Hoje pela manhã, escrevi o depoimento a seguir como colaboração para o blog das Pedalinas, coletivo feminino de Ciclistas de São Paulo do qual sou a mais nova integrante. Na verdade, somos eu e mais algumas mulheres a dar as primeiras pedaladas na capital paulista. Deixei as participantes mais antigas do grupo à vontade para utilizarem o material da forma que melhor lhes parecesse. O resultado, para a minha alegria, foi um convite para eu integrar o hall de autoras da página do coletivo. Depois de receber um presente como este, fiz questão de produzir o meu primeiro post para o Pedalinas. Disponibilizo parte do conteúdo aqui para os leitores da macaca. Quem quiser, confira também.

Ciclistas experientes promovem oficina para grupo de 12 pessoas com o objetivo de estimular a autonomia da mulher no trânsito


DEPOIMENTO

Comecei a utilizar a bicicleta como meio de transporte urbano em março de 2011, em Florianópolis, cidade onde morava. Da Ilha, eu iniciei uma pesquisa intensa sobre o movimento ciclístico de São Paulo, já que estava em processo de mudança para a capital paulista. Foi quando descobri o coletivo e entrei em contato com as meninas, que me receberam de braços abertos. No sábado passado, dia 28 de maio, participei, pela primeira vez, de uma oficina promovida pelo grupo. Com o tema Pedalando na rua e Traçando caminhos, as ciclistas mais experientes apresentaram para cerca de 12 mulheres, entre veteranas e iniciantes, dicas sobre postura no trânsito, direção defensiva, mapeamento de ruas e avenidas alternativas para trajeto, opções intermodais e uso de ferramentas como Google Maps e Bikely para traçar rotas pela cidade.  Penso que a oficina foi um espaço de troca de informações, aprendizado e integração muito útil e fundamental para todas as participantes. Por meio de encontros como o de sábado, eu irei adquirir a segurança e os conhecimentos necessários para enfrentar sozinha o trânsito de São Paulo. A meta é vencer, a cada dia, uma barreira para conquistar o meu espaço como cidadã e usuária da bicicleta na cidade. Não será uma tarefa fácil, o desafio é grande, os perigos são reais, os motoristas desrespeitosos, mas esta foi uma escolha que fiz para a minha vida – uma das mais verdadeiras e belas – e não acho justo abrir mão do que sou e quero para mim e para o mundo por conta da imposição de uma cultura de mercado motorizada. As Pedalinas são peça decisiva na construção deste sonho. Obrigada meninas. Vamos em frente. Até a próxima.

Flyer da Oficina

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Olhar não é Enxergar

maio 31, 2011

Quando enxerguei São Paulo pela primeira vez, meu coração batia tão forte que mal cabia em meu peito. Passei a refletir sobre aquele emaranhado de sentimentos, todos disparados por uma única faísca: o contato. Creio que estar em algum lugar, habitar determinada cidade, circular por suas ruas e avenidas, partes e artérias não é a mesma coisa que explorar, desbravar, misturar-se, respirar, deixar-se levar, sentir-se imerso, contagiado por um espaço, seja ele urbano ou rural, familiar ou estrangeiro. Vida é a palavra que cabe como luva nesse quebra-cabeça chamado atualidade. Compartilhamos um mundo vazio de esperança, tenso em sua essência, reprimido por lobbies de mercado, murcho de humanidade. Onde reencontrar o brilho do olhar íntimo que adquirimos quando nos relacionamos com um jardim, uma praça ou alameda qualquer do bairro em que moramos?  Como lidar com a metrópole? Li agora um texto que me inspirou a retomar o palavrório que debruço sobre este pedaço de papel sintético. Chama-se O tempo em minha bicicleta. Escrito pelo jornalista Daniel Santini, autor do blog Outras Vias, ele conta com a participação de Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que Santini conheceu durante sua viagem para o Irã, realizada há meses. Trata-se de um relato belo, simples e instigante. Identifiquei-me com a leitura e decidi publicar no blog minhas primeiras impressões da cidade que não tem mais fim.

* * *

Em São Paulo

Seguem trechos de rabiscos meus para alguns. Divido com os meus leitores uma das experiências mais fortes e ricas de minha história. Por quê? Mudei-me para uma cidade que nem sequer o pé havia colocado, habito-a por conta e risco, carrego comigo a minha bicicleta e a força de quem conhece o seu valor. Minha intenção é a de conquistar.

Quer saber mais?

17 de maio de 2011

ENCONTRO

Cheguei em São Paulo no dia 16 de maio de 2011. Desde então, misturo-me com a cidade. Que sensação indescritível. Não é apenas o espaço urbano a me invadir inteira dia após dia, ou a quantidade de afazeres, a organização das coisas, mas sou eu, só, porém mais acompanhada de mim do que jamais estive na vida, a me abrir para um mundo completamente novo, a escrever uma nova página de meu caminho. Não consigo parar de tremer, tamanha a emoção a me desmontar e montar de novo, a me desarrumar por dentro para em seguida colocar no lugar. O que isso?

Afirmo de prumo: nunca foi tão bom sentir o coração bater.

24 de maio de 2011

Cada novo passo meu na capital paulista abre milhares de janelas, portas, gavetas e horizontes. Uma coisa descomunal e praticamente descontrolada, já que a enxurrada de informação a ser absorvida parece interminável. Se duvidar, acho que esse é o melhor termo para definir São Paulo: INFINITO. Tenho que me adaptar a essa nova realidade, já que vim de um pedacinho de terra maravilhoso, mas pequenino. Morei cinco anos e meio em uma Ilha com o número de habitantes que dois bairros de São Paulo possuem.

A vontade que tenho é de devorar tudo. Os meus novos amigos se divertem comigo. Dizem para ter “caaaaaaaaalma Carol, você terá tempo de conhecer tudo o que quiser. Devagar e sempre”…devagar e sempre? Paulistanos vivem em uma megalópole maluca e desenfreada e acreditam no vagar dos dias e das descobertas. Belo paradoxo.

Há contrastes de todos os tipos, belezas e feiúras, uma overdose de gente, concreto, poluição – vira e mexe, chega a doer respirar -, ruas, avenidas, carros, sobes e desces, barulho, comércio, arranha-céus, viadutos. Como um amigo comentou: moramos na cidade dos superlativos.

* * *

Para ilustrar o turbilhão, publico algumas fotos que andei tirando em minhas idas e vindas.

Arquivo Pessoal
 

Avenida Paulista

Uma das inscrições que integram a fachada do Hospital Santa Catarina. Assino embaixo.

Prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)

Museu de Arte de São Paulo (Masp)

Avenida 23 de Maio entre 15h30 e 16h

Viaduto do Detran com bicicletinhas pintadas por Marcelo Siqueira

Parque Ibirapuera

Há Araucárias no Ibirapuera

Grafitagem, Museu Afro Brasil, Ibirapuera

Pôr-do-Sol em São Paulo

Parque da Aclimação

Sim, cruzo com cenas como esta em São Paulo

Imponência clara e verdadeira

Contraste. Olha a cidade lá fora, fazendo-se presente, mas sem abalar a força das árvores

Bicicletada de maio. Pedal de 3h percorreu o Centro antigo. A cidade pulsa por todos os seus poros

Marcha da Liberdade pelo direito à expressão, pela democracia do espaço, por uma cidade plural

Direto do MObfloripa

maio 4, 2011

EXTRA SIMIESCO

A macaca agora está no MObfloripa

“O MobFloripa, ou Guia de Mobilidade de Florianópolis, oferece informações sobre os meios de transporte da Capital. Aqui você encontra dados completos sobre o transporte coletivo, como horários de linhas de ônibus, tarifas e itinerários, transporte rodoviário, táxis, aviões, embarcações, aluguel de diferentes veículos, caronas, opções para portadores de necessidades especiais, novidades, links, downloads e muito mais.”

viaMObfloripa.

Bicicletada Floripa

maio 2, 2011

RELATO

29 de abril de 2011

Data de mais uma Bicicletada na Ilha da Magia. Sorte a nossa, pois a noite estava linda, estrelada e fresca. Lá fomos nós a pedalar pelas ruas e avenidas da cidade. Minha segunda atividade em coletivo ciclourbano e já me senti em casa. Confesso que o medo do trânsito ainda é uma constante. Os motoristas não compartilham as vias, buzinam nos momentos mais inusitados sem razão, mantêm a velocidade alta ao nos ultrapassar e não respeitam a distância de 1,5 m do ciclista. São inúmeras as situações de perigo. No início, senti-me tensa, mas com o passar dos minutos ao lado do grupo eu logo relaxei. A paixão e o propósito sempre falam mais alto. Acredito que temos que nos arriscar pelo que amamos e queremos para nós e para os outros. Como muito bem escreveu o jornalista Thiago Benicchio, “lidar com as adversidades talvez seja a parte mais difícil da vida. Mas viver ainda é melhor que sonhar.”

Nosso pedal levou mais de duas horas, percorremos os bairros Trindade, Agronômica e Centro passando por: Lauro Linhares, Bocaiúva – a ciclofaixa desta rua continua tomada pelos carros, que estacionam despreocupados –, Gama D’eça, Osmar Cunha, Hercílio Luz, Mauro Ramos e Beira-Mar Norte, entre outras.

Deixo na página o registro de minha alegria. Foi muito bom pedalar com o grupo de Floripa, unido, integrador, consciente, bem-humorado, bonito, especial. O “plantão” será mantido em São Paulo, dentro do possível, para a produção de conteúdo sobre a bicicleta, sempre inserindo-a ao espaço urbano e aos problemas que o ciclista encontra diariamente.

Bora!


Fotos Fabiano Faga Pacheco e Vinícius LR
 
 
 
 

Mobilidade Urbana

abril 30, 2011

Que tipo de lugar você quer para viver?


Sessão 2 – Andar de Bicicleta e Andar a Pé: Uma nova perspectiva para as sociedades dependentes de carros

Participei do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, realizado em Florianópolis nos dias 26 e 27 de abril. O evento serviu de espaço para o debate em torno de temas como a acessibilidade de pedestres e ciclovias, as estratégias e o planejamento para soluções em mobilidade urbana e o futuro das tecnologias modais. Houve a participação de grandes nomes da mobilidade urbana internacional como Guillermo (Gil) Peñalosa – coordenador da ONG “8-80 Cities” (Canadá); Niklas Sieber – secretário executivo da Transport Training Initiative – TTi – (Alemanha); Ton Daggers – diretor da Movilization Foundation (Holanda); Rodney Tolley – diretor do Walk 21 (Inglaterra); e Patrick Daude – coordenador Cities For Mobility (Alemanha).

Os especialistas apresentaram projetos implantados em cidades como Stuttgart, Paris, Sevilha e Amsterdã. Processos efetivos de transformação urbana contaram com a inclusão do sistema cicloviário e dos espaços públicos para a circulação de pedestres nos mapas daqueles municípios. A meta foi reduzir o uso de veículos automotores em prol da qualidade de vida dos habitantes. Não há como negar, o excesso de carros circulando por ruas e avenidas cada vez mais estranguladas gera um problema grave em centros urbanos do mundo inteiro. “What kind of place do you want to live?” foi a pergunta chave que norteou as discussões.

Os palestrantes esclareceram sobre o quão importante é: 1. produzir um plano mestre para a utilização de diferentes tipos de modais, 2. integrar rotas cicloviárias inteligentes para facilitar o deslocamento dos usuários e 3. haver pesquisas periódicas junto à comunidade para que as pessoas possam se informar a respeito, entre outros. Destacaram também a necessária promoção de políticas públicas que priorizem a diminuição do tráfego de carros nas cidades e a criação de espaços de convivência em locais que abrigam ruas congestionadas.

Fiquei muito bem impressionada com a competência com que foram realizados tais projetos na Europa. Há, entretanto, um hiato pedregoso entre a visão de países desenvolvidos e países como o Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, o grupo Ciclobrasil, integrado ao Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID/UDESC), busca há sete anos o respaldo do Governo (Municipal, Estadual, Federal) para o lançamento da Plataforma Catarinense de Mobilidade Sustentável (PCMS). Florianópolis é palco de reivindicações de moradores, como os do bairro Lagoa da Conceição, pela construção de ciclovias. Em 2011, a luta pelo início das obras da ciclovia na Rua Osni Ortiga, uma das mais perigosas da cidade, completa 16 anos. Ao pedalar pelo Centro da Capital, o ciclista se depara com filas quilométricas de carros estacionados em ciclofaixas. Eles reclamam, entram em contato com a Guarda Municipal e Polícia Militar e nada, não há fiscalização ou punição aos infratores. São inúmeros os entraves existentes para que haja uma mudança de postura qualitativa da sociedade brasileira no que diz respeito ao desenvolvimento de metas reais para a área.

Outro fator é a falta de vontade política, empenho das autoridades, inclusão do tema Mobilidade Urbana Sustentável na agenda de nossos governantes. Deliberações sobre uma questão primordial como esta não costumam levar décadas. Foram necessários dez anos para a modificação generalizada do cenário urbano de Stuttgart. Refiro-me a todo o processo de reordenação espacial da cidade, desde a elaboração do projeto até o término das obras.

Consciência individual já é um começo. Se cada um fizer a sua parte, cumprindo o seu papel social, poderemos ganhar voz para pressionar o poder público, de modo que ele trabalhe em nosso benefício, e não o contrário. Pense nisso.

Caso Osni Ortiga (3)

abril 25, 2011

Crédito de foto: Rosane Lima/ND

Florianópolis

Na segunda-feira passada, dia 18 de abril, eu finalmente consegui terminar de colher informações atualizadas sobre um caso que se desenrola há mais de uma década na região leste da Capital: a construção da ciclovia na Rua Osni Ortiga, localizada no bairro Lagoa da Conceição. Das partes envolvidas no processo, estavam em aberto os pareceres da Fundação do Meio Ambiente (FATMA) e da Secretaria Municipal de Obras. A cobertura completa pode ser lida a partir dos posts anteriores Caso Osni Ortiga e Caso Osni Ortiga (2). O retorno que recebi da FATMA via assessoria de imprensa:

“A FATMA recebeu da Secretaria de Obras o projeto de execução da ciclovia e solicitará da Prefeitura Municipal a produção de um Relatório Ambiental Preliminar (RAP). Apesar da obra não ter um porte significativo – o projeto foi enquadrado como melhoria da rodovia –, a construção do passeio exigirá um estudo ambiental complementar. O ofício será encaminhado às autoridades encarregadas de realizar o RAP o mais rápido possível.”

Estive com o Secretário de Obras de Florianópolis, o Sr. Luiz Américo Medeiros. Ele afirmou que:

“Não há retorno da FATMA, estamos aguardando uma resposta sobre o projeto de execução da ciclovia. Após recebermos o parecer da FATMA, teremos condições de dar o próximo passo. Se eles solicitarem a realização de um RAP, nós providenciaremos o mesmo”, diz. Medeiros esclarece que não há previsão de início das obras. “Depois de finalizado o relatório ambiental, o documento será novamente encaminhado aos técnicos da FATMA. Após a sua aprovação, a Secretaria de Obras abrirá licitação para definir a empresa que realizará a obra. Falta verba municipal, mas o projeto foi incluído nos Programas Regionais de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR), do Ministério do Turismo, entre outros. Na melhor das hipóteses, a construção da ciclovia começará em 2012.”

Enquanto isso, os moradores da Lagoa seguem articulados e atentos aos movimentos da Prefeitura. O objetivo da comunidade é manter-se unida na luta pelo início das obras. “Este é um direito que temos e exigimos a tomada de uma providência imediata. Chega de espera. Queremos ação”, comenta Hanna Betina Götz, moradora da região.

MAIS INFORMAÇÕES

movimentociclovianalagoaja.blogspot.com

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Aproveito a oportunidade para disponibilizar na página uma publicação direcionada a todos que acreditam e priorizam a conservação da natureza. O livro O Passeio da Fleur – produzido pela Direção Geral (DG) do Ambiente da Comissão Europeia – conta uma história comovente, simples e estimulante.

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Nos dias 26 e 27 de abril será realizado em Florianópolis o Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. O evento contará com a participação de especialistas de vários países e abordará temas como a acessibilidade de pedestres e ciclovias, as estratégias e o planejamento para soluções em mobilidade urbana e o futuro das tecnologias modais. A finalidade é promover a troca de experiências entre cidades na busca de soluções para o problema.

Clique na imagem abaixo e confira o texto Mulheres, bicicletas e fundamentalismos, do jornalista Daniel Santini, sobre o fato das mulheres iranianas serem proibidas de andar de bicicleta. A forma com que o autor aborda o tema é forte, lúcida e bela. Fico muito feliz em saber da existência de jornalistas com uma percepção aguçada, inteligente e profunda, que não lêem pelas bordas, que não enxergam pela superfície, que se colocam no lugar do outro, que vão além do seu eixo dentro de um mundo gerido por estigmas e pela cultura do medo, conceitos pilares para a criação de guerras pelo lucro. Fiquei emocionada com o que li. Parabéns Daniel.