Expedição Canastra

junho 16, 2016

Etcétera Oficinas Temáticas de Jornalismo Comunitário

São Paulo — a primeira de uma série que promoveremos nos próximos anos. Na Canastra, ensinaremos os alunos da Escola Municipal Guia Lopes a criar um jornal mural — veículo que destaca a função social da leitura e escrita, estimulando nos participantes a análise crítica das informações que absorvem diariamente.

A partir do ponto de vista regional, debateremos com a turma a produção artesanal de queijo, as histórias por trás desta tradição, as nascentes do Rio São Francisco, a vida do ribeirinho, que depende das águas para sobreviver, a fauna e flora do Parque Nacional e a importância da conservação da natureza para a manutenção das comunidades tradicionais da região.

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Ideias têm, por si, a força abençoada de uma perspectiva original, um olhar único, uma composição autêntica.

Não saiam daí, que este papo tá só começando…

Foto do parceiro pé na lama (com muito orgulho) Fellipe Abreu

 

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Realização Nascente Casa Editorial

Apoio Prefeitura Municipal de São Roque de Minas

 

Quilombolas somos nós

junho 22, 2015

Nota sobre passagem pelo Quilombo de Macuco

 

Comunidade Quilombola Macuco

Repórter e fotógrafo ao lado dos moradores

 

Maio de 2014

Chamam de grotas as beiradas de rio. Nelas, mora grande parte dos povos do Vale do Jequitinhonha. Depois da tomada dos chapadões pelo maciço de eucalipto – há 500 mil hectares de área reflorestada por aquelas bandas -, pouco restou dos recursos naturais. O que era difícil, tornou-se inviável a ponto da nova geração de moradores migrar para outros estados atrás do sustento. Os filhos de Macuco, comunidade quilombola da região, trabalham de cortar cana e colher café em fazendas do interior de São Paulo. Vimos várias mulheres se despedindo dos maridos e filhos.

Enquanto elas permanecem em casa roçando os seus quintais, os homens partem na tentativa de fazer dinheiro. Em que condições? Não comentam. Mas é dedutível. Disseram que até pouco tempo não sabiam que descendiam de escravos. Depois da descoberta, o primordial para eles é a conquista do reconhecimento e da demarcação da terra que lhes pertence. Luta que parece sem fim. Quilombolas somos nós! – repetem para quem quer que chegue.

O que chama a atenção é a força. Apesar do histórico, são séculos de opressão, não perdem a esperança. Na foto, um instante de soltura e muitas risadas depois de uma longa conversa sobre cultura, política e reestruturação social. Conhecer os recônditos do Brasil é uma experiência de reencontro com a identidade do país. Esta que precisa ser valorizada para que compreendamos o significado de unidade e completude. Cidadania ainda é uma palavra frágil por aqui, mas mudar tal realidade depende, acima de tudo, de cada um de nós.

 

Índio, a palavra da vez

abril 14, 2015

Fotos Fábio Nascimento e Lunaé Parracho

 

mob_4_Fábio Nascimento

 

Os índios, os quilombolas, as comunidades tradicionais têm alguma chance de sobreviver ao modelo de desenvolvimento a que estamos atrelados? Se a resposta for não, então estamos todos condenados. O maior desafio da sociedade brasileira hoje está diretamente ligado à manutenção destes povos, que dependem da terra, dos rios e das florestas saudáveis tanto quanto qualquer um de nós. Qualidade de vida tem a ver com qualidade da água, do ar, das matas, do solo; enfim, do ambiente que habitamos. Nesta semana, mais de mil lideranças indígenas se deslocam em direção a Brasília. O objetivo da Mobilização Nacional Indígena é a reivindicação dos direitos adquiridos pelos índios e salvaguardados por lei. Direitos estes que estão sendo ameaçados. Os deles e, consequentemente, os nossos.

Há três anos, os Guarani Kaiowá vieram a público manifestar, em carta aberta, a preferência à extinção do que à expulsão de suas terras. Houve mobilização em massa nas redes. Uma quantidade considerável de pessoas abraçou a causa, anexou o Guarani Kaiowá a seu nome no perfil do facebook, saiu em defesa da tribo. O gesto, mesmo que vindo das poltronas de diversas partes, de certa forma, resultou em um recuo dos interessados em tomar aquele espaço. Por que agora há uma apatia pairando sobre as vozes que se lançaram em 2012? A mesma causa está em pauta neste exato momento. E aí? Vamos calar? Ou aquele alarido não passou de um ato pontual? Bem provável! A falta de informação certamente sobrepõe-se à consciência coletiva quando o assunto é índio no país. Mas se houve aquilo há poucos anos é sinal de que existe um olhar crítico em latência sim. Vamos nos informar, romper a barreira do silêncio e nos apropriar dos códigos para participar do debate gente! O Brasil é de todos e precisa da sociedade civil unida para que dê uma guinada em prol do bem comum. Mais uma vez e incansavelmente recorro ao Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

Eliane Brum, em sua coluna de ontem, no El País, escreveu: “A conversão do público para o privado, em benefício dos grandes interesses particulares de exploração da terra e dos recursos naturais do Brasil, é o que está na mesa nesse jogo de gente bem grande. Cabe à população brasileira se informar e participar do debate, se concluir que este não é o projeto de país que deseja. Por causa dos povos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos? Me parece que seria motivo mais do que suficiente. Sobre os índios, em especial, aqueles que têm grandes interesses nas riquezas das terras que ocupam, costumam espalhar preconceitos como o de que seriam “entraves ao desenvolvimento” e o de que não seriam índios “de verdade”. Mas entraves a qual desenvolvimento e ao desenvolvimento para quem? E o que seria essa categoria, “um índio de verdade”?”

Tá na hora de sairmos da zona de conforto!

 

mob_2_Lunaé Parracho

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Para mais informações, acesse o blog da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil aqui.

Leia a coluna Os índios e o golpe na Constituição, da Eliane Brum, publicada em El País.

Disponibilizo também o link para a galeria publicada no site da National Geographic Brasil com mais imagens dos fotógrafos Fábio Nascimento e Lunaé Parracho.

Abaixo, o discurso do Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental (ISA) em sessão plenária do Congresso durante a semana: “As Terras Indígenas são importantes somente para os povos indígenas? A resposta a esta pergunta é negativa. Gostaria de lembrar que recentes estudos comprovam que as Terras Indígenas exercem um papel fundamental e essencial para a sobrevivência de todo o planeta. Se a proteção dos direitos indígenas não será feita em seu próprio benefício, que seja feita em benefício de toda a comunidade mundial.”

 

 

Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

Rumos

novembro 21, 2014

A implantação do turismo de base comunitária maximiza o potencial de trabalho de diversas artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Promovida em parceira com a Raízes, a modalidade de receptivo é uma alternativa que gera renda e estimula o desenvolvimento sustentável em uma região devastada pela monocultura do eucalipto.

 

 

Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, foi capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.

Leia a íntegra, já disponível no site da publicação.

 

matéria de capa Revista Sagarana

 

Fotos Tom Alves

 

sempre-viva, flor do Cerrado “O senhor já sabe: viver é etcétera…” João Guimarães Rosa

 

Nota sobre a viagem

O trecho que publico hoje na página fala sobre o morador de uma comunidade rural de Minas Gerais. Na vila de poucas casas, encolhida entre as montanhas, eu conheci seu Jóvi – ô cabra faceiro! É dono de bar, sanfoneiro, lavrador, mas acima de tudo, um exemplo de vida. Não houve agrura que o fizesse perder o largo sorriso que estampa no rosto. Deixo na página o registro de um instante de minhas andanças pelos rincões dos Gerais ao lado do fotógrafo Tom Alves. Há dois anos, desbravamos o interior do estado a procura das identidades do mineiro. As histórias, características e peculiaridades do povo revelam pontos em comum como força, criatividade, resiliência e bom humor. Há um, entretanto, que chama a atenção de imediato. Apesar dos percalços da vida na roça, ser é o verbo mais conjugado na prática do dia a dia. Por serem, acima de tudo, humanos, os habitantes de lugares longínquos mascaram-se menos, não perdem tempo com o que não é essencial e transformam dificuldades em oportunidades. Eis a maior lição que levo dos encontros que já tive. Um detalhe quase imperceptível à primeira vista, mas que faz toda a diferença. Tal descoberta marcou a minha caminhada, mudando o meu olhar de forma definitiva. Que venham as próximas curvas da estrada, e que sejam ainda mais desafiadoras. O segredo está no jeito de experimentar, não na experiência em si. Estou pronta para colocar o senso à prova. Nada como pisar o chão devagar e com afinco.

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Histórias de um país desconhecido…

 

seu JóviEm Santo Antônio, povoado limítrofe do Parque Estadual do Rio Preto, Juventino Ferreira dos Santos, 67 anos, é o dono do Bar da Alegria. Seu Jóvi é o caçula de 13 irmãos. “Pelejo desde menino na lavoura. Mesmo com o pé torto fiz a vida”, diz. Em 2010, abriu as portas do lugar que funciona como ponto de encontro. As festas promovidas pelo sertanejo lotam em fim de tarde. “Eu toco sanfona, invento moda, faço repente.” Participa quinzenalmente de um programa musical da Rádio Comunitária de São Gonçalo de Rio Preto. “Aqui tem muito artista. No meu terreiro, já juntamos mais de 800 pessoas. Teve gente dançando no curral, debaixo do pé de manga. Vale tudo pela alegria”, comenta.

 

Fez-me lembrar de Renato Braz e comitiva da peste interpretando um clássico do nosso cancioneiro… ouve só!