O tamanho de um sonho

abril 28, 2013

 

abre entrevista Raineri

 

Leia a íntegra da entrevista exclusiva com Rodrigo Raineri, um dos maiores alpinistas do Brasil. Ele fala de suas singulares e intensas experiências nos mais altos e longínquos montes do planeta, capazes de inspirar outros expedicionários que também sonham em se lançar em aventuras por cenários remotos, enfrentando condições extremas de sobrevivência. Conta também sobre o lançamento e a repercussão de seu livro No Teto do Mundo, escrito em parceria com o jornalista Diogo Shelp e sobre o seu projeto de decolar de paraglaider do Everest. Publiquei o trabalho na edição 168 da Revista Aventura&Ação, em janeiro de 2012.

Fotos Arquivo Pessoal/Rodrigo Raineri

 

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Imagem

NO TOPO DO MUNDO: Rodrigo Raineri pela primeira vez no cume do
Everest (8.848 m), em 27 de maio de 2008, com a foto do filho nas mãos


Sentir-se parte dos lugares, da explosão de vida dos vales às condições adversas para a existência como no cume da Chomolungma – palavra tibetana que quer dizer “a Deusa Mãe do Mundo” –, o Monte Everest, o mais alto do planeta, a 8.848 m de altitude. Com 23 anos de uma carreira vitoriosa no segmento das atividades de aventura, um dos alpinistas mais experientes do Brasil revela as venturas e os percalços de uma escolha, cuja intenção converge com o ritmo da natureza. O segredo? Procurar um caminho, assumir riscos, conhecer-se aos poucos, desfrutar o ambiente, sempre entregue aos desafios a que se propõe de forma única, plena e dinâmica

 

O céu cor de chumbo anunciava uma tarde inquieta em Campinas, localizada a 96 km da capital paulista. Na sede da Grade 6, empresa fundada por Rodrigo Raineri, em 1993, vestígios de uma vida em sintonia com o horizonte apontavam o caminho a seguir. Cada pequeno detalhe trazia o mundo outdoor para perto dos olhos: a movimentação da equipe pelos corredores; as fotos e peças decorativas trazidas de jornadas pelos quatro cantos do globo; as árvores garbosas que separavam a casa da rua; a parede de escalada proeminente em meio ao quintal. Eis o ponto de partida de uma história repleta de aventuras, encontros, despedidas e, acima de tudo, de disponibilidade para o alcance da maior conquista de um homem: o autoconhecimento.

Raineri irrompeu a recepção em uma quinta-feira de verão, com um rastro inconfundível de dia agitado. Havia nele um conjunto harmônico que integrava postura serena, sorriso vasto e afinco para realizar todas as tarefas para as quais havia se planejado, apesar dos imprevistos, que não foram poucos a surgir durante a tarde. O garoto de Ibitinga, como é carinhosamente chamado por amigos, cresceu no mato, explorando, na infância, as regiões selvagens do interior de São Paulo. Aos 19 anos, lançou-se em sua primeira escalada. O pico escolhido foi o das Agulhas Negras, ponto culminante do Rio de Janeiro, com 2.792 m de altura. Desde então, o jovem, destemido e curioso, desbrava montanhas, vulcões e paredes – continentes afora –, de tipos de rocha variados, sob temperaturas extremas, ventos fortes e ar rarefeito.

Participou de dezessete expedições para a Cordilheira dos Andes, tendo alcançado o cume do Aconcágua em seis delas, a incluir uma pela temida Face Sul. Esteve quatro vezes na Cordilheira do Himalaia; em duas delas, conquistou o cume do Everest. Há três anos, decidiu integrar o parapente aos seus projetos, decolando do Mont Blanc, na França, em um voo que durou 29 minutos e meio. Em 2013, pretende que o voo parta do topo do Everest. Por mais de duas décadas de trajetória na natureza, Raineri superou obstáculos impostos pelo ambiente hostil de alta montanha, pela dor da perda de um amigo, em uma de suas expedições ao Everest, pela precariedade da infraestrutura e por problemas de saúde como o bloqueio de suas vias aéreas, causado pela hipoxia (baixo teor de oxigênio nos tecidos do corpo), ocorrente em grandes altitudes. Ao comemorar o sucesso de vendas do seu livro “No Teto do Mundo”, escrito em parceria com o jornalista Diogo Schelp, o alpinista, obstinado e confiante na vida, enfatiza que a escolha do que somos se encaixa com precisão ao limite do que queremos para nós: “O homem é do tamanho dos seus sonhos”.

 

NO LIMITE: Raineri vence trecho íngreme da cascata do khumbu, o lugar mais perigoso do lado sul do Everest

 

A&A: Quando decidiu ser alpinista? Quais foram as bases de sua escolha?

Rodrigo Raineri: Na verdade, eu sempre gostei de ambientes naturais. Eu gosto de outras atividades na natureza como canionismo, espeleologia, surfe. Em 1993, fiz um estágio remunerado pela Unicamp, na Holanda. Durante o período na Europa, escalei o Mont Blanc. Eu voltei para o Brasil decidido a trabalhar com esportes de aventura, com alpinismo. Resolvi ser um empresário desse segmento. Comecei guiando expedições. Na faculdade, já dava cursos de escalada, vendia equipamentos na minha casa, e, assim, ganhava dinheiro para fazer as minhas viagens. Em 1994, abri a empresa, a Grade 6, deixando a carreira de engenheiro para trás e me dedicando ao que realmente queria para a minha vida.

A&A: “Com um lugar desses, é difícil entrar em sintonia. Minha técnica é pensar que estou fazendo parte daquele pedaço da natureza temporariamente. Vejo isso quase como uma missão: durante determinado período, levo vida (a minha própria) a um ambiente hostil, antes de voltar ao meu lugar, nas baixas altitudes”. Que razões o levam a investir contra um ambiente em que a linha divisória entre a vida e a morte é tão tênue? Qual a principal motivação?

R.R.: Eu não vou contra o ambiente, ao contrário. A dificuldade é você entrar em sintonia, adaptar-se a ele. Você tem diversos obstáculos: frio, ar rarefeito, fome, sono, e o objetivo é aprender a viver em um ambiente hostil. Você está lutando contra as adversidades, mas tem que se sentir parte do lugar, saber que as privações integram a vivência para que a sua estada não se transforme em uma guerra. Eu não me sinto conquistando alguma coisa, embora a gente fale muito em conquista. Eu sinto como se aquela experiência estivesse sendo concedida a mim, entende? A de eu estar na natureza, na montanha. Por outro lado, eu também estou me permitindo fazer tudo aquilo, deixando-me levar pela correnteza. Quando você está sendo levado por ela, precisa nadar na diagonal, não contra. Tem que entrar no ritmo da natureza e procurar seguir um caminho, independente de um turbilhão de coisas que podem vir a acontecer.

A&A: Como é o dia a dia de uma expedição, cuja meta é conquistar o cume do Monte Everest, o mais alto do mundo, a 8.848 m de altitude?

R.R.: Primeiro, você tem que chegar à base da montanha. São várias fases e o seu dia a dia vai mudando de acordo com as fases do projeto: o antes e depois de partir, a chegada em Katmandu, a organização de tudo e a aproximação até chegar à montanha. Uma vez na sua base, a rotina passa a ser mais intensa: subir equipamentos para os acampamentos superiores, acostumar o corpo com as altitudes, fazendo subidas e descidas de aclimatação. Depois, vem um período de descanso, de preferência, antes do ataque ao cume, etapa que acontece durante sete dias de grande esforço. E a volta é aquela euforia de saudade, checagem de um monte de coisas. Para realizar a expedição, de modo geral, temos que sair daqui com pelo menos dois meses e meio livres, sem data de volta. Uma das grandes belezas desses projetos é você conseguir adequar a sua competência técnica, física e emocional ao desafio. Então, se você pega uma coisa muito difícil, a sua chance de sucesso é pequena. Se pega uma muito fácil, perde-se um pouco da graça. Se pega algo que está de acordo com o seu limite, aí é ótimo!

 

A HORA DO ANGELUS: O nascer da lua no Everest, a maior montanha do planeta, visto de Kala Patar, um dos montes do Himalaia, com 5.450 m de altitude

 

A&A: Como é o processo de preparação, o treinamento, a sua rotina em Campinas?

R.R.: Depende. Nos últimos anos, eu tenho trabalhado muito no escritório, administrando a Grade 6. Emendo final de semana, feriado, não paro. Faço eventos, ministro palestras, fiz o livro. Com ele, trabalhava à noite, de madrugada, sempre com muita energia. Costumava brincar quando as pessoas me perguntavam: como você treina para o Everest? Eu respondia: ah, eu trabalho o dia inteiro. Para atacar o cume também, você não dorme. Mas claro, eu tento ter uma política um pouco mais rígida de treino quando me proponho a escalar uma montanha. Vou voltar para o Everest em 2013 e tentarei fazer três macrociclos de treinamento. Já estou um pouco mais velho, o corpo não responde tão bem. Em 2012, quero me dedicar mais ao preparo físico. E os tipos de exercícios são musculação, para preservar ligamentos, e aeróbica, para alcançar performance. Faço esteira, natação, bike. Gosto bastante de treino externo, não sou muito fã de academia. Eu só vou porque a academia que frequento é muito legal, tem professor, incentivo, uma série de coisas boas.

A&A: Como é a sensação de retornar de uma longa viagem à montanha? O que você traz lá de cima?

R.R.: O que eu vivo em uma expedição de dois meses e meio na montanha, em termos de riqueza, aprendizado, é muito mais intenso do que o que vivo em um mesmo período passado aqui, na cidade. A gente volta mudado, dando muito mais valor para questões básicas. Você percebe que não precisa de muita coisa para ser feliz. O fato de ter um corpo saudável, os cinco sentidos em perfeito estado, um filho, uma boa formação já faz toda a diferença. Tudo o que é simples, mas essencial, acaba sendo incorporado ao seu modo de viver. Há um contentamento. Aqui, a gente tem uma cobrança muito grande por ter mais e mais. Às vezes, você vê pessoas que têm tudo e não são felizes com o que têm. Vejo nessa tomada de consciência algo de muito legal. Não por menos, trabalho com isso. É maravilhoso! Eu gosto de tentar ensinar isso para as pessoas que eu levo para a montanha.

A&A: O que faz quando nota que está só consigo mesmo a milhares de metros de altura, em um lugar em que o contato com seres vivos é praticamente nulo?

R.R.: Eu sei que aquele não é um lugar feito para a gente. A vida se dá nos vales. Um dos primeiros ensinamentos do curso de montanha é esse. A gente vai lá, desfruta do meio e da montanha, mas tem que sair. Se ficar, morre. Todos os povos do mundo vivem nos vales. Eu me sinto privilegiado por estar em um lugar de difícil acesso, onde poucas pessoas chegam, mas sei também que aquela experiência é temporária, que eu preciso me adequar ao ambiente hostil, fazer o que eu quero, que é estar na montanha, para depois voltar ao vale.

 

EM EXPEDIÇÃO: Rodrigo Raineri e Vitor Negrete com o Everest ao fundo, durante a fase de aclimatação, na expedição de 2005

 

A&A: O momento mais difícil pelo qual passou como alpinista foi a perda do seu melhor amigo, o Vitor Negrete, em uma expedição ao Everest, em 2006. Como lida com isso? E como foi seguir sem ele?

R.R.: A perda dele foi muito difícil. Por mais de um mês, após a sua morte, eu sonhei com o Vitor todos os dias. Tudo muito complicado. Ter de cuidar, no Nepal, da parte burocrática, de atestado de óbito, decidir o que iríamos fazer com o corpo. No final, a gente acabou sepultando ele na montanha mesmo. Mas essa escolha, para nós, ocidentais, é muito difícil. Para eles, lá, não, porque a montanha é sagrada e há uma série de simbologias. Mas para nós é difícil. Este é um assunto com o qual tenho que lidar nas minhas escaladas, apresentações, no livro. O Vitor está presente em praticamente todo o meu trabalho, no meu dia a dia. O livro possui inúmeras fotos dele. Em 2007, fiquei em um vai não vai e falei para mim mesmo: ah, eu vou continuar. Infelizmente, aconteceram milhões de tragédias. A Fórmula 1 não terminou depois que o Airton Senna faleceu, o aeroporto de Congonhas não fechou depois de todos os acidentes que ocorreram lá; enfim, a vida continua. A perda é irreparável, mas para eu ser uma pessoa feliz e realizada, tenho que fazer o que eu gosto. Não vou deixar de fazer por medo de que aconteça alguma coisa. Minha hora vai chegar, subindo ou não a montanha. Ao viajar pelas estradas do Brasil, dando palestras, eu também corro um sério risco, talvez até maior. O risco está em todo o lugar, não apenas no Everest. Se a gente sabe o que está fazendo, assume que algumas coisas realmente podem dar errado.

A&A: Sua concepção de escalada mudou muito com o passar dos anos? O que aprimorou?

R.R.: Quando eu era mais jovem, tinha alguns projetos que talvez me consumissem demais. Se os tivesse levado adiante, eu não poderia ter essas outras vidas, a de empresário, palestrante e pai. Eu seria apenas escalador, alpinista e ponto final. Se fosse fazer as 14 montanhas mais altas do mundo tendo filho, eu não sei que educação e atenção eu daria para ele. Por isso, comecei a ponderar um pouco mais. Claro que montanhismo é o que eu gosto mais de fazer, mas acho legal ter essa parte familiar, empresarial, de estar inserido no mercado de trabalho. No fim das contas, eu acredito que não seria feliz se fosse só escalador, se ficasse na montanha o tempo todo, se não tivesse a minha família, os desafios na empresa, se não tivesse outros meios de contribuir. Acho que aprimorei isso. Eu me cobro um pouco menos em relação a projetos que demandariam muito tempo e energia. O principal é sentir-se feliz com os resultados. Chegar a 50 m do cume e voltar satisfeito para a casa.

A&A: “No Teto do Mundo” é o seu maior relato sobre as suas investidas, impressões e aventuras pelos picos mais altos do planeta. Como foi o processo de produção desse livro?

R.R.: Eu comecei em 2002, depois que escalei a Face Sul do Aconcágua. Quando eu resolvi que iria ser alpinista, eu já tinha essa ideia de que faria grandes projetos, de escrever, dar palestras, viver do esporte. Mas não conseguia terminar. Fui mexendo, voltando a capítulos anteriores, até que um dia decidi procurar a ajuda de um especialista. Um amigo me disse que o irmão, o Diogo Schelp, que trabalhava na Veja, poderia me indicar alguém. Liguei e o irmão me disse que ele mesmo poderia me ajudar, que já conhecia o meu trabalho, a minha história. Eu já tinha um monte de manuscritos, diários que estavam digitalizados, entrevistas, sonoras. Havia muito material. Foram nove anos para lançá-lo, mas consegui. Quando eu peguei o primeiro exemplar impresso, fiquei muito feliz. Acho que está bem escrito, bem ilustrado, que está muito legal. O resultado tem sido muito gratificante. Você faz uma coisa para as pessoas lerem, elas leem e gostam. Isso tudo é espetacular.

 

ENTRE VALES E MONTANHAS: Caravana de iaques (bois tibetanos) no caminho para o acampamento base do Everest

 

A&A: Você decolou de parapente do Mont Blanc, em 2009. Tentou decolar do Everest, em 2011, desistindo apenas pela falta de visibilidade incidente na região onde iria pousar. Determinado, planeja nova investida, em 2013, para realizar a decolagem. Como surgiu esse projeto?

R.R.: No Everest, você já vê tudo de cima. Imagina ver de cima e voando? Deve ser um negócio fantástico. Você vai com alguns pontos predeterminados. Eu pousarei em Gorak Shep (5.100 m). Em caso de necessidade, os pousos de emergência aconteceriam no Campo 2 (6.400 m) ou no acampamento base (5.350 m). E entre o campo base e Gorak Shep ainda teria um lugar, que seria uma roubada tremenda, mas eu me jogaria lá se fosse preciso, que é o canto esquerdo do glaciar. No dia em que fiz o cume, em 2011, eu não conseguiria atingir nenhum desses lugares. Se a nuvem estivesse mais baixa, talvez pudesse decolar para pousar no Campo 2, mas eu não quis arriscar. No Mont Blanc, eu desci voando em 29 minutos e meio. Normalmente, você leva um dia para descer até o refúgio e, de lá, descer de teleférico. Ou ainda dois dias, se optar por descer tudo a pé. Então, descer em 29 minutos e meio é muito mais seguro. É lindo! Voar no Everest leva mais ou menos o mesmo tempo por causa do desnível. A diferença é o ar mais rarefeito, que gera uma taxa de afundamento maior. Por isso, muito provavelmente o voo vai durar menos.

A&A: Você possui 23 anos de vasta experiência em gelo, rocha e alta montanha. No currículo, acumula grandes feitos como a conquista do cume do Aconcágua, por seis vezes, e a do Everest, por duas, além de já ter descido a cachoeira do Pai Nosso, no Amazonas, a mais alta do Brasil, com 353 m de altura. Quais são, a seu ver, as principais características que um alpinista precisa ter para vencer barreiras e conquistar seus sonhos?

R.R.: A primeira é adequar os sonhos à realidade, seja qual for o seu nível emocional, físico e financeiro. Não comecei a sonhar com o Everest quando eu ainda não tinha escalado nada. Eu comecei a tentar vender os projetos aos poucos. Assim, fui ganhando experiência e entendendo o que o meu cliente precisava para que pudesse vender bem. Isto é muito importante, tentar adequar o desafio aos nossos sonhos, às capacidades e competências. Uma das características mais difíceis de conquistar é saber diferenciar os tipos de empreendedorismo. Se você escala uma montanha, você é um empreendedor da natureza. Mas se quiser viver disso, trabalhar com isso, você precisa ser um empreendedor do mundo moderno, de hoje, com e-mail, Facebook, conexão via satélite. São duas coisas muito distintas. É necessário unir esses dois mundos para conseguir vencer no mercado de esportes da natureza. Você precisa olhar para os projetos como negócios. Eu vendo, eu recebo, eu entrego. Não tem incentivo. Às vezes, as pessoas me perguntam como eu faço para pedir um patrocínio. Eu nunca pedi um patrocínio para ninguém. Nunca falei: “ah, me ajuda aí”. Se você me ajuda, eu também te ajudo. O negócio é bom para todo mundo, é um ganha-ganha. Temos algumas parcerias com empresas que gostam do meu trabalho, mas também gostam do retorno que o meu trabalho dá a elas. Você tem que ser competente tecnicamente, em campo, e administrativamente, dentro do escritório. Juntar tudo é difícil, mas é uma escolha possível.

 

Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004

A CONQUISTA: Raineri no cume do Aconcágua, em pleno inverno de 2004

 

O Guerreiro Audacioso

junho 2, 2012

 

abre entrevista Araquém

 

Confira a íntegra da entrevista que publiquei na Revista Aventura&Ação com o ícone da fotografia de natureza: Araquém Alcântara. A trajetória, os livros, as histórias do fotógrafo que documentou o Brasil como nenhum outro. Colecionador de mundos, ele marca a alma do espectador com registros que deram origem ao maior banco de imagens da fauna e flora do país. Um dos grandes expedicionários da era contemporânea, Alcântara fala com entusiasmo de sua grande paixão pela fotografia, de suas andanças pelas matas brasileiras, e conta ainda sobre os novos rumos de sua carreira.

 

TROPA CRIOULA: Gaúcho toca cavalos da raça típica da região, em alvorada de Dom Pedrito (RS). Do livro “Araquém Alcântara: Fotografias”

 

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* Entrevista publicada originalmente na edição 167 da Revista Aventura&Ação.

 

Ele não crê em submissão a regras e fórmulas para o alcance do espírito criador, livre, íntegro. Acredita no olhar autêntico, desprendido, perseverante. Para o fotógrafo que documentou como nenhum outro a cultura, a face e a alma do povo e das florestas do Brasil, qualquer profissional que opta pelo registro do mundo por meio da imagem deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo.

Fotos Arquivo Pessoal/Araquém Alcântara

 

Araquém em ação no Pantanal Mato-grossense

Semblante incisivo, olhar certeiro, gestos articulados e voz calorosa: com a postura de um combatente impetuoso, Araquém Alcântara bate a campainha de sua editora carregando consigo uma pilha de livros, resultado de empenho e contumácia. Pouco antes do início de uma entrevista que levaria cerca de duas horas, ele anuncia a sua equipe – “preciso de agenda, um copo d’água, dois minutos para um telefonema e começamos”. O obstinado colecionador de mundos, fotógrafo com 40 anos de histórias para contar, peregrinações pelo Brasil de todos os brasileiros, real e pouco explorado, cheio de nuances, contrastes, exuberância e barbárie, passou feito relâmpago pela sala de espera, simpático, expressivo e pronto para trabalhar. – “Vamos focar em criatividade, ok?”, desafia.

Ao longo de uma carreira que soma 42 livros publicados e dezenas de prêmios, o catarinense criado em Santos (SP) exalta a diversidade e a grandeza do País com nome de árvore. “Eu sou um intérprete do Brasil, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas”, diz. Para o seu livro “TerraBrasil”, o fotógrafo, incansável em sua saga de trazer o Brasil profundo para o urbano, percorreu, durante nove anos, todas as Unidades de Conservação do País. O trabalho, minucioso e pioneiro, deu origem ao maior banco de imagens da fauna e flora nacionais, inspirando também o nome da editora fundada por Araquém. O objetivo da casa editorial, especializada no registro do patrimônio natural brasileiro, é defender a sua biodiversidade por meio da documentação e denúncia.

Às vésperas de lançar mais dois livros, embrenhado em projetos cinematográficos, preparado para ganhar o mundo em empreitadas pela Tanzânia, na África, Araquém acredita na arte como uma ação revolucionária, um poderoso instrumento de mexer com o inaudível, com o não perceptível, com a alma. “Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo”.

 

A&A: Como surgiu o interesse pela fotografia?

Araquém Alcântara: Eu comecei a fotografar depois que eu vi um filme fantástico, que fez a minha cabeça, chamado “A Ilha Nua”, de Kaneto Shindo. Foi uma coisa impressionante porque o meu negócio era ser escritor. Ao sair da sessão, eu estava absolutamente transtornado. Estranho, eu nunca tinha sentido aquilo antes, a magia de ter visto uma obra de arte que tinha me tocado. Depois, houve um livro, “O Budismo Zen”, de Alan W. Watts. Quando eu o li, em 1969, foi como se houvesse também uma revelação: uma obra de arte pode transformar. Quando há sintonia, quando o observador entra no mesmo dial do que ele está vendo, há uma transformação coletiva, uma revolução. A obra se transforma, o autor se transforma e o espectador se transforma. Aí cria-se um triângulo: obra, autor, espectador. Sem querer, intuitivamente, nesse final dos anos 60, eu comecei a entender a arte como uma ação revolucionária. A obra precisa provocar. O importante é que essa transformação que gerou tudo isso que eu sou – eu só penso em produzir, sou totalmente uma usina, pilhado, o meu negócio é criar – veio após assistir a esse filme, quando percebi que poderia dizer as coisas por meio de imagens.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Criança da tribo Tucano se banhando em Pari-Cachoeira (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Qual foi a sensação da primeira foto? Onde e quando aconteceu?

A.A.: Começou nos anos 60, quando o filme me convocou para essa linguagem. Eu ainda demorei dez anos para assumir a fotografia. Lá por 1978 é que eu deixei o texto para virar fotógrafo, unicamente. Comecei a me enveredar pelas matas, entrei na Mata Atlântica e a minha vida mudou. Quando eu conheci a grande floresta virgem brasileira, na época em que o Governo desapropriara uma grande área para construir usina atômica, a minha fotografia ganhou ideologia. Então, ela sempre teve um caráter de documentação social. Mas o aprendizado, os exercícios de texto, tudo isso foi importante para que eu conseguisse chegar onde estou. A minha fotografia sempre foi engajada, com um propósito de seduzir as pessoas para o meu modo de ver o mundo, para espalhar conhecimento e informação, para revelar o Brasil para os próprios brasileiros. Depois de 40 anos, ela se livra de tudo isso, de natureza, de jornalismo, para se transformar em uma fotografia livre de qualquer tema, amarra, fórmula. O meu último livro comprova isso. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Benny de melhor livro de arte em 2011.

A&A: E quanto às temáticas a serem fotografadas? Como se enveredou pela fotografia de natureza?

A.A.: A fotografia de natureza só se revelou quando eu entrei na floresta selvagem, na Mata Atlântica da Juréia, onde tem bicho. De repente, você está quieto e passam 30 porcos-espinhos do seu lado. Não é florestinha, não. É coisa grande, de bichos grandes. Foi aí que eu comecei a entender essa outra sociedade. A floresta se transformou na minha matriz criativa, no meu modelo de universo. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, Amazônia, Caatinga, Cerrado, e que está em processo de destruição. A maioria das pessoas passa por essa vida sem entender a grandeza, a importância, a maravilha que é ser um país que tem nome de árvore, Pau Brasil.

A&A: O que imprime a marca pessoal do fotógrafo à fotografia?

A.A.: Lembro-me que, com sete, oito anos, eu já escrevia uns textos que as pessoas liam e diziam: “nossa, mas que texto lindo!”. Depois, eu comecei a ler. O gosto pela leitura chegou muito cedo. O meu universo, a minha percepção do mundo foi ampliando. A cultura sempre esteve presente. Só que eu jamais imaginei fotografia. Alguma coisa muito especial me convocou para outro lado. O fotógrafo, hoje, é um artista plástico, tem que ter um grande repertório cultural. Uma vez, para você ter uma ideia, um diretor de uma galeria em Santos me disse: “Araquém, a fotografia não é arte, eu não posso expor você aqui, mas eu tenho um corredorzinho que dá no banheiro, ok?” Aí você vê quanta batalha. Ainda mais que a minha fotografia era de Brasil, feita para gente que só queria saber de Cancún e Miami, uma elite que queria só copiar o exterior e não olhava para seu próprio país. Ou seja, o meu trabalho sempre foi de briga. A minha fotografia sempre foi de combate. Diante de tudo isso, o que imprime uma marca pessoal? A vivência, a experiência. Com aquele filme, eu comecei a perceber que a minha fotografia sobre o Brasil seria muito simples, mas sofisticada nos detalhes, com uma riqueza de formas muito grande. O mais importante é que percebi que eu iria documentar o povo e a natureza brasileira, que teria que começar a andar. Sou um fotógrafo andarilho.

 

QUEIMADA: Plantação de cana-de-açúcar é incendiada por produtores para facilitar o corte em propriedade de São Manuel (SP). A prática será proibida por causar danos ao meio ambiente. Do livro “Cachaça”

 

A&A: Você tem um trabalho com uma temática social, de protesto. Qual é o poder da imagem?

A.A.: Ela tem um grande poder tanto para o bem, quanto para o mal. Tem um poder de transformar consciências, de enriquecer a cultura, de revelar.

A&A: Quando a fotografia se torna uma forma de intervenção social?

A.A.: Ela não é somente uma forma de intervenção social, mas um poderoso instrumento de discussão da realidade. No momento em que o fotógrafo documenta a realidade, não significa que ele é um artista. Ele pode ser um documentador. A sua interpretação, o seu modo de registrar essa realidade é que pode fazer dele um artista. A fotografia é um grande documento social quando ela passa a revelar o caráter de um povo, a sua história. Quanto mais você se aproxima de um povo, mais próximo você está de revelar as suas angústias, buscas e alegrias. É aquela coisa de ir onde o povo está, de se jogar nessa viagem de documentar a sua aldeia.

A&A: Como você definiria o Brasil?

A.A.: É impossível. Ninguém define essa grandeza. O Brasil é um enigma. O Brasil são muitos “Brasis”. Para definir o Brasil, eu recomendaria aos meus alunos que lessem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, e por aí vai. Tem que ler também Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Tem que ver Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor. Aliado a isso, é importante que as pessoas andem pelo Brasil. Ele precisa ser conhecido. Não adianta só ler. Escola é bom, mas é preciso andar. O Brasil tem uma multiculturalidade impressionante, uma miscigenação que nos torna plurais.

 

AMAZÔNIA: Pescador Zezão retira pirarucu da água na Reserva Extrativista Médio Juruá (AM). Do livro “Amazônia de Araquém a Atala”

 

A&A: Como estabelece relações com as pessoas que fotografa em comunidades remotas? Como retratar sem invadir?

A.A.: A primeira coisa é quebrar as diferenças. É claro que você causa estranhamento chegando a uma comunidade perdida da Amazônia. Todo mundo fica olhando. Daí, você começa a se relacionar. Daqui a pouco, você está jogando futebol com eles, conversando com o mais velho, ouvindo os mais jovens, pescando, está dentro da mata com eles. Quando menos espera, as fotos surgem naturalmente. O grande segredo é ouvir, dar atenção e trocar com eles de igual para igual. O fotógrafo de natureza, viajante, tem que se aproximar de uma comunidade para registrara vida real do lugar.

A&A: Para a sociedade, qual é o impacto gerado pela fotografia das comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras?

A.A: O fotógrafo levanta esse véu do que está oculto, faz certas coisas que ficaram para trás ressurgirem. Ele esclarece páginas esquecidas da história. A fotografia é resgate. Esse é um País desconhecido pelos brasileiros, onde, em muitos lugares, o Estado não existe, não há lei. O fotógrafo toca nessas feridas. Por outro lado, ele pode ser só um poeta. Fotografia também é síntese, celebração da beleza, aquela coisa que você não pode pegar. Não tem que se prender a regras nem a terminologias.

A&A: Quais os métodos para fotografar animais silvestres, lugares afastados, comunidades isoladas? Como você equilibra técnica e sensibilidade?

A.A: É preciso uma profunda disposição para você ir a lugares distantes desse País. Você tem que estudar, mapear, buscar guias que o levem na comunidade. Há um tempo para descobrir o que se quer na fotografia. É preciso exercitar constantemente e mergulhar até a exaustão em um tema. Aí você faz um ensaio, depois outro, e assim por diante.

 

FLORESTAS DO BRASIL: Onça-pintada surge entre a mata na Amazônia (PA). Do livro “TerraBrasil”

 

A&A: Quais as principais aventuras que já enfrentou por uma imagem?

A.A.: A expedição para a região do Monte Roraima. Tivemos uma canoa desgovernada que foi para cima de uma cachoeira (a Grande). Tive que me agarrar em uma pedra para não ser levado pela correnteza. Houve, também em Roraima, um monomotor que passou por uma tempestade tenebrosa. Foi um susto. Outra situação marcante ocorreu no Pará. Eu, meu assistente, o guia e o barqueiro fomos seqüestrados por índios Caiapó, enquanto cruzávamos o Rio Curuá, afluente do Xingu. Eles estavam em pé de guerra com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Polícia Federal, que havia apreendido o garimpo de onde eles estavam ganhando comissões. Pediram como resgate R$ 1,5 mil, 150 litros de gasolina de avião e dois quilos de pimenta verde. Passamos dias comendo apenas macaxeira até que fui levado à cidade mais próxima, retirei uns R$ 300,00 e o grupo foi libertado.

A&A: Qual é o seu maior desafio?

A.A.: Eu tenho um profundo amor por esse País. Sou um intérprete dele, um cantador das suas culturas, dos seus espaços, de suas belezas. Já fiz 42 livros celebrando esse Brasil. Agora, eu começo a fazer cinema. Começo também a derivar o meu trabalho para as crianças. Meu trabalho espalha benefícios, conhecimento, informação, arte. A minha bem-aventurança, eu costumo dizer, é criar e repartir belezas.

A&A: Qual foi o seu maior aprendizado?

A.A: Ando há 40 anos pelo País e só agora eu aprendi a entender a alma desse povo dos sertões, dos ermos, um povo que ainda é esquecido, espoliado.

 

CARVOEIRA: Trabalhador manuseia carvão no Vale do Jequitinhonha (MG)

 

A&A: O que nunca fez e gostaria de fazer?

A.A: Eu serei o consultor criativo e fotógrafo de um filme sobre a Amazônia chamado “Planeta Verde”. O misto de documentário e ficção será produzido por Gullane Entretenimento e Gedeon Filmes. O projeto me levará a cinco grandes expedições pela Amazônia. É um novo caminho. Acabei de fazer um livro com Alex Atala, “Amazônia de Araquém a Atala”; outro com o Manoel Beato, Cachaça. Nos próximos anos, farei um livro sobre o Cerrado, três sobre a Amazônia (“Amazonas, o Rio”; “Os Amazônidas” e “Viagem pela Amazônia”) e outro sobre a fauna do Brasil.

A&A: Você falou, no início da entrevista, que a sua fotografia é de batalha, de combate. O que deve esperar quem está começando agora nesse ramo?

A.A.: Eu acho que tem que conseguir dizer de uma maneira pessoal, original, para que isso seja uma contribuição. O exercício exige talento, perseverança, é uma busca constante de autoconhecimento, de crescimento espiritual. Você trabalha para os outros e para si. Quando você começa a desenvolver uma coisa própria, já está em um caminho autoral, tem algo que já virou um grande aliado, que é a forma de espalhar benefícios. Muitos não conseguem chegar ao caminho autoral, pois ele exige desprendimento, não é comercial.

 

SUMAÚMA DO RIO NEGRO: Crianças ribeirinhas se divertem nas raízes de uma Sumaúma, árvore típica da Floresta Amazônica, em Barcelos (AM). Do livro “TerraBrasil”

 

Mais informações sobre o fotógrafo e o seu trabalho em www.araquem.com.br

 

O Blues de Gaspo Harmônica

janeiro 10, 2011

Crédito de foto: Gabriela Di Bella

Conheci o Gaspo no outono de 2003, em um dos bares da minha vida. Na época, o Oito ½ se localizava na Rua Sarmento Leite, um ponto de encontro arterial da boemia porto alegrense. A casa rosada e antiga, com escadaria, porta centenária e assoalho de madeira, continha uma atmosfera intimista, calorosa e despojada. Senti-me instantaneamente cativada pelo lugar. Havia quadros com fotos da história da música e do cinema pendurados nas paredes – a incluir o clássico de Federico Fellini que deu origem ao nome do local –, mesas espalhadas pelos salões em meia luz e um pequeno palco a capturar a atenção do público.  Foram muitas as noites adentro que passei ao lado de amigos a jogar conversa fora, a bebericar de boa dose da geladinha e a conhecer com vontade o talento e o carisma do Gaspo.

Lembro-me com clareza da sonoridade de sua harmônica (gaita): bela, convicta, instigante. Li, certa vez, uma descrição sobre a música do Gaspo que a traduz muito bem: “Tocando violão e gaita de boca, o músico procura explorar o lado mais expressivo das canções, buscando na simplicidade os caminhos para a sua música.” Creio ser este o fio condutor que leva o ouvinte à essência do seu trabalho.

Acompanhei o Gaspo em uma etapa de sua carreira, estive presente em incontáveis shows do artista na capital gaúcha e me envolvi com o seu ritmo de criação em um período de produção intensa. Em 2005, ele lançou o seu primeiro cd. Uma parceria com o violonista Oly Jr, o álbum Na Capa da Gaita trouxe uma mistura voluptuosa e refinada das personalidades destes dois artistas do Rhythm and Blues.

Com sensibilidade inconfundível, Gaspo sempre foi um exemplo de garra e empenho. Não por menos, ele se transformou em um dos grandes nomes da cena musical do sul do Brasil. Excelente instrumentista e compositor, o artista é um motivo de orgulho para os amigos. Trata-se de uma das pessoas mais capazes de romper barreiras que conheci. Por esta razão, decidi publicar um texto a seu respeito na página para apresentá-lo aos meus leitores. A entrevista a seguir foi realizada há alguns meses.

Boa leitura.

Trajetória

Natural de São Miguel do Oeste (SC), Gaspo Harmônica iniciou sua formação musical na infância, estudando piano com sua mãe durante oito anos. Na adolescência, mudou-se para Chapecó (SC), onde teve os primeiros contatos com a gaita de boca, iniciando a caminhada que iria firmar o seu nome na cena musical. Em Porto Alegre desde 1999, passou a desenvolver um trabalho autoral que já lhe rendeu dois discos e o colocou em contato com conceituados artistas do Brasil e exterior. Sua experiência de palco soma mais de 500 shows em Porto Alegre e inúmeras cidades do sul do País. O músico participou também de grandes festivais no Rio de Janeiro e em São Paulo. Gaspo gravou ao lado de nomes internacionais como Magic Slim, Larry McCray, John Primer, Adrian Flores, David Honey Boy Edwards, J.J. Jackson, Greg Wilson, Solon Fishbone, Big Gilson, James Wheeler e Eddie C. Campbell.

1. Quando (pode citar a idade) e como (cite uma situação específica) você descobriu a gaita e o blues?

Descobri a gaita com 15 anos. Eu morava com o meu irmão, tocava piano desde os seis anos de idade, mas eu sempre tive vontade de tocar algo que eu pudesse carregar comigo. Meu irmão tocava violão, e um dia, enquanto ele fazia um som, falei disso pra ele. Na hora, ele puxou uma gaita da estante e me disse: “Toca aí”.

Não era o mesmo tipo de gaita que uso hoje em dia, não era uma gaita para blues, mas mesmo assim, eu curti muito e segui tocando. O blues, eu também conheci através do meu irmão, mas de início ele não me pegou. Eu queria era ouvir a gaita e os discos de blues que ele tinha. Acabei me interessando muito por Jethro Tull, que possuía vários trabalhos com gaita. O blues me pegou mesmo (pra ser bem exato) no dia 2 de janeiro de 1999, quando vim a Porto Alegre pra fazer o vestibular na UFRGS. Fiquei hospedado na casa de um amigo e quando fui dormir, o cara me deu um disco pra escutar, era o “Alone Acustic”, do Junior Wells & Buddy Guy. Junior Wells foi um dos maiores harmonicistas da história, eu pirei com o disco, escutei dezenas de vezes. Na época, não era tão fácil copiar um cd, nem todo mundo tinha um gravador de cds. Consegui comprar esse disco só um ano depois, mas ele não saiu da minha cabeça e eu passei a procurar mais gaitistas para escutar. Acabei indo mais a fundo no universo do blues.

2. Qual o impacto que a descoberta causou na tua vida? Refiro-me ao antes e ao depois. A carreira iniciou logo em seguida?

Quando descobri a gaita foi legal, era uma amiga pra todas as horas. Dos 14 aos 19, morei em quatro cidades diferentes, não tinha muitos amigos e passava muito tempo sozinho. No início, eu usava a gaita como remédio pra solidão, era um passa-tempo, mas logo veio a necessidade de me expressar através dela. Um dia meio no susto, um amigo me chamou pra tocar durante um show, eu fui meio sem saber o que fazer, nunca tinha tocado com uma banda, nem com ninguém, eu estava bem perdido, mas rolou um som, não sei se a galera estava bêbada ou foi a surpresa, mas todo mundo adorou. A resposta do público me surpreendeu, foi emocionante, fiquei viciado pelo palco e passei a ter um objetivo mais claro na minha vida. Eu precisava continuar tocando pras pessoas.

3. Das tuas principais referências, quais as mais instigantes, expressivas, quais mexem mais contigo e por quê?

Tenho como referências musicais alguns nomes do blues como Junior Wells, Big Walter Horton, Sonny Boy, Carey Bell, Little Walter e outros grandes nomes, mas trago também algumas referências mais pessoais, daqueles que me ensinaram a viver como músico: minha mãe, uma professora chamada Telma, que me ensinou a tocar piano e me iniciou nos caminhos da música, e os amigos Adrian Flores, Alex Rossi e Solon Fishbone que me deram muitas lições de como se portar profissionalmente dentro do mercado, além de me ensinarem muito sobre música.

4. Que momento considerou marcante na tua trajetória e por quê?

Em 2007, fiz uma turnê de quase duas semanas com o norte-americano Phil Guy. Foi a primeira vez que acompanhei um nome mais famoso, tocamos em grandes festivais do Rio e de São Paulo, foi muito legal estar no mesmo camarim com músicos que eu já era fã muito antes de começar a tocar. Na época, eu ainda trabalhava como projetista em um escritório de engenharia. Depois dessa turnê, dei-me conta que era hora de largar o escritório e me dedicar somente à música. Depois do que eu vivi naquelas duas semanas, eu não conseguia mais passar meus dias trabalhando com outra coisa que não fosse música.

5. Conte sobre alguma curiosidade, algum momento inusitado, algo que tenha acontecido no decorrer destes anos que valha um bom comentário, um destaque.

Como eu disse anteriormente, o blues me pegou mesmo com um cd do Junior Wells. Fiquei fã do cara na hora, mas nunca tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, pois no mesmo ano que conheci o seu som, ele faleceu. Ele sempre foi uma grande inspiração. Até hoje, recomendo pra todos meus alunos aquele cd que escutei. Mas enfim, em 2007, fui convidado a fazer um show em Buenos Aires, na mesma época que estaria por lá Magic Slim, um artista com quem eu iria trabalhar aqui no Brasil na semana seguinte. Eu aproveitei e fiquei alguns dias lá para conhecê-lo. Magic Slim viajava com um “Road Manager”, um empresário pessoal, que cuida de todas as suas necessidades enquanto ele está na estrada. O nome dele era Michael Blakemore, sobrinho do Junior Wells, o que fiquei sabendo um pouco mais tarde. Ele também havia sido “Road Manager” de Junior W. e trabalhou com ele durante muitos anos. Estabelecemos uma forte amizade e durante os dias da turnê aqui no Brasil, parte do meu trabalho era cuidar das necessidades dele e de Magic.

Nessa época, eu havia largado meu emprego diurno e estava passando por um período de vacas magras, demorou um tempo até normalizar minha situação financeira quando decidi viver só da música. Foi um começo bem difícil. Certo dia, eu caminhava com Michael e entramos em uma loja para ver alguma coisa. Eu pedi pra olhar um mp3, perguntei o preço e não levei, pois não tinha a grana. O Michael percebeu isso, mas não comentou nada. Um ano após tesa turnê, voltamos a trabalhar juntos. Foram mais 10 dias de shows com Magic Slim passando por algumas cidades do Brasil. No primeiro dia que nos falamos, ele brincou comigo, “já conseguiu a grana pro mp3?” Eu dei risada e brinquei “Ainda não, no Brasil a coisa só piora”. Fui novamente o “Road Manager” da equipe, cuidando do andamento das coisas e também participei como músico em alguns temas. No último dia da turnê, Michael me chamou num canto e me presenteou com um mp4. Disse-me que estava me dando porque eu havia trabalhado muito bem e que essa era a “escola” do seu tio Junior Wells. Ele me disse: “você estava sempre lá quando precisamos e, se o meu tio Junior estivesse aqui, ele mesmo estaria dando isso a você. Pra mim, foi uma honra muito grande, foi como ter recebido um presente do próprio Junior Wells. De alguma maneira, isso me fez sentir que estava caminhando na direção certa.

6. O que é o blues para você? `

Pra mim, o blues é uma linguagem, uma forma de expressão, mas principalmente algo que uso pra transformar sentimentos ruins em coisas boas.
7. Quais os teus próximos objetivos e novidades na carreira?

Estou gravando um novo disco, meu primeiro em carreira solo. Não é um disco só de blues, eu misturei muito com rock, folk e country. Mas a galera que está participando é quase toda do blues, o que deixa o estilo presente em cada faixa. Eu diria que ele tem um sotaque de blues bem forte. Consegui algumas participações bem bacanas, o Greg Wilson do Blues Etílicos canta uma faixa, a mesma em que o Guitarrista norte-americano Eddie C. Campbell gravou um solo. Tem também o argentino Adrian Flores na bateria. Gravei duas faixas com o Larry McCray, que esteve recentemente no Brasil. Vão participar do disco outros músicos brasileiros conhecidos da cena bluseira, além de Solon Fishbone, Big Gilson e outras surpresas. Quem está produzindo o disco é o Renato Velho, um amigo de longa data que saca muito de música. Ele já recebeu o Prêmio Açorianos de melhor instrumentista e tem muitos trabalhos legais como músico, produtor e compositor.

8. O que aprendeu com a música?

Aprendi que não somos só carne e ossos. Temos uma alma, e precisamos alimentá-la.
9. Que trabalho seu você considera o melhor e por quê?

Com certeza, o trabalho que estou fazendo agora, pois pude depositar nele diversas influências e experiências adquiridas nos últimos anos de estrada. Além do mais, os músicos que fazem parte deste trabalho são os melhores com quem já toquei. Sem eles, não seria possível realizar um bom trabalho.
10. Que recado você daria – referente ao blues e a música -, para as pessoas que estão te lendo aqui?

O blues é a raiz da música Ocidental. Mantenham as raízes vivas para terem bons frutos.

Para maiores informações sobre o trabalho de Gaspo Harmônica, fotos, mp3 e agenda de shows:

www.myspace.com/gaspoharmonica

(51) 8416-8482

gaspoharmonica@yahoo.com.br