Man in Profile

maio 27, 2016

Foto Arquivo The New Yorker

Joseph Mitchell outside Sloppy Louie’s restaurant with Louis Morino, the subject of Mitchell’s 1952 <i>New Yorker</i> profile ‘Up in the Old Hotel’O texto é antigo, mas indico fortemente. A legenda abre com duas qualidades imprescindíveis em um repórter: precisão e paciência. Precursor do new journalism, mestre da arte de gastar sapatos, Joseph Mitchell foi um dos jornalistas mais talentosos da The New Yorker. Os seus McSorley’s Wonderful Saloon, Up in the Old Hotel e Old Mr. Flood são verdadeiros marcos da reportagem do século XX.

O mistério sobre o seu silêncio atravessou décadas após o lançamento de sua obra-prima, em 1964. Começou a ser revelado nos anos 2000, em textos inéditos de Mitchell publicados pela própria The New Yorker. O material foi descoberto pelo escritor Thomas Kunkel, que lançou a biografia do jornalista, Man in Profile: Joseph Mitchell of The New Yorker, em 2015. Eu sou suspeita para falar, mas tem um trecho de um artigo que li sobre ele há anos e que nunca saiu da minha cabeça. Chamo de pura revolução.

Em seu Becoming part of the city, Mitchell revela algumas facetas como a obsessão por perambular. “Visitei e fucei as centenas de vizinhanças que compõem a cidade, Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Richmond – para isso, tomava de 15 a 20 ônibus todos os dias.” Como disse V. H. Brandalise, “em tempos de tantas mudanças, apurar o olhar sobre o que permanece – e tentar entender porque permanece – é um exercício de compreensão a respeito de nós mesmos.”

Ainda sobre Mitchell, recomendo também o The Master Writer of the City, de Janot Malcolm.

 

Adelante

novembro 21, 2014

Galeano é um homem com quem tenho o maior orgulho de dividir o mesmo momento histórico. Olha que reflexão ele faz sobre a experiência humana dentro do universo!

 

“Para que serve a utopia? Para caminhar!”

 

Foto Vasco Szinetar

Convidado para a 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2010, o jornalista peruano Julio Villanueva Chang revelou, em entrevista concedida a Sylvia Colombo, do jornal Folha de São Paulo, como escolhe os personagens de seus perfis:

Por razões tão evidentes como misteriosas. Há algo exemplar que me fascina neles e que tento explicar a todos. Mas, às vezes, há algo deles que tem a ver comigo e que não posso explicar nem sequer a mim mesmo. A história do prefeito cego é a de um homem que perdeu a visão quando criança e que desde então luta para ser tratado como pessoa normal. Escrevo sobre o que não entendo e cada um dos meus perfis é também um ensaio sobre a minha ignorância. O que me atrai num personagem é o fato de encarnar uma ideia contraditória e inexplicável e que sua vida não explique somente a ele, mas a muitas pessoas.
Em abril, a Editorial Germinal imprime duzentos exemplares do De Cerca Nadie Es Normal, uma compilação extraída do primoroso Elogios Criminales. O editor da revista Etiqueta Negra lançará a pequena coletânea amanhã, dia 12, na Central FIA Letras, Costa Rica. Os números serão distribuídos somente nos países da América Central.
Elogios Criminales reúne grandes reportagens que fez com figuras singulares com destaque para os perfis do chef espanhol Ferran Adrià, do dentista do escritor colombiano Gabriel García Márquez e do tenor peruano Juan Diego Flórez. O livro é uma referência. O problema é encontrar, mas vale a tentativa.
De Cerca Nadie Es Normal
 

 

 

 

 

 

 

 

a macaca em

junho 2, 2012

O Retorno Desvairado

Uma alusão ao sumiço da autora que vos escreve, que desde a sua mudança para São Paulo não conseguia agarrar faísca de tempo que fosse para se dedicar ao blog. Nada como um dia depois do outro…

 

DA FLORESTA CHAMADA REALIDADE: Macaca solta o verbo depois de intervalo prolongado em meio aos desvarios da vida selvagem

Reza a lenda que macaca saltita sem perder o rebolado. Tenho cá as minhas dúvidas, já que remelexos à parte, eis que a símia desapareceu por um ano após trocar a Ilha da Magia pela Grande Floresta.  O maior conglomerado de mata cachorro do seu país é habitat dos aturdidos pelo insano soar de tudo o que é Gigante, Infinito, Alucinado, e acima de tudo: Virado do Avesso. A macaca pula de um lado para o outro. Haja galhos para sustentar tamanha quantidade do que fazer.

A sua estada na nova morada tem sido uma aventura particularmente bela, conscientemente drástica. Encontros, descobertas, cada traço, cada senda abre uma nova janela de possibilidades. Tudo pode. Tudo serve. O contexto abrangente transforma a bichana em mais um elo universal de faces e formas. Na verdade, a floresta mais robusta das redondezas contempla o abstrato e o concreto ao mesmo tempo. A realidade bate nas fuças de quem chega na hora do pulo inicial. De galho em galho, o avesso se revela de maneira imperativa.

A macaca não sabe se ama ou odeia o lugar que escolheu para construir o seu caminho. Imagine um espaço onde aqueles que tudo podem e os que nada têm convivem amontoados e em contraste intolerável. São mais de 10 milhões de seres humanos trombando no alvoroço de trilhas abertas a qualquer custo em nome do progresso. Esse rebuliço de multimilionários e hiper miseráveis já foi chamado de A Locomotiva da Nação. Se o dito é válido, para aonde vai tanto dinheiro? A maioria dos animais residentes não vê a cor.

Em conversa de noite qualquer, um macaco nativo, falante e  nem um pouco pragmático contou à símia que, na mesma área desgastada pelas mãos do homem, o quádruplo de ratos se alastra por traçados subterrâneos. Ui. O quê?  Exato. Ao fazer a conta, melhor nem dar margem ao desdobrar dessa história. Prepare a mente e vá. A ‘rotunda ensimesmada’ coça a penugem capilar e indaga:

– Existe receita para um bicho alcançar o equilíbrio num centro desprovido de padrões básicos para o bem viver?

Sabe-se lá, mas o mais curioso para ela é constatar que, mesmo em meio ao ritmo surreal de uma selva tresloucada, os planos fluem, os sonhos ardem, e as coisas não param de acontecer. A símia para por um instante, espia o movimento frenético de cima do galho em que repousa após o dia de trabalho intenso e acena com a cabeça no lugar:

– A resposta é sim, valeu a pena arriscar.

Quem quiser, que conte outra.

E dá-lhe Caetano!

 

Instante

março 20, 2011

Ontem à noite, tive o privilégio de assistir a um dos luares mais bonitos de minha vida. Estava quieta em meio ao silêncio da brisa, era eu intensamente, talvez um pouco mais do que isso, mas nada além de mim mesma. Lembrei-me de poemas que caberiam ao sabor do que sentia. Os que seguem abaixo acompanham o meu regalo a todos que comigo estavam, mesmo que distantes. Fiz também um pequeno registro do céu para ilustrar a cantoria.

 

Never give all the heart

William Butler Yeats

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
Oh never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

Poética

Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Amar

Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Para ser grande

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

Um olhar sobre a China

março 17, 2011

 Fotos web

O olhar audaz e objetivo da jornalista Xinran sobre a era comunista de Mao Tsé-Tung em seu livro As boas mulheres da China, publicado no Brasil em edição de bolso pela Companhia das Letras, traz ao Ocidente uma realidade desconhecida. Impunidade, violência, ignorância e repressão de um regime totalitário que mutilou a vida de mulheres de todas as idades e condições sociais estão entre as temáticas da obra.

A jornalista, que deixou a China em 1997 para conseguir publicar o seu trabalho, passou cerca de oito anos coletando depoimentos de mulheres que viveram os horrores da Revolução Cultural. De acordo com a autora, o atraso foi tão proeminente que seu país retrocedeu mil em 10 anos.

Xinran tem o cuidado de manter a dramaticidade das histórias a fim de disponibilizar ao leitor uma compreensão profunda da condição feminina na China posmoderna. Durante os anos em que apresentou o programa Palavras na brisa noturna, a jornalista conseguiu abrir um canal de discussão sobre assuntos proibidos como violência sexual, opressão e homossexualidade. A quebra do silêncio fez do espaço uma fonte inesgotável de memórias de humilhação, dor e abandono da mulher.

Xinran explorou a vida íntima de chinesas de todas as partes, vasculhou as regiões mais inóspitas do país atrás de informação. O mergulho – a contar a sua própria experiência com o regime –, quase a levou a um colapso emocional. A jornalista e seu irmão foram separados dos pais pela Guarda Vermelha quando crianças. Criados em um quartel general sob o jugo de carrascos, os dois só reencontraram a família anos mais tarde.

Estupros, casamentos forçados, espancamentos, miséria e preconceito compõem o cenário de um tempo em que a égide do poder usurpou o povo chinês e dilacerou a alma de uma geração. “Nos relatos do livro, a autora possibilita a vozes antes silenciadas revelar provações, medos e uma capacidade de resistência que as permitiu se reerguer e sonhar em meio ao sofrimento extremo.”

Eu assisti a Xinran em uma das mesas literárias (China no Divã) da VII edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Naquele mesmo dia, comprei o livro. Há meses, comentei que a sua leitura valeria um texto no blog. Segue a dica para os meus leitores.

Sugestões

Outros títulos da autora são Enterro celestial, O que os chineses não comem e Testemunhas da China – vozes de uma geração silenciosa.

 

 

Íntegra da entrevista concedida por Xinran à Folha Online

Leia sinopse e trecho do livro em

 

Imagens Internet
 
 
Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero) do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by “The King of the World”. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, yankee guys classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que murmuram “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro (eco)! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de por assim dizer. Quá! A macaca sabe que em se tratando do espaço mais exótico do planeta tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. Um herói da selva às avessas.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pelos bailes da vida, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.