Sertão Atravessado

fevereiro 20, 2015

Como integrar preservação ambiental e cultura tradicional sem causar danos a nenhuma das partes? Eu e o fotógrafo Tom Alves fomos até a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, a procura de respostas. No local, encontramos uma situação preocupante. Inúmeras Unidades de Conservação foram criadas em um território de práticas extrativistas.

Os habitantes dos mais de 300 vilarejos localizados no entorno das áreas protegidas ficaram proibidos de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O avanço conservacionista sem contrapartida alguma para a população gera um conflito ainda sem solução. Realidade que coloca em risco a manutenção das comunidades.

Na busca por alternativa, moradores criaram o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O projeto de desenvolvimento sustentável tem no turismo de base comunitária uma saída para o impasse que se estende há mais de 10 anos. É um trabalho pioneiro e inclusivo, cujo potencial de transformação merece destaque.

A terceira reportagem da série que produzimos foi publicada no site da National Geographic Brasil. Confira a íntegra aqui e boa leitura!

 

travessia

 

Outros olhos

fevereiro 10, 2015

Foto Arquivo Orlando Villas Bôas

Cláudio e Orlando Villas Bôas com índio no Xingu

Orlando e Cláudio Villas Bôas ao lado de um índio no Alto Xingu

Ao iniciarmos pesquisa para o começo de um trabalho, abrimos espaço para a entrada em um novo mundo. Refiro-me a um intervalo de tempo repleto de possibilidades a partir do qual tudo gira em torno de uma busca bastante peculiar. O movimento é ininterrupto e as descobertas, infinitas. É como se o princípio ativasse, por dentro, um mecanismo de transformação. Sairemos inevitavelmente modificados. A perspectiva de ser outra pessoa é tão real quanto o processo de amadurecimento das ideias, do conceito, do projeto como um todo. A documentação tem este poder interminável de surpreender. Você vira uma página e, de repente, dá de cara com um texto como o que segue abaixo, do Cláudio Villas Bôas. Difícil descrever o que senti, mas uma coisa é certa, o Brasil tem urgência em conhecer o Brasil. Mais além. A relação das pessoas, umas com as outras, precisa mudar. Da aproximação consciente e integrada, deste novo olhar sobre o outro, depende o futuro de todos nós.

 

* Extraído do livro O Xingu dos Villas Bôas  (Agência Estado, 2002)

 

Se achamos que o nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas, se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.

Antes do descobrimento do Brasil, o índio era mais feliz, mais pleno e mais autêntico. Hoje, está sujeito ao processo de nossa evolução. Antes do contato com os civilizados, os índios viviam dentro da simplicidade de seu sistema de valores e movidos unicamente pelas estimulações próprias de sua cultura tradicional. Eram povos não só auto-suficientes, mas absolutamente conscientes daquilo que eram como homens, como sociedade.

Hoje, mesmo com todo o avanço da civilização, tanto no setor da tecnologia como da ideologia, não vemos nem sentimos a presença de uma preocupação de atingir o justo. Isto é, o equilíbrio harmonioso de todas as sociedades humanas. A fatalidade histórica encaminha os povos a se fundirem num só.

O necessário, importante, justo é que essa integração de culturas e de povos seja uma decorrência do progresso. Referimo-nos ao progresso, não ao comumente entendido, mas ao progresso da consciência política e social do mundo em seu todo.