Nas Trilhas de Floripa

janeiro 20, 2011

Publiquei a reportagem a seguir na edição 160 da Revista Aventura & Ação, que circulou em novembro e dezembro de 2010. Disponibilizo o material na página para que o texto mantenha a sua função após o número ter saído das bancas: informar.

Boa leitura.

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Crédito de foto: Victor Emmanuel Carlson

Com infraestrutura de uma cidade grande, ótimos hotéis e restaurantes, a capital catarinense oferece paisagens fascinantes que fazem a alegria dos amantes da vida ao ar livre. Em meio ao cenário paradisíaco de praias primitivas e muita Mata Atlântica, uma atividade que tem se destacado é o trekking que cativa aventureiros interessados em explorar os cenários mais exclusivos de uma das ilhas mais bonitas do Brasil


A tarde é de calor, o lugar, um dos redutos mais antigos da capital catarinense, a Praia dos Naufragados. Esse cenário, unido ao movimento descontraído das pessoas pela trilha que liga a rústica Caeira da Barra do Sul ao extremo sul da Ilha, convida os visitantes a desfrutar de belos dias de sol. De repente, um burburinho chama a atenção dos turistas na entrada da praia. As pessoas se deslocam em direção ao costão esquerdo de Naufragados, seguem o som da música, e, alguns metros à frente, deparam-se com uma cena atípica: manezinhos (apelido dos habitantes tradicionais de Florianópolis) saúdam as belezas do entorno: “um pedacinho de terra perdido no mar, num pedacinho de terra beleza sem par, jamais a natureza reuniu tanta beleza, jamais algum poeta teve tanto pra cantar.” O trecho do Rancho de Amor à Ilha, o hino oficial de Florianópolis, é entoado por uma dúzia de vozes vibrantes e apaixonadas.

Não por menos, ela é chamada de Ilha da Magia. Dezenas de praias, algumas badaladas, outras selvagens, lagoas, cachoeiras, dunas, encostas e montanhas cobertas pela Mata Atlântica compõem o cenário deste pequeno paraíso litorâneo. Com oferta de inúmeros atrativos, a lha passa, na alta temporada, a abrigar quase um milhão de turistas. Os 408 mil habitantes adaptam suas rotinas para receber os visitantes. Para fugir do agito, a boa pedida é se lançar nas trilhas ecológicas que revelam cenários preservados, uma biodiversidade vibrante, além da cultura tradicional do lugar. São mais de 30 trilhas e caminhos distribuídos pelo território (433 km²) de Norte a Sul.

De acordo com Augusto César Zeferino, geógrafo e autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina, existe diferença entre a trilha e o caminho. A primeira costumava ser aberta por desbravadores, interessados em descobrir lugares e conhecer as matas. O segundo possuía uma função mais econômica. “Muitas estradas da Ilha, hoje oficiais, surgiram destes traçados”, esclarece. Os percursos, realizados por dentro da mata ou pelas margens dos costões, levam o caminhante a verdadeiros oásis naturais, alguns próximos de zonas urbanas bastante movimentadas, outros completamente afastados da civilização. Em trilhas como a da Lagoinha do Leste, uma praia selvagem, e dos Naufragados, sul da Ilha, podem ser avistadas espécies da fauna terrestre como cutias, lagartos, saguis e macacos-prego. No céu, um show à parte, protagonizado por cerca de 170 espécies de aves entre as residentes e as migratórias. Em Naufragados, devido à sua localização, é possível ainda avistar botos, e, de julho a novembro, a Baleia Franca. Pescadores que vivem na praia oferecem passeios de barco o ano inteiro.

As trilhas e os caminhos de Florianópolis foram abertos por índios (guarani e carijó), colonizadores luso-açorianos, militares, escravos e pelas próprias comunidades que se instalaram pelos traçados e no entorno das regiões. Seus habitantes mantêm os trajetos até os dias de hoje. “Estes percursos pela mata sempre tiveram importância, antes usados por questões econômicas, sociais e religiosas; hoje, para a prática do ecoturismo e do turismo de aventura”, diz Zeferino.

A riqueza cultural legada por antepassados é apreciada tanto nos casarões em estilo açoriano como nos simplórios ranchos de pesca à beira-mar, ao som de ritmos como o reggae e o samba, em avenidas largas e estreitas servidões (como são chamados os rasgos de terra, alguns pavimentados, que irrompem diversos bairros da cidade). O Ribeirão da Ilha, caminho para a entrada da Trilha dos Naufragados, é um dos mais antigos núcleos de colonização açoriana da capital. Embarcações, como canoas e baleeiras, e peças de artesanato, como balaios e cestos de cipó, preservam tradições centenárias. O bairro é um dos pólos de produtores de ostras de Florianópolis, reunindo bares e restaurantes que servem pratos à base de frutos do mar.

Entre as trilhas e os caminhos selecionados para este roteiro estão a dos Naufragados, da Lagoinha do Leste, do Morro das Aranhas e de Ratones para a Costa da Lagoa. Os critérios utilizados para a sua escolha foram o nível de dificuldade para a realização dos trajetos (todos podem ser feitos sem risco para o caminhante), a diversidade de paisagens e o tempo de percurso.

NAUFRAGADOS

Com início no ponto final da linha de ônibus Caeira da Barra do Sul e final na praia dos Naufragados, a trilha é larga, bem marcada, de fácil acesso e com nível baixo de dificuldade. Tem duração de 40 minutos e extensão de 2.621 metros. Localizada no extremo sul da Ilha, a praia pertence ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e abriga floresta de Mata Atlântica espalhada por montanhas e encostas. Pela trilha encontram-se córregos, alagados e quedas d’água cristalina, entre ruínas de um antigo engenho de farinha e casarões açorianos. Da beira-mar, vê-se o continente, que fica a três milhas náuticas dali: Praia do Sonho, da Pinheira, Guarda do Embaú e Gamboa, em Garopaba. Oficinas líticas incrustadas em pedras do canto esquerdo da praia remontam aos primórdios.

De acordo com Aladir Custódio da Costa, 67 anos, pescador, pela trilha transportavam-se mandioca, milho, lenha, peixes como tainha, anchova, corvina, bagre e tudo o que era produzido pelos aldeões. “A trilha existe há muitos anos. Eu estou aqui há quase 50 e faço o percurso desde moço”, afirma. “Quem utilizava mais eram os moradores daqui, mas de uns 20 anos para cá, as pessoas começaram a desbravar para conhecer e passear. Vem gente de tudo que é canto.”

Naufragados tem este nome por conta dos naufrágios que aconteceram na época da colonização. O mais conhecido ocorreu em 1751, quando uma embarcação com 250 colonos açorianos naufragou no local, deixando 173 mortos e 77 sobreviventes. História, lendas e mistérios cercam a Ilha, manifestando-se na cultura e nos hábitos dos moradores da aldeia, que contam com entusiasmo sobre a mulher da cachoeira, o homem do facão, a cobra do engenho e a história do tesouro. “Há um ponto na baía chamado de pegador. O lugar se transformou em uma referência para muita gente porque se sabe dos restos de embarcação que estão no fundo do mar. Algumas pessoas chegam aqui e me pedem para levar até lá. Elas acham que eu sei onde está o tesouro”, comenta Fernando Bittencurt, pescador de 47 anos.

Bittencurt fundou com Wanderlei Andrino Borges, 41 anos, a Associação Náutica Coraes, que promove passeios de barco pela baía e ilhas, costeando montanhas praticamente intocadas. Quem opta pelo tour no cair da tarde ou início do dia tem o privilégio de cruzar com várias espécies de pássaros nativos: gralhas azuis, garças-brancas, saracuras e aracuãs. Na margem direita da praia, há uma pequena trilha que leva ao Farol dos Naufragados, de onde se avistam o Forte de Nossa Senhora da Conceição (século 18), em Araçatuba, e as ilhas do Papagaio Pequena e Grande. No caminho, o visitante passa por canhões de guerra, registros históricos deixados pelos militares. Outro atrativo de Naufragados são os restaurantes à beira-mar, que oferecem pratos típicos à base de frutos do mar.

Distância Centro – Bairro

Caeira da Barra do Sul: 34 km

LAGOINHA DO LESTE

A trilha da Lagoinha do Leste é famosa por possuir uma das vistas mais belas do litoral catarinense. O percurso, realizado ora pela mata, ora pela beirada de costões, dura cerca de 1h45, sendo considerado de nível médio de dificuldade – há pedras e algumas bifurcações por quase toda a sua extensão (de 3.760 metros). Entre os atrativos da caminhada estão fontes e cursos d’água potável em pelo menos três passagens até a Praia da Lagoinha do Leste.

Muito utilizada por jovens e surfistas atraídos pela natureza selvagem e ondas que podem chegar a três metros de altura, a trilha também caiu no gosto de moradores e todo tipo de visitante, por sua característica primitiva. “O trajeto para a Lagoinha define muito bem o conceito de trilha. A praia é pura e cheia de natureza. O turista chega a um lugar que é um paraíso intocado em plena capital”, afirma Victor Emmanuel Carlson, jornalista, fotógrafo e co-autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina. A praia – localizada a sudeste de Florianópolis – pertence ao Parque Municipal da Lagoinha do Leste, criado em janeiro de 1992 com o objetivo de preservar um dos últimos redutos de vegetação primária de Mata Atlântica.

A Lagoinha possui extensão de 1.240 metros e tem este nome por abrigar uma laguna de água salgada (exceto na nascente e nos trechos mais profundos), cuja foz encontra-se na margem esquerda da praia. Diversas pessoas costumam, principalmente em alta temporada, acampar na restinga próxima à laguna. O ‘trilheiro’ que preferir seguir o passeio rumo ao sul da Ilha pode caminhar até o canto direito da praia e cruzar a divisa entre a Lagoinha e a Praia do Pântano do Sul, reduto tradicional da capital. Da Lagoinha ao Pântano há uma trilha bem marcada com um aclive de 194 metros, cujo trajeto é mais leve, apesar do desnível. Esta possui 2.420 metros de extensão percorridos em cerca de 40 minutos. Para recompor as energias da caminhada, vale conferir o cardápio do pitoresco Bar e Restaurante do Arante, no Pântano, famoso por servir uma variada gama de pratos artesanais com sabor caseiro.

Distância Centro – Bairro

Praia do Matadeiro: 21 km

MORRO DAS ARANHAS

Com início no costão sul da Praia do Santinho, a trilha do Morro das Aranhas possui trajeto íngreme, com extensão de 1.400 metros, e duração que varia de 40 minutos a 1h15, a depender do ritmo dos caminhantes. O nível de dificuldade é baixo, embora a subida exija preparo físico. O Costão do Santinho, uma das praias mais badaladas da Ilha por ser sede de um resort de alto padrão, é bastante conhecido por abrigar a maior reserva de oficinas líticas e inscrições rupestres do sul do Brasil. A excelente estrutura do local, reconhecido por lei como Patrimônio Nacional, inclui decks, mirantes e passarelas, e propicia a melhor visualização do sítio arqueológico. O percurso é bem sinalizado, com passagens bem demarcadas e placas de sinalização.

As montanhas cobertas pela Mata Atlântica e a forte arrebentação do mar em rochedos de formação basáltica compõem a paisagem do lugar. Pouco antes da entrada da trilha, o visitante pode apreciar a vista das Ilhas das Aranhas, de onde, segundo a versão popular, hoje oficial, surgiu o nome do antigo distrito. O jeito ligeiro dos manezinhos pronunciarem os vocábulos uniu as duas palavras, transformando-as em um denominativo, ‘Dazaranha’. No topo do morro, que possui 255 metros de altura, a vista panorâmica da Praia dos Ingleses, ao norte, e de Moçambique e Barra da Lagoa, a leste, atrai pessoas de todas as idades. A visibilidade é excelente e a paisagem fantástica.

Distância Centro – Bairro

Costão do Santinho: 40 km

DE RATONES PARA A COSTA DA LAGOA

A trilha de Ratones para a Costa da Lagoa é um dos mais antigos traçados de Florianópolis devido a sua função de aproximar as comunidades que viviam em suas extremidades no passado. Ela foi aberta com objetivos sociais e econômicos. Toda a produção de Ratones que precisava alcançar o Porto da Barra (da Lagoa) era transportada pela trilha em carro de boi ou lombo de mula. O seu início é no Canto do Moreira (Estrada Geral de Ratones) e a sua extensão é de 2.250 metros bem marcados entre subida e descida de um morro de 160 metros de altura.

O percurso inteiro é coberto por vegetação de Mata Atlântica; entre as espécies da fauna estão aves, lagartos e macacos de pequeno porte; e a vista panorâmica do ponto mais alto inclui a Lagoa da Conceição, a Barra (da Lagoa) e o Rio Vermelho. Ratones é o bairro mais preservado do norte da Ilha, com largas propriedades rurais e intensa atmosfera bucólica. Pouco antes da entrada da trilha localiza-se o Sítio Çara Kura, um espaço modelo de práticas ligadas a projetos de permacultura e bioconstrução. O sítio é uma referência para ambientalistas, pois dispõe de um sistema autossustentável integrado à natureza, sem causar impacto. O espaço é visitado por inúmeros grupos de interessados, entre eles moradores, turmas de escolas da capital, estudantes universitários e turistas.

O trajeto termina na Costa da Lagoa, próximo à Praia do Sul – nesta localidade só se chega pela trilha ou de barco. A Lagoa da Conceição, um dos cartões-postais de Florianópolis, divide-se geograficamente entre Porto, Canto, Costa e Barra da Lagoa. A Costa é um dos braços, cuja personalidade ribeirinha se mantém, expressando- se por meio da culinária, do folclore e de costumes. No percurso de barco do Porto à Costa, há contraste entre construções de alto padrão e casas de pescadores, entre a arquitetura arrojada e os ranchos de pesca que sobreviveram à explosão imobiliária que ocorreu na região entre os anos 1980 e 2000, quando famílias de diversas partes do Brasil e do exterior migraram para Florianópolis em busca de qualidade de vida.

Quem optar por estender o passeio, pode escolher um dos restaurantes do “centrinho da Costa” e experimentar um dos pratos típicos oferecidos nos estabelecimentos. Para os caminhantes, a primeira opção é o Restaurante do Cabral, situado no ponto de chegada da trilha. Outras são o Índio, o Coração de Mãe e o Cachoeira. No cardápio, constam a sequência de camarão, peixes fritos, grelhados ou à milanesa, pirão, salada e acompanhamentos. Parte dos barcos que navegam na Costa da Lagoa pertence à frota do Sistema de Transporte Hidroviário Municipal. A grade de horários de saída das embarcações está fixada no Terminal do Porto. A tarifa é de R$ 3,20.

Distância Centro – Bairro

Ratones: 25 km

* * *

DICAS

  • Tênis confortável, próprio para trekking;
  • Roupas leves, que absorvam bem o suor. De acordo com a trilha, é aconselhável usar calças que cubram as pernas;
  • Água e lanche (sanduíches, frutas, barras de cereais, chocolate, biscoitos, etc)
  • Protetor solar;
  • Óculos escuros;
  • Boné ou chapéu;
  • Repelente para insetos;
  • Mochilas resistentes;
  • Lanterna;
  • Guia das trilhas a serem percorridas;

ACESSOS (Florianópolis)

Por via rodoviária

De Porto Alegre: BR-290, BR-101.

De São Paulo: BR-116, BR-375, BR-101.

De Curitiba: BR-101, BR-376.

Por via aérea

Vôos regulares partem das principais capitais brasileiras.

DISTÂNCIAS

Porto Alegre: 476 Km

Curitiba: 300 Km

São Paulo: 705 Km

Brasília: 1.673 Km

MAIS INFORMAÇÕES

www.sc.gov.br

www.pmf.sc.gov.br

www.florianopoliscvb.com.br

www.visitefloripa.com.br

www.guiafloripa.com.br

SERVIÇOS TURÍSTICOS

Santur

(48) 3212-6300

www.santur.sc.gov.br

Secretaria Municipal de Turismo

(48) 3952-7000

Central de Atendimento ao Turista

0800 644 6300/ (48) 3212-6328

Delegacia de Proteção ao Turista

(48) 3222-4065

Florianópolis Convention & Visitors Bureau

(48) 3222-4904/ 3224-1721

TELEFONES ÚTEIS

Polícia 190

Bombeiros 193

Emergências Médicas 192

Polícia Rodoviária 191

Aeroporto (48) 3331-4000

Rodoviária (48) 3212-3100

Tele-Táxi (48) 3240-6009

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2 Responses to “Nas Trilhas de Floripa”

  1. Cristiano Says:

    Esta matéria é memorável. Já se pode considerá-la uma referência obrigatória para os amantes de Floripa.

  2. eva Says:

    Que orgulho!!!!!!!!!!!


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