A Cidade das Almas

agosto 12, 2013

 
 
CHEGOU A HORA!

Tudo pronto para a viagem ao interior de Minas Gerais. A nova incursão ao Brasil profundo, distante da realidade urbana dos grandes centros, tem como objetivo homenagear os romeiros que participam do Jubileu de São Miguel e Almas, no Cemitério do Peixe, um vilarejo tradicional localizado nos recônditos da Serra do Espinhaço. Depois de um ano desde a nossa primeira investida documental na região, teremos grande prazer de retornar ao povoado com um presente preparado especialmente para os fieis. Confira, a seguir, as informações sobre o lugar, a peregrinação secular e a exposição fotográfica que realizarei ao lado de Tom Alves em parceria com a Prefeitura Municipal de Conceição do Mato Dentro.

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A MOSTRA

A Cidade das Almas é uma exposição fotográfica que retratará a riqueza cultural da região do Cemitério do Peixe, vilarejo incrustado nos confins do sertão mineiro. A romaria centenária que acontece em torno da celebração do Jubileu de São Miguel e Almas será o tema da mostra, que trará ampla abordagem sobre as histórias das pessoas que fizeram do culto religioso uma das mais expressivas manifestações de fé do povo brasileiro. A diversidade dos tipos humanos e do espaço físico que circunda o arraial integrará a obra, uma realização inédita dos autores em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico de Conceição do Mato Dentro. O acervo, que inclui 48 paineis divididos em cinco grupos – o vilarejo, a fé, os romeiros, a igreja e o cemitério, levará aos participantes da festa um panorama genuíno de si mesmos imersos em sua crença e simplicidade. O rito secular de uma comunidade tradicionalmente mineira estará impresso, pela primeira vez desde o surgimento do povoado, em um projeto visual criado para o povo.

O CEMITÉRIO DO PEIXE

A pequeneza do vilarejo, desprovido de qualquer pretenso sinal de ânimo, realça o aparente abandono do lugar, erguido no entorno de um cemitério secular. O silêncio emerge das ruelas de chão batido, ajustadas por uma centena de casinhas brancas, porém sem vivalma para atender os desavisados que se achegam por ali. O transeunte que assunta com os próprios botões e resolve perambular pelo curto perímetro desse presépio situado no interior de Minas Gerais baterá os olhos, unicamente, nas sinuosidades da mata serrana do Camelinho e nos traçados de terra que desembocam na beira do Rio Paraúna. Eis a imagem de uma cidade fantasma. Basta uma piscadela para o lado, contudo, e a primeira impressão é desfeita pela presença de gente viva. Os dois residentes do arraial, Carlota de Oliveira Brandão, a dona Lotinha, de 63 anos, e o filho Zezinho, de 28, são as sentinelas do Cemitério do Peixe, localizado na região do Alto Jequitinhonha, a 300 km de Belo Horizonte.

Diversas histórias remontam às origens da vila. São causos e lendas populares que, embaralhados com a verdade dos fatos, deram à luz uma tradição centenária cuja fé é a força propulsora que une, há séculos, as gerações de famílias que por ali ainda passam. A crença religiosa transformou o povoado em um reduto de reza e devoção de milhares de fieis, que desde os idos de 1890, frequentam o Peixe. Sua chegada, em datas como o dia de finados, quebra o prenúncio da morte anunciada em uma placa do cruzeiro, posto no meio das tumbas: “Ó tu que vens a este cemitério, medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia.”

Situada no distrito de Costa Sena, em Conceição do Mato Dentro, a Cidade das Almas, como foi carinhosamente apelidada por moradores das proximidades, atrai cerca de cinco mil pessoas durante os dias da festividade. A movimentação começa nas semanas que antecedem o jubileu, época em que os fieis e seus familiares vêm ao Peixe para preparar as suas casas para o grande evento. São pequenos ranchos levantados ali pelos pais dos pais dos atuais proprietários. Os sitiantes limpam os cômodos, cortam a grama, pintam as paredes e até constroem novas acomodações para receber as visitas. O abastecimento dessas moradas temporárias converge em travessias que podem levar dias. Muitos romeiros carregam de um tudo de casa para o vilarejo. São colchões, bacias, panelas e víveres transportados no lombo de mulas, cavalos, carros-de-boi, bicicletas, caminhões, carroças ou mesmo nas próprias costas dos fieis.

A peregrinação é um momento de comoção, reencontro e prece de famílias que fortalecem os seus laços parentais durante a semana de atividades intensas no Peixe. O Padre Mauro Carvalhais, sacerdote organizador do jubileu, chega ao arraial com a devida antecedência para ajudar os fieis no que for preciso, colocar a igreja em ordem e acertar os últimos detalhes. Faz-se o milagre: a singela vilazinha, do dia para a noite, volta à vida. Mercearias, acampamentos, delegacia, não falta nada que caracterize uma cidade em perfeita condição de funcionamento. O ápice da festa acontece no sábado e domingo. Missas, procissões, cantigas e ladainhas, pagamento de promessas, confissões, levantamento do mastro, oferendas aos mortos e queima de fogos ocorrem em simultâneo com a barulheira desconcertante de alto-falantes que tocam funk e sertanejo em uma altura abusiva.

De anos para cá, os fieis que visitam o Peixe para celebrar os seus mortos dividem espaço com pessoas que chegam para se divertir somente. A descaracterização do festejo religioso – inventariado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – e do local alarma os participantes do jubileu e preocupa os envolvidos com a tradição cultural do estado. O trabalho documental é uma medida necessária para a preservação do evento e conscientização da comunidade sobre a sua relevância.

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One Response to “A Cidade das Almas”


  1. […] O povoado, que pertence ao distrito de Costa Sena, em Conceição do Mato Dentro, atrai cerca de cinco mil pessoas durante os dias da festividade. Muitos romeiros carregam de um tudo de casa para o vilarejo. São colchões, bacias, panelas e víveres transportados no lombo de mulas, cavalos, carros-de-boi, bicicletas, caminhões, carroças ou mesmo nas próprias costas dos fiéis. Leia mais sobre o Cemitério do Peixe no post A Cidade das Almas. […]


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