A macaca em…

janeiro 9, 2011

Fotos e ilustrações Web

 

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto
 
 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua, a macaca retornou ao lar para começar o ano a todo vapor. Energia recarregada e voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro fim de semana depois do brinde da virada foi cheio de  aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de gente bizarra superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem. Horripilante!

A atmosfera exótica chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro. – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados. Os endinheirados se exibiam com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champagne francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações claras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?A cena é cinematográfica.

A verdade é que o bando de seres humanos que se divertia na praia do e$panto – templo de “semideuses” abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que ocorre do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam literalmente cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, símia residente da Grande Árvore, o vegetal mais apaixonante do conglomerado de mata cachorro, reduzida a um tamanho microscópico de ser qualquer?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá! O dinheiro banaliza a condição humana. Os excêntricos milionários carregam a certeza de que tudo podem. Infelizmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos? Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna são subordinados a uma choldra de dar dó. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que tudo mais vá para o inferno.

Quem quer dinheiro?

______________

* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

 

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

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8 Responses to “A macaca em…”

  1. Dum Says:

    Em Paris se bebe champanhe em qualquer bar, na boa. Brasileiro é muito cafona e provinciano mesmo. Esse tipo de gente me enoja.

    • Carolina Pinheiro Says:

      Oi, Dum.
      Que bom te receber por aqui!!! Quanto ao seu comentário, no frigir dos ovos, eles é que são farofeiros, né? Beijão

  2. Letícia Says:

    Ei honey! Sabes que convivi com vários desses tipos que dizem querer algo selecionado. E o que confirmei, nos anos de experiência passando pela Ilha, foi que essa gente é muito mais cafona do que os que frequentam o piscinão de Ramos aqui mais próximo à minha realidade de agora. Acho cafona quem não tem noção de si mesmo. Acho cafona quem enxerga no outro a insegurança de ser o que é.

    Como diria a Manu, “acho um pavor”…rs
    Beijos

    Ótimo texto!

  3. Carolina Pinheiro Says:

    Hello, Lets.
    Obrigada por mais uma passagem sua pelo blog macacal. Adorei!
    Você está certíssima. Concordo com tudo o que disse. Este tipo de pessoa – que sai aos borbotões de praias como Jurerê em época de temporada – é digna de pena. Uma coisa ocorre: ela não passa despercebida e causa calafrios em qualquer ser que viva dentro do mundo real. “Acho cafona quem enxerga no outro a insegurança de ser o que é.” É isso aí mulher. Muito bem dito!
    Beijo


  4. Bom dia Carolina,

    é de se admirar que da forma como caminha grande parte da humanidade – para a fome, falta de água limpa, frio, etc – alguns ignorantes achem bacana “queimar” dinheiro dessa forma. Para serem “diferentes” deveriam “espocar” seus champagnes a cada realização social conquistada.
    Todo mundo gosta do que é bom, mas não dá para ser bom só para poucos… uma hora a maioria vai descer o pau atrás também do que é bom e não vai ter cerquinha que de conta de segurar a turba.

    Como dizia um professor meu:
    Quem é rico de berço sabe dar valor as pessoas, mas quem é emergente se borra todo quando tem dinheiro.

    Grande abraço.

    • Carolina Pinheiro Says:

      Bom dia, Jean.
      A reportagem publicada na Folha está repercutindo de forma avassaladora Brasil afora por conta de Jurerê Internacional ter virado poit de orgias milionárias. É impressionante a quantidade de emails que recebo todos os dias de pessoas chocadas com a conduta animalesca dos atuais frequentadores da praia. Eu soube que a associação de moradores do bairro está apavorada. Fala-se que houve inquilinos de temporada que depredaram a sala de estar de uma casa, jogando na piscina os sofás em uma espécie de grito de guerra. A matéria está circulando e gerando reflexão a ponto dos moradores se unirem contra os banhistas que se enquadram neste perfil. Sem dúvida, é estarrecedor constatar que gente do tipo exista no planeta. E pior, que tem poder.
      Beijo e volte sempre

  5. Edson Luiz Says:

    Boa Tarde Carol;
    Li seu texto e fiquei impressionado com a forma fluente e gostosa com que você se expressa. Confesso que cheguei até seu blog pois sou o Edson Luiz citado na reportagem da Folha, e, diante da repercussão negativa de tal reportagem resolvi ver como andam os comentários no mundo virtual.
    Pois bem, importante deixar claro o que se passou e a forma como as informações foram parar no jornal. Você como uma “jornalista inveterada” sabe muito bem que sensacionalismo vende muito mais do apenas informação (deu resultado, polêmica instaurada).
    Portanto, no dia em que eu e minha esposa (Eliane) fomos entrevistados, estávamos sim bebendo um legítimo champagne Veuve Clicquot nas areias de Jurerê onde temos apartamento. Ocorre que as perguntas a nós formuladas induziram a pensarmos em outro tipo de reportagem e não esta competição que no meu modo de pensar nem existe. O que existe sim é um bando de gente que não sabe dar valor ao seu dinheiro e fica jogando bebida fora pra dizer que tem mais poder que o vizinho do lado. Não compactuamos com essa mentalidade, porém gostamos de aproveitar as coisas boas da vida que conquistamos honestamente.. Aí eu lhe pergunto: há algum mal nisso??? parabéns pelo blog!!!

    • Carolina Pinheiro Says:

      Oi, Edson.
      Boa tarde!!!
      Fiquei surpresa ao receber o seu comentário. Não esperava!!! Que bom. Muito obrigada pelos elogios. Sobre o que me escreveu, eu gostaria de deixar claro que em momento algum eu coloquei em questão o prazer que há em desfrutarmos do que a vida tem de bom a nos oferecer. Não desqualifiquei a sua conduta. Imagina! Sei bem do sensacionalismo bastante utilizado pela imprensa, mas creio que neste caso, a jornalista apenas trouxe à tona uma informação cujo teor é de utilidade pública. A interpretação da matéria cabe aos leitores. Uma coisa é certa. Ela ouviu da boca de entrevistados a palavra farofa: ‘do lado de lá, estão os farofeiros’. Eu te pergunto: quem seriam? Ora, chamar um banhista de uma praia como Jurerê de farofa é, no mínimo, risível.

      O argumento revela o quão fora da realidade está o interlocutor. Eu estive na praia, passeando em um sábado, conheço muito bem o lugar, e te digo que, de uns anos para cá, tem havido, em Jurerê Internacional, uma invasão de pessoas, como você bem disse, sem educação, que depredam a praia e se comportam de forma absolutamente perniciosa. A queima de dinheiro, em si, já é desrespeitosa, para não dizer patética, insana. O que falar da atitude destrutiva? Os casos de polícia tem sido frequentes, os moradores estão indignados e os ditos super-ricos, para usar o termo da repórter da Folha, exibem um padrão de personalidade questionável.

      Por outro lado, visitantes, abastados ou não, são muito bem-vindos. Portanto, sinta-se em casa e volte sempre, ok? Os ilhéus terão prazer em recebê-lo.
      Abraço


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