força abençoada de uma perspectiva original, um olhar único, uma composição autêntica.

Não saiam daí, que este papo tá só começando…

Foto do parceiro pé na lama (com muito orgulho) Fellipe Abreu

 

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Realização Nascente Casa Editorial

Apoio Prefeitura Municipal de São Roque de Minas

 

Quilombolas somos nós

junho 22, 2015

Nota sobre passagem pelo Quilombo de Macuco

 

Comunidade Quilombola Macuco

Repórter e fotógrafo ao lado dos moradores

 

Maio de 2014

Chamam de grotas as beiradas de rio. Nelas, mora grande parte dos povos do Vale do Jequitinhonha. Depois da tomada dos chapadões pelo maciço de eucalipto – há 500 mil hectares de área reflorestada por aquelas bandas -, pouco restou dos recursos naturais. O que era difícil, tornou-se inviável a ponto da nova geração de moradores migrar para outros estados atrás do sustento. Os filhos de Macuco, comunidade quilombola da região, trabalham de cortar cana e colher café em fazendas do interior de São Paulo. Vimos várias mulheres se despedindo dos maridos e filhos.

Enquanto elas permanecem em casa roçando os seus quintais, os homens partem na tentativa de fazer dinheiro. Em que condições? Não comentam. Mas é dedutível. Disseram que até pouco tempo não sabiam que descendiam de escravos. Depois da descoberta, o primordial para eles é a conquista do reconhecimento e da demarcação da terra que lhes pertence. Luta que parece sem fim. Quilombolas somos nós! – repetem para quem quer que chegue.

O que chama a atenção é a força. Apesar do histórico, são séculos de opressão, não perdem a esperança. Na foto, um instante de soltura e muitas risadas depois de uma longa conversa sobre cultura, política e reestruturação social. Conhecer os recônditos do Brasil é uma experiência de reencontro com a identidade do país. Esta que precisa ser valorizada para que compreendamos o significado de unidade e completude. Cidadania ainda é uma palavra frágil por aqui, mas mudar tal realidade depende, acima de tudo, de cada um de nós.

 

Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB

 

Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

Outros olhos

fevereiro 10, 2015

Foto Arquivo Orlando Villas Bôas

Cláudio e Orlando Villas Bôas com índio no Xingu

Orlando e Cláudio Villas Bôas ao lado de um índio no Alto Xingu

Ao iniciarmos pesquisa para o começo de um trabalho, abrimos espaço para a entrada em um novo mundo. Refiro-me a um intervalo de tempo repleto de possibilidades a partir do qual tudo gira em torno de uma busca bastante peculiar. O movimento é ininterrupto e as descobertas, infinitas. É como se o princípio ativasse, por dentro, um mecanismo de transformação. Sairemos inevitavelmente modificados. A perspectiva de ser outra pessoa é tão real quanto o processo de amadurecimento das ideias, do conceito, do projeto como um todo. A documentação tem este poder interminável de surpreender. Você vira uma página e, de repente, dá de cara com um texto como o que segue abaixo, do Cláudio Villas Bôas. Difícil descrever o que senti, mas uma coisa é certa, o Brasil tem urgência em conhecer o Brasil. Mais além. A relação das pessoas, umas com as outras, precisa mudar. Da aproximação consciente e integrada, deste novo olhar sobre o outro, depende o futuro de todos nós.

 

* Extraído do livro O Xingu dos Villas Bôas  (Agência Estado, 2002)

 

Se achamos que o nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas, se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.

Antes do descobrimento do Brasil, o índio era mais feliz, mais pleno e mais autêntico. Hoje, está sujeito ao processo de nossa evolução. Antes do contato com os civilizados, os índios viviam dentro da simplicidade de seu sistema de valores e movidos unicamente pelas estimulações próprias de sua cultura tradicional. Eram povos não só auto-suficientes, mas absolutamente conscientes daquilo que eram como homens, como sociedade.

Hoje, mesmo com todo o avanço da civilização, tanto no setor da tecnologia como da ideologia, não vemos nem sentimos a presença de uma preocupação de atingir o justo. Isto é, o equilíbrio harmonioso de todas as sociedades humanas. A fatalidade histórica encaminha os povos a se fundirem num só.

O necessário, importante, justo é que essa integração de culturas e de povos seja uma decorrência do progresso. Referimo-nos ao progresso, não ao comumente entendido, mas ao progresso da consciência política e social do mundo em seu todo.

 

Rumos

novembro 21, 2014

A implantação do turismo de base comunitária maximiza o potencial de trabalho de diversas artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Promovida em parceira com a Raízes, a modalidade de receptivo é uma alternativa que gera renda e estimula o desenvolvimento sustentável em uma região devastada pela monocultura do eucalipto.

 

 

Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, foi capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.

Leia a íntegra, já disponível no site da publicação.

 

matéria de capa Revista Sagarana

 

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder o largo sorriso que estampa no rosto. Deixo na página o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!

 

 

 

Nota sobre a viagem

Esta é a primeira de uma série de reportagens que eu e o fotógrafo André Dib produziremos sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Estivemos em uma região de hábitos extrativistas, onde as comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora local uma alternativa para o desenvolvimento. Com a criação de áreas protegidas no entorno de inúmeros vilarejos, os moradores que tiravam o sustento da terra há séculos ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais. A falta de uma contrapartida do Governo gerou uma crise que se estende há mais de dez anos no centro-norte mineiro. O clima de tensão permanece. Entretanto, o trabalho conjunto entre população e agentes como empresas particulares e Universidades vem transformando a realidade social de dezenas de pessoas.

Projetos que integram preservação do meio ambiente e beneficiamento sustentável da matéria-prima disponível na natureza ampliam as perspectivas das famílias residentes. O texto e as fotos a seguir contam sobre a conquista de pessoas simples, que lutam pela permanência no seu lugar de origem. A roça é a razão de viver de quem nasceu e cresceu na zona rural. Passo a passo, os habitantes encontram um caminho próspero, que multiplica ideias e consolida a tradição. Tive o privilégio de conhecer esse universo de perto. Trata-se de um Brasil distante, invisível para muitos. A intenção de trazê-lo à tona é uma constante em minha trajetória como jornalista. Descobri na reportagem um instrumento de resgate da essência do povo brasileiro. A informação desperta a curiosidade, instiga a reflexão e abre portas para o diálogo entre as partes. A sociedade cosmopolita pode e deve conhecer melhor o interior do país. Vejo na troca de conhecimento uma possibilidade de fortalecimento da nossa cultura popular. Coloco o primeiro resultado de minha jornada ao lado do André à disposição dos leitores do blog. Espero que gostem.

 

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* Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2013 da Revista Terra da Gente.

Fotos André Dib

 

abre Revista Terra da Gente para FB

 

Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo. A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda dos habitantes dos prados do Vale do Jequitinhonha.

O extrativismo é a prática que sustenta as famílias residentes, formadas em grande parte por coletores, garimpeiros e lavradores. Mais de cinco mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil. Pesquisas realizadas nas áreas de ocorrência da Eriocaulaceae – a família da autêntica sempre-viva – apontam que 70% das espécies do mundo estão concentradas na cordilheira do Espinhaço, fator de grande apelo para a criação, em 2002, do Parque Nacional (Parna) das Sempre-Vivas.

Parque nacional das sempre-vivasO Parna integra o Mosaico de Unidades de Conservação (UCs) do Espinhaço e divide os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Tem relevo acidentado, nascentes d’água, montanhas vincadas atravessando o piso serenado dos campos repletos de bichos graúdos. Onças, tatus e tamanduás vagueiam pelo raso de veredas e buritizais. De geração em geração, a presença humana causou impactos na natureza. Segundo o biólogo Renato Ramos da Silva, coordenador de projetos na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), atividades desenvolvidas ao longo dos anos, como a coleta indiscriminada e a mineração, provocaram o esgotamento de mananciais e flores. “No final da década de 1990, espécies de sempre-vivas como a pé-de-ouro e a vargeira foram colocadas na lista de extinção. Houve a proibição do extrativismo dentro do Parque. A medida desencadeou um entrave que atingiu diretamente as comunidades tradicionais”, afirma.

O estopim para o conflito foi a falta de informação. “O governo criou a Unidade sem a participação das pessoas, que não tinham consciência de que, na região, havia uma reserva. Foi uma experiência traumática”, diz Silva. Dois agravantes são a instabilidade do manejo da flora – a coleta é irregular – e a indefinição sobre o ressarcimento dos donos da terra, pois nenhum hectare da UC foi desapropriado. O imbróglio ultrapassa as fronteiras da área protegida, multiplica demandas, gera crise de interesses e um desajuste econômico que restringe o desenvolvimento regional.

Márcio Lucca, biólogo e chefe do Parna das Sempre-Vivas, esclarece que um ponto fundamental é qualificar a informação com foco na ação conjunta. “Os proprietários nos cobram um retorno, mas não cabe somente ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque, regularizar as propriedades. Não temos um levantamento das terras para saber quais são as particulares, as da União, as que estão em situação de posse por usucapião. Tal limitação nos impede de delimitá-las”, diz.

 

Antônio Borges - galheiros

 

O estilo de vida peculiar dos povoados tradicionais revela a personalidade cativante de uma gente corajosa. Do anseio coletivo brota o ímpeto capaz de transformar a realidade social de inúmeras famílias. Projetos de manejo adequado da flora local surgem como alternativa que alia a preservação das espécies ameaçadas ao desenvolvimento sustentável da região. As novas perspectivas asseguram fonte lucrativa de trabalho e renda para os habitantes do Jequitinhonha.

LUCRO

Na comunidade de Galheiros, zona rural de Diamantina, os moradores substituem, há 12 anos, o extrativismo indiscriminado pela exploração planejada. Com o auxílio do Instituto Centro Cape, organização com foco no estímulo de competências empreendedoras dentro do setor informal, um grupo de mulheres atentou para a importância de realinhar o trabalho, criando, por meio da produção artesanal, amplas oportunidades de comércio. De acordo com a coletora e artesã Ivete Borges da Silva, a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de pai para filho. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos.”

 

Comunidade Rai¦üz - Maria Terezinha Alves

 

Para afastar a iminência de extinção das espécies e capacitar as famílias coletoras, técnicos especializados prestaram serviços de consultoria em gestão, custos e cadeia produtiva. Houve oficinas para inserção de metodologias que agregassem valor ao processo produtivo. “Com apenas 10 gramas de flor é possível conseguir o dobro do valor do quilo no mercado se você souber como transformar a matéria-prima”, diz Ivete. As mercadorias manufaturadas aumentaram a margem de lucro sobre cada produto e, consequentemente, o poder aquisitivo dos artesãos.

Fundada em 2001, a Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas é espaço de planejamento que impulsiona um negócio cada vez mais rentável. Há seis anos, os associados cultivam as espécies ameaçadas de extinção pé-de-ouro e chuveirinho para atender a um contrato com a rede de lojas de varejo Tok & Stok. Entre as peças produzidas estão luminárias, abajures, porta-guardanapos e arranjos de mesa. A matéria-prima vem de um campo experimental de 300 metros quadrados. Cada mês colhe-se um tipo de flor e cada associado extrai de 20 a 30 quilos por espécie.

Os artesãos também expõem em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte e participam de eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há dois meses, ganharam o mundo participando da mostra Mulher Artesã Brasileira, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva foi escolhida para representar Galheiros na exposição, que reuniu 15 artesãs de 12 estados brasileiros.

AUTONOMIA

Antônio de Zé Basílio(5)No interior da cadeia do Espinhaço, marcada historicamente pelo garimpo de ouro, diamante, cristais e minério de ferro, o berço de novidades não dá trégua. Imersa no jardim que germina rente aos paredões rochosos, outra iniciativa reacende a esperança nos povoados de Andrequicé e Raiz, distritos do município de Presidente Kubitschek. Em 2009, grupos de produtores passaram a investir na estrutura de viveiros de plantas com o intuito de resgatar espécies em extinção. Por meio do Projeto Flores das Gerais, que conta com a assistência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram instalados matrizeiros nas comunidades. A bióloga Luciana Teixeira Silva, gestora do projeto, conta que os participantes inseridos em um novo modelo de negócio têm o suporte de investimentos de pesquisa para o desenvolvimento de produtos diferenciados. “O ponto crucial é capacitar as famílias para que aprendam a se autogerir”, afirma.

Entre testes e diagnósticos, alguns anos de relutância se passaram. Em Raiz, os moradores, acostumados com o artesanato de capim-dourado – “uma espécie de sempre-viva”, diz Luciana –, resistiram a aderir ao trabalho de reproduzir em viveiros as riquezas do Cerrado. Sirley Ferreira Alves, artesã que abraçou a ideia desde o início, conta que “muitos ficaram sem saber se alguém ia querer comprar as plantas. Eu falei que ainda ia comprar o meu carro com essas mudas. Ninguém acreditou. Mas quando o caminhão parou aqui para levar o carregamento, começaram a pensar melhor.”

O caminho a ser seguido pelas comunidades isoladas do Vale do Jequitinhonha já aponta no horizonte. Uma simples comparação de preço incentiva o andar contínuo rumo a um novo tempo. O quilo das sempre-vivas mais comuns, como espeta-nariz, jazida, e botão-branco, não ultrapassa os R$ 3,00; enquanto o de uma muda cultivada pode chegar a R$ 25,00. Filha de Maria Flor de Maio, de 71 anos, que carrega no nome a constância arraigada da sempre-viva, Maria da Conceição Aparecida Ferreira, presença decisiva nos dois núcleos do projeto em Raiz, afirma: “As flores são tudo para a gente. Graças a elas, conquistamos os nossos sonhos.” E desta forma, os campos dos Gerais remetem a um Brasil distante, mas auspicioso. Para conhecê-lo, é preciso fazer mais do que percorrer estradas; é indispensável travar atenciosa travessia.

 

Campos de Sempre-Vivas Parque Nacional Sempre-Vivas (7)

Ponto de Cultura

abril 11, 2014

Foto divulgação

 

Engenhos de Farinha da Palhoça

 

Na luta pelo resgate dos últimos engenhos de farinha da Grande Florianópolis, um marco da cultura popular na região do antigo Desterro, o Ponto de Cultura, idealizado pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), tem como objetivo principal apoiar uma rede de agricultores familiares cujos engenhos continuam a funcionar. “O modo de produção secular passa por um período de quase extinção, vítima de um processo de desvalorização dos saberes tradicionais e impactos resultantes da urbanização acelerada”, afirma Gabriela Pieroni, coordenadora do projeto. As atividades partem de soluções criativas para inserir os pequenos proprietários nas dinâmicas econômicas da atualidade. A integração entre agroecologia e agroturismo fortalece a relação da comunidade com o meio, impulsionando o desenvolvimento social dos moradores de municípios como Paulo Lopes, Imbituba, Garopaba e Angelina. Interessados em conhecer a história e gastronomia local, contatem a Tekoá www.tekoabrasil.com

Nas palavras de um guri sabido, ce tá louco se perder!