O Retorno da Terra

janeiro 13, 2015

Foto Daniela Alarcon

Recebi o convite e aceitei na hora. O melhor foi descobrir uma dupla que realiza, há quatro anos, um trabalho fantástico com os Tupinambá. Jornalista e documentarista estarão no queridíssimo Las Magrelas no sábado, dia 17, para contar sobre o curta-metragem que estão produzindo. A campanha está no catarse e quem aparecer contribui para o desenvolvimento do projeto. Bora saber mais sobre as histórias de um povo que luta pela permanência na terra! Trata-se de um Brasil que o Brasil precisa conhecer. Como disse Eliane Brum no prólogo do artigo da Daniela Alarcon: “Sejamos, nas palavras de outro povo indígena, os Guarani Kaiowá, “palavra que age”.

 

Foto Daniela Alarcon

 

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Fotos Divulgação

 

 

Publiquei a resenha a seguir na edição 170 da Revista Aventura&Ação. O texto fala sobre o filme Xingu, um retrato do Brasil que o Brasil não conhece. Em seu retorno a São Paulo, após o trabalho realizado ao lado dos índios, o diretor Cao Hamburger escreveu no site oficial da O2, produtora do longa-metragem: “Depois de passar tanto tempo a céu aberto, sol, rios, mata… Dormimos a última semana nas enormes e incríveis ocas dos Yawalapitis, ouvindo os sons do Xingu e acordando ao som das mulheres da aldeia cantando em seu dia de festa. Parecia um sonho. No último dia no Xingu, acordamos as 4 da manhã com lindas índias cantando e dançando… Entravam e saiam das ocas com uma música linda… depois pedi para traduzirem… Eram canções alegres que falavam de coisas simples da vida, como as nossas canções. Os índios não são tão diferentes de nós… São só mais alegres, menos estressados, mais inteiros… menos idiotas. Ou menos idiotizados por séculos de uma sociedade que nos impõe padrões de felicidade. Conviver com uma sociedade diferente da nossa nos serve de espelho. Olhamos para nós mesmos de outra forma.”

Boa leitura!

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Xingu, de Cao Hamburger, conquista público e crítica pelo caráter autoral, intimista e revelador de um Brasil espoliado por projeto desenvolvimentista

 

 

Uma das fendas da História do Brasil se abre de imediato ao interlocutor desprevenido. Vamos ao teste. Quantos anos tem o País? Quem descobriu o Brasil? A referência de temporalidade básica irrompe em nossa memória equivocada. O Brasil foi descoberto no ano de 1500, por Pedro Álvares Cabral. A grande maioria da população brasileira tropeçaria na resposta errada. Nosso País com nome de árvore é habitado por povos de cultura milenar. Índios de diversas etnias vivem, desde os primórdios, sob o abrigo das florestas.

Em meio à paisagem desfigurada pelo desmatamento, uma ilha de mata preservada ecoa os sons de nossa origem. No Parque Indígena do Xingu, localizado no nordeste do Mato Grosso, as tradições de 16 etnias ancestrais permanecem intactas. Os responsáveis por esse feito, os Irmãos Villas Bôas, empreenderam, na década de 40, uma epopeia desbravadora pelos sertões do Brasil Central. A Expedição Roncador-Xingu resultou em mais de 2,5 mil quilômetros percorridos por terra e rios; no contato e convívio com 14 tribos isoladas; na demarcação da primeira reserva ecológica de preservação da sociobiodiversidade brasileira; e na publicação do diário de viagem dos Villas Bôas, Marcha para o Oeste, relançado pela Companhia das Letras.

Foram 42 anos de uma história de aventura e amor por um Brasil desconhecido, que agora volta à tona pelas mãos do cineasta Cao Hamburger em seu filme Xingu. Segundo Hamburger, o longa-metragem nasceu de seu desejo de narrar para o povo brasileiro uma história pouco explorada. A convite da O2, produtora de Fernando Meirelles, o mesmo diretor de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias mergulha nos bastidores desse capítulo marcante da saga pela ocupação do interior do País. O longa intimista, que pretende ser apenas o que é, um relato de uma experiência humanista, movida unicamente por sentimento, retoma um período de nossa história em que virtudes desprovidas de interesse econômico faziam valer um homem. Três irmãos, enredados em potencialidades e contradições, decidem, um dia, unir-se na busca de um ideal. O passo seguinte abre caminho para uma revolução sem precedentes, a qual coloca a sociedade brasileira frente a frente com a sua face primeira.

O filme fraterno toca na essência da identidade nacional, entregando ao espectador brasileiro um legado que lhe pertence. A cumplicidade, amizade e luta pela causa indigenista dos Villas Bôas faz de Xingu um retrato convincente que nos leva a refletir sobre a verdadeira descoberta do Brasil. Afinal, este é um País milenar. O propósito maior do longa, contudo, mostra-nos o quão predadores ainda somos, fator que nos conduz, séculos adentro, ao continuísmo de um processo devastador. Os Villas Bôas, como os próprios afirmaram, não conseguiam evitar a chegada do homem branco ao ambiente selvagem. O que lhes coube em missão intrépida foi sempre chegar antes.

Vale a pena assistir.

 

 

Pedaço de mim

outubro 2, 2009

Para Yamara e Cláudio (meus pais).

cambará9Lembro-me como se fosse hoje do dia em que o assisti pela primeira vez Cinema Paradiso. Minha mãe me pegou pela mão – a mim e aos meus irmãos –, éramos pequenos, e nos levou para o cinema. Ela sempre teve o hábito de nos apresentar ao mundo e foi sempre uma aventura inenarrável conhecê-lo pelas suas mãos. Considero tal experiência um privilégio! Obrigada minha estrela, por ter colocado tanto brilho em minha vida com o seu sorriso e a sua força.

O longa-metragem italiano, dirigido por Giuseppe Tornatore e com trilha sonora composta por Ennio Morricone, deixou em mim uma marca eterna. O tempo é implacável, a hora é agora. Nossos laços, todavia, são para sempre. Mamãe repete: “Filha, a única coisa que fica são os vínculos que construímos.”

Cinema Paradiso fala exatamente sobre a ligação forte que pode existir entre as pessoas, a qual se solidifica conforme cada um rega o seu jardim. Não há o que dure se não for bem cuidado, tratado com amor, alimentado com respeito e instigado pela atenção genuína. O meu pai também me ensinou um bocado sobre a simplicidade, integridade e entrega.

Mover-se a amor. Taí a lição trazida do berço. Viverei, portanto, para ser, amar e me abrir a cada passo um pouco mais.  O sentimento tem o poder indiscutível de abraçar a realidade com firmeza. Agradeço aos meus pais pela luz que carrego por dentro. Deixo para eles palavras cobertas de mim:

Deram-me raízes e asas quando nasci. E vivo assim, a renascer…Raízes que sustentam o meu pouso, a minha morada, o carol16meu canto, a minha casa. Sei que sempre estarão lá. Asas que me levam para longe a abrir o coração curioso, largo, solto, faminto de mundo, caminhos, ideias abstratas do desconhecido. Suponho que o concreto se faz de mim aos poucos, absorto, acordado, predisposto. O que encontro é fatia desta liberdade cativante que desembarca em meu olhar e repousa em minha vontade de estar junto de mim acompanhada.

Out of Africa

setembro 2, 2009

1Marcante, Out of Africa foi um dos grandes filmes da minha infância. Sucesso de bilheteria mundial em 1985, vencedor de 7 Oscars, entre outros prêmios de excelência da indústria cinematográfica, o longa-metragem é baseado na história real de Karen Christence von Blixen-Finecke, uma escritora dinamarquesa (1885-1962) que morou 17 anos no Kenya, África.

Seu livro Den afrikanske Farm (A Fazenda Africana) – publicado em 1937 – trouxe a público o universo de Karen por meio do relato intenso e emocionante da escritora sobre o período que viveu no continente africano. Adaptado por Hollywood, a obra ganhou nova dimensão, causando mais uma vez forte impacto em plateias de inúmeros países.

Com trilha sonora de John Barry, o filme dirigido por Sidney Pollack foi estrelado por Meryl Streep (genial, como sempre), Robert Redford e 2Klaus Maria Brandauer nos papéis principais. O motivo de eu estar aqui, contudo, tem a ver com o que me ocorreu dia desses. Nunca cheguei perto do livro. Pergunto-me: como? Passaram-se mais de 20 anos e somente agora me bateu tal ideia.

Pois bem, chegou a hora. Vejo-me pronta para trazê-la de longe. Sairei em busca da obra. Quero conhecer intimamente a mulher extraordinária que foi a Karen e saber de sua experiência na África em pleno início do século XX. Ler o seu relato – talvez um dos mais belos sobre a África escrito por um ocidental – trará para dentro o significado mais profundo de sua realidade.

Deixo na página a minha cena predileta de Out of Africa – que dispensa comentários.

 

Once

outubro 23, 2008

*PARA CLARINHA

Fotos: Divulgação

Once BannerMinha irmã, Maria Clara, apresentou-me um filme dias atrás: Once. Carregado de simplicidade, o longa-metragem independente conta a história de um músico de rua e de uma imigrante da República Tcheca que se encontram por mero acaso. De conversa fortuita, nasce uma forte e apaixonante relação. O vínculo se estreita e da união, intensa e criativa, surgem as mais diversas canções. O filme se passa entre uma composição e outra. Pitadas do folk e pinceladas do pop rock revelam a belíssima e cativante trilha sonora.

Produzido e filmado com o homeopático orçamento de US$ 70 mil, Once ganhou o Oscar na categoria de Melhor Canção Original com “Falling Slowly” e venceu o prêmio do público no Festival Sundance de 2008. O fenômeno conquistou proporção tamanha que os atores e músicos Glen Hansard e Marketa Irglova – protagonistas da trama – formaram a banda The Swell Season, cuja turnê percorreu inúmeros países, da América ao Japão.

O diretor John Carney, parceiro musical de Glen Hansard na banda The Frames, comentou em matéria publicada no portal G1 que “o projeto foi feito entre amigos, com pouco dinheiro e muita alma”. A palavra traduz com exatidão o meu parecer sobre o filme: alma. Poucas são as produções multimilionárias de Hollywood que valem a hora e meia (para ser diminuta) ou mesmo o ingresso pago em bilheterias do mundo inteiro.

Once Cena

Once fala sobre temas corriqueiros do cotidiano: amizade, amor, perdas, ganhos, sonho, realidade, chegada, partida, estímulo, desilusão, esperança, inquietude, saudade, entendimento, desencontro, desejo, compreensão, cumplicidade, trabalho, percepção, relacionamento… Não há singela citação que cesse uma frase embalada por sensações. Os sentimentos que trazemos conosco em nosso dia a dia podem ser compartilhados – vida é troca –; não encontrarão, contudo, ponto final. Quando é o tempo de todos nós.

Vale a pena assistir ao filme. Deixo a dica acompanhada pela canção que mais gostei da trilha:  “If you want me”.

 

If you want me

(by Glen Hansard & Marketa Irglova)

Are you really here or am I dreaming
I can’t tell dreams from truth
For it’s been so long since I have seen you
I can hardly remember your face anymore

When I get really lonely
And the distance causes our silence
I think of you smiling
With pride in your eyes a lover that sighs

If you want me satisfy me, if you want me satisfy me
If you want me satisfy me, if you want me satisfy me

Are you really sure that you’d believe me
When others say I lie
I wonder if you could ever despise me
When you know I really try
To be a better one to satisfy you
For your everything to me
And I’ll do what you ask me
If you’ll let me be free

If you want me satisfy me, if you want me satisfy me
If you want me satisfy me, if you want me satisfy me
If you want me satisfy me, if you want me satisfy me