Fotos André Dib

 

1Na região do médio Solimões, a pesca de um gigante das águas se tornou prática de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e exterior. De junho a novembro, inúmeros barcos partem todos os dias das beiradas de rio em direção ao interior das áreas cobertas pelas Reservas Mamirauá e Amanã, localizadas em Tefé, estado do Amazonas. São meses dedicados exclusivamente ao manejo participativo do Pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do planeta. A tradição ancestral de dezenas de comunidades ribeirinhas é o principal objeto de pesquisa do Programa de Manejo de Pesca do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). O trabalho realizado há 16 anos por técnicos em parceria com a população transformou a realidade social e ambiental de uma área de mais de três milhões de hectares, extensão superior aos territórios de países como Costa Rica e Suíça.

Segundo Ana Cláudia Torres, 34 anos, coordenadora do Programa, as duas metas primordiais são garantir a sobrevivência das pessoas e preservar os estoques pesqueiros. “No fim do século passado, o declínio drástico da espécie resultou na proibição da pesca dentro dos limites das Unidades de Conservação. O decreto causou impacto imediato na vida das comunidades. Em 1999, o projeto surgiu como medida compensatória às restrições estabelecidas, uma alternativa para o uso sustentável dos recursos”, afirma. O instituto presta assessoria técnica para 10 sistemas (grupos de pescadores) de manejo em Mamirauá e Amanã, e para o sistema Capivara, situado na área de entorno das reservas.

As etapas do processo incluem organização dos grupos; obediência às normas e aplicação do regimento interno (definido por cada sistema); zoneamento e vigilância das áreas de pesca; contagem dos peixes; pesca; monitoramento do pescado; comercialização; divisão dos benefícios e avaliação anual. A captura é permitida dentro do contexto do manejo, sendo que apenas 30% dos adultos contados podem ser abatidos. O restante permanece nos rios para fins de reprodução. Ao longo dos anos, a pesca controlada promoveu o aumento de 427% da população de pirarucus em lagos. O número impressiona. O sucesso da empreitada reflete em diversos setores. Indicadores mostram que, em 2013, 31 comunidades, três colônias, um sindicato e 1.413 pescadores foram beneficiados.

No mesmo ano, a cota capturada – 7.953 peixes, equivalente a 434 toneladas – gerou um faturamento de R$ 2,2 milhões para os manejadores de pirarucu. “A pesca no Amazonas possui grande importância econômica e cultural. A pesquisa mostrou qual é a melhor forma de trabalhar com o recurso na região. O manejo é o responsável por boa parte da renda dos participantes, isso sem falar na recuperação dos estoques”, comenta Ana Cláudia. O próximo desafio é fazer da prática uma política pública. O reconhecimento da atividade ampliará as perspectivas sociais e estimulará cada vez mais o compartilhamento da experiência. Trata-se de um investimento pioneiro com o qual todos saem ganhando. E a natureza agradece!

O projeto é tema da matéria que eu e o fotógrafo André Dib publicamos na edição de março da Revista National Geographic Brasil. Nas bancas!

 

NG divulgação FB

 

Rota dos Parques

dezembro 2, 2014

Fotos Tom Alves, Valdemir Cunha e Marcos Amend

 

Leia a íntegra da matéria que produzi sobre os potenciais desperdiçados e as perspectivas de gestão dos parques estaduais mineiros. O uso público das áreas protegidas como instrumento de desenvolvimento socioeconômico é uma realidade em diversos países. O turismo é uma das opções mais relevantes para a exploração indireta dos recursos de uma Unidade de Conservação. Quando bem operado, alia conservação e manejo sustentável da biodiversidade. Em larga escala, tal dinamização pode gerar uma receita de bilhões, contribuindo para o aumento do PIB nacional e impactando positivamente as comunidades que vivem no entorno das Unidades.

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* Publicada originalmente na edição 155 da Revista Horizonte Geográfico.

 

Abre divulgação

 

A campainha toca. Quem bate é o economista Aldenyr Jesus Rodrigues, que chega a São João da Chapada para participar de um curso de capacitação realizado nos arredores de Diamantina, norte mineiro. Está à procura de pouso. O homem de 30 e poucos anos soube por um amigo que na comunidade rural havia hospedagem domiciliar. Rodrigues prefere o contato direto com a cultura local. Não hesitou em buscar abrigo na casa de um morador. Minutos depois, a porta se abre e surge de dentro uma senhora carnuda, com sorriso solto: “Pois não?” Há oito anos, dona Valmira de Lurdes Miranda é sócia de um receptivo familiar no distrito de pouco mais de mil habitantes.

O Turismo de Base Comunitária, implantado na região em 2006, é uma modalidade que, aliada à prática do ecoturismo, amplia horizontes em povoados tradicionais localizados no entorno de Unidades de Conservação. O potencial de desenvolvimento é grande. Os parques estaduais mineiros abrangem montanhas a perder de vista, serras como a do Espinhaço, cavernas, cachoeiras, bacias hidrográficas e ainda os biomas cerrado, mata Atlântica e caatinga. Somam um total de 5.026 quilômetros quadrados, área equivalente a 500 mil campos de futebol. Tal conjunto de atrativos é suficiente para transformar essas unidades de conservação em verdadeiras potências do turismo sustentável, com medidas práticas de curto, médio e longo prazos.

Segundo Cecília Vilhena, gerente das unidades de conservação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), a melhor ação para ampliar o acesso é agilizar a regularização fundiária e os planos de manejo. “No Parque Estadual do Biribiri, por exemplo, nenhum dos 16,99 mil hectares está regulamentado”, afirma. Isso significa que as terras ainda não pertencem ao poder público e, por isso, não se pode construir estruturas de apoio e tampouco cobrar ingressos. Minas Gerais possui 11 unidades de conservação abertas ao público geral, sendo dois monumentos naturais e nove parques estaduais.

 

Benefícios para o entorno

 

P.Ibitipoca

 

De acordo com Maria Tereza Jorge Pádua, membro da Comissão Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), uma solução é priorizar a aquisição das áreas de visitação. “Os recursos para a regularização fundiária são reduzidos, então, às vezes, o que se pode fazer é comprar parte do terreno e começar o trabalho por ele”, explica. Foi o que aconteceu, com sucesso, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no estado, e também no Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Ela recomenda ainda a construção modular de infraestrutura, como recepção, à medida que os recursos forem liberados. Esperar para realizar todas as obras pode ser inviável.

O monumento cultural de Caral, no Peru, é uma boa referência nesse sentido. A UC recebe os visitantes com conforto em instalações simples e de baixo custo, com aproveitamento de bambu. Para Ana Luisa da Riva, diretora executiva do Instituto Semeia, responsável por um extenso estudo sobre as UCs brasileiras, é preciso pensar os parques estaduais como redutos de preservação e também de oportunidades para os moradores do entorno. “Sujeito a critérios bem definidos, o turismo sustentável pode ajudar a preservar”, diz. A especialista aconselha o envolvimento do setor privado por meio de parcerias público-privadas. Essas devem respeitar os planos de manejo, que estabelecem os parâmetros de gestão. Em Minas, dos 39 parques estaduais existentes, 15 têm esse planejamento concluído e podem firmar esse tipo de acordo.

 

Infraestrutura de ponta

 

Um primeiro passo nessa direção foi dado pelo governo de Minas Gerais no Parque Estadual do Sumidouro. Lá, estruturou-se um contrato que prevê a concessão da gestão administrativa do parque, com a transferência da receita das visitações para a iniciativa privada. Outra forma de empresas contribuírem é por meio de acordos de compensação ambiental. Entre os parques que se destacam, dois são referências internacionais. O primeiro, Ibitipoca, oferece em 1.488 hectares quatro roteiros: Circuito das Águas, da Janela do Céu, do Pião e da Parte Alta das Águas. Quem pisa ali se encanta com as cavernas de quartzito e tem a oportunidade de apreciar a das Bromélias e a do Martiniano, a segunda e terceira maiores do mundo. A divulgação de seus atrativos fez com que o número de visitantes chegasse a 61 mil em 2013.

Como resultado, evoluiu a renda do município de Lima Duarte, localizado em sua área de abrangência. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, a renda média dos moradores passou de 64,5% da média estadual para 83,3%, entre os anos de 2000 e 2010. Há mais a se conquistar. O parque Crystal Cove, de área similar nos EUA, por exemplo, arrecada o equivalente a 7 milhões de reais por ano, enquanto Ibitipoca alcançou 905 mil reais no mesmo período.

No segundo, Parque Estadual do Rio Preto, o turista tem acesso a 12.185 hectares com infraestrutura completa. Há passarelas, placas de sinalização, deques, alojamentos, camping e restaurante, além de uma equipe de guias especializados. Antônio Augusto Tonhão, gerente e fundador da unidade de conservação, diz que o diferencial do parque são as pessoas que ali trabalham: “Os funcionários têm oportunidade de crescer profissionalmente e, por isso, acabam vestindo a camisa e trabalhando bem”, conta. Seus principais atrativos são o pico Dois Irmãos, as cachoeiras do Crioulo e das Sempre-vivas e a chapada do Couto.

 

pe-rio-preto-por-marcos-amend

 

Outro caso de êxito de desenvolvimento turístico integrado, para o qual cinco cidades mineiras elaboraram planos em torno de um mesmo objetivo, é a Rota Lund. O roteiro foi feito em parceria entre órgãos estaduais, municipais e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais e abarca pontos arqueológicos e históricos, ligados ao famoso naturalista Peter Lund, em cada um dos municípios.

O condutor de turismo Carlos Giovanni Paulino, 32 anos, que trabalha há dez anos na região dos parques estaduais do Biribiri, Rio Preto e pico do Itambé, pede políticas públicas que valorizem a cultura local e os esportes de natureza. “Se houvesse incentivo nessas áreas, os jovens teriam mercado para trabalhar e não precisariam migrar para grandes centros, como fazem”, diz. Carlos e os moradores da região desenvolveram, por contra própria, o projeto de ecoturismo Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. “Mostramos aos visitantes os aspectos culturais das comunidades vizinhas aos parques. E também como a integração entre elas e as unidades favorecem a preservação”, conta. “Se tivéssemos apoio, ou mais iniciativas como a nossa, talvez esta região lotasse de turistas”, aposta.

De fato, quando a situação das unidades de conservação – não apenas a dos parques, mas a de todas – é analisada conjuntamente, fica ainda mais patente seu potencial. O país possui mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados de áreas protegidas federais, estaduais e municipais, ou seja, um território equivalente a três Franças. Figura em primeiro lugar no ranking de competitividade mundial de turismo em relação aos recursos naturais. No entanto, em lista divulgada pela revista Time, é apenas o 44º país em quantidade de visitantes, entre 165. Fazer mais e melhor pelos parques estaduais é um dos passos essenciais para mudar a situação.

 

Flores de Minas

setembro 29, 2014

A segunda reportagem da série que produzo ao lado do fotógrafo André Dib sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, foi capa da edição especial de aniversário da Revista Sagarana. Estivemos na região considerada por Roberto Burle Marx o jardim do Brasil. Pelos campos rupestres da única cordilheira do país se espalham várias espécies da sempre-viva, flor típica do Cerrado que alimenta uma cadeia produtiva secular. Dezenas de comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.

Leia a íntegra, já disponível no site da publicação.

 

matéria de capa Revista Sagarana

 

Nota sobre a viagem

Esta é a primeira de uma série de reportagens que eu e o fotógrafo André Dib produziremos sobre o caminho das flores na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Estivemos em uma região de hábitos extrativistas, onde as comunidades tradicionais buscam por meio do manejo controlado da flora local uma alternativa para o desenvolvimento. Com a criação de áreas protegidas no entorno de inúmeros vilarejos, os moradores que tiravam o sustento da terra há séculos ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais. A falta de uma contrapartida do Governo gerou uma crise que se estende há mais de dez anos no centro-norte mineiro. O clima de tensão permanece. Entretanto, o trabalho conjunto entre população e agentes como empresas particulares e Universidades vem transformando a realidade social de dezenas de pessoas.

Projetos que integram preservação do meio ambiente e beneficiamento sustentável da matéria-prima disponível na natureza ampliam as perspectivas das famílias residentes. O texto e as fotos a seguir contam sobre a conquista de pessoas simples, que lutam pela permanência no seu lugar de origem. A roça é a razão de viver de quem nasceu e cresceu na zona rural. Passo a passo, os habitantes encontram um caminho próspero, que multiplica ideias e consolida a tradição. Tive o privilégio de conhecer esse universo de perto. Trata-se de um Brasil distante, invisível para muitos. A intenção de trazê-lo à tona é uma constante em minha trajetória como jornalista. Descobri na reportagem um instrumento de resgate da essência do povo brasileiro. A informação desperta a curiosidade, instiga a reflexão e abre portas para o diálogo entre as partes. A sociedade cosmopolita pode e deve conhecer melhor o interior do país. Vejo na troca de conhecimento uma possibilidade de fortalecimento da nossa cultura popular. Coloco o primeiro resultado de minha jornada ao lado do André à disposição dos leitores do blog. Espero que gostem.

 

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* Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2013 da Revista Terra da Gente.

Fotos André Dib

 

abre Revista Terra da Gente para FB

 

Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo. A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda dos habitantes dos prados do Vale do Jequitinhonha.

O extrativismo é a prática que sustenta as famílias residentes, formadas em grande parte por coletores, garimpeiros e lavradores. Mais de cinco mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil. Pesquisas realizadas nas áreas de ocorrência da Eriocaulaceae – a família da autêntica sempre-viva – apontam que 70% das espécies do mundo estão concentradas na cordilheira do Espinhaço, fator de grande apelo para a criação, em 2002, do Parque Nacional (Parna) das Sempre-Vivas.

Parque nacional das sempre-vivasO Parna integra o Mosaico de Unidades de Conservação (UCs) do Espinhaço e divide os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Tem relevo acidentado, nascentes d’água, montanhas vincadas atravessando o piso serenado dos campos repletos de bichos graúdos. Onças, tatus e tamanduás vagueiam pelo raso de veredas e buritizais. De geração em geração, a presença humana causou impactos na natureza. Segundo o biólogo Renato Ramos da Silva, coordenador de projetos na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), atividades desenvolvidas ao longo dos anos, como a coleta indiscriminada e a mineração, provocaram o esgotamento de mananciais e flores. “No final da década de 1990, espécies de sempre-vivas como a pé-de-ouro e a vargeira foram colocadas na lista de extinção. Houve a proibição do extrativismo dentro do Parque. A medida desencadeou um entrave que atingiu diretamente as comunidades tradicionais”, afirma.

O estopim para o conflito foi a falta de informação. “O governo criou a Unidade sem a participação das pessoas, que não tinham consciência de que, na região, havia uma reserva. Foi uma experiência traumática”, diz Silva. Dois agravantes são a instabilidade do manejo da flora – a coleta é irregular – e a indefinição sobre o ressarcimento dos donos da terra, pois nenhum hectare da UC foi desapropriado. O imbróglio ultrapassa as fronteiras da área protegida, multiplica demandas, gera crise de interesses e um desajuste econômico que restringe o desenvolvimento regional.

Márcio Lucca, biólogo e chefe do Parna das Sempre-Vivas, esclarece que um ponto fundamental é qualificar a informação com foco na ação conjunta. “Os proprietários nos cobram um retorno, mas não cabe somente ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque, regularizar as propriedades. Não temos um levantamento das terras para saber quais são as particulares, as da União, as que estão em situação de posse por usucapião. Tal limitação nos impede de delimitá-las”, diz.

 

Antônio Borges - galheiros

 

O estilo de vida peculiar dos povoados tradicionais revela a personalidade cativante de uma gente corajosa. Do anseio coletivo brota o ímpeto capaz de transformar a realidade social de inúmeras famílias. Projetos de manejo adequado da flora local surgem como alternativa que alia a preservação das espécies ameaçadas ao desenvolvimento sustentável da região. As novas perspectivas asseguram fonte lucrativa de trabalho e renda para os habitantes do Jequitinhonha.

LUCRO

Na comunidade de Galheiros, zona rural de Diamantina, os moradores substituem, há 12 anos, o extrativismo indiscriminado pela exploração planejada. Com o auxílio do Instituto Centro Cape, organização com foco no estímulo de competências empreendedoras dentro do setor informal, um grupo de mulheres atentou para a importância de realinhar o trabalho, criando, por meio da produção artesanal, amplas oportunidades de comércio. De acordo com a coletora e artesã Ivete Borges da Silva, a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de pai para filho. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos.”

 

Comunidade Rai¦üz - Maria Terezinha Alves

 

Para afastar a iminência de extinção das espécies e capacitar as famílias coletoras, técnicos especializados prestaram serviços de consultoria em gestão, custos e cadeia produtiva. Houve oficinas para inserção de metodologias que agregassem valor ao processo produtivo. “Com apenas 10 gramas de flor é possível conseguir o dobro do valor do quilo no mercado se você souber como transformar a matéria-prima”, diz Ivete. As mercadorias manufaturadas aumentaram a margem de lucro sobre cada produto e, consequentemente, o poder aquisitivo dos artesãos.

Fundada em 2001, a Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas é espaço de planejamento que impulsiona um negócio cada vez mais rentável. Há seis anos, os associados cultivam as espécies ameaçadas de extinção pé-de-ouro e chuveirinho para atender a um contrato com a rede de lojas de varejo Tok & Stok. Entre as peças produzidas estão luminárias, abajures, porta-guardanapos e arranjos de mesa. A matéria-prima vem de um campo experimental de 300 metros quadrados. Cada mês colhe-se um tipo de flor e cada associado extrai de 20 a 30 quilos por espécie.

Os artesãos também expõem em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte e participam de eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há dois meses, ganharam o mundo participando da mostra Mulher Artesã Brasileira, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva foi escolhida para representar Galheiros na exposição, que reuniu 15 artesãs de 12 estados brasileiros.

AUTONOMIA

Antônio de Zé Basílio(5)No interior da cadeia do Espinhaço, marcada historicamente pelo garimpo de ouro, diamante, cristais e minério de ferro, o berço de novidades não dá trégua. Imersa no jardim que germina rente aos paredões rochosos, outra iniciativa reacende a esperança nos povoados de Andrequicé e Raiz, distritos do município de Presidente Kubitschek. Em 2009, grupos de produtores passaram a investir na estrutura de viveiros de plantas com o intuito de resgatar espécies em extinção. Por meio do Projeto Flores das Gerais, que conta com a assistência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foram instalados matrizeiros nas comunidades. A bióloga Luciana Teixeira Silva, gestora do projeto, conta que os participantes inseridos em um novo modelo de negócio têm o suporte de investimentos de pesquisa para o desenvolvimento de produtos diferenciados. “O ponto crucial é capacitar as famílias para que aprendam a se autogerir”, afirma.

Entre testes e diagnósticos, alguns anos de relutância se passaram. Em Raiz, os moradores, acostumados com o artesanato de capim-dourado – “uma espécie de sempre-viva”, diz Luciana –, resistiram a aderir ao trabalho de reproduzir em viveiros as riquezas do Cerrado. Sirley Ferreira Alves, artesã que abraçou a ideia desde o início, conta que “muitos ficaram sem saber se alguém ia querer comprar as plantas. Eu falei que ainda ia comprar o meu carro com essas mudas. Ninguém acreditou. Mas quando o caminhão parou aqui para levar o carregamento, começaram a pensar melhor.”

O caminho a ser seguido pelas comunidades isoladas do Vale do Jequitinhonha já aponta no horizonte. Uma simples comparação de preço incentiva o andar contínuo rumo a um novo tempo. O quilo das sempre-vivas mais comuns, como espeta-nariz, jazida, e botão-branco, não ultrapassa os R$ 3,00; enquanto o de uma muda cultivada pode chegar a R$ 25,00. Filha de Maria Flor de Maio, de 71 anos, que carrega no nome a constância arraigada da sempre-viva, Maria da Conceição Aparecida Ferreira, presença decisiva nos dois núcleos do projeto em Raiz, afirma: “As flores são tudo para a gente. Graças a elas, conquistamos os nossos sonhos.” E desta forma, os campos dos Gerais remetem a um Brasil distante, mas auspicioso. Para conhecê-lo, é preciso fazer mais do que percorrer estradas; é indispensável travar atenciosa travessia.

 

Campos de Sempre-Vivas Parque Nacional Sempre-Vivas (7)

A Coletora de Flores

maio 14, 2013

Histórias de um país desconhecido, feitas para o povo brasileiro…

aguarde!

 

Capivari, Minas Gerais

Fomos ao encontro de Dona Anita. O carro ficou para trás da cerca; nós seguimos adiante. De um lado, os picos rochosos do Itambé. Do outro, a mata rasteira com variações verde acinzentadas. Alguns metros à frente e lá estavam, sobre a pedra, os primeiros sinais da senhora pequerrucha, dourada de sol, sorvida pelo tempo, humana até o último fio do cabelo trançado. Eram ramalhetes de flores sempre-vivas, geometricamente amarrados e bem distribuídos. A cena cabia precisa na descrição que eu tinha dela. Paramos ali com os olhos pregados nos pastos a sua procura. Nada! Voltamos para a estrada de chão batido. Estávamos perto de sua casa. Ao aproximarmo-nos, pouco a pouco, sua figura ampliava. Dona Anita estava sentada sobre o gramado, pernas esticadas, lenço na cabeça, tronco curvado, mãos firmes a armar os molhos de macela, todos a formar um círculo amarelo ao redor de seu corpo enxuto. Trocamos cumprimento. – “Oi, prazer!” Seus olhos grandes e verdes transmitem serenidade e disposição. Apesar de maltratada pela lida, ela mantém o brilho d’alma intacto. Tem fala ligeira; é preciso tento para entender o que diz. A simplicidade se apresenta tão bela quanto a doçura de seu todo… uma constituição inteira, graciosa, desprovida de ruídos. A senhora solitária e trabalhadeira nos recebeu de braços abertos. Bastante expressiva, levantou-se para nos estender a palma da mão dura e forte. – “Vamo entrano. Tem café coado.” Mora numa casinha erguida no muque pela companheira de cata, Lurdes. Só Anita, vive ali há 28 anos. A tapera com telhado baixo e piso de barro fica nos altos da serra, isolada, quieta entre um quintal de limoeiros, pés de cana e quaresmeiras, a árvore que mais se avista nas redondezas. Bom que estamos em época de floração. Há tantas que basta perambular um tiquinho para dar de fuças com pencas de suas flores roxas.

 

Foto Tom Alves

Capivari.arquivo alta20

 

Confira

maio 14, 2013

Texto Carolina Pinheiro Foto Tom Alves

O turismo de base comunitária desenvolvido em Capivari, pequenino vilarejo debruçado sobre os campos rupestres da Serra do Espinhaço, Minas Gerais, vai virar reportagem na Revista Sagarana. As paisagens deslumbrantes e o pioneirismo do povo tradicional na prática da modalidade em uma região marcada pela cultura da roça serão destaque da edição 44. Em breve, nas bancas!

Mais um trabalho realizado ao lado do fotógrafo Tom Alves.

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Turismo de Base Comunitária(16)_com Tom Alves

 

O tamanho de um sonho

abril 28, 2013

 

abre entrevista Raineri

 

Leia a íntegra da entrevista exclusiva com Rodrigo Raineri, um dos maiores alpinistas do Brasil. Ele fala de suas singulares e intensas experiências nos mais altos e longínquos montes do planeta, capazes de inspirar outros expedicionários que também sonham em se lançar em aventuras por cenários remotos, enfrentando condições extremas de sobrevivência. Conta também sobre o lançamento e a repercussão de seu livro No Teto do Mundo, escrito em parceria com o jornalista Diogo Shelp e sobre o seu projeto de decolar de paraglaider do Everest. Publiquei o trabalho na edição 168 da Revista Aventura&Ação, em janeiro de 2012.

Fotos Arquivo Pessoal/Rodrigo Raineri

 

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Imagem

NO TOPO DO MUNDO: Rodrigo Raineri pela primeira vez no cume do
Everest (8.848 m), em 27 de maio de 2008, com a foto do filho nas mãos


Sentir-se parte dos lugares, da explosão de vida dos vales às condições adversas para a existência como no cume da Chomolungma – palavra tibetana que quer dizer “a Deusa Mãe do Mundo” –, o Monte Everest, o mais alto do planeta, a 8.848 m de altitude. Com 23 anos de uma carreira vitoriosa no segmento das atividades de aventura, um dos alpinistas mais experientes do Brasil revela as venturas e os percalços de uma escolha, cuja intenção converge com o ritmo da natureza. O segredo? Procurar um caminho, assumir riscos, conhecer-se aos poucos, desfrutar o ambiente, sempre entregue aos desafios a que se propõe de forma única, plena e dinâmica

 

O céu cor de chumbo anunciava uma tarde inquieta em Campinas, localizada a 96 km da capital paulista. Na sede da Grade 6, empresa fundada por Rodrigo Raineri, em 1993, vestígios de uma vida em sintonia com o horizonte apontavam o caminho a seguir. Cada pequeno detalhe trazia o mundo outdoor para perto dos olhos: a movimentação da equipe pelos corredores; as fotos e peças decorativas trazidas de jornadas pelos quatro cantos do globo; as árvores garbosas que separavam a casa da rua; a parede de escalada proeminente em meio ao quintal. Eis o ponto de partida de uma história repleta de aventuras, encontros, despedidas e, acima de tudo, de disponibilidade para o alcance da maior conquista de um homem: o autoconhecimento.

Raineri irrompeu a recepção em uma quinta-feira de verão, com um rastro inconfundível de dia agitado. Havia nele um conjunto harmônico que integrava postura serena, sorriso vasto e afinco para realizar todas as tarefas para as quais havia se planejado, apesar dos imprevistos, que não foram poucos a surgir durante a tarde. O garoto de Ibitinga, como é carinhosamente chamado por amigos, cresceu no mato, explorando, na infância, as regiões selvagens do interior de São Paulo. Aos 19 anos, lançou-se em sua primeira escalada. O pico escolhido foi o das Agulhas Negras, ponto culminante do Rio de Janeiro, com 2.792 m de altura. Desde então, o jovem, destemido e curioso, desbrava montanhas, vulcões e paredes – continentes afora –, de tipos de rocha variados, sob temperaturas extremas, ventos fortes e ar rarefeito.

Participou de dezessete expedições para a Cordilheira dos Andes, tendo alcançado o cume do Aconcágua em seis delas, a incluir uma pela temida Face Sul. Esteve quatro vezes na Cordilheira do Himalaia; em duas delas, conquistou o cume do Everest. Há três anos, decidiu integrar o parapente aos seus projetos, decolando do Mont Blanc, na França, em um voo que durou 29 minutos e meio. Em 2013, pretende que o voo parta do topo do Everest. Por mais de duas décadas de trajetória na natureza, Raineri superou obstáculos impostos pelo ambiente hostil de alta montanha, pela dor da perda de um amigo, em uma de suas expedições ao Everest, pela precariedade da infraestrutura e por problemas de saúde como o bloqueio de suas vias aéreas, causado pela hipoxia (baixo teor de oxigênio nos tecidos do corpo), ocorrente em grandes altitudes. Ao comemorar o sucesso de vendas do seu livro “No Teto do Mundo”, escrito em parceria com o jornalista Diogo Schelp, o alpinista, obstinado e confiante na vida, enfatiza que a escolha do que somos se encaixa com precisão ao limite do que queremos para nós: “O homem é do tamanho dos seus sonhos”.

 

NO LIMITE: Raineri vence trecho íngreme da cascata do khumbu, o lugar mais perigoso do lado sul do Everest

 

A&A: Quando decidiu ser alpinista? Quais foram as bases de sua escolha?

Rodrigo Raineri: Na verdade, eu sempre gostei de ambientes naturais. Eu gosto de outras atividades na natureza como canionismo, espeleologia, surfe. Em 1993, fiz um estágio remunerado pela Unicamp, na Holanda. Durante o período na Europa, escalei o Mont Blanc. Eu voltei para o Brasil decidido a trabalhar com esportes de aventura, com alpinismo. Resolvi ser um empresário desse segmento. Comecei guiando expedições. Na faculdade, já dava cursos de escalada, vendia equipamentos na minha casa, e, assim, ganhava dinheiro para fazer as minhas viagens. Em 1994, abri a empresa, a Grade 6, deixando a carreira de engenheiro para trás e me dedicando ao que realmente queria para a minha vida.

A&A: “Com um lugar desses, é difícil entrar em sintonia. Minha técnica é pensar que estou fazendo parte daquele pedaço da natureza temporariamente. Vejo isso quase como uma missão: durante determinado período, levo vida (a minha própria) a um ambiente hostil, antes de voltar ao meu lugar, nas baixas altitudes”. Que razões o levam a investir contra um ambiente em que a linha divisória entre a vida e a morte é tão tênue? Qual a principal motivação?

R.R.: Eu não vou contra o ambiente, ao contrário. A dificuldade é você entrar em sintonia, adaptar-se a ele. Você tem diversos obstáculos: frio, ar rarefeito, fome, sono, e o objetivo é aprender a viver em um ambiente hostil. Você está lutando contra as adversidades, mas tem que se sentir parte do lugar, saber que as privações integram a vivência para que a sua estada não se transforme em uma guerra. Eu não me sinto conquistando alguma coisa, embora a gente fale muito em conquista. Eu sinto como se aquela experiência estivesse sendo concedida a mim, entende? A de eu estar na natureza, na montanha. Por outro lado, eu também estou me permitindo fazer tudo aquilo, deixando-me levar pela correnteza. Quando você está sendo levado por ela, precisa nadar na diagonal, não contra. Tem que entrar no ritmo da natureza e procurar seguir um caminho, independente de um turbilhão de coisas que podem vir a acontecer.

A&A: Como é o dia a dia de uma expedição, cuja meta é conquistar o cume do Monte Everest, o mais alto do mundo, a 8.848 m de altitude?

R.R.: Primeiro, você tem que chegar à base da montanha. São várias fases e o seu dia a dia vai mudando de acordo com as fases do projeto: o antes e depois de partir, a chegada em Katmandu, a organização de tudo e a aproximação até chegar à montanha. Uma vez na sua base, a rotina passa a ser mais intensa: subir equipamentos para os acampamentos superiores, acostumar o corpo com as altitudes, fazendo subidas e descidas de aclimatação. Depois, vem um período de descanso, de preferência, antes do ataque ao cume, etapa que acontece durante sete dias de grande esforço. E a volta é aquela euforia de saudade, checagem de um monte de coisas. Para realizar a expedição, de modo geral, temos que sair daqui com pelo menos dois meses e meio livres, sem data de volta. Uma das grandes belezas desses projetos é você conseguir adequar a sua competência técnica, física e emocional ao desafio. Então, se você pega uma coisa muito difícil, a sua chance de sucesso é pequena. Se pega uma muito fácil, perde-se um pouco da graça. Se pega algo que está de acordo com o seu limite, aí é ótimo!

 

A HORA DO ANGELUS: O nascer da lua no Everest, a maior montanha do planeta, visto de Kala Patar, um dos montes do Himalaia, com 5.450 m de altitude

 

A&A: Como é o processo de preparação, o treinamento, a sua rotina em Campinas?

R.R.: Depende. Nos últimos anos, eu tenho trabalhado muito no escritório, administrando a Grade 6. Emendo final de semana, feriado, não paro. Faço eventos, ministro palestras, fiz o livro. Com ele, trabalhava à noite, de madrugada, sempre com muita energia. Costumava brincar quando as pessoas me perguntavam: como você treina para o Everest? Eu respondia: ah, eu trabalho o dia inteiro. Para atacar o cume também, você não dorme. Mas claro, eu tento ter uma política um pouco mais rígida de treino quando me proponho a escalar uma montanha. Vou voltar para o Everest em 2013 e tentarei fazer três macrociclos de treinamento. Já estou um pouco mais velho, o corpo não responde tão bem. Em 2012, quero me dedicar mais ao preparo físico. E os tipos de exercícios são musculação, para preservar ligamentos, e aeróbica, para alcançar performance. Faço esteira, natação, bike. Gosto bastante de treino externo, não sou muito fã de academia. Eu só vou porque a academia que frequento é muito legal, tem professor, incentivo, uma série de coisas boas.

A&A: Como é a sensação de retornar de uma longa viagem à montanha? O que você traz lá de cima?

R.R.: O que eu vivo em uma expedição de dois meses e meio na montanha, em termos de riqueza, aprendizado, é muito mais intenso do que o que vivo em um mesmo período passado aqui, na cidade. A gente volta mudado, dando muito mais valor para questões básicas. Você percebe que não precisa de muita coisa para ser feliz. O fato de ter um corpo saudável, os cinco sentidos em perfeito estado, um filho, uma boa formação já faz toda a diferença. Tudo o que é simples, mas essencial, acaba sendo incorporado ao seu modo de viver. Há um contentamento. Aqui, a gente tem uma cobrança muito grande por ter mais e mais. Às vezes, você vê pessoas que têm tudo e não são felizes com o que têm. Vejo nessa tomada de consciência algo de muito legal. Não por menos, trabalho com isso. É maravilhoso! Eu gosto de tentar ensinar isso para as pessoas que eu levo para a montanha.

A&A: O que faz quando nota que está só consigo mesmo a milhares de metros de altura, em um lugar em que o contato com seres vivos é praticamente nulo?

R.R.: Eu sei que aquele não é um lugar feito para a gente. A vida se dá nos vales. Um dos primeiros ensinamentos do curso de montanha é esse. A gente vai lá, desfruta do meio e da montanha, mas tem que sair. Se ficar, morre. Todos os povos do mundo vivem nos vales. Eu me sinto privilegiado por estar em um lugar de difícil acesso, onde poucas pessoas chegam, mas sei também que aquela experiência é temporária, que eu preciso me adequar ao ambiente hostil, fazer o que eu quero, que é estar na montanha, para depois voltar ao vale.

 

EM EXPEDIÇÃO: Rodrigo Raineri e Vitor Negrete com o Everest ao fundo, durante a fase de aclimatação, na expedição de 2005

 

A&A: O momento mais difícil pelo qual passou como alpinista foi a perda do seu melhor amigo, o Vitor Negrete, em uma expedição ao Everest, em 2006. Como lida com isso? E como foi seguir sem ele?

R.R.: A perda dele foi muito difícil. Por mais de um mês, após a sua morte, eu sonhei com o Vitor todos os dias. Tudo muito complicado. Ter de cuidar, no Nepal, da parte burocrática, de atestado de óbito, decidir o que iríamos fazer com o corpo. No final, a gente acabou sepultando ele na montanha mesmo. Mas essa escolha, para nós, ocidentais, é muito difícil. Para eles, lá, não, porque a montanha é sagrada e há uma série de simbologias. Mas para nós é difícil. Este é um assunto com o qual tenho que lidar nas minhas escaladas, apresentações, no livro. O Vitor está presente em praticamente todo o meu trabalho, no meu dia a dia. O livro possui inúmeras fotos dele. Em 2007, fiquei em um vai não vai e falei para mim mesmo: ah, eu vou continuar. Infelizmente, aconteceram milhões de tragédias. A Fórmula 1 não terminou depois que o Airton Senna faleceu, o aeroporto de Congonhas não fechou depois de todos os acidentes que ocorreram lá; enfim, a vida continua. A perda é irreparável, mas para eu ser uma pessoa feliz e realizada, tenho que fazer o que eu gosto. Não vou deixar de fazer por medo de que aconteça alguma coisa. Minha hora vai chegar, subindo ou não a montanha. Ao viajar pelas estradas do Brasil, dando palestras, eu também corro um sério risco, talvez até maior. O risco está em todo o lugar, não apenas no Everest. Se a gente sabe o que está fazendo, assume que algumas coisas realmente podem dar errado.

A&A: Sua concepção de escalada mudou muito com o passar dos anos? O que aprimorou?

R.R.: Quando eu era mais jovem, tinha alguns projetos que talvez me consumissem demais. Se os tivesse levado adiante, eu não poderia ter essas outras vidas, a de empresário, palestrante e pai. Eu seria apenas escalador, alpinista e ponto final. Se fosse fazer as 14 montanhas mais altas do mundo tendo filho, eu não sei que educação e atenção eu daria para ele. Por isso, comecei a ponderar um pouco mais. Claro que montanhismo é o que eu gosto mais de fazer, mas acho legal ter essa parte familiar, empresarial, de estar inserido no mercado de trabalho. No fim das contas, eu acredito que não seria feliz se fosse só escalador, se ficasse na montanha o tempo todo, se não tivesse a minha família, os desafios na empresa, se não tivesse outros meios de contribuir. Acho que aprimorei isso. Eu me cobro um pouco menos em relação a projetos que demandariam muito tempo e energia. O principal é sentir-se feliz com os resultados. Chegar a 50 m do cume e voltar satisfeito para a casa.

A&A: “No Teto do Mundo” é o seu maior relato sobre as suas investidas, impressões e aventuras pelos picos mais altos do planeta. Como foi o processo de produção desse livro?

R.R.: Eu comecei em 2002, depois que escalei a Face Sul do Aconcágua. Quando eu resolvi que iria ser alpinista, eu já tinha essa ideia de que faria grandes projetos, de escrever, dar palestras, viver do esporte. Mas não conseguia terminar. Fui mexendo, voltando a capítulos anteriores, até que um dia decidi procurar a ajuda de um especialista. Um amigo me disse que o irmão, o Diogo Schelp, que trabalhava na Veja, poderia me indicar alguém. Liguei e o irmão me disse que ele mesmo poderia me ajudar, que já conhecia o meu trabalho, a minha história. Eu já tinha um monte de manuscritos, diários que estavam digitalizados, entrevistas, sonoras. Havia muito material. Foram nove anos para lançá-lo, mas consegui. Quando eu peguei o primeiro exemplar impresso, fiquei muito feliz. Acho que está bem escrito, bem ilustrado, que está muito legal. O resultado tem sido muito gratificante. Você faz uma coisa para as pessoas lerem, elas leem e gostam. Isso tudo é espetacular.

 

ENTRE VALES E MONTANHAS: Caravana de iaques (bois tibetanos) no caminho para o acampamento base do Everest

 

A&A: Você decolou de parapente do Mont Blanc, em 2009. Tentou decolar do Everest, em 2011, desistindo apenas pela falta de visibilidade incidente na região onde iria pousar. Determinado, planeja nova investida, em 2013, para realizar a decolagem. Como surgiu esse projeto?

R.R.: No Everest, você já vê tudo de cima. Imagina ver de cima e voando? Deve ser um negócio fantástico. Você vai com alguns pontos predeterminados. Eu pousarei em Gorak Shep (5.100 m). Em caso de necessidade, os pousos de emergência aconteceriam no Campo 2 (6.400 m) ou no acampamento base (5.350 m). E entre o campo base e Gorak Shep ainda teria um lugar, que seria uma roubada tremenda, mas eu me jogaria lá se fosse preciso, que é o canto esquerdo do glaciar. No dia em que fiz o cume, em 2011, eu não conseguiria atingir nenhum desses lugares. Se a nuvem estivesse mais baixa, talvez pudesse decolar para pousar no Campo 2, mas eu não quis arriscar. No Mont Blanc, eu desci voando em 29 minutos e meio. Normalmente, você leva um dia para descer até o refúgio e, de lá, descer de teleférico. Ou ainda dois dias, se optar por descer tudo a pé. Então, descer em 29 minutos e meio é muito mais seguro. É lindo! Voar no Everest leva mais ou menos o mesmo tempo por causa do desnível. A diferença é o ar mais rarefeito, que gera uma taxa de afundamento maior. Por isso, muito provavelmente o voo vai durar menos.

A&A: Você possui 23 anos de vasta experiência em gelo, rocha e alta montanha. No currículo, acumula grandes feitos como a conquista do cume do Aconcágua, por seis vezes, e a do Everest, por duas, além de já ter descido a cachoeira do Pai Nosso, no Amazonas, a mais alta do Brasil, com 353 m de altura. Quais são, a seu ver, as principais características que um alpinista precisa ter para vencer barreiras e conquistar seus sonhos?

R.R.: A primeira é adequar os sonhos à realidade, seja qual for o seu nível emocional, físico e financeiro. Não comecei a sonhar com o Everest quando eu ainda não tinha escalado nada. Eu comecei a tentar vender os projetos aos poucos. Assim, fui ganhando experiência e entendendo o que o meu cliente precisava para que pudesse vender bem. Isto é muito importante, tentar adequar o desafio aos nossos sonhos, às capacidades e competências. Uma das características mais difíceis de conquistar é saber diferenciar os tipos de empreendedorismo. Se você escala uma montanha, você é um empreendedor da natureza. Mas se quiser viver disso, trabalhar com isso, você precisa ser um empreendedor do mundo moderno, de hoje, com e-mail, Facebook, conexão via satélite. São duas coisas muito distintas. É necessário unir esses dois mundos para conseguir vencer no mercado de esportes da natureza. Você precisa olhar para os projetos como negócios. Eu vendo, eu recebo, eu entrego. Não tem incentivo. Às vezes, as pessoas me perguntam como eu faço para pedir um patrocínio. Eu nunca pedi um patrocínio para ninguém. Nunca falei: “ah, me ajuda aí”. Se você me ajuda, eu também te ajudo. O negócio é bom para todo mundo, é um ganha-ganha. Temos algumas parcerias com empresas que gostam do meu trabalho, mas também gostam do retorno que o meu trabalho dá a elas. Você tem que ser competente tecnicamente, em campo, e administrativamente, dentro do escritório. Juntar tudo é difícil, mas é uma escolha possível.

 

Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004

A CONQUISTA: Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004

 

Fotos Divulgação

 

 

Publiquei a resenha a seguir na edição 170 da Revista Aventura&Ação. O texto fala sobre o filme Xingu, um retrato do Brasil que o Brasil não conhece. Em seu retorno a São Paulo, após o trabalho realizado ao lado dos índios, o diretor Cao Hamburger escreveu no site oficial da O2, produtora do longa-metragem: “Depois de passar tanto tempo a céu aberto, sol, rios, mata… Dormimos a última semana nas enormes e incríveis ocas dos Yawalapitis, ouvindo os sons do Xingu e acordando ao som das mulheres da aldeia cantando em seu dia de festa. Parecia um sonho. No último dia no Xingu, acordamos as 4 da manhã com lindas índias cantando e dançando… Entravam e saiam das ocas com uma música linda… depois pedi para traduzirem… Eram canções alegres que falavam de coisas simples da vida, como as nossas canções. Os índios não são tão diferentes de nós… São só mais alegres, menos estressados, mais inteiros… menos idiotas. Ou menos idiotizados por séculos de uma sociedade que nos impõe padrões de felicidade. Conviver com uma sociedade diferente da nossa nos serve de espelho. Olhamos para nós mesmos de outra forma.”

Boa leitura!

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Xingu, de Cao Hamburger, conquista público e crítica pelo caráter autoral, intimista e revelador de um Brasil espoliado por projeto desenvolvimentista

 

 

Uma das fendas da História do Brasil se abre de imediato ao interlocutor desprevenido. Vamos ao teste. Quantos anos tem o País? Quem descobriu o Brasil? A referência de temporalidade básica irrompe em nossa memória equivocada. O Brasil foi descoberto no ano de 1500, por Pedro Álvares Cabral. A grande maioria da população brasileira tropeçaria na resposta errada. Nosso País com nome de árvore é habitado por povos de cultura milenar. Índios de diversas etnias vivem, desde os primórdios, sob o abrigo das florestas.

Em meio à paisagem desfigurada pelo desmatamento, uma ilha de mata preservada ecoa os sons de nossa origem. No Parque Indígena do Xingu, localizado no nordeste do Mato Grosso, as tradições de 16 etnias ancestrais permanecem intactas. Os responsáveis por esse feito, os Irmãos Villas Bôas, empreenderam, na década de 40, uma epopeia desbravadora pelos sertões do Brasil Central. A Expedição Roncador-Xingu resultou em mais de 2,5 mil quilômetros percorridos por terra e rios; no contato e convívio com 14 tribos isoladas; na demarcação da primeira reserva ecológica de preservação da sociobiodiversidade brasileira; e na publicação do diário de viagem dos Villas Bôas, Marcha para o Oeste, relançado pela Companhia das Letras.

Foram 42 anos de uma história de aventura e amor por um Brasil desconhecido, que agora volta à tona pelas mãos do cineasta Cao Hamburger em seu filme Xingu. Segundo Hamburger, o longa-metragem nasceu de seu desejo de narrar para o povo brasileiro uma história pouco explorada. A convite da O2, produtora de Fernando Meirelles, o mesmo diretor de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias mergulha nos bastidores desse capítulo marcante da saga pela ocupação do interior do País. O longa intimista, que pretende ser apenas o que é, um relato de uma experiência humanista, movida unicamente por sentimento, retoma um período de nossa história em que virtudes desprovidas de interesse econômico faziam valer um homem. Três irmãos, enredados em potencialidades e contradições, decidem, um dia, unir-se na busca de um ideal. O passo seguinte abre caminho para uma revolução sem precedentes, a qual coloca a sociedade brasileira frente a frente com a sua face primeira.

O filme fraterno toca na essência da identidade nacional, entregando ao espectador brasileiro um legado que lhe pertence. A cumplicidade, amizade e luta pela causa indigenista dos Villas Bôas faz de Xingu um retrato convincente que nos leva a refletir sobre a verdadeira descoberta do Brasil. Afinal, este é um País milenar. O propósito maior do longa, contudo, mostra-nos o quão predadores ainda somos, fator que nos conduz, séculos adentro, ao continuísmo de um processo devastador. Os Villas Bôas, como os próprios afirmaram, não conseguiam evitar a chegada do homem branco ao ambiente selvagem. O que lhes coube em missão intrépida foi sempre chegar antes.

Vale a pena assistir.

 

 

Travessia

setembro 7, 2012

Texto Carolina Pinheiro Foto Tom Alves

Histórias de um país desconhecido, feitas para o povo brasileiro…

aguarde!

 

Cemitério do Peixe, Minas Gerais

Pessoas muito simples têm a humanidade incrustada na pele. A pureza que existe dentro de cada um é característica marcante do arraial, erguido em homenagem a São Miguel e Almas. Todos estão abertos para o encontro ora com a nudez da vida ora com a devoção ao sagrado. Faz-se convicta a presença inabalável da fé, que acarinha os ânimos e aquece o ambiente.

O povoado, que pertence ao distrito de Costa Sena, em Conceição do Mato Dentro, atrai cerca de cinco mil pessoas durante os dias da festividade. Muitos romeiros carregam de um tudo de casa para o vilarejo. São colchões, bacias, panelas e víveres transportados no lombo de mulas, cavalos, carros-de-boi, bicicletas, caminhões, carroças ou mesmo nas próprias costas dos fiéis. Leia mais sobre o Cemitério do Peixe no post A Cidade das Almas.

 

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 “O sertão é do tamanho do mundo. O sertão é dentro da gente.”

(João Guimarães Rosa)

 

 

Agradecimento ao Nhambuzim e seu rosário de contas povoado de Brasil. Obrigada por ajudarem uma jornalista a abrir essa porteira.


O Guerreiro Audacioso

junho 2, 2012

 

abre entrevista Araquém

 

Confira a íntegra da entrevista que publiquei na Revista Aventura&Ação com o ícone da fotografia de natureza: Araquém Alcântara. A trajetória, os livros, as histórias do fotógrafo que documentou o Brasil como nenhum outro. Colecionador de mundos, ele marca a alma do espectador com registros que deram origem ao maior banco de imagens da fauna e flora do país. Um dos grandes expedicionários da era contemporânea, Alcântara fala com entusiasmo de sua grande paixão pela fotografia, de suas andanças pelas matas brasileiras, e conta ainda sobre os novos rumos de sua carreira.

 

TROPA CRIOULA: Gaúcho toca cavalos da raça típica da região, em alvorada de Dom Pedrito (RS). Do livro “Araquém Alcântara: Fotografias”

 

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* Entrevista publicada originalmente na edição 167 da Revista Aventura&Ação.

 

Ele não crê em submissão a regras e fórmulas para o alcance do espírito criador, livre, íntegro. Acredita no olhar autêntico, desprendido, perseverante. Para o fotógrafo que documentou como nenhum outro a cultura, a face e a alma do povo e das florestas do Brasil, qualquer profissional que opta pelo registro do mundo por meio da imagem deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo.

Fotos Arquivo Pessoal/Araquém Alcântara

 

Araquém em ação no Pantanal Mato-grossense

Semblante incisivo, olhar certeiro, gestos articulados e voz calorosa: com a postura de um combatente impetuoso, Araquém Alcântara bate a campainha de sua editora carregando consigo uma pilha de livros, resultado de empenho e contumácia. Pouco antes do início de uma entrevista que levaria cerca de duas horas, ele anuncia a sua equipe – “preciso de agenda, um copo d’água, dois minutos para um telefonema e começamos”. O obstinado colecionador de mundos, fotógrafo com 40 anos de histórias para contar, peregrinações pelo Brasil de todos os brasileiros, real e pouco explorado, cheio de nuances, contrastes, exuberância e barbárie, passou feito relâmpago pela sala de espera, simpático, expressivo e pronto para trabalhar. – “Vamos focar em criatividade, ok?”, desafia.

Ao longo de uma carreira que soma 42 livros publicados e dezenas de prêmios, o catarinense criado em Santos (SP) exalta a diversidade e a grandeza do País com nome de árvore. “Eu sou um intérprete do Brasil, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas”, diz. Para o seu livro “TerraBrasil”, o fotógrafo, incansável em sua saga de trazer o Brasil profundo para o urbano, percorreu, durante nove anos, todas as Unidades de Conservação do País. O trabalho, minucioso e pioneiro, deu origem ao maior banco de imagens da fauna e flora nacionais, inspirando também o nome da editora fundada por Araquém. O objetivo da casa editorial, especializada no registro do patrimônio natural brasileiro, é defender a sua biodiversidade por meio da documentação e denúncia.

Às vésperas de lançar mais dois livros, embrenhado em projetos cinematográficos, preparado para ganhar o mundo em empreitadas pela Tanzânia, na África, Araquém acredita na arte como uma ação revolucionária, um poderoso instrumento de mexer com o inaudível, com o não perceptível, com a alma. “Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo”.

 

A&A: Como surgiu o interesse pela fotografia?

Araquém Alcântara: Eu comecei a fotografar depois que eu vi um filme fantástico, que fez a minha cabeça, chamado “A Ilha Nua”, de Kaneto Shindo. Foi uma coisa impressionante porque o meu negócio era ser escritor. Ao sair da sessão, eu estava absolutamente transtornado. Estranho, eu nunca tinha sentido aquilo antes, a magia de ter visto uma obra de arte que tinha me tocado. Depois, houve um livro, “O Budismo Zen”, de Alan W. Watts. Quando eu o li, em 1969, foi como se houvesse também uma revelação: uma obra de arte pode transformar. Quando há sintonia, quando o observador entra no mesmo dial do que ele está vendo, há uma transformação coletiva, uma revolução. A obra se transforma, o autor se transforma e o espectador se transforma. Aí cria-se um triângulo: obra, autor, espectador. Sem querer, intuitivamente, nesse final dos anos 60, eu comecei a entender a arte como uma ação revolucionária. A obra precisa provocar. O importante é que essa transformação que gerou tudo isso que eu sou – eu só penso em produzir, sou totalmente uma usina, pilhado, o meu negócio é criar – veio após assistir a esse filme, quando percebi que poderia dizer as coisas por meio de imagens.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Criança da tribo Tucano se banhando em Pari-Cachoeira (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Qual foi a sensação da primeira foto? Onde e quando aconteceu?

A.A.: Começou nos anos 60, quando o filme me convocou para essa linguagem. Eu ainda demorei dez anos para assumir a fotografia. Lá por 1978 é que eu deixei o texto para virar fotógrafo, unicamente. Comecei a me enveredar pelas matas, entrei na Mata Atlântica e a minha vida mudou. Quando eu conheci a grande floresta virgem brasileira, na época em que o Governo desapropriara uma grande área para construir usina atômica, a minha fotografia ganhou ideologia. Então, ela sempre teve um caráter de documentação social. Mas o aprendizado, os exercícios de texto, tudo isso foi importante para que eu conseguisse chegar onde estou. A minha fotografia sempre foi engajada, com um propósito de seduzir as pessoas para o meu modo de ver o mundo, para espalhar conhecimento e informação, para revelar o Brasil para os próprios brasileiros. Depois de 40 anos, ela se livra de tudo isso, de natureza, de jornalismo, para se transformar em uma fotografia livre de qualquer tema, amarra, fórmula. O meu último livro comprova isso. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Benny de melhor livro de arte em 2011.

A&A: E quanto às temáticas a serem fotografadas? Como se enveredou pela fotografia de natureza?

A.A.: A fotografia de natureza só se revelou quando eu entrei na floresta selvagem, na Mata Atlântica da Juréia, onde tem bicho. De repente, você está quieto e passam 30 porcos-espinhos do seu lado. Não é florestinha, não. É coisa grande, de bichos grandes. Foi aí que eu comecei a entender essa outra sociedade. A floresta se transformou na minha matriz criativa, no meu modelo de universo. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, Amazônia, Caatinga, Cerrado, e que está em processo de destruição. A maioria das pessoas passa por essa vida sem entender a grandeza, a importância, a maravilha que é ser um país que tem nome de árvore, Pau Brasil.

A&A: O que imprime a marca pessoal do fotógrafo à fotografia?

A.A.: Lembro-me que, com sete, oito anos, eu já escrevia uns textos que as pessoas liam e diziam: “nossa, mas que texto lindo!”. Depois, eu comecei a ler. O gosto pela leitura chegou muito cedo. O meu universo, a minha percepção do mundo foi ampliando. A cultura sempre esteve presente. Só que eu jamais imaginei fotografia. Alguma coisa muito especial me convocou para outro lado. O fotógrafo, hoje, é um artista plástico, tem que ter um grande repertório cultural. Uma vez, para você ter uma ideia, um diretor de uma galeria em Santos me disse: “Araquém, a fotografia não é arte, eu não posso expor você aqui, mas eu tenho um corredorzinho que dá no banheiro, ok?” Aí você vê quanta batalha. Ainda mais que a minha fotografia era de Brasil, feita para gente que só queria saber de Cancún e Miami, uma elite que queria só copiar o exterior e não olhava para seu próprio país. Ou seja, o meu trabalho sempre foi de briga. A minha fotografia sempre foi de combate. Diante de tudo isso, o que imprime uma marca pessoal? A vivência, a experiência. Com aquele filme, eu comecei a perceber que a minha fotografia sobre o Brasil seria muito simples, mas sofisticada nos detalhes, com uma riqueza de formas muito grande. O mais importante é que percebi que eu iria documentar o povo e a natureza brasileira, que teria que começar a andar. Sou um fotógrafo andarilho.

 

QUEIMADA: Plantação de cana-de-açúcar é incendiada por produtores para facilitar o corte em propriedade de São Manuel (SP). A prática será proibida por causar danos ao meio ambiente. Do livro “Cachaça”

 

A&A: Você tem um trabalho com uma temática social, de protesto. Qual é o poder da imagem?

A.A.: Ela tem um grande poder tanto para o bem, quanto para o mal. Tem um poder de transformar consciências, de enriquecer a cultura, de revelar.

A&A: Quando a fotografia se torna uma forma de intervenção social?

A.A.: Ela não é somente uma forma de intervenção social, mas um poderoso instrumento de discussão da realidade. No momento em que o fotógrafo documenta a realidade, não significa que ele é um artista. Ele pode ser um documentador. A sua interpretação, o seu modo de registrar essa realidade é que pode fazer dele um artista. A fotografia é um grande documento social quando ela passa a revelar o caráter de um povo, a sua história. Quanto mais você se aproxima de um povo, mais próximo você está de revelar as suas angústias, buscas e alegrias. É aquela coisa de ir onde o povo está, de se jogar nessa viagem de documentar a sua aldeia.

A&A: Como você definiria o Brasil?

A.A.: É impossível. Ninguém define essa grandeza. O Brasil é um enigma. O Brasil são muitos “Brasis”. Para definir o Brasil, eu recomendaria aos meus alunos que lessem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, e por aí vai. Tem que ler também Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Tem que ver Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor. Aliado a isso, é importante que as pessoas andem pelo Brasil. Ele precisa ser conhecido. Não adianta só ler. Escola é bom, mas é preciso andar. O Brasil tem uma multiculturalidade impressionante, uma miscigenação que nos torna plurais.

 

AMAZÔNIA: Pescador Zezão retira pirarucu da água na Reserva Extrativista Médio Juruá (AM). Do livro “Amazônia de Araquém a Atala”

 

A&A: Como estabelece relações com as pessoas que fotografa em comunidades remotas? Como retratar sem invadir?

A.A.: A primeira coisa é quebrar as diferenças. É claro que você causa estranhamento chegando a uma comunidade perdida da Amazônia. Todo mundo fica olhando. Daí, você começa a se relacionar. Daqui a pouco, você está jogando futebol com eles, conversando com o mais velho, ouvindo os mais jovens, pescando, está dentro da mata com eles. Quando menos espera, as fotos surgem naturalmente. O grande segredo é ouvir, dar atenção e trocar com eles de igual para igual. O fotógrafo de natureza, viajante, tem que se aproximar de uma comunidade para registrara vida real do lugar.

A&A: Para a sociedade, qual é o impacto gerado pela fotografia das comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras?

A.A: O fotógrafo levanta esse véu do que está oculto, faz certas coisas que ficaram para trás ressurgirem. Ele esclarece páginas esquecidas da história. A fotografia é resgate. Esse é um País desconhecido pelos brasileiros, onde, em muitos lugares, o Estado não existe, não há lei. O fotógrafo toca nessas feridas. Por outro lado, ele pode ser só um poeta. Fotografia também é síntese, celebração da beleza, aquela coisa que você não pode pegar. Não tem que se prender a regras nem a terminologias.

A&A: Quais os métodos para fotografar animais silvestres, lugares afastados, comunidades isoladas? Como você equilibra técnica e sensibilidade?

A.A: É preciso uma profunda disposição para você ir a lugares distantes desse País. Você tem que estudar, mapear, buscar guias que o levem na comunidade. Há um tempo para descobrir o que se quer na fotografia. É preciso exercitar constantemente e mergulhar até a exaustão em um tema. Aí você faz um ensaio, depois outro, e assim por diante.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Onça-pintada surge entre a mata na Amazônia (PA). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Quais as principais aventuras que já enfrentou por uma imagem?

A.A.: A expedição para a região do Monte Roraima. Tivemos uma canoa desgovernada que foi para cima de uma cachoeira (a Grande). Tive que me agarrar em uma pedra para não ser levado pela correnteza. Houve, também em Roraima, um monomotor que passou por uma tempestade tenebrosa. Foi um susto. Outra situação marcante ocorreu no Pará. Eu, meu assistente, o guia e o barqueiro fomos seqüestrados por índios Caiapó, enquanto cruzávamos o Rio Curuá, afluente do Xingu. Eles estavam em pé de guerra com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Federal, que havia apreendido o garimpo de onde eles estavam ganhando comissões. Pediram como resgate R$ 1,5 mil, 150 litros de gasolina de avião e dois quilos de pimenta verde. Passamos dias comendo apenas macaxeira até que fui levado à cidade mais próxima, retirei uns R$ 300,00 e o grupo foi libertado.

A&A: Qual é o seu maior desafio?

A.A.: Eu tenho um profundo amor por esse País. Sou um intérprete dele, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas. Já fiz 42 livros celebrando esse Brasil. Agora, eu começo a fazer cinema. Começo também a derivar o meu trabalho para as crianças. Meu trabalho espalha benefícios, conhecimento, informação, arte. A minha bem-aventurança, eu costumo dizer, é criar e repartir belezas.

A&A: Qual foi o seu maior aprendizado?

A.A: Ando há 40 anos pelo País e só agora eu aprendi a entender a alma desse povo dos sertões, dos ermos, um povo que ainda é esquecido, espoliado.

 

CARVOEIRA: Trabalhador manuseia carvão no Vale do Jequitinhonha (MG)

 

A&A: O que nunca fez e gostaria de fazer?

A.A: Eu serei o consultor criativo e fotógrafo de um filme sobre a Amazônia chamado “Planeta Verde”. O misto de documentário e ficção será produzido por Gullane Entretenimento e Gedeon Filmes. O projeto me levará a cinco grandes expedições pela Amazônia. É um novo caminho. Acabei de fazer um livro com Alex Atala, “Amazônia de Araquém a Atala”; outro com o Manoel Beato, Cachaça. Nos próximos anos, farei um livro sobre o Cerrado, três sobre a Amazônia (“Amazonas, o Rio”; “Os Amazônidas” e “Viagem pela Amazônia”) e outro sobre a fauna do Brasil.

A&A: Você falou, no início da entrevista, que a sua fotografia é de batalha, de combate. O que deve esperar quem está começando agora nesse ramo?

A.A.: Eu acho que tem que conseguir dizer de uma maneira pessoal, original, para que isso seja uma contribuição. O exercício exige talento, perseverança, é uma busca constante de autoconhecimento, de crescimento espiritual. Você trabalha para os outros e para si. Quando você começa a desenvolver uma coisa própria, já está em um caminho autoral, tem algo que já virou um grande aliado, que é a forma de espalhar benefícios. Muitos não conseguem chegar ao caminho autoral, pois ele exige desprendimento, não é comercial.

 

SUMAÚMA DO RIO NEGRO: Crianças ribeirinhas se divertem nas raízes de uma Sumaúma, árvore típica da Floresta Amazônica, em Barcelos (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

Mais informações sobre o fotógrafo e o seu trabalho em www.araquem.com.br