Refugiados: quem são?

setembro 15, 2015

Fotos Lilo Clareto, Nilüfer Demir e Sebastião Salgado

 

refugiados do desenvolvimentoA primeira vez que vi os refugiados da contemporaneidade foi em Êxodos, trabalho primoroso de Sebastião Salgado. Entre saber e enxergar há uma distância considerável. Vide o corpo do menino sírio que chegou à praia na Turquia. Todos sabiam que milhares de pessoas estão em trânsito pelo mundo, mas somente depois da foto do menino morto ser estampada em todas as timelines e afins é que a barbárie da guerra na Síria causou algum tipo de “movimento.” Um mexer-se indiferente. Qualidade comum ao Ocidente.

As imagens de Êxodos me tiraram da redoma em que nasci, protegida pelo privilégio de fazer parte de menos de 10% da população do planeta, e colocaram dentro do contexto global. A realidade sem meio termo. Desde então convivo com a consciência de que populações inteiras vagam sem destino por estarem à margem do sistema, por terem sido expulsas de suas terras, pela falta de perspectiva, porque há muito foi instituído pela sociedade que o sentido da vida está em ter. Quem sou eu se não tenho? À resposta cabem muitos dos valores definidos pelo homem moderno – valho se, e somente se tiver acesso a bens de consumo; se, e somente se rentabilizar o suficiente para adquiri-los. Do contrário? Não sou ninguém. Não valho nada.

Pois, se a palavra ser está invariavelmente conectada à gênese do lucro; se nos moldamos assim, dependentes dos jogos de mercado, do plano financeiro; então, sabemos: o corpo daquele menino sírio na praia é reflexo deste modelo estabelecido do qual todos somos cúmplices. Cada um de nós, quer queira ou não, ajuda a alimentar esta gigantesca máquina de entortar homens. No Brasil, o cenário não é menos alarmante. Há um número inestimável de gente sem rumo, “que já não encontra o destino dos pés”. São refugiados do desenvolvimento. Um deles, uma mulher chamada Antonia Melo, é personagem desta coluna da Eliane Brum. Recomendo a leitura e, de lambuja, a reflexão!

 

corpo do menino síria na praia turca

 

Êxodos Sebastião Salgado

 

Mais sobre a jornalista no seu blog Desacontecimentos e sobre Antonia Melo, uma das principais líderes comunitárias em Altamira (PA), no site do Movimento Xingu Vivo Para Sempre.

No link a seguir, informações de como ajudar os refugiados sírios no Brasil e no mundo.

 

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Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB