Instante

março 20, 2011

Ontem à noite, tive o privilégio de assistir a um dos luares mais bonitos de minha vida. Estava quieta em meio ao silêncio da brisa, era eu intensamente, talvez um pouco mais do que isso, mas nada além de mim mesma. Lembrei-me de poemas que caberiam ao sabor do que sentia. Os que seguem abaixo acompanham o meu regalo a todos que comigo estavam, mesmo que distantes. Fiz também um pequeno registro do céu para ilustrar a cantoria.

 

Never give all the heart

William Butler Yeats

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
Oh never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

Poética

Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Amar

Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Para ser grande

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

Imagens Internet
 
 
Capítulo de hoje: A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Nada mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero) do que ler os despachos dos consulados norte-americanos no site de Julian Assange. A última preciosidade trazida dos confins do baú diplomático revela o perfil de brasileiros by “The King of the World”. Em alusão ao faroeste The Good, the bad and the ugly, estrelado por Clint Eastwood na década de sessenta, yankee guys classificam candidatos brasileiros a visto temporário de trabalho no país do tio Sam como bons, maus e feios. O ex-cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo – Christopher J. McMullen – descreve as levas de tupiniquins, para usar um termo ameno (vai saber o que murmuram “our brothers” em off), de forma curta e direta. Vamos ao indigesto palavrório.

Segundo McMullen:

BONS: São os jovens que vão ao país para trabalhar em resorts, estações de esqui e cassinos por vários meses para ganhar algum dinheiro e melhorar o seu inglês. O grupo é formado principalmente por integrantes de famílias de classe média.

MAUS: São os parentes e amigos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e vão ao país para trabalhar em subempregos como jardineiro, faxineiro e peixeiro. De acordo com esclarecimentos do ex-cônsul, tais imigrantes representam um grande risco, já que muitos dos que conseguiram trabalhos anteriormente não retornaram.

FEIOS: São aqueles que pagam US$ 3 mil ou mais para corretores para conseguir um emprego e uma chance de ficar nos EUA. O grupo é formado, em maioria, por pessoas pobres, desesperadas, que pedem dinheiro emprestado para pagar taxas escandalosamente altas aos corretores.

– Quadrilátero-ro-ro-ro (eco)! Dá para acreditar? Humanos de último calibre assinando papelotes encharcados de por assim dizer. Quá! A macaca sabe que em se tratando do espaço mais exótico do planeta tudo é possível. Verdade seja dita: Mr. Assange é um homem com H, merecedor de respeito. Recebe as informações mais pérfidas das profundezas do Estado e as coloca, na íntegra, à disposição do leitor. Um herói da selva às avessas.

O documento publicado no Wikileaks revela ainda que de janeiro a novembro de 2005, o consulado norte-americano com sede na capital paulista entrevistou 1,5 mil candidatos ao visto de trabalho temporário e rejeitou 49% deles. O aumento de quase 200% em relação aos vistos negados no mesmo período de 2004 ressalta a característica xenofóbica do governo ianque. – De dar dó…ts, ts, ts. A macaca já viu de um tudo em suas andanças pelos bailes da vida, mas nada que se compare ao quadrilátero. – Na boa! Por onde circulam seres humanos, desabrocham assombrosas aberrações.

Para ler o documento no Wikileaks, clique aqui.

Fotos Internet
 
 

Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero)

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser. Quá!

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de somar ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha? Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Onde isso vai parar?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro (eco). Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o “bem da humanidade”, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. “King of the World”.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, pera aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah!

A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

– O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro (eco). Vixi!

A macaca em…

janeiro 9, 2011

Fotos e ilustrações Web

 

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto
 
 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua, a macaca retornou ao lar para começar o ano a todo vapor. Energia recarregada e voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro fim de semana depois do brinde da virada foi cheio de  aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de gente bizarra superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem. Horripilante!

A atmosfera exótica chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro. – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados. Os endinheirados se exibiam com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champagne francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações claras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?A cena é cinematográfica.

A verdade é que o bando de seres humanos que se divertia na praia do e$panto – templo de “semideuses” abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que ocorre do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam literalmente cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, símia residente da Grande Árvore, o vegetal mais apaixonante do conglomerado de mata cachorro, reduzida a um tamanho microscópico de ser qualquer?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá! O dinheiro banaliza a condição humana. Os excêntricos milionários carregam a certeza de que tudo podem. Infelizmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos? Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna são subordinados a uma choldra de dar dó. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que tudo mais vá para o inferno.

Quem quer dinheiro?

______________

* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

 

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

Porções Fast Food

outubro 5, 2010

O mundo está cada vez mais ro ro ro

Há semanas tento reservar espaço de meus dias para dedicação ao blog, mas o ritmo enfadonho de trabalho não permite. Torço-me, contraio-me, agito as bandeirinhas e o tempo segue a se esvair por meus pedaços. Tudo gira em torno de mil e uma atividades do mundo cão.

– Imperativos à parte, eu amo o que faço. Isso não tem preço.

Ocorre que após gritos e alardes, decidi entrar para o international team do famigerado Facebook. Para que servem tantas janelas de acesso ao universo online? Eu, por exemplo, possuo duas contas de email,  msn, twitter e blog – que, sem pestanejar, arrancam-me a macia penugem macacal (tudo pela causa). Respira e vai.

Não satisfeita, deixei-me tomar pela louca e acrescentei ao hall mais uma aba. Abri a conta, familiarizei-me com o funcionamento da página e né que a coisa é divertida? Viro-me bem com o network mais encorpado. Dei-me conta de que a facilidade de postagem de links no Facebook pode me ser útil, já que tenho condições de aproveitar o conteúdo publicado lá, aqui no blog. Falo-ei.

Todos os posts da macaca aproveitados do Face  – o world planet mais comentado do momento – estão devidamente identificados. Peguei a onda. Lançarei, sempre que possível, mais destas porções fast food para os meus leitores. Quem quiser que me acompanhe.

Notas de Bolso

junho 13, 2010

Passei outro verão no Rio de Janeiro, minha cidade natal. Sim, misturo peculiaridades, cheiros e cores de diversas regiões. Sou brasileira. Uma completa miscelânea. Parti de Florianópolis nos primeiros dias do ano disposta a aproveitar o máximo as férias que me proporcionei após um 2009 de bastante movimento: trabalho, produção, atividade, aquela coisa toda. Percorri a região dos lagos, estive em Arraial do Cabo com a minha família, dei um pulo em Búzios e toquei para a cidade maravilhosa.

Cheguei animada, o tempo passou desenvolto, renovei baterias, uni o útil ao agradável investindo em buscas por contatos profissionais, conheci pessoas, reencontrei amigos, passeei um bocado, pulei um dos carnavais mais divertidos de todos os tempos (os blocos de rua arrasam, em especial o Bangalafumenga), foi ótimo.

Durante os dois meses que permaneci no Rio, rabisquei algumas notas em um caderno. Fiz por hábito, gosto de reportar o que vivo quando saio de meu eixo. Escarafunchando o passado, reli os meus escritos. Ocorreu-me que seria animador trazê-los à vida. Resultado? Cá estou a batucar o teclado com a finalidade de transmitir aos meus leitores uma porção do que senti, experimentei e descobri em minha viagem. Determinei, por um par de razões, que publicarei somente as notas mais recentes.

 
 

Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2010

Passaram-se dois meses desde a minha chegada. Muito tempo para quem está acostumada a viver em uma cidade menor, mais simples e pacata. Meu reencontro com a realidade daqui, de modo geral, tem me feito muito bem. O Rio é uma cidade caótica e emblemática. Gosto de circular, explorar e me tornar cada vez mais íntima do lugar. A vida pulsa no rosto das pessoas, o ritmo frenético do dia a dia explode em seus corpos e alegria contagiante. Que povo charmoso!

Há muita energia no ar. Confesso que isso me estimula. Permaneço atenta aos detalhes ora sutis ora explícitos. Combinação interessante. Renasço um pouco a cada passo que dou pelos caminhos de minha terra natal. Ao perambular, vez ou outra, abre-se uma fenda entre mim e meu berço. São momentos de impacto gerados pelo forte choque cultural. Cresci em outro mundo. Porto Alegre é tão diferente daqui. Ai, que medo incômodo me invade sem querer. Conseguirei me adaptar ao rebuliço de uma megalópole? Há instantes em que desejo ser menos à flor da pele. Luto em vão. Respiro fundo. Levanto a cabeça. Olho ao redor. Vai dar tudo certo. Como diz o meu pai, “o impossível é viável, só demora um pouco mais minha filha. É assim mesmo, viu?”

(…)

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, chove. Uma garoazinha fina. Que cidade quente. Nossa mãe do céu! O sol daqui parece sempre furioso. Mas ele dá ao povo uma graça no trato que não existe em qualquer outro lugar do mundo. O carioca sorri com uma facilidade única. É bonito de ver. Consigo enxergar nele parte de minhas raízes. Coisa séria. A lembrança de minha avó é uma constante. O que ela diria agora, vendo-me investir na possibilidade de regresso?

(…)

A saudade de minha mãe e do cheiro da ilha insiste em bater à porta. É chegada a hora de voltar para casa. Vou abraçar os mares da província com toda a força do meu coração.

 

Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2010

 

Estou de frente para o mar grande, sem fronteiras. O cinza do dia me traz para perto os períodos de transição entre estações em Floripa. Que saudade! Como estará o meu cantinho teimoso? A ilhazinha dengosa?

(…)

Acordei cantarolando Tom:

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais

Lembra que tempo feliz
Ah! que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

Em janeiro, dei um giro por Ipanema inteira com o Peter. O passeio estava uma delícia. Rodamos à beça. O Peter a fotografar tudo. Não sei como não teme um assalto. Anda com uma câmera enorme a tira colo sem pensar em mais nada. Bom isso!

(…)

Não poderíamos deixar de dar um pulo na Rua Nascimento Silva, 107. Estive na frente do prédio em que morou o maestro soberano. Baixo, deve ter uns três andares. Muito simpático. Junto ao portão alto, de gradio bem delineado, há um verdadeiro muro verde. Ah! Pensei no Tomzinho entrando e saindo dali ao lado de tanta gente boa, Vinícius, Toquinho, Chico, Elizete, uau! Belas memórias terei. Estou feliz!

Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2010

Não há como negar. Que cidade deslumbrante. O Rio é fértil, borbulhante. O mar segue batendo muito. Dizem que no próximo sábado o sol voltará ao seu posto. Quase não chove na cidade, mas as nuvens insistem em fechar o céu. Humpf. Queria ver um carioca morando no sul. Vixi. Em Floripa então…chove pra burro. Meu tio, que mora em Brasília, mas é carioquíssima, apelidou a ilha de Florichuva. Eu explico para quem pergunta que o País é tropical até a fronteira com o Paraná. No sul, o clima é subtropical temperado gente. Coisas de Brasil!

(…)

O rapaz do quiosque acaba de colocar um pratinho com água de coco no chão. Ele chama o gato de rua: “pichichi”.  O bicho desconfiado se aproxima. Sabe que o chamado tem razão de ser. O rapaz se afasta, observador. Comenta com o companheiro de trabalho, “espera, ele vai beber”. Água de coco? Será?

É, eu me divirto. O gato cola o focinho no pires. Cheira. Constata que não se trata nem de peixe nem de leite. Vai embora decepcionado. “Ah ah ah”, gaiteia o vencedor da parada, como eles falam por aqui. “Eu disse que o gato não bebia essa porra”. Ahh, sim, no Rio, fala-se muito palavrão. A cada x palavras, y são de origem duvidosa.

(…)

Várias pessoas estão chegando. Algumas tomam os seus lugares nas mesinhas dispostas no entorno dos quiosques à beira-mar e fazem os seus pedidos. O falatório toma conta do calçadão. Um bla bla bla pra cá e pra lá. O povo adora um conversê. O que eu, particularmente, acho um barato. O homem é um ser social. Nada mais natural do que a prática da comunicação oras. Claro, às vezes, cansa um pouco. É quando prefiro ficar sozinha.

No Rio, as pessoas têm uma relação íntima com a praia. Todos sempre estão a fazer próximos dela. Quem não gosta de fechar o dia olhando o mar? O contato direto com este ser independente faz um bem danado. Sinto, com certeza, que o carioca não conseguiria viver muito tempo longe do oceano. Sua vitalidade provém da estrela que emana das águas. Fato.

Sopa de Letrinhas

maio 23, 2010

Em dia de outono chuvoso

Estou aqui, a macaquear em dia de tormenta com acanhados intervalos de calmaria – a pensar em música enquanto levanto da cama, escovo os dentes, tomo o meu café e visto uma roupa quente. Sem mais nem por que, ocorre-me: vou ouvir algo enquanto preparo computador, livros, revistas e toda a tralha cabível à célebre rotina macacal dos dias de maio.

Espio pela janela, encosto-me na ponta da abertura e constato que o dia permanecerá, impiedosamente, cor de chumbo. Dá-lhe água lá fora. Belisco o primeiro par da torrada que preparei com vontade, degusto o gole e tal do café recém passado.

Click, meu playlist principia jornada…

Bob Dylan

A worried man with a worried mind. No one in front of me and nothing behind. There’s a woman on my lap and she’s drinking champagne. Got white skin, got assassin’s eyes. I’m looking up into the sapphire tinted skies. I’m well dressed, waiting on the last train (…)

Um vento fino sopra em meio ao úmido reboliço outonal. A temperatura deve estar em uns 15ºC. Frio discreto. Humm. Não é excitante o sabor do viver faça chuva ou sol? Com o olhar a passear pelos jardins da redondeza, rasga-me os beiços um sorriso fortuito. Nova faixa…

Sit there, hummm, count your fingers. I know what else, what else can you do? Ooh and I know how you feel. I know you feel like you’re through (…)

Que maravilha! Nunca ouvi nada parecido com Janis Joplin. Considero-a A VOZ feminina do século XX. Insuperável em sua paixão, intensidade e beleza. A canção toma o quarto, minha respiração muda, arrepio-me, meus olhos marejam, a emoção invade e silencia o pensamento.

Arrisco outro gole de café. Aos poucos, volto a mim, sempre ao som da música. Poxa, faz tempo que não me sinto tão sozinha. Qual a razão para tamanha falta de todos? Não sei. Penso que há fases em que a vida empurra para dentro. Devo estar em uma delas, a circular por minhas partes.

Não importa. Minha cartilha é feita de esmero, ingrediente ardido para quem deseja a realização. Ser feliz, acredito, é a comunhão do todo voltado primordialmente para aqui e agora. Há que focar. Há que planejar. Há que persistir. Acima de tudo, há que estar presente no correr das horas. Cada instante é singular, válido, oportuno.

Eu estou bem. MESMO! Atenho-me ao outro par da torrada. Meu olhar permanece encostado na rua, lá fora, onde chove sem parar. Do café pouco resta. Mais um gole talvez. Outra faixa…

Led Zeppelin

I’ve been working from seven to eleven every night. Ohh yeah, It really makes life a drag, drag, drag, I don’t think that’s right. I’ve really, really been the best, best, best of fools, ohh, I did what I could (…)

Uou! Que potência fenomenal se impõe acorde após acorde. Pego-me a sorrir outra vez. Que som do Olimpo. Fecho os olhos sem pressa. Uma ideia acende o meu gozo: porei um tanto disso no meu blog. Farei-o e é pra já. Dei um pulo, zump. Quebrei o encanto da hora e pus-me prontamente à frente do notebook. Mãos limpas, guardanapo enroscado dentro da caneca em cima do prato, o conjunto posto no canto da mesa. Voilà! No decorrer do preparo caprichei na mão, não economizei fermento, lambuzei o avental, fiz como deve ser. Nada de seguir receitas. Criatividade é o diferencial quando somada à embevecida pitada de bom gosto, of course.

Com a alegria intrépida contida no término de uma tarefa, deixo para os meus leitores oesta apetitosa sopa de letrinhas em dia de outono chuvoso.

R

Led Zeppelin

O

The Beatles

C

Janis Joplin

K

Jimi Hendrix

A

Pink Floyd

N

The Rolling Stones

D

Jethro Tull

R

Rush

O

Queen

L

Bob Dylan

L

Elvis Presley