Brasil:”nunca mais”

abril 19, 2016

Foto Web Cartum Laerte

 

Laerte

Nunca pensei que fosse viver para assistir a um espetáculo de horrores como o destes dias atuais. Um gangster liderando uma casa de canalhas em prol do impeachment de uma presidente honesta. Poderia dizer que é só no Brasil, mas não. Parece-me que a verdade tem proporções abissais. O golpe em curso traz consigo o poder dilacerante de um sistema que sangra a humanidade ao mesmo tempo que reflete a sua face com a precisão de uma bala. O olhar vidrado de narciso é poeira rala nesta estrada de morte anunciada. Quem diria que na rabeira de 17 de abril, sem forças, palavras ou perspectiva, eu encerraria os trabalhos com uma frase de bandido? Não a proferiu em ato falho. Ele sabia exatamente os o ques e por ques de bailar sobre o precipício galhofando de todos nós. “Que Deus tenha misericórdia dessa nação.”

 

votação impeachment

 Câmara dos Deputados vota impeachment de Dilma Rousseff

 

 

 

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Índio, a palavra da vez

abril 14, 2015

Fotos Fábio Nascimento e Lunaé Parracho

 

mob_4_Fábio Nascimento

 

Os índios, os quilombolas, as comunidades tradicionais têm alguma chance de sobreviver ao modelo de desenvolvimento a que estamos atrelados? Se a resposta for não, então estamos todos condenados. O maior desafio da sociedade brasileira hoje está diretamente ligado à manutenção destes povos, que dependem da terra, dos rios e das florestas saudáveis tanto quanto qualquer um de nós. Qualidade de vida tem a ver com qualidade da água, do ar, das matas, do solo; enfim, do ambiente que habitamos. Nesta semana, mais de mil lideranças indígenas se deslocam em direção a Brasília. O objetivo da Mobilização Nacional Indígena é a reivindicação dos direitos adquiridos pelos índios e salvaguardados por lei. Direitos estes que estão sendo ameaçados. Os deles e, consequentemente, os nossos.

Há três anos, os Guarani Kaiowá vieram a público manifestar, em carta aberta, a preferência à extinção do que à expulsão de suas terras. Houve mobilização em massa nas redes. Uma quantidade considerável de pessoas abraçou a causa, anexou o Guarani Kaiowá a seu nome no perfil do facebook, saiu em defesa da tribo. O gesto, mesmo que vindo das poltronas de diversas partes, de certa forma, resultou em um recuo dos interessados em tomar aquele espaço. Por que agora há uma apatia pairando sobre as vozes que se lançaram em 2012? A mesma causa está em pauta neste exato momento. E aí? Vamos calar? Ou aquele alarido não passou de um ato pontual? Bem provável! A falta de informação certamente sobrepõe-se à consciência coletiva quando o assunto é índio no país. Mas se houve aquilo há poucos anos é sinal de que existe um olhar crítico em latência sim. Vamos nos informar, romper a barreira do silêncio e nos apropriar dos códigos para participar do debate gente! O Brasil é de todos e precisa da sociedade civil unida para que dê uma guinada em prol do bem comum. Mais uma vez e incansavelmente recorro ao Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

Eliane Brum, em sua coluna de ontem, no El País, escreveu: “A conversão do público para o privado, em benefício dos grandes interesses particulares de exploração da terra e dos recursos naturais do Brasil, é o que está na mesa nesse jogo de gente bem grande. Cabe à população brasileira se informar e participar do debate, se concluir que este não é o projeto de país que deseja. Por causa dos povos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos? Me parece que seria motivo mais do que suficiente. Sobre os índios, em especial, aqueles que têm grandes interesses nas riquezas das terras que ocupam, costumam espalhar preconceitos como o de que seriam “entraves ao desenvolvimento” e o de que não seriam índios “de verdade”. Mas entraves a qual desenvolvimento e ao desenvolvimento para quem? E o que seria essa categoria, “um índio de verdade”?”

Tá na hora de sairmos da zona de conforto!

 

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Para mais informações, acesse o blog da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil aqui.

Leia a coluna Os índios e o golpe na Constituição, da Eliane Brum, publicada em El País.

Disponibilizo também o link para a galeria publicada no site da National Geographic Brasil com mais imagens dos fotógrafos Fábio Nascimento e Lunaé Parracho.

Abaixo, o discurso do Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental (ISA) em sessão plenária do Congresso durante a semana: “As Terras Indígenas são importantes somente para os povos indígenas? A resposta a esta pergunta é negativa. Gostaria de lembrar que recentes estudos comprovam que as Terras Indígenas exercem um papel fundamental e essencial para a sobrevivência de todo o planeta. Se a proteção dos direitos indígenas não será feita em seu próprio benefício, que seja feita em benefício de toda a comunidade mundial.”