Je suis Quem?

janeiro 13, 2015

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Eu não gosto do humor feito pela Charlie Hebdo. Na verdade, tive pouco contato com a publicação durante a faculdade. Mas isso é o de menos. Se gosto ou desgosto, pouco importa. O que me incomoda é o fenômeno que acontece dentro e fora desta world wide web. De repente, muita gente se tornou especialista. Pessoas que, da noite para o dia, passaram a conhecer a fundo o histórico da revista francesa. Uns a louvam. Outros a massacram. Alguns assustadoramente acham que os jornalistas assassinados arcaram com as consequências de seus atos.

O mundo às avessas de Galeano está cada vez mais às vistas e o que resta ainda está em fase de gestação. Arrepia imaginar a proporção dos fatos, já que o fundamentalismo impera. E não é de hoje. Fundamentalismo religioso, político, midiático, social, econômico, cultural, ambiental e assim por diante. O que aconteceu dentro da redação e nas cercanias do prédio, em Paris, não é justificável. Da mesma forma que não se justifica o assassinato dos suspeitos pelo crime sem provas. A polícia matou às cegas com o amparo da lei. Não seriam ambos os atentados atrozes por ferirem o direito à vida?

Outra coisa que me faz pensar é a comoção internacional com foco. Por que o mundo se mobiliza tanto com uma chacina no Marais enquanto há tantas acontecendo ao mesmo tempo bem debaixo de todos os narizes do planeta? Faz sentido se abalar com uma e ignorar conscientemente a(s) outra(s)? A reação em cadeia é sintomática ou nada a ver? Sinceramente? Acho que falta reflexão. Não dá para apontar o dedo seja para o lado que for sem antes analisar o que se passa. Não é lendo matéria, artigo ou opinião de jornalista, como a minha, que expresso agora, por exemplo, que se chega a uma conclusão. Para enxergar o contexto é imprescindível que se realize uma investigação criteriosa. Mas em época de instantâneos, quem se disporia a dedicar as suas preciosas horas a tal propósito? Opiniões críticas e embasadas se formam ao longo do tempo. Que eu saiba. Ou pirei?

Ainda estou digerindo o que aconteceu. Lanço apenas uma ideia aqui. Não acredito em certezas nem tampouco em imparcialidade. Cada um que assuma a posição que melhor lhe parecer. Só cuidado, pois é muito fácil tropeçar nas próprias convicções. A colocação que faço pode soar como pura retórica. Que seja. Não deu para calar frente à tamanha brutalidade. Refiro-me a tudo o que se espalha por aí e não somente aos disparos ocorridos no dia 7 de janeiro. Segundo Galeano, o mundo às avessas é um mundo mal parido. Quem sabe chegou a hora de parirmos um novo mundo? É utópico acreditar que é possível? O uruguaio afirma que é ela, a utopia, que nos leva adiante. Serve para caminharmos. E nesta, estou com ele e não abro!

 

Ubuntu para todos nós!

junho 11, 2010

Estou tomada pelo fascínio. A África desperta em mim todas as sensações cabíveis à constituição humana. Não há explicação, palavras ou coisa que o valha. O que sinto vem das profundezas, corre quente por meus canais, é consanguíneo. Tanta voluptuosidade tem a ver com a minha origem. Quesito número um: nascemos (homo sapiens) no continente africano. Quesito número e tal: sou brasileira.

Tenho acompanhado a cobertura da Copa do Mundo pela televisão, pelos jornais impressos, pelas revistas e pela internet. Fui invadida pelo êxtase planetário, pela libido que emana dos poros de todas as gentes. O frenesi tem nome composto: Paixão Pelo Futebol. No próximo mês, este músculo cardíaco bombeará o sangue das nações que participam do campeonato. Ponto.

A África é sede dos jogos pela primeira vez. O momento carrega muito significado, pois o solo do continente traz a marca de séculos de destruição causada pelo homem branco. Na África do Sul, quantos anos de segregação e quantas mortes foram geradas pelo apartheid?  Em 2010, o País recebe de braços abertos e eufóricos os povos de todas as partes para a realização de uma Copa. Eis mais uma vitória de Nelson Mandela, este grande nome da história da humanidade.

Trata-se de uma bela oportunidade de conhecermos de perto o que a África possui de mais rico, cativante e atraente. Toda a beleza, impetuosidade e força está à mostra. Como bem disse a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em The danger of a single story, há muito mais do que tragédia, massacre e sofrimento para ser explorado em sua terra. Vamos tratar de abrir os olhos.

Ao assistir a um programa do canal ESPN, hoje à tarde, descobri uma “palavra golfinho”. Em poema de Aimé Césaire, a metáfora traduz o inesquecível. Ubuntu, exclamou o repórter uma, duas…seis vezes durante a apresentação da matéria. O vocábulo – que corria a boca solta pelas ruas de Johannesburg – pertence a um dialeto africano. Quer dizer muitas coisas. O que me chama mais a atenção, contudo, é o seu poder de integração.

Ubuntu rompe barreiras e desconstrói o preconceito racial. Eu existo porque você existe. O espírito de união da África se espalha pelo globo. Ubuntu para todos nós!

Encontrei um texto interessante, escrito por uma pedagoga chamada Fátima Reis. Para maiores informações sobre Ubuntu, clique aqui.

O Y da bandeira sul africana representa o encontro entre negros e brancos, que a partir do ponto em questão, passaram a caminhar juntos