A recruta malabares

setembro 1, 2013

monkey_typing

Autora sacode a poeira e volta à cena para dar o recado.

Confira os porquês da escassez de bananas na árvore mais robusta da selva às avessas. A floresta do inverso atende pela alcunha de realidade, a imperativa sinhá do hoje e sempre.

 

O chavão ‘estar com a macaca’ coube na símia como tailleurzinho by Chanel. A rotina de trabalho, inexorável de março para cá, tomou a bichana de tal maneira que quase tudo a tem levado ao contumaz bater de teclas. Em ritmo frenético de entrada da primavera, o que poderia encaixar melhor em constituição rotunda do que incontáveis horas de labuta? Ao corpanzil da macaca se integram desafios para além do feijão com arroz. O princípio tem a ver com experimentar novidades, aprender com o que a vida traz de fresco, desbravar mundo ao lado do que há de mais transformador, a superação de limites, dia após dia.

São milhares de caracteres a tomar páginas e mais páginas, definição de pautas, distribuição de tarefas, apuração de monkey_booksinformações, saídas a campo, inúmeros telefonemas, acertos com equipe, ajustes de projetos, revisão de materiais, fechamento de arquivos, checagem de provas, e para tudo há que se montar plano e manter foco absoluto na meta. Engana-se quem pensa que a história tem um ponto final. Reza a lenda que a dita faz o tipo sem fim.

O encerramento de cada capítulo exige mais do que o processo inteiro: contatos, ampliação de network, desdobramentos, imprevistos, decisões rápidas, objetividade, reuniões de última hora, e a lista segue sem freio por tempo indeterminado.

monkey_phoneQuem disse que é fácil? Viver em contexto contemporâneo é de ouriçar o fio do bigode. Cada passo, contudo, vale a pena. A símia transborda prazer em cada pequena coisa para a qual se dedica. Garra e paixão combinam com a escolha que fez para si. As últimas experiências, por exemplo, a fizeram encontrar caminhos e conhecer realidades surpreendentes. O que poderia ser mais fascinante do que o contato consigo mesma? Em meio ao turbilhão, somam-se constatações inesperadas, pois não há o que pareça mais complexo do que a maturação de quem somos.

A macaca olha para si com orgulho. Transpor barreiras é promover revolução. Esta vitória tem significado amplo, não se resume ao término de projetos profissionais, embora eles representem parte inebriante do todo. Não é específica. O brilho de seus olhos interage diretamente com a exploração de suas vias internas, canais por onde a força pulsa certeira; vincula-se ao reconhecimento de um valor próprio de quem sabe se relacionar com as suas verdades, sejam elas quais forem. – Voilà! Exclama de peito cheio.

Paul Auster abre o seu livro A Invenção da Solidão – excelente leitura –, com uma frase que a macaca considera fantástica. É de Heráclito. Diz assim: “Ao buscar a verdade, esteja pronto para o inesperado, pois é difícil de achar e, quando a monkey_resumeencontramos, nos deixa perplexos.”

Convidativo é o amanhã. Afinal, já diziam os antigos, o melhor ainda está por vir.

* * *

Psicodelia Jobiniana

Para dar fôlego ao rabisco inusitado, nada mais bem posto do que o som acalorado do maquinário a movimentar os dedos sobre as teclas. Trem de Ferro, poema de Manuel Bandeira musicado pelo maestro soberano Antônio Carlos Jobim, ajusta-se preciso a este deflagrado perambular.

a macaca em

junho 2, 2012

O Retorno Desvairado

Uma alusão ao sumiço da autora que vos escreve, que desde a sua mudança para São Paulo não conseguia agarrar faísca de tempo que fosse para se dedicar ao blog. Nada como um dia depois do outro…

 

DA FLORESTA CHAMADA REALIDADE: Macaca solta o verbo depois de intervalo prolongado em meio aos desvarios da vida selvagem

Reza a lenda que macaca saltita sem perder o rebolado. Tenho cá as minhas dúvidas, já que remelexos à parte, eis que a símia desapareceu por um ano após trocar a Ilha da Magia pela Grande Floresta.  O maior conglomerado de mata cachorro do seu país é habitat dos aturdidos pelo insano soar de tudo o que é Gigante, Infinito, Alucinado, e acima de tudo: Virado do Avesso. A macaca pula de um lado para o outro. Haja galhos para sustentar tamanha quantidade do que fazer.

A sua estada na nova morada tem sido uma aventura particularmente bela, conscientemente drástica. Encontros, descobertas, cada traço, cada senda abre uma nova janela de possibilidades. Tudo pode. Tudo serve. O contexto abrangente transforma a bichana em mais um elo universal de faces e formas. Na verdade, a floresta mais robusta das redondezas contempla o abstrato e o concreto ao mesmo tempo. A realidade bate nas fuças de quem chega na hora do pulo inicial. De galho em galho, o avesso se revela de maneira imperativa.

A macaca não sabe se ama ou odeia o lugar que escolheu para construir o seu caminho. Imagine um espaço onde aqueles que tudo podem e os que nada têm convivem amontoados e em contraste intolerável. São mais de 10 milhões de seres humanos trombando no alvoroço de trilhas abertas a qualquer custo em nome do progresso. Esse rebuliço de multimilionários e hiper miseráveis já foi chamado de A Locomotiva da Nação. Se o dito é válido, para aonde vai tanto dinheiro? A maioria dos animais residentes não vê a cor.

Em conversa de noite qualquer, um macaco nativo, falante e  nem um pouco pragmático contou à símia que, na mesma área desgastada pelas mãos do homem, o quádruplo de ratos se alastra por traçados subterrâneos. Ui. O quê?  Exato. Ao fazer a conta, melhor nem dar margem ao desdobrar dessa história. Prepare a mente e vá. A ‘rotunda ensimesmada’ coça a penugem capilar e indaga:

– Existe receita para um bicho alcançar o equilíbrio num centro desprovido de padrões básicos para o bem viver?

Sabe-se lá, mas o mais curioso para ela é constatar que, mesmo em meio ao ritmo surreal de uma selva tresloucada, os planos fluem, os sonhos ardem, e as coisas não param de acontecer. A símia para por um instante, espia o movimento frenético de cima do galho em que repousa após o dia de trabalho intenso e acena com a cabeça no lugar:

– A resposta é sim, valeu a pena arriscar.

Quem quiser, que conte outra.

E dá-lhe Caetano!

 

O Japão e a Mídia

março 18, 2011

Japão, 11 de março de 2011

Imprensa X Desastre

Há uma semana, um terremoto de 8,8 graus na escala Richter e posterior tsunami com ondas de até seis metros de altura atingiram a costa nordeste do Japão, devastando cidades inteiras. Em última atualização de autoridades do país, o número de mortos foi elevado a 6.911 e o de desaparecidos a 10.319. O governo japonês também luta para evitar um desastre nuclear após vazamentos ocorridos na Usina de Fukushima, localizada no entorno do epicentro do tremor.

São desastres de magnitude sem precedentes no país, como afirmou Naoto Kan, primeiro-ministro do Japão. Um acontecimento como este marca de forma trágica a história da humanidade. Há necessidade de noticiar, a população mundial precisa estar ciente das causas e consequências do acidente. O papel da imprensa, mais do que nunca, é o de informar, cobrindo os fatos, debatendo o tema, mantendo-se em alerta 24 horas para que tudo chegue a tempo ao conhecimento da opinião pública.

O por menor incide no excesso, no viés, nos meios escolhidos para transmitir o conteúdo. Faz sete dias que não se fala em outra coisa. Todos os veículos tocam a mesma tecla, as manchetes entopem o leitor, ouvinte, telespectador de detalhes em níveis entorpecedores. Existe limite entre o bem informar e o utilizar de material jornalístico para fins promocionais. Os próprios japoneses já pediram para que a imprensa pare, mas a insistência em seguir marcha parece não ter fim. Abusar de sensacionalismo e tratar da catástrofe como forma de ganhar dinheiro enviesa o processo e inibe o fluxo coerente, crítico e qualitativo do produto informativo. Infelizmente esta parece ser uma prática corriqueira da imprensa mundo afora. E o público? Que se dane. Uma mídia comprometida (no mau sentido), a qual presta um desserviço ao receptor de tudo o que ela desenvolve não está preocupada com o umbigo alheio.

Imagens Internet
 
 
Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero) do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by “The King of the World”. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, yankee guys classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que murmuram “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro (eco)! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de por assim dizer. Quá! A macaca sabe que em se tratando do espaço mais exótico do planeta tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. Um herói da selva às avessas.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pelos bailes da vida, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.

Fotos Internet
 
 

Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero)

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser. Quá!

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de somar ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha? Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Onde isso vai parar?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro (eco). Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o “bem da humanidade”, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. “King of the World”.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, pera aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah!

A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

– O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro (eco). Vixi!

A macaca em…

janeiro 9, 2011

Fotos e ilustrações Web

 

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto
 
 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua, a macaca retornou ao lar para começar o ano a todo vapor. Energia recarregada e voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro fim de semana depois do brinde da virada foi cheio de  aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de gente bizarra superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem. Horripilante!

A atmosfera exótica chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro. – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados. Os endinheirados se exibiam com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champagne francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações claras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?A cena é cinematográfica.

A verdade é que o bando de seres humanos que se divertia na praia do e$panto – templo de “semideuses” abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que ocorre do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam literalmente cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, símia residente da Grande Árvore, o vegetal mais apaixonante do conglomerado de mata cachorro, reduzida a um tamanho microscópico de ser qualquer?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá! O dinheiro banaliza a condição humana. Os excêntricos milionários carregam a certeza de que tudo podem. Infelizmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos? Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna são subordinados a uma choldra de dar dó. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que tudo mais vá para o inferno.

Quem quer dinheiro?

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* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

 

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

Um Quilômetro a Mais

junho 30, 2010

Na semana retrasada, fartei-me ao ler a coluna do Miguel Falabella, na Isto É.  Com boa dose de sagacidade, ele dá uma bela bitoca no narizinho dos bullies:  “(…) medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.” Texto elegante. Vale a leitural.

Falabella cita a Claudia Jimenez como exemplo de vitória da força e da competência sobre a incapacidade cruel de uns e outros. As sociedades estão impregnadas de estereótipos. O bullyng é perverso e pode causar sequelas graves. Não passa de uma série de intimidações proferidas ao léu por uma parcela de sujeitos com baixa autoestima. Ok. Há tentativa desesperada do bando de chamar a atenção. Ok. Mas agressões em massa, se não forem devidamente detidas, têm poder. Crianças e adolescentes têm o ego rijo para rebolar na hora certa? A intervenção dos pais e do setor pedagógico das escolas pode salvar futuros brilhantes. Há que se esticar um bocado até que se aprenda a desviar de pauladas verbais. Nem sempre um indivíduo indefeso, em fase de estruturação da psique, sabe enxergar a saída.

Os bullies não têm a capacidade de fazer por si. Por isso, partem para a ignorância. Medíocres, infelizmente, ora vencem, ora minguam. Depende. Cabe a nós, armarmo-nos com a certeza de quem somos e do que queremos. Como bem disse Falabella, “quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.”

 

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* Texto originalmente publicado na revista Isto É, página 170, em 16 de junho de 2010.

Dia desses, numa daquelas mesas divertidas no fim de noite, Claudia Jimenez mudou inesperadamente o rumo da prosa e nos contou o quanto sofreu no início de sua adolescência por causa do Bullyng imposto a ela pelos valentões da escola. Bullyng é o termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo, o “bully” (valentão), ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos). Segundo ela, para fugir do assédio e da intimidação, costumava trilhar um caminho muito maior na ida e na volta da escola, evitando as zonas consideradas perigosas.

O silêncio caiu sobre a mesa, e eu percebi, nos olhos de cada uma daquelas pessoas, que aquele quilômetro a mais que Claudia afirmava ter trilhado durante bom período da adolescência espelhava-se nos vários quilômetros extras que cada um de nós tinha percorrido em sua trajetória, na vã tentativa de fugir à intimidação dos valentões que povoam este planeta. Infelizmente, o bullyng não é apenas um fenômeno de adolescentes com baixa autoestima, tentando afirmar-se sobre aqueles que ele considera mais fracos. O desejo de bullyng cresce dentro desses indivíduos, amadurece na salmoura da crueldade e continua a nos assombrar vida afora, como aquele pesadelo recorrente que desejamos evitar.

Claudia, é claro, graças a seu inegável e imenso talento, sobreviveu às ofensas e chacotas cotidianas, transformando o sofrimento numa vitória pessoal, mas há aqueles que não suportam a pressão e se deixam abater. Nem todos têm o talento de um Truman Capote que, para fugir do bullyng dos colegas e do próprio pai que o chamava de Miss Sissy, descobriu que podia pegar um punhado de palavras e atirá-las para o alto, porque elas cairiam no lugar certo. “Como se eu fosse um Paganini semântico”, afirmava Mr. Capote. A história das artes, em geral, é recheada de contos de bullyng intelectual escondidos sob o manto da crítica. A poeta americana Emily Dickinson enviou alguns de seus trabalhos para Thomas Higginson, editor da “Atlantic Monthly”, uma respeitada revista literária, e ele comparou seus versos a espasmos sem controle. Anos depois, Mr. Higginson tentou retratar-se num artigo sobre as cartas da poeta, mas o dano tinha sido maior do que ele imaginava.

Não há como fugir do bullyng. Ele vem de todos os lados, e quase nunca temos tempo de identificar o agressor antes que ele possa atacar. Há, entretanto, uma atitude comum para aqueles que sofrem de bullyng e que deve ser adotada. O agressor faz o que faz em busca de atenção. Geralmente são medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.

Aproveite o quilômetro a mais nosso de cada dia para reafirmar seus credos, seus desejos, sua arte e seu encanto. Porque quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.

E, principalmente, entenda o seu agressor. Saiba quem ele é e você vai entender, como dizia o mestre Osho, que mais importante que o caminho é, sem dúvida, o caminhar. E isto, meu caro leitor, isto também passará.