Saúde Mental

maio 27, 2010

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Ai ai. A Martha Medeiros tem das suas. Vira e mexe, shrbum, lá vem nova crônica para sacudir os miolos. No domingo do dia 23 de maio, minha mãe exclamou da sala: “Carolina, a Martha hoje tá que tá. Vem ler isso aqui. Você vai gostar”. Ueba, pensei. O sinal verde abriu.

Saúde Mental era o título do texto. Confesso que foi à primeira vista, identifiquei-me na hora. Por quê? Respondo. Integro a tribo de seres capazes de se abrir a tal ponto que para sobreviver precisam, com o passar de sua existência, aprender a desviar das balas lançadas, sistematicamente, por franco atiradores. Não há escapatória. Cedo ou tarde, iremos cruzar com um.

O que temos em nossas mãos é a certeza da escolha. Há caminhos e caminhos. Optamos pelo enfrentamento primeiro de nós mesmos, depois da realidade de uma sociedade educada para temer, esconder e se alimentar de opiniões formadas. Não queremos a regra, o padrão, o politicamente correto, mas o céu, a liberdade, “o universo todo, incerto e mágico”.

Medo? No início. “Mas o segredo está em nos acostumarmos com a ideia”. Não deu para resistir. Agarrei-me em meu caderno cibernético para escrever estas linhas e, com todo o meu fôlego, publicar a crônica da Martha no blog. Voilá!

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 23 de maio de 2010.

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século 6 antes de Cristo, e que certa vez disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu livro (A Paixão, Caminhos & Descaminhos, em que discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.

Do nascimento à morte há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida? A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.

Dá medo, no início. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir. Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegida apenas pela consciência que tem de si mesma e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja só isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar. Já o sadio, baila sobre o precipício.

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Para encerrar, deu-me vontade de passar manteiga no pão. Como uma onda, de Lulu Santos, é uma ótima pedida.

 

Condição de Entrega

abril 21, 2010

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Domingo passado, enquanto lia o jornal, deparei-me com uma crônica da Martha Medeiros que resolvi publicar na página. O conjunto de palavras me tocou no ponto certo. Quando cheguei ao fim do texto pensei: é isso. Eu acrescentaria, ainda, uma pergunta para deixar no ar maior possibilidade de reflexão ou talvez para ser mais incômoda do que ela: por que a dificuldade de entrega é fato manjado em tempos modernos?

A resposta parece banal, mas há embutida nela a complexidade humana. O acesso a tal compreensão costuma ser restrito. Faz-se necessário o contato consigo, peça de difícil obtenção, mas fundamental para a abertura de um caminho mais sólido e oportuno. O porém reside na falta de um entendimento do outro e de si, ou seja, na ausência de comunicação. A escolha sempre tende a ser o eu, o self, a persona. Não há quem não queira amar e ser amado. Entretanto, na hora de mergulhar fundo, de se entregar ao outro, o que ocorre? Instinto de sobrevivência? Bela desculpa para não enfrentar o desconhecido.

Uma junção de fatores agrega excesso de racionalismo à conduta das pessoas. Alguns deles são o medo; o individualismo; a resistência, já que a perda do controle não consta no manual de instruções criado por seres humanos; a imaturidade, pois o compromisso afetivo exige que responsabilidades sejam assumidas; e a indisponibilidade. Há uma tendência de se associar o vínculo amoroso à perda da liberdade, o que, inúmeras vezes, acontece mesmo porque as pessoas, de modo geral, não sabem se relacionar. O sentimento de posse, o ciúme descomunal e a intenção de mudar o outro (ah, isso ele (a) vai perder com o tempo) são ingredientes antiamor, predadores de qualquer perspectiva.

Para o amor não há plano, receita, estratégia, fórmula, feitiço, nada. Há quem diga: eu não vou me jogar do alto sem saber o que me espera lá embaixo. Olhar para baixo procurando certezas é um ato vazio. Não existem certezas, apenas oportunidades. Joguemo-nos com tudo, sem titubear. Correremos o risco de nos esborrachar? Sem dúvida. Caso isso não aconteça, o encontro será pleno. Para amarmos, precisamos, primeiro, abrir mão de qualquer garantia.

Eu sempre apostei nisso. Oh, yeah!

Segue abaixo a crônica da Martha. Concordo com ela e sei que existe muita gente por aí que concorda conosco. Hoje, a minha irmã caçula comentou, sem entrar em muitos detalhes, sobre uma entrevista do Chico (Buarque) na qual ele cita Michel de Montaigne. Em seus escritos, o autor fala da perda de um amigo que morreu jovem. Perguntaram para ele na época: o que você gostava nele? Montaigne respondeu: Huuuum, eu não sei explicar, só sei que gostava dele, e ponto. Após quinze anos, ao repensar a resposta que deu, ele acrescentou: eu gostava dele porque era ele, e ponto. Depois de mais quinze anos, reviu a resposta, e incluiu: eu gostava dele porque era ele e eu, e ponto.

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 18 de abril de 2010.

Acaba de ser revelado o que uma mulher quer – e que Freud nunca descobriu. Ela quer uma relação amorosa equilibrada onde haja romance, surpresa, renovação, confiança, proteção e, sobretudo, condições de entrega. É com essa frase objetiva e certeira que Ney Amaral abre seu livro Cartas a uma Mulher Carente, um texto suave que corria o risco de soar meio paternalista, como sugeria o título, mas não. É apenas suave.

Romance, surpresa, etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que o amor ideal exista, mas “condição de entrega” me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.

Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?

Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência. Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.

A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa.

A condição de entrega se dá quando se sabe que não haverá julgamento sumário. Diga o que disser, o outro não usará suas palavras contra você. Ele pode não concordar com suas ideias, mas jamais desconfiará da sua integridade, não debochará da sua conduta e não rirá do que não for engraçado.

É quando você não precisa fingir que não pensa o que, no fundo, pensa. Nem fingir que não sente o que, na verdade, sente. Havendo condição de entrega, então, a relação durará para sempre? Sei lá. Pode acabar. Talvez vá. Mas acabará porque o desejo minguou, o amor virou amizade, os dois se distanciaram, algo por aí. Enquanto juntos, houve entrega. Nenhum dos dois sonegou uma parte de si.

Quando não há condição de entrega, pode-se arrastar, prolongar, tentar um amor para sempre. Mas era você mesmo que estava nessa relação? Condição de entrega é dar um triplo mortal intuindo que há uma rede lá embaixo, mesmo que todos saibamos que não existe rede pro amor. Mas a sensação da existência dela já basta.

Reflexões

setembro 27, 2009

Macaca editadaHá muito tempo não via luar como aquele. Movimentava-se entusiasmada com a sensação gostosa de soltura que o banho lhe proporcionava. O rio se ampliava à luz da lua, cheia de uma primavera que insidia ardente. Nada a faria parar. Eram mãos e pernas a tomar as águas com a frescura de seu corpo macio e arredondado…

– Eu adoro este lugar. Como é lindo!, exclamou a macaca. A ilha possuía belezas singulares: montanhas, verdes de tonalidades mil, rochas encravadas entre céu, costões e a imensidão azul do mar, praias de areias claras a brotar aqui e ali. – Viver próxima a tanto é um privilégio para poucos! A maioria dos seres reside em locais turbulentos, degradados e estressantes. Eu não. Pelo menos por enquanto. A bichana continuava angustiada pela dúvida que residia em seu peito há alguns pares de meses. – Tenho pensado em me mudar para uma grande floresta, destas esculpidas pela mão do homem, onde árvores de plantio secundário se amontoam junto a uma terra cuja composição nutritiva já não se faz presente há décadas. Não tem sido fácil decidir. Sinto-me dividida entre as oportunidades que lá existem e a qualidade de vida que conquistei neste pedaço de paraíso. Splach splach, chacoalhava-se à beira-d’água ainda em estado de graça com os sabores que o momento havia lhe concedido da epiderme à corrente sangüínea.

– E agora? O mais difícil na vida não é a constatação de determinadas coisas. Comprovar é tomar para si o resultado do macaco artísticodesenrolar das histórias. Perceber é se manter atento aos passos dados, um de cada vez. A macaca estava prestes a tomar novo rumo na vida. Enxergava o caminho a seguir de forma tão clara que até a ela causava espanto tamanha transparência. Uuuuuummffff…suspirava enquanto a pele era tomada por uma efervescente rajada de arrepios. – Cheguei ao ponto que muitos chamam de encruzilhada ou momento exato em que a trilha se divide. Posso definir sem pestanejar que me encontro na fase X da questão. De agora em diante, ou vai ou racha. Tenho uma escolha a fazer. A boa notícia é que conheço meu potencial, minha qualidade simiesca e minha necessidade de estruturar um plano estratégico sólido. A dúvida se instala nas perguntas que me consomem no decorrer do trajeto: chegarei aonde quero ficando? Há meios de vencer habitando um ecossistema cujo mercado de bananas é incipiente? Preciso avaliar, ponderou a símea enquanto se esfregava no tronco de árvores vizinhas. Passeou pelo entorno em direção a sua casa. Respingos marcavam o seu rastro sobre a relva.

– O que valerá mais a pena? Devo buscar conselhos de macacos velhos. Pensei que já tivesse encerrado o assunto, mas vejo que não. Minhas ideias seguem trementes, noto-me aflita…arg. Como sei das experiências que quero ter mundo afora, vasculhando países, culturas e animais de espécies variadas, talvez o importante seja optar pela floresta central. O que me prende à ilha são as pessoas que eu amo, as belezas que me enchem o espírito e a qualidade de vida que este lugar me oferece. Por que escolheria viver longe do que para mim é bom? Sim, para abrir portas que me possibilitarão sair por aí a conhecer e reportar tudo o que por minhas vistas passar.

macaco1A macaca estava cansada. Fazia-se tarde, a noite rasgava as horas com a sua típica e insaciável rapidez. Findo o ritual de delícias nas águas do rio, a bicha tratou de escalar o tronco da Grande Árvore relaxadamente, pulando de galho em galho com cuidado para não acordar a macacada. No caminho, pegava-se sorrindo sem mais nem por que. Agradava-lhe a sensação de estar perto de sua família, de ter macacos tão especiais como mãe e pai, irmão e irmãs, cunhado e cunhada. Por ora eram apenas dois. Ela e sua caçula trilhavam solteiras a estrada da vida. Acontece! Amar não é para qualquer hora. Eis uma verdade primordial.

– Já amei, mas ou não fui correspondida, ou a distância derrotou perspectivas, ou fui enganada; enfim. Além do mais, o mundo está cada vez mais RO RO RO e os seres cada vez mais esquisitos, pensou balançando a cabeça com um ar de descontentamento. Encontrar alguém em contexto insólito é tarefa árdua. Deparar-se com animais de bom caráter e disponíveis é raridade. O importante é o amor que trazemos por dentro. O resto é pura sorte ou coincidência. Quem sabe um dia? Não vou me preocupar com isso agora. Tenho assuntos a resolver, mais urgentes e que dependem só de mim.

Foi quando avistou o seu galho, o predileto, aproximou-se dele, bateu as patas traseiras no ar antes de pisar a madeira, subindoacomodou-se, olhou para o céu, enxergou a lua e sossegou o pensamento. – Amanhã é outro dia. Independente da escolha que farei, o maior valor está na força de vontade. O talento não serve para muita coisa se não estiver acompanhado de muita força de vontade. Portanto macaca, dê o seu passo, tenha ele a direção que tiver, com a certeza de que está munida de ambos os quesitos. A modéstia que permaneça à parte sim senhora. Todas as suas conquistas são frutos do trabalho, da garra e da determinação. Há apenas um porém. Não vacile quando encontrar a sua resposta. Siga em frente porque nada precisa ser definitivo, mas oportunidades não vão e vêm. Como diz o ditado, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blá blá blá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram matraquear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem? Não. Isso é salutar? Oi?

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blá blá blás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo, mas não. Ocorre exatamente o oposto. O mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blá blá blá. Não menos desconjuntada, e crente de que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Discutiam sem  escutar uma palavra sequer.

blá1Blá blá blá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arrê, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blá blá blá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blá blá blás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos. Amigos consomem vitalidade agarrados ao blá blá blá. Equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca.

bla– Ah ah ah! Eu me divirto. Que seres tragicômicos. Ninguém merece. Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de “alguns filhotes”, há uma penca de desclassificados espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo na ponta da faca. Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pela ilusão da garantia, acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, frustram-se.

De repente, um estribilho, zum, crec, crec, alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a floresta com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. O restante do grupo ocupou pontos estratégicos da árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blá blá blá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem um casal de humanos de regresso para o alojamento. O bando logo dispersou. Em poucos segundos, todos estavam a postos ao lado da macaca. Pareciam absortos em rastro de luz e calor. Era o sol a cair no horizonte. Sentada na ponta de um galho, a bichana exclamou. – Ah! Isso é viver.

O cartesianismo de Descartes o conduziu por um caminho lógico, porém duvidoso. Sábio seria dizer sinto, logo existo!

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CAPÍTULO DE HOJE: Sabe lá

As delícias da juventude estão atreladas a um desenfreado entusiasmo cuja predisposição é pontilhada de dobraduras monkey-typing62que abrem e fecham o tempo todo. A boa característica da pouca idade tem a ver com a desgarrada frase: sem ter por que nem para quê. Vive-se simplesmente da parafernália embevecida de hormônios. – O que por um lado é muito divertido, constata a macaca. Não há como fechar os olhos para o gargalhar solto do bicho juvenil. Memórias de passos dados aos solavancos, do saracotear, do correr mundo e do sobressaltar o peito fresco – ainda em fase de maturação – são motivo de orgulho para uma fêmea recém-chegada à carreira dos 30. A macaca sabe disso, e sem pestanejar infla os poros da pele satisfeita de vida. Não consegue imaginar nada melhor do que a certeza de que é forte. Apesar de tropeços e fracassos, trata-se de uma símia de carne e osso  Tentei, enfrentei, fui até onde pude sempre.

O animal que descobre o rio e não se joga na água jamais saberá o gosto que tem um banho do tipo, não conhecerá o som que o corpo provoca em ambiente líquido, não experimentará os sabores da correnteza, não desfrutará da plena sintonia com o natural estado de ser. Fato é que tudo vale a pena, mas claro, é arguto utilizar de bom senso, cochicha sem a intenção de deliberar sobre seja o que for. Significâncias são conteúdo amplamente estudado pelo homem, que adora dizer que sabe. Vira e mexe, o tal bípede penetra a selva às avessas com a retorcida cara de pau do ser “racional” que é. Espalha-se como mamífero reinante, domina o espaço e comanda o princípio ativo do universo com a habilidade de um regente.

– Ô gente complicada. Percorre todos os caminhos do mundo para chegar à primária conclusão de que somente em se plantando é que tudo dá. Grande novidade!, repete a macaca para si enquanto deixa-se tomar pela reflexão. Encostada num dos galhos altos da grande árvore, ela contempla a retidão dos horizontes enquanto um sorriso maroto colore o seu olhar. Braços cruzados delineiam a posição descomprometida com as próximas horas. Termina por apoiar o queixo sobre os dedos da mão esquerda, suspira, relaxa, larga a musculatura e deixa o pensamento correr. – Disse o homem que provém do macaco. Estudos científicos comprovam o parentesco. Estou aqui há bem mais tempo e ainda não consegui entender a lógica de seu raciocínio avantajado, pondera.

– Será que alguém consegue me explicar por que raios os seres humanos não se apegam aos detalhes? Logo eles que se acham os monkey-in-doubt2tais. Regras básicas de sobrevivência passam despercebidas por eles. Eu hein! Nem todos têm a insípida aparência dos insetos, é bem verdade. Pelo legado de alguns, me ocorre que humanos, quando dispostos, podem desfrutar da imponência leonina num piscar de olhos. A fama de garboso mamífero alfa não vem do nada. Leões são dignos de reconhecimento. Cumprem a risca o seu papel e o fazem com a hombridade que lhes cabe. Por menor que seja o elo, ser associado ao felino é um privilégio para poucos. Pois então?

A macaca se esforça, mas não compreende. Está mais do que farta de ouvir dos experientes macacos da barba branca que o desatino vem do plantar de qualquer jeito, mesmo quando se sabe que a terra precisa de espaço para florescer. Bons frutos nascem da perseverança? Sim, mas acima de tudo brotam do cuidado, do zelo, da paciência em bem dosar o tanto que se tem. A mania de desbravar o chão sem a devida parcimônia causa no solo danos dificilmente reparáveis.

­ – Coisa tão óbvia! Banal, eu diria. Deixa estar. Eles que são gente que se entendam com suas impregnadas pseudo-definições do gastar dos dias. – Por isso não há razão para condenar a juventude. Não é mesmo? Quebrando-se a cara é que se aprende (ou não). Cada um com o seu cada qual. A macaca estava em um dia daqueles. Por mais que o sol brilhasse, dedicava-se à revisão dos acontecimentos. Foram anos de experiência a vagar por terrenos distantes. Formou-se com a coerência que se deve ter em momentos de escolha. Tomou a acertada decisão de seguir o coração. Saboreava com voracidade cada pedacinho do conhecimento que adquirira. Instruir-se é tarefa para uma vida, sem dúvida. Contar com a competência do que somos, contudo, é a materialização da pedra fundamental do porquê saltamos do útero feito bolotas. A macaca pensa que as conquistas são mais do que impulsos tomados de vigor. Após três décadas e dois anos desde o seu nascimento, ela está careca de saber que vitórias vão além do ato consciente da labuta. Vencer é romper as barreiras do dia com a clareza de que o fazer pede o acompanhamento apaixonado de temperos potencialmente estimulantes: respeito, confiança, paixão, transparência, disciplina, persistência, prazer, objetividade, prática e doses compatíveis de vontade entre o estabelecimento de metas e a realização do projeto.

­ – Ah Ah Ah! Não sei o que me deu hoje. A risada a trouxe de volta à realidade. O sol já havia se posto, a noite caía suntuosa e o céu transbordava de estrelas. Já era hora da macaca sair do transe. –Vou me jogar no rio, tomar um banho de descarrego e me debruçar sobre o frescor dos cheiros primaveris. Depois de uma tarde abraçada a conjecturas, o melhor que tenho a fazer é libertar o intelecto. Amanhã, tenho o dia inteiro para fazer e acontecer mais um bocado. Restabeleceu-se sem pressa.

– Mas que situação a minha. Tomei um tombo e agora passo horas refazendo o meu trajeto, pontuando cada monkey11um de meus experimentos, instante a instante, sem parar. Será que fui contagiada por um vírus do tipo que nos leva do A ao Z de nossa história? Destes que nos amortecem sem pedir licença? Invadem e pah, nos jogam aos traços mais remotos da memória? Bom, não estou maluca. Apenas me restauro na velocidade constante de quem precisa, vez em quando, da linha reta para não deixar passar pontos e vírgulas. Ah, sei lá. Já disse para mim mesma que não quero mais pensar por hora, e sigo batendo os neurônios. Chega! Af! O jeito é me lançar daqui de cima. Vou direto e sem intervalo para evitar que novas idéias interfiram em meu plano. Levantou, agarrou-se no galho e sem titubear consumiu seu comprimento em direção ao passo anterior à queda: “Iaaaaa”, gritou. O barulho estridente do som desafinado espantou a passarada que resolvera pernoitar nos arredores da grande árvore. Centenas de penas misturaram-se aos quatro ventos enquanto o frio na barriga levantou os pelos da silhueta arredondada da símia...yeah, baby! Cair de certa altura expõe qualquer animal desprovido de asas a sensações bastante previsíveis, não é mesmo? Tibuuumm!

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SAD SONGSmonkey81

amazonSou fissurada em música. Macaca de gosto eclético, moleca multifacetada, mulher transdisciplinar, ouvinte tomada pelo tesão – o tal que nos invade nas horas mais inusitadas ao simples clique de aparelhos e parafernália inventada pelo homo, este, de fato, com SAPIENS SAPIENS maiúsculo. Sim, porque a definição varia de acordo com o modus operandi do indivíduo.

Aos recém-chegados, acentuo que o conceito básico do dicionário macacal multiplica sarcasmo por estripulia com rapidez e habilidade. O negócio é sacudir os pilares terrestres e os além mundo – se é que estes existem –, sem medida, limite, fronteira, cabresto, frivolidades e marcha.

A macaca lança o verbo, lambe as patas e toca adiante. Nada de ou ou ou…se se se…mas mas mas…mas o quê? Vamos e venhamos que certos elementos monosilábicos da língua portuguesa servem mesmo é para atravancar a vida. Não é mesmo?

Bueno, sigamos! O que tento comunicar por meio deste rascunho desregrado tem a ver com a minha paixão descomunal pela música, por umas mais, outras menos, e aproveitar a deixa para dizer a todos que uma canção em específico rima e combina com todos os textículos da série “A macaca e o quadrilátero da esquisitice”, os quais apresentarei muito em breve. Outro dia, conto como sucedeu o descarrilhar deste acerto de palavras nada quadrado.

Refiro-me a uma canção que carrega nome fechado e partitura aberta: Sad Songs. A obra, composta e eternizada por Sr. monkeytyping4Elton John, retrata momentos difíceis pelos quais todos passamos – desalmados fora –, e que nos incomodam e, ao mesmo, tempo inspiram. Incomodam porque causam sofrimento; inspiram porque nos entregam de bandeja a reflexão. É!

O melhor da história foi o que o aclamado – pela macaca, com certeza –, cantor e compositor inglês fez com a mistura. Ele a canta em ritmo extasiante. Vai mais ou menos assim: “Sabe quando sente certa necessidade de dividir um tanto de dor com o mundo? São tempos em que precisamos ouvir rádio. Somente os lábios de antigos cantores entendem o que se passa conosco. Então, ligue-o e ouça músicas tristes.”

A tradução literal: “Escuta, quando estamos na fossa a fórmula para extravasarmos é simples: ligamos o rádio e ouvimos apenas músicas de dor de cotovelo, melosas, deprimentes. Portanto, opte pela estação love songs e se deixe invadir por tais melodias. A macaca solta a franga…na BOA. Fantástico! Ponto para Elton John. Mais um!

macaco4Guess there are times when we all need to share a little pain And ironing out the rough spots Is the hardest part when memories remain And it’s times like these when we all need to hear the radio `Cause from the lips of some old singer We can share the troubles we already know Turn them on, turn them on Turn on those sad songs When all hope is gone Why don’t you tune in and turn them on They reach into your room Just feel their gentle touch When all hope is gone Sad songs say so much…

 

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Os lados de um quadrilátero são a composição quase perfeita de todas as experiências de uma vida. Quase porque o artigo mais consultado de toda a história da lei da selva determina: 1° – Nada é perfeito. “Ainda bem, senão onde eu iria parar?”, pensa a macaca.

Em resumo, “as paredes” de um quadrilátero contêm as cores e a graça dos primeiros anos de um símio. Aprender a andar é um processo árduo e de contundente esquisitice. Causa de arrepios, tremedeiras e embrulhos cerebrais, ele perturba o senso como todo o bom parto: inúmeras contrações, caretas e descompassos abdominais até que a bolota salta e do procedimento ventre afora surge o senhor bebê. Nascer mais de uma vez na vida tem a mesma cadência desembestada. Das vitórias às derrotas, o acorde é de um ritmo que afina e desafina de acordo com a decisão de estar e pertencer no chamado cotidiano.

A macaca repete para si a cada amanhecer da quente vastidão da floresta: “Nascemos e crescemos para nascermos e crescermos várias vezes durante todos os anos de nossa existência. Troço estranho, porém absolutamente natural este”. Espirituosa e determinada, a macaca sempre soube o que queria. Poucos foram os momentos que titubeou quando o assunto era o desbravar dos mistérios de toda a selva extensa, tomada pelo sol e por animais para lá de curiosos.

O que havia se passado, contudo, era algo de terrível. Perdera o rumo e sua alegria de viver. Sem mais nem por que, decidira se esconder num canto escuro da alma arrasada. Passou meses a fio de cabecinha baixa. Com seus largos beiços vazios de sorriso, arrastava a pança rosada por sobre as gramas úmidas de um inverno chuvoso e cinzento.

– Mas que droga, resmungava. Tanto foi o que entreguei para ele e o que sobrou é o nada, mais oco do que o galho que me derrubou. Será possível? Quantas cabeçadas terei de dar até que aprenda a caminhar com alguma decência pelos terrenos de meus anos? Já tenho uma certa idade, não é mesmo? Então por que diabos ainda me arrebento de forma tão dramática?

Ele foi o bicho macho que a macaca mais havia amado. A descoberta de que se tratava de um verme a decepcionou.

“Credo!”, exclamou, incrementando o vocabulário da autopunição: Como pude colocar sobre meu coração uma tarja deveras preta?” O consolo, mas não desculpa, era saber que quando nos apaixonamos, na maioria dos casos, e certamente existem exceções, entramos em um processo de emburrecimento tamanho que negamos até as sábias palavras da mãe – a mundialmente conhecida macaca velha.

Mal findou a frase e mais um turbilhão lacrimal escorreu de seus olhos, que a essa altura estavam tão esbugalhados que nem óculos escuros dariam jeito de disfarçar sua ultrajante condição. Gritava de dor, esmurrava a terra que escolhera, há dois anos, para construir seu futuro junto à macacada esplêndida que a convocou com afeto e demasiada simpatia para a lida do princípio de caminho.

A grande árvore era tudo o que a macaca sonhara. Jardim colorido e perfumado; varanda com gradil de cipó apuí; tronco de madeira de lei, alto e robusto; galhos de tamanhos variados e bem distribuídos. Um lar; enfim, – sólido e consistente. A macaca foi muito bem acolhida pela família. Havia chegado de uma longa e exaustiva viagem. Estava cansada por conta da super dosagem de uma aventura ardida. A formação do indivíduo, seja ele da espécie que for, é tarefa complexa. As lições exigem disciplina e comunhão de corpo e mente. Questão a ser trabalhada pela experiência é a impertinência da mocidade. Bichos jovens têm por hábito acreditar em poderes sobrenaturais.