O Brasil que o Brasil não conhece

setembro 26, 2012

Fotos Divulgação

 

 

Publiquei a resenha a seguir na edição 170 da Revista Aventura&Ação. O texto fala sobre o filme Xingu, um retrato do Brasil que o Brasil não conhece. Em seu retorno a São Paulo, após o trabalho realizado ao lado dos índios, o diretor Cao Hamburger escreveu no site oficial da O2, produtora do longa-metragem: “Depois de passar tanto tempo a céu aberto, sol, rios, mata… Dormimos a última semana nas enormes e incríveis ocas dos Yawalapitis, ouvindo os sons do Xingu e acordando ao som das mulheres da aldeia cantando em seu dia de festa. Parecia um sonho. No último dia no Xingu, acordamos as 4 da manhã com lindas índias cantando e dançando… Entravam e saiam das ocas com uma música linda… depois pedi para traduzirem… Eram canções alegres que falavam de coisas simples da vida, como as nossas canções. Os índios não são tão diferentes de nós… São só mais alegres, menos estressados, mais inteiros… menos idiotas. Ou menos idiotizados por séculos de uma sociedade que nos impõe padrões de felicidade. Conviver com uma sociedade diferente da nossa nos serve de espelho. Olhamos para nós mesmos de outra forma.”

Boa leitura!

___________________________________

Xingu, de Cao Hamburger, conquista público e crítica pelo caráter autoral, intimista e revelador de um Brasil espoliado por projeto desenvolvimentista

 

 

Uma das fendas da História do Brasil se abre de imediato ao interlocutor desprevenido. Vamos ao teste. Quantos anos tem o País? Quem descobriu o Brasil? A referência de temporalidade básica irrompe em nossa memória equivocada. O Brasil foi descoberto no ano de 1500, por Pedro Álvares Cabral. A grande maioria da população brasileira tropeçaria na resposta errada. Nosso País com nome de árvore é habitado por povos de cultura milenar. Índios de diversas etnias vivem, desde os primórdios, sob o abrigo das florestas.

Em meio à paisagem desfigurada pelo desmatamento, uma ilha de mata preservada ecoa os sons de nossa origem. No Parque Indígena do Xingu, localizado no nordeste do Mato Grosso, as tradições de 16 etnias ancestrais permanecem intactas. Os responsáveis por esse feito, os Irmãos Villas Bôas, empreenderam, na década de 40, uma epopeia desbravadora pelos sertões do Brasil Central. A Expedição Roncador-Xingu resultou em mais de 2,5 mil quilômetros percorridos por terra e rios; no contato e convívio com 14 tribos isoladas; na demarcação da primeira reserva ecológica de preservação da sociobiodiversidade brasileira; e na publicação do diário de viagem dos Villas Bôas, Marcha para o Oeste, relançado pela Companhia das Letras.

Foram 42 anos de uma história de aventura e amor por um Brasil desconhecido, que agora volta à tona pelas mãos do cineasta Cao Hamburger em seu filme Xingu. Segundo Hamburger, o longa-metragem nasceu de seu desejo de narrar para o povo brasileiro uma história pouco explorada. A convite da O2, produtora de Fernando Meirelles, o mesmo diretor de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias mergulha nos bastidores desse capítulo marcante da saga pela ocupação do interior do País. O longa intimista, que pretende ser apenas o que é, um relato de uma experiência humanista, movida unicamente por sentimento, retoma um período de nossa história em que virtudes desprovidas de interesse econômico faziam valer um homem. Três irmãos, enredados em potencialidades e contradições, decidem, um dia, unir-se na busca de um ideal. O passo seguinte abre caminho para uma revolução sem precedentes, a qual coloca a sociedade brasileira frente a frente com a sua face primeira.

O filme fraterno toca na essência da identidade nacional, entregando ao espectador brasileiro um legado que lhe pertence. A cumplicidade, amizade e luta pela causa indigenista dos Villas Bôas faz de Xingu um retrato convincente que nos leva a refletir sobre a verdadeira descoberta do Brasil. Afinal, este é um País milenar. O propósito maior do longa, contudo, mostra-nos o quão predadores ainda somos, fator que nos conduz, séculos adentro, ao continuísmo de um processo devastador. Os Villas Bôas, como os próprios afirmaram, não conseguiam evitar a chegada do homem branco ao ambiente selvagem. O que lhes coube em missão intrépida foi sempre chegar antes.

Vale a pena assistir.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: