O Retorno da Terra

janeiro 13, 2015

Foto Daniela Alarcon

Recebi o convite e aceitei na hora. O melhor foi descobrir uma dupla que realiza, há quatro anos, um trabalho fantástico com os Tupinambá. Jornalista e documentarista estarão no queridíssimo Las Magrelas no sábado, dia 17, para contar sobre o curta-metragem que estão produzindo. A campanha está no catarse e quem aparecer contribui para o desenvolvimento do projeto. Bora saber mais sobre as histórias de um povo que luta pela permanência na terra! Trata-se de um Brasil que o Brasil precisa conhecer. Como disse Eliane Brum no prólogo do artigo da Daniela Alarcon: “Sejamos, nas palavras de outro povo indígena, os Guarani Kaiowá, “palavra que age”.

 

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Em 2003, prestes a fechar um ciclo em minha carreira, o término da Faculdade de Comunicação (PUCRS), eu dei início a uma série de reflexões sobre o significado de minha profissão, de tudo o que eu havia construído até então e de toda a vida que eu tinha pela frente a partir dali. Imaginava-me naquele momento em que o estudante se vê no portão do campus, de frente para a rua, com um diploma nas mãos. Instante exato em que surge a pergunta que não quer calar: e agora? Bom, não há muito que fazer senão, como sempre, seguir adiante. Medo? Todos. Vontade? Infinita. Esperança? Acesa.

No período de conclusão de curso uma questão acaba por se revelar. Dezenas de Universidades jogam nas ruas milhares de profissionais recém-formados todos os semestres. Até que ponto o mecanismo incessante de criação de bacharéis prepara as pessoas não para o mercado, mas para o mundo? Todos sabem que a graduação é o berço e que somente a prática da profissão ensina de fato. Mas o que é ser um jornalista de verdade?

A responsabilidade de manter a opinião pública bem informada é, acima de tudo, um dever social. Minha participação no contexto que habito inclui, entre outras coisas, formar opinião. Formar opinião? O leigo pode não se dar conta, mas não existe poder maior do que este. Tudo gira em torno de mentes que pensam. Redundância? Sim, se você souber que a sua mente é livre, independente, autônoma. Do contrário, você é um seguidor de quem? Do que diz a imprensa. Parece mentira, mas os meios de comunicação de massa alcançaram um patamar tal que as pessoas afirmam com frequência: “Isso é a mais pura verdade fulano, eu li na Folha (de S. Paulo), eu assisti no Jornal Nacional, eu ouvi na Rádio CBN.” Transformamo-nos, nós jornalistas, em oráculos universais. Nem a Academia, maior e mais respeitado espaço de seres pensantes do planeta, bate-nos. Isso mesmo leitor. Você duvida? Então, lamento informá-lo, mas pertence ao hall de seguidores, não possui uma mente livre. Quem eu penso que sou para te dizer isso? Não sou mais nada além do que você é nessa empreitada chamada vida. Somos todos parte do mesmo cosmos. Porém, parceiros ou não, meu caro, eu sou jornalista, sei do que estou falando.

Hoje, mais do que em qualquer tempo, nós temos a força. Tal realidade deveria me fazer sentir vitoriosa. Integro o time. Estou com a faca e o queijo na mão. Eureka! Não, as coisas não funcionam assim. Volto à pergunta com a qual encerrei o primeiro parágrafo: Mas o que é ser um jornalista de verdade?

Retorno ao começo do que você lê para engrenar o carretel de palavras…

Em 2003, prestes a fechar um ciclo em minha carreira, o término da Faculdade de Comunicação (PUCRS), eu dei início a uma série de reflexões sobre o significado de minha profissão, de tudo o que eu havia construído até então e de toda a vida que eu tinha pela frente a partir dali. Foi quando escrevi o artigo abaixo. Encontro-me a quatro dias de uma outra mudança importante. Partirei para São Paulo em direção ao futuro depois de exercer, há quase seis anos na região sul do Brasil, o ofício que escolhi por amor. A prática me trouxe a certeza de que, sem dúvida, a grande escola se encontra fora das dependências do campus universitário. Enquanto remexia as minhas bugigangas separando o relevante para a viagem, deparei-me com o meu passado em uma caixa carregada de papéis até a boca. Ali estavam escritos diversos de minha época de estudante. Entre eles, este texto que segue para a sua apreciação.

Contarei um segredo para você. Algo que pertence somente a mim, mas que vou compartilhar contigo. Ao reler o que escrevi há oito anos, emocionei-me. Por quê? Ora, constatei algo de grande valor. Apesar de ter vivido um bocado desde o ponto final que dei ao palavrório produzido para a disciplina Tecnologia da Informação, eu continuo a mesma: não me corrompi, mutilei, violentei ou deixei me virarem a cabeça. Sigo pensando da mesma forma com uma esparsa vantagem, a de estar muito mais madura. Estou vencendo em minha carreira. Ser vitoriosa, como eu ia dizendo, significa usar do poder que possuo para realmente informar você. Li em um texto publicado pelo jornalista Daniel Santini no post Percepções distorcidas e a realidade no trânsito, de seu blog Outras Vias, a seguinte colocação: “A desinformação se completa pela preguiça, má vontade ou cinismo de boa parte da imprensa, que reproduz releases de maneira passiva e repete estereótipos e lugares comuns sem reflexão.” Ele está certo e você entenderá o que digo quando chegar ao fim do que lerá agora, se quiser, é claro. Sirva-se à vontade ou parta imediatamente. Ratifico – o resultado de tamanha falação tem a ver com escrúpulos e coragem, não com idealismos e utopia.

Liberdade para quem?

 

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* Artigo produzido em maio de 2003 para a disciplina Tecnologia da Informação, da Faculdade de Comunicação (PUCRS).
 

Falar sobre a informação é falar sobre a essência do significado do jornalismo: a comunicação. Ela, que em sua etimologia, defini-se como um repartir comum do alimento necessário para todo o profissional da área; ela, que segundo determinados teóricos, dá-se através de “todos os procedimentos pelos quais uma mente afeta a outra.” O que obviamente envolve não apenas o discurso oral e escrito como também a música, as artes visuais, o teatro, e certamente, todo o comportamento humano.

Hoje, o que temos é a comunicação instituída como área de conhecimento. Toda pessoa esteja ela onde estiver, movimenta-se, e consequentemente, transita por entre um fluxo de mensagens que penetra no corpo como que para oxigenar o sistema orgânico em vida. A televisão, o rádio, a imprensa, a internet, os “advertisements”, todos os meios técnicos eletro-eletrônicos de produção de imagem, som e escrita expiram uma linguagem sígnica repleta de códigos instantaneamente absorvidos pela sociedade. A convulsão destes meios e veículos se mistura com os alicerces erguidos há muito pelo homem, onde neles se apoiam os valores e princípios que propulsionam a cultura de um determinado povo. A pergunta faz-se necessária: Quem somos e de que forma nos identificamos como sujeitos ativos e autogerenciáveis, tendo em vista o fato de nos encontrarmos impressos ou objetivamente colocados como peças dentro do emaranhado midiático a que me referi?

Quando escolhi o jornalismo como profissão, pensava que teria condições de carregar todas as histórias do mundo sobre a folha de papel que acabaria nas mãos do leitor; que teria seguramente a oportunidade de me expressar por meio da chamada liberdade de manifestação do pensamento e de todos esses mas e poréns que ecoam em nossa mocidade e que vez ou outra esmorecem sem que percebamos. No decorrer do curso, contudo, notei que havia uma contradição nesse raciocínio meu. Mostraram-me que o jornalista quando reconhecido como tal deve manter-se imparcial frente aos acontecimentos que hão de se tornar notícia conduzida por ele, emissor, com seus instrumentos, ao receptor, ao público, às pessoas, à comunidade. O que se desmembra sobre o seguinte quadro: a chave que encerra a legitimidade da informação está acentada na maneira precisa e neutra com a qual o jornalista irá apurar o fato, apresente-se ele ao lado de sua porta ou do outro lado do mundo. Admito que me senti confusa, que o sentido e desejo entornados da coisa minha, aquela que me sacudia a fome de me tornar um ser comunicante, deparou-se com uma pedra; cascalho grande que talvez me pese nos ombros até este exato momento. Estou aqui, sentada a escrever esta porção de palavras, e penso que a minha angústia como futura profissional não se revela apenas junto aos meus anseios de principiante, mas à velocidade de transmissão das mensagens dentro de um contexto onde o processo de negociação entre emissor e receptor tem seguido por uma linha tênue bastante questionável.

Conforme afirmou Mattelart, em seu conceito de comunicação mundo, as grandes redes de informação e comunicação, com seus fluxos “invisíveis” e “imateriais” formam “territórios” abstratos e “intangíveis”. O público absorve uma quantidade massiva de códigos formatados em um número infinito de mensagens diariamente. A questão é: até que ponto ele decodifica tamanha bagagem de informação que possa resultar esta, na oportunidade de uma retroalimentação: o “feedback”? Com tantos canais a escolher e constante vazão de símbolos em operação instantânea, as pessoas têm ou não ao seu alcance a liberdade de manifestar ou desenvolver pensamento próprio?

A cultura da mídia passa primeiro pelas salas de redação e agências de notícias espalhadas pelos quatro cantos do globo. Surgem, então, em minha pequena visão de estudante já na porta do mercado, termos como uniformização e padronização. As técnicas de persuasão e manipulação das mensagens utilizadas pelas empresas jornalísticas são teoricamente comprovadas por estudiosos e pesquisadores do ramo. Não é novidade dizer, portanto, que o conceito de imparcialidade é relativo e que seu usufruto sob a égide de quem dá suporte a tais empresas torna-se um objeto deveras perigoso. O comportamento do jornalista, neste caso, é algo que se deve sempre polemizar, já que o desempenho da profissão está vinculado a uma função social.

O que dizer? Tenho medo. Aflige-me as ideias ter na consciência a chance de vir a ser parte de uma enorme máquina de entortar homens; de que possamos nós, profissionais da comunicação, estar adormecidos; de que movendo uma peça aqui outra ali nesse imenso tabuleiro que é a vida, e mais próximo da nossa realidade como comunicadores, do que representa a informação como argumento, possamos estar fazendo pessoas adormecerem.

Hoje pela manhã, recebi de um amigo um livro de Antoine de Saint-Exupéry chamado Terra dos Homens. Saint-Exupéry, autor francês que durante parte do meu nascer e florescer, incansavelmente, apresentou-me um pouco dos tantos significados que tem a vida. Noto, após uma breve leitura do capítulo que me foi indicado, falo como pessoa e, reitero, futura profissional, que muito ainda tenho a aprender. Maravilhosa constatação. Confesso que este empurrão, tanto do amigo quanto do autor, serviu-me de fonte inspiradora para escrever este artigo.

Vitor Frankl disse que o homem é livre e responsável. Livre para fazer as suas escolhas e responsável pelas consequências de suas ações perante as escolhas que fez. Os meios de comunicação de massa passaram a exercer um papel estruturante na organização da sociedade mundial. Coloco a afirmação de Vitor Frankl em concordância simétrica com a minha: o jornalista, como profissional, também é livre e devidamente responsável pelos seus atos e por aquilo que a eles corresponder.

Acredito poder encaixar aqui algumas das palavras de Saint-Exupéry, que em uma viagem de trem da França à Polônia, ao observar operários em regresso à terra natal, certa vez rabiscou no papel: “E assim eles pareciam ter perdido um pouco da qualidade humana. Nos fardos mal arrumados, mal amarrados, eles haviam juntado apenas seus utensílios de cozinha, suas roupas de cama e cortinas. Mas tudo o que haviam acariciado e amado, tudo a que se haviam afeiçoado em quatro ou cinco anos de vida na França, o gato, o cachorro, os gerânios, tudo tiveram que sacrificar. A vida transmitia-se assim no absurdo e na desordem daquela viagem. Uma criança chupava o seio de sua mãe que de tão cansada parecia dormir. Olhei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo dobrado no desconforto do sono, preso nas suas vestimentas de trabalho, um rosto escavado com buracos de sombra e saliências de ossos. Aquele homem parecia um monte de barro. E ele, que hoje é apenas uma máquina de cavar e martelar, sentia assim no coração uma deliciosa angústia. O mistério está nisso: eles se terem tornado esses montes de barro. Por que terrível molde terão passado, por que estranha máquina de entortar homens? Um animal ao envelhecer conserva a sua graça. Por que a bela argila humana se estraga assim? Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, um homem se acostuma, como no ócio. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem a feiúra. É Mozart assassinado, um pouco em cada um desses homens.”

Qual é o valor da informação? Quero encontrar esta resposta nas faces do público que recebe e absorve a mensagem por nós, jornalistas, emitida. E que junto de mim esteja sempre a lembrança das palavras de Exupéry. Realista é o mercado. Eu sou uma futura profissional, que crê piamente na essência do significado deste ofício: a comunicação. Hei de levar comigo a seguinte frase: “Só o espírito, soprando sobre a argila, pode criar o homem.”

Meio Ambiente em Pauta

abril 20, 2011

Excelente sugestão de leitura. Primero texto: The International Response to Climate Change, de Richard Douthwaite. Há mais de 20 capítulos à disposição do público. Confira:

Outra dica está no site da Associação dos Fotógrafos de Natureza (AFNATURA). Entre os links para download, a entidade incluiu uma lista de acesso às leis ambientais do Brasil. Vale a pena.

Economia X Meio Ambiente

abril 13, 2011

A balança comercial brasileira está em alta com a boa nova trazida da China. Em 2011, a potência emergente que integra o seleto grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) passará a importar carne suína de frigoríficos certificados por comissão de fiscais em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. A parceira estimula a produção nacional, uma vez que a China é o maior consumidor do produto no mundo. De acordo com matéria publicada no portal G1, em 11 de abril, o país asiático deverá importar cerca de 480 mil toneladas até dezembro. A previsão é do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que estima alta de quase 15% frente ao ano passado. As informações são da Dow Jones.

Motivo de comemoração? Depende do ponto de vista. Em matéria sobre o tema transmitida na edição também de 11 de abril do Jornal das Dez (Globo News), o âncora André Trigueiro leu a seguinte nota: Cada quilo de carne suína produzida consome mais de 5 mil litros de água. Resta saber se temos nascentes e mananciais para suprir uma demanda crescente.

Quanto? 5 mil? Para cada quilo? Em época de debates e criação de políticas sustentáveis pelo bem do futuro do planeta, fui pesquisar a respeito e encontrei um artigo do jornalista Washington Novaes publicado em 2004 no Estado de S. Paulo. Novaes é colunista do Estadão e um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro engajado na luta pela conservação da natureza. O texto aponta problemas ligados aos padrões de produção e consumo de carne no mundo, cita números e dados representativos e enfatiza a importância de haver uma mudança de postura do Governo sobre o tema, já que estão em jogo a segurança da população e a sustentabilidade do processo. Não se fala mais em mortes por ingestão de carne infectada por isso ou aquilo, mas e o meio ambiente, como fica?

FRAQUEZAS DA CARNE

No mesmo dia em que o anúncio de um caso de febre aftosa no Pará levava alguns países a suspender as compras de carne bovina brasileira, as agências de notícias informavam sobre a morte de uma jovem nos Estados Unidos, a primeira vítima humana naquele país da encefalopatia espongiforme bovina (“doença da vaca louca”), que já matou mais de 140 pessoas na Inglaterra em poucos anos e 18 só no ano passado. Outras 16 mil pessoas podem estar infectadas nesse país, mas ainda sem sintomas, segundo estudo do governo inglês.

No mesmo dia, a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) decidiram juntar esforços diante do aumento preocupante de “doenças transfronteiriças” como a aftosa e a “gripe das aves”, motivado, segundo elas, pelo comércio internacional de carnes e pelos deslocamentos humanos. As duas organizações decidiram criar um sistema mundial de informação e alerta nessa área. Pondo mais uma vez em evidência a extensão e a gravidade do problema da segurança alimentar no mundo.

E isso ocorre no momento em que o Brasil assume o lugar de maior exportador de carne bovina, graças, inclusive, a uma expansão de 200 mil hectares nas áreas de criação. No ano passado, já foi exportado 1,4 milhão de toneladas de carne bovina, no valor de US$ 1,5 bilhão. E US$ 1,79 bilhão em carne de frangos, 20% mais que no ano anterior. A expansão da carne bovina brasileira prossegue este ano, com mais 19,5% em quatro meses. Para assegurar essa posição, o País mantém hoje um plantel de 185 milhões de cabeças de gado bovino e 180 milhões de galinhas (fora 32 milhões de porcos).

A mesma FAO estima que um terço das exportações mundiais de carnes esteja hoje sob ameaça de doenças. Canadá e Estados Unidos têm problemas. A Tailândia abateu 36 milhões de aves; o Canadá, 19 milhões. A “gripe das aves” já atingiu também a China, a Coréia do Sul, o Paquistão, a Indonésia, o Vietnã, o Japão, Taiwan, o Laos e o Camboja.

A produção mundial de carnes chega hoje a quase 250 milhões de toneladas – o dobro do que se produzia em 1997. Em meio século, multiplicou-se por cinco. Os rebanhos bovinos passaram de 3 bilhões para 5 bilhões desde 1960 (mais 60%); os plantéis de aves, de 4 bilhões para 16 bilhões de cabeças (mais 300%).

Aí começa outra complicação: a insustentabilidade dos atuais padrões de produção e consumo no mundo, apontada em vários relatórios e comentada neste espaço. Esses padrões já levam a um consumo mais de 20% além da capacidade de reposição da biosfera. E se concentram em quase 80% nos países industrializados, que têm menos de 20% da população mundial – ao mesmo tempo em que metade da população do mundo vive abaixo da linha da pobreza e 840 milhões de pessoas passam fome. E a população mundial ainda crescerá entre 2,5 bilhões e 3 bilhões de pessoas até 2050.

E ainda há outros ângulos do problema. Gerar uma caloria de carne de boi, porco ou frango, por exemplo, exige de 11 a 17 calorias de alimentos.

Expandir a produção de carnes exigirá novas e extensas áreas, para pastagens ou plantação de grãos – o que significará mais desmatamento e perda da biodiversidade no mundo. Uma dieta de carnes exige de duas a quatro vezes mais solo que uma dieta vegetariana, argumenta-se. E o problema só não é maior porque, enquanto um habitante do Primeiro Mundo consome 80 quilos anuais de carnes, no chamado Terceiro Mundo essa média é de 28 quilos anuais.

Outro ângulo das discussões é o dos métodos de criação. Há 30 anos, levava-se três meses para produzir um frango em condições de abate. Hoje, a média é de 41 dias e a cada ano se reduz um dia. Graças a novos métodos, novas tecnologias, novos promotores de crescimento, novos sistemas de confinamento.

Ainda recentemente, uma instituição que se preocupa com animais, a Compassion in World Farming (CWF), numa ação que levou à Alta Corte de Londres, pediu que fossem declarados ilegais – porque “cruéis” – os atuais sistemas de criação de frangos, visando ao crescimento rápido. Segundo a CWF, os frangos hoje provêem de um “pool” genético cada vez menor – 98% dos que são criados para abate descendem de aves supridas por apenas três empresas. Crescem tão rapidamente que o esqueleto não chega a se formar de todo, com sofrimento intenso. A pressão sobre o sistema cardiovascular – segundo estudo da Universidade de Bristol – é intensa. Grande parte do plantel desenvolve ascite, deficiências no coração, edema no fígado. Por tudo isso, são animais que procuram nos alimentos de preferência fragmentos que contenham analgésicos – o que pode levar a outros problemas para o consumidor. Nos rebanhos bovinos os problemas também são freqüentes, principalmente com bezerros que crescem tanto no útero que as cirurgias cesarianas se tornam quase regra.

Esses e outros problemas levaram recentemente a União Européia a baixar legislação que limita o número de frangos e porcos segundo a área disponível. Em 2006, entrará em vigor nesses países a proibição do uso de promotores do crescimento.

Mais um ângulo: a geração pelos rebanhos de gases que intensificam o efeito estufa. São 10% das emissões totais e 25% no caso do metano (que permanece menos tempo na atmosfera, mas tem efeito mais de 20 vezes mais grave que o do dióxido de carbono).

Outro ângulo ainda: consumo de água. Pelo menos 3,5 mil litros são necessários para produzir um quilo de carne de frango, 6 mil para um quilo de carne de porco, pelo menos 15 mil para um quilo de carne bovina. Enquanto isso, um quilo de batatas pode ser produzido com até 500 litros. Terra e água necessárias para produzir um quilo de carne são suficientes para 200 quilos de tomates ou 160 de batatas, segundo o Worldwatch Institute. E as pastagens cobrem um terço das terras no mundo.

Não é só. Os efluentes de criações são responsáveis por 50% da poluição da água na Europa e pela acidificação do solo (quando depositados sem tratamento).

São muitos ângulos. E, exatamente por estar assumindo a liderança do mercado mundial de carnes, o Brasil precisa pensar em todos eles. Segurança alimentar, segurança para a saúde do consumidor, sustentabilidade dos padrões de consumo. Não haverá como fugir a todas essas discussões.

Washington Novaes

Estado de S. Paulo, 2 de julho de 2004