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Capítulo de hoje: o mundo está cada vez mais ro-ro-ro (eco do quadrilátero)

A macaca encosta a cabeça no tronco de seu aposento e resmunga: – Parece piada. Mas não é. Os jornais diários estampam manchetes do mundo cão sem dono. – Onde já se viu um ex-governante receber benefícios vitalícios mesmo tendo exercido o cargo por irrisórios 10 dias?Chega a beirar o absurdo de tão surreal. O Estado pesa nos ombros e onera os bolsos do contribuinte brasileiro em níveis descarados. A torneira aberta nas fuças da população não cessa a jorrar fortunas usadas para cobrir gastos de políticos que fizeram do serviço público uma profissão de carreira. Quantos ex-governadores, ex-presidentes, ex-ministros e ex (de tudo um pouco) existem no País? Pois as pensões destes cidadãos variam, para o resto de suas vidas, de R$ 15 mil a R$ 24 mil. Não suficiente, as mesmas são estendidas aos parentes do titular após registro de seu óbito. – Acredite se quiser. Quá!

Em Santa Catarina, a filha do ex-governador Hercílio Luz, morto em 1924, recebe do Governo uma quantia mensal de milhares de reais desde o falecimento do pai. No Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon tem, ou tinha, já que admite rever o pedido, a intenção de somar ao seu salário atual – de R$ 26,7 mil –, R$ 24 mil correspondentes ao valor de sua aposentadoria como ex-governador. – Por que ele ficaria fora da boquinha? Todos sabem que políticos custam aos cofres da Viúva, para utilizar um termo de Elio Gaspari, mais de R$ 100 mil por mês. A lista é extensa e inclui fartos adicionais, além do direito à moradia, a automóvel, a motorista, a combustível, a passagens aéreas, à hospedagem, à alimentação e a praticamente tudo. – Onde isso vai parar?, pensou ao virar a folha e pah, mais um título escandaloso: Obama cobra China por direitos humanos.

– Quadrilátero-ro-ro-ro-ro (eco). Ah! Ah! Ah! Eu me divirto com humanos. A cara de pau de uns não inibe a falta de vergonha de outros. Responda se puder: quem é Barack Obama para pressionar Hu Jintao no que diz respeito a direitos humanos? O presidente de um país que, para o “bem da humanidade”, aniquila povos mundo afora tem propriedade para exigir o que do presidente da China? Claro, os heróis do universo (tradução = norte-americanos) sempre deflagram guerras pela paz. Crã, crã. – Fala sério Mr. “King of the World”.

– Sim, os jornais estão de matar de rir. Ôpa, pera aí: ‘Baby Doc’ sugere volta à política no Haiti. Porta-voz de ex-ditador propõe anulação de 1º turno para que ele possa concorrer mesmo após o indiciamento. What? Ah! Ah! Ah! E esta criatura das trevas tem simpatizantes que empunham a sua foto estampada em medalhinhas de tamanho razoável. – Ai, Senhor, depois dessa, vou encerrar por hoje, senão não durmo. Ah! Ah! Ah!

A macaca, sem conter o riso, fecha o periódico e sai a exclamar:

– O mundo está mesmo cada vez mais ro-ro-ro (eco). Vixi!

Nas Trilhas de Floripa

janeiro 20, 2011

Publiquei a reportagem a seguir na edição 160 da Revista Aventura & Ação, que circulou em novembro e dezembro de 2010. Disponibilizo o material na página para que o texto mantenha a sua função após o número ter saído das bancas: informar.

Boa leitura.

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Crédito de foto: Victor Emmanuel Carlson

Com infraestrutura de uma cidade grande, ótimos hotéis e restaurantes, a capital catarinense oferece paisagens fascinantes que fazem a alegria dos amantes da vida ao ar livre. Em meio ao cenário paradisíaco de praias primitivas e muita Mata Atlântica, uma atividade que tem se destacado é o trekking que cativa aventureiros interessados em explorar os cenários mais exclusivos de uma das ilhas mais bonitas do Brasil


A tarde é de calor, o lugar, um dos redutos mais antigos da capital catarinense, a Praia dos Naufragados. Esse cenário, unido ao movimento descontraído das pessoas pela trilha que liga a rústica Caeira da Barra do Sul ao extremo sul da Ilha, convida os visitantes a desfrutar de belos dias de sol. De repente, um burburinho chama a atenção dos turistas na entrada da praia. As pessoas se deslocam em direção ao costão esquerdo de Naufragados, seguem o som da música, e, alguns metros à frente, deparam-se com uma cena atípica: manezinhos (apelido dos habitantes tradicionais de Florianópolis) saúdam as belezas do entorno: “um pedacinho de terra perdido no mar, num pedacinho de terra beleza sem par, jamais a natureza reuniu tanta beleza, jamais algum poeta teve tanto pra cantar.” O trecho do Rancho de Amor à Ilha, o hino oficial de Florianópolis, é entoado por uma dúzia de vozes vibrantes e apaixonadas.

Não por menos, ela é chamada de Ilha da Magia. Dezenas de praias, algumas badaladas, outras selvagens, lagoas, cachoeiras, dunas, encostas e montanhas cobertas pela Mata Atlântica compõem o cenário deste pequeno paraíso litorâneo. Com oferta de inúmeros atrativos, a lha passa, na alta temporada, a abrigar quase um milhão de turistas. Os 408 mil habitantes adaptam suas rotinas para receber os visitantes. Para fugir do agito, a boa pedida é se lançar nas trilhas ecológicas que revelam cenários preservados, uma biodiversidade vibrante, além da cultura tradicional do lugar. São mais de 30 trilhas e caminhos distribuídos pelo território (433 km²) de Norte a Sul.

De acordo com Augusto César Zeferino, geógrafo e autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina, existe diferença entre a trilha e o caminho. A primeira costumava ser aberta por desbravadores, interessados em descobrir lugares e conhecer as matas. O segundo possuía uma função mais econômica. “Muitas estradas da Ilha, hoje oficiais, surgiram destes traçados”, esclarece. Os percursos, realizados por dentro da mata ou pelas margens dos costões, levam o caminhante a verdadeiros oásis naturais, alguns próximos de zonas urbanas bastante movimentadas, outros completamente afastados da civilização. Em trilhas como a da Lagoinha do Leste, uma praia selvagem, e dos Naufragados, sul da Ilha, podem ser avistadas espécies da fauna terrestre como cutias, lagartos, saguis e macacos-prego. No céu, um show à parte, protagonizado por cerca de 170 espécies de aves entre as residentes e as migratórias. Em Naufragados, devido à sua localização, é possível ainda avistar botos, e, de julho a novembro, a Baleia Franca. Pescadores que vivem na praia oferecem passeios de barco o ano inteiro.

As trilhas e os caminhos de Florianópolis foram abertos por índios (guarani e carijó), colonizadores luso-açorianos, militares, escravos e pelas próprias comunidades que se instalaram pelos traçados e no entorno das regiões. Seus habitantes mantêm os trajetos até os dias de hoje. “Estes percursos pela mata sempre tiveram importância, antes usados por questões econômicas, sociais e religiosas; hoje, para a prática do ecoturismo e do turismo de aventura”, diz Zeferino.

A riqueza cultural legada por antepassados é apreciada tanto nos casarões em estilo açoriano como nos simplórios ranchos de pesca à beira-mar, ao som de ritmos como o reggae e o samba, em avenidas largas e estreitas servidões (como são chamados os rasgos de terra, alguns pavimentados, que irrompem diversos bairros da cidade). O Ribeirão da Ilha, caminho para a entrada da Trilha dos Naufragados, é um dos mais antigos núcleos de colonização açoriana da capital. Embarcações, como canoas e baleeiras, e peças de artesanato, como balaios e cestos de cipó, preservam tradições centenárias. O bairro é um dos pólos de produtores de ostras de Florianópolis, reunindo bares e restaurantes que servem pratos à base de frutos do mar.

Entre as trilhas e os caminhos selecionados para este roteiro estão a dos Naufragados, da Lagoinha do Leste, do Morro das Aranhas e de Ratones para a Costa da Lagoa. Os critérios utilizados para a sua escolha foram o nível de dificuldade para a realização dos trajetos (todos podem ser feitos sem risco para o caminhante), a diversidade de paisagens e o tempo de percurso.

NAUFRAGADOS

Com início no ponto final da linha de ônibus Caeira da Barra do Sul e final na praia dos Naufragados, a trilha é larga, bem marcada, de fácil acesso e com nível baixo de dificuldade. Tem duração de 40 minutos e extensão de 2.621 metros. Localizada no extremo sul da Ilha, a praia pertence ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e abriga floresta de Mata Atlântica espalhada por montanhas e encostas. Pela trilha encontram-se córregos, alagados e quedas d’água cristalina, entre ruínas de um antigo engenho de farinha e casarões açorianos. Da beira-mar, vê-se o continente, que fica a três milhas náuticas dali: Praia do Sonho, da Pinheira, Guarda do Embaú e Gamboa, em Garopaba. Oficinas líticas incrustadas em pedras do canto esquerdo da praia remontam aos primórdios.

De acordo com Aladir Custódio da Costa, 67 anos, pescador, pela trilha transportavam-se mandioca, milho, lenha, peixes como tainha, anchova, corvina, bagre e tudo o que era produzido pelos aldeões. “A trilha existe há muitos anos. Eu estou aqui há quase 50 e faço o percurso desde moço”, afirma. “Quem utilizava mais eram os moradores daqui, mas de uns 20 anos para cá, as pessoas começaram a desbravar para conhecer e passear. Vem gente de tudo que é canto.”

Naufragados tem este nome por conta dos naufrágios que aconteceram na época da colonização. O mais conhecido ocorreu em 1751, quando uma embarcação com 250 colonos açorianos naufragou no local, deixando 173 mortos e 77 sobreviventes. História, lendas e mistérios cercam a Ilha, manifestando-se na cultura e nos hábitos dos moradores da aldeia, que contam com entusiasmo sobre a mulher da cachoeira, o homem do facão, a cobra do engenho e a história do tesouro. “Há um ponto na baía chamado de pegador. O lugar se transformou em uma referência para muita gente porque se sabe dos restos de embarcação que estão no fundo do mar. Algumas pessoas chegam aqui e me pedem para levar até lá. Elas acham que eu sei onde está o tesouro”, comenta Fernando Bittencurt, pescador de 47 anos.

Bittencurt fundou com Wanderlei Andrino Borges, 41 anos, a Associação Náutica Coraes, que promove passeios de barco pela baía e ilhas, costeando montanhas praticamente intocadas. Quem opta pelo tour no cair da tarde ou início do dia tem o privilégio de cruzar com várias espécies de pássaros nativos: gralhas azuis, garças-brancas, saracuras e aracuãs. Na margem direita da praia, há uma pequena trilha que leva ao Farol dos Naufragados, de onde se avistam o Forte de Nossa Senhora da Conceição (século 18), em Araçatuba, e as ilhas do Papagaio Pequena e Grande. No caminho, o visitante passa por canhões de guerra, registros históricos deixados pelos militares. Outro atrativo de Naufragados são os restaurantes à beira-mar, que oferecem pratos típicos à base de frutos do mar.

Distância Centro – Bairro

Caeira da Barra do Sul: 34 km

LAGOINHA DO LESTE

A trilha da Lagoinha do Leste é famosa por possuir uma das vistas mais belas do litoral catarinense. O percurso, realizado ora pela mata, ora pela beirada de costões, dura cerca de 1h45, sendo considerado de nível médio de dificuldade – há pedras e algumas bifurcações por quase toda a sua extensão (de 3.760 metros). Entre os atrativos da caminhada estão fontes e cursos d’água potável em pelo menos três passagens até a Praia da Lagoinha do Leste.

Muito utilizada por jovens e surfistas atraídos pela natureza selvagem e ondas que podem chegar a três metros de altura, a trilha também caiu no gosto de moradores e todo tipo de visitante, por sua característica primitiva. “O trajeto para a Lagoinha define muito bem o conceito de trilha. A praia é pura e cheia de natureza. O turista chega a um lugar que é um paraíso intocado em plena capital”, afirma Victor Emmanuel Carlson, jornalista, fotógrafo e co-autor do livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina. A praia – localizada a sudeste de Florianópolis – pertence ao Parque Municipal da Lagoinha do Leste, criado em janeiro de 1992 com o objetivo de preservar um dos últimos redutos de vegetação primária de Mata Atlântica.

A Lagoinha possui extensão de 1.240 metros e tem este nome por abrigar uma laguna de água salgada (exceto na nascente e nos trechos mais profundos), cuja foz encontra-se na margem esquerda da praia. Diversas pessoas costumam, principalmente em alta temporada, acampar na restinga próxima à laguna. O ‘trilheiro’ que preferir seguir o passeio rumo ao sul da Ilha pode caminhar até o canto direito da praia e cruzar a divisa entre a Lagoinha e a Praia do Pântano do Sul, reduto tradicional da capital. Da Lagoinha ao Pântano há uma trilha bem marcada com um aclive de 194 metros, cujo trajeto é mais leve, apesar do desnível. Esta possui 2.420 metros de extensão percorridos em cerca de 40 minutos. Para recompor as energias da caminhada, vale conferir o cardápio do pitoresco Bar e Restaurante do Arante, no Pântano, famoso por servir uma variada gama de pratos artesanais com sabor caseiro.

Distância Centro – Bairro

Praia do Matadeiro: 21 km

MORRO DAS ARANHAS

Com início no costão sul da Praia do Santinho, a trilha do Morro das Aranhas possui trajeto íngreme, com extensão de 1.400 metros, e duração que varia de 40 minutos a 1h15, a depender do ritmo dos caminhantes. O nível de dificuldade é baixo, embora a subida exija preparo físico. O Costão do Santinho, uma das praias mais badaladas da Ilha por ser sede de um resort de alto padrão, é bastante conhecido por abrigar a maior reserva de oficinas líticas e inscrições rupestres do sul do Brasil. A excelente estrutura do local, reconhecido por lei como Patrimônio Nacional, inclui decks, mirantes e passarelas, e propicia a melhor visualização do sítio arqueológico. O percurso é bem sinalizado, com passagens bem demarcadas e placas de sinalização.

As montanhas cobertas pela Mata Atlântica e a forte arrebentação do mar em rochedos de formação basáltica compõem a paisagem do lugar. Pouco antes da entrada da trilha, o visitante pode apreciar a vista das Ilhas das Aranhas, de onde, segundo a versão popular, hoje oficial, surgiu o nome do antigo distrito. O jeito ligeiro dos manezinhos pronunciarem os vocábulos uniu as duas palavras, transformando-as em um denominativo, ‘Dazaranha’. No topo do morro, que possui 255 metros de altura, a vista panorâmica da Praia dos Ingleses, ao norte, e de Moçambique e Barra da Lagoa, a leste, atrai pessoas de todas as idades. A visibilidade é excelente e a paisagem fantástica.

Distância Centro – Bairro

Costão do Santinho: 40 km

DE RATONES PARA A COSTA DA LAGOA

A trilha de Ratones para a Costa da Lagoa é um dos mais antigos traçados de Florianópolis devido a sua função de aproximar as comunidades que viviam em suas extremidades no passado. Ela foi aberta com objetivos sociais e econômicos. Toda a produção de Ratones que precisava alcançar o Porto da Barra (da Lagoa) era transportada pela trilha em carro de boi ou lombo de mula. O seu início é no Canto do Moreira (Estrada Geral de Ratones) e a sua extensão é de 2.250 metros bem marcados entre subida e descida de um morro de 160 metros de altura.

O percurso inteiro é coberto por vegetação de Mata Atlântica; entre as espécies da fauna estão aves, lagartos e macacos de pequeno porte; e a vista panorâmica do ponto mais alto inclui a Lagoa da Conceição, a Barra (da Lagoa) e o Rio Vermelho. Ratones é o bairro mais preservado do norte da Ilha, com largas propriedades rurais e intensa atmosfera bucólica. Pouco antes da entrada da trilha localiza-se o Sítio Çara Kura, um espaço modelo de práticas ligadas a projetos de permacultura e bioconstrução. O sítio é uma referência para ambientalistas, pois dispõe de um sistema autossustentável integrado à natureza, sem causar impacto. O espaço é visitado por inúmeros grupos de interessados, entre eles moradores, turmas de escolas da capital, estudantes universitários e turistas.

O trajeto termina na Costa da Lagoa, próximo à Praia do Sul – nesta localidade só se chega pela trilha ou de barco. A Lagoa da Conceição, um dos cartões-postais de Florianópolis, divide-se geograficamente entre Porto, Canto, Costa e Barra da Lagoa. A Costa é um dos braços, cuja personalidade ribeirinha se mantém, expressando- se por meio da culinária, do folclore e de costumes. No percurso de barco do Porto à Costa, há contraste entre construções de alto padrão e casas de pescadores, entre a arquitetura arrojada e os ranchos de pesca que sobreviveram à explosão imobiliária que ocorreu na região entre os anos 1980 e 2000, quando famílias de diversas partes do Brasil e do exterior migraram para Florianópolis em busca de qualidade de vida.

Quem optar por estender o passeio, pode escolher um dos restaurantes do “centrinho da Costa” e experimentar um dos pratos típicos oferecidos nos estabelecimentos. Para os caminhantes, a primeira opção é o Restaurante do Cabral, situado no ponto de chegada da trilha. Outras são o Índio, o Coração de Mãe e o Cachoeira. No cardápio, constam a sequência de camarão, peixes fritos, grelhados ou à milanesa, pirão, salada e acompanhamentos. Parte dos barcos que navegam na Costa da Lagoa pertence à frota do Sistema de Transporte Hidroviário Municipal. A grade de horários de saída das embarcações está fixada no Terminal do Porto. A tarifa é de R$ 3,20.

Distância Centro – Bairro

Ratones: 25 km

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DICAS

  • Tênis confortável, próprio para trekking;
  • Roupas leves, que absorvam bem o suor. De acordo com a trilha, é aconselhável usar calças que cubram as pernas;
  • Água e lanche (sanduíches, frutas, barras de cereais, chocolate, biscoitos, etc)
  • Protetor solar;
  • Óculos escuros;
  • Boné ou chapéu;
  • Repelente para insetos;
  • Mochilas resistentes;
  • Lanterna;
  • Guia das trilhas a serem percorridas;

ACESSOS (Florianópolis)

Por via rodoviária

De Porto Alegre: BR-290, BR-101.

De São Paulo: BR-116, BR-375, BR-101.

De Curitiba: BR-101, BR-376.

Por via aérea

Vôos regulares partem das principais capitais brasileiras.

DISTÂNCIAS

Porto Alegre: 476 Km

Curitiba: 300 Km

São Paulo: 705 Km

Brasília: 1.673 Km

MAIS INFORMAÇÕES

www.sc.gov.br

www.pmf.sc.gov.br

www.florianopoliscvb.com.br

www.visitefloripa.com.br

www.guiafloripa.com.br

SERVIÇOS TURÍSTICOS

Santur

(48) 3212-6300

www.santur.sc.gov.br

Secretaria Municipal de Turismo

(48) 3952-7000

Central de Atendimento ao Turista

0800 644 6300/ (48) 3212-6328

Delegacia de Proteção ao Turista

(48) 3222-4065

Florianópolis Convention & Visitors Bureau

(48) 3222-4904/ 3224-1721

TELEFONES ÚTEIS

Polícia 190

Bombeiros 193

Emergências Médicas 192

Polícia Rodoviária 191

Aeroporto (48) 3331-4000

Rodoviária (48) 3212-3100

Tele-Táxi (48) 3240-6009

Heima

janeiro 20, 2011

Jón Þór Birgisson, Georg Hólm, Orri Páll Dýrason e Kjartan Sveinsson integram uma de minhas bandas favoritas: Sigur Rós. O trabalho do quarteto islandês é brilhante e único. Cada canção traz uma nova linha – aberta a vários olhares e interpretações –, como se a música fosse um conjunto de frases a compor uma história. Nada mais lógico. Esta é a sua função primordial.

No Natal do ano passado, assisti ao Heima (Em Casa), um especial produzido em 2007. A série de concertos (unannounced concerts) gratuitos passou por diversas cidades da Islândia, tendo como proposta atrair o público de forma inusitada. O grupo chegava aos lugares sem avisar. No dia do show, a notícia era espalhada como uma forma de chamar a atenção dos moradores. O resultado foi uma experiência surpreendente, cuja troca entre os músicos e o seu povo ultrapassou as fronteiras do som. A mensagem fica nítida no DVD, levando o espectador a uma viagem reveladora.

O setlist da turnê conta com a canção Olsen Olsen, do álbum Ágætis Byrjun (1999). Magnífica! Assista ao clipe. Para maiores informações sobre Heima e Sigur Rós:

As chuvas voltaram

janeiro 18, 2011

Crédito de foto: O Estado de S. Paulo

“Precisa-se averiguar para saber onde foi que as autoridades erraram. Houve tempo de avisar as pessoas e ninguém avisou ninguém, houve tempo de evitar tantas mortes.” Daniel Jobim, neto do maestro Antônio Carlos Jobim, em depoimento dias após a casa de veraneio de seu avô – localizada em São José do Vale do Rio Preto – ter sido arrasada pela enchente que devastou a região serrana do Rio de Janeiro.

Mais um ano se passou sem que providência fosse tomada. As chuvas voltaram, como de costume no verão, e novo dilúvio atingiu Estados do nordeste e sudeste brasileiro. O caso mais grave ocorreu na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011. Após curto período de precipitação intensa, uma enxurrada de lama desceu inúmeros morros abaixo, deixando por onde passou um rastro de destruição e morte. Cerca de cinco municípios fluminenses foram engolidos pela força das águas. As imagens de ruína e o número de mortos, mais de 600 até a manhã de hoje, revelam o maior desastre natural da história do Brasil.

– Nunca antes na história deste País?

Nunca se viu tamanho descaso para com as necessidades reais do povo. De que adianta promover um mega programa habitacional – com proporções inigualáveis se comparadas a ações anteriores – se, ao mesmo tempo, não há princípio ou braço do governo que impeça a proliferação de construções irregulares em áreas de risco? A lei vigente proíbe a ocupação de encostas com mais de 45 graus de inclinação, mas há fiscalização? A culpa é de pessoas ignorantes, mal educadas, irresponsáveis? Não.

Na Austrália foi constatado o maior volume pluviométrico da temporada. Choveu, em localidades como Queensland, pelo menos 100 mm a mais do que no Rio de Janeiro. A diferença? Entre as ações preventivas implantadas pelas autoridades australianas está a retirada antecipada dos habitantes de áreas que serão alagadas. Por que lá e não cá? Falta de verba? Não. Só com a arrecadação de impostos, o governo teria fôlego de sobra para o desenvolvimento de projetos com alto poder de alcance.

O que falta então? Ontem, em um dos noticiários da televisão, uma moradora que havia perdido tudo (menos a sua vida e a de seus parentes: uma vitoriosa, por mais paradoxal que seja a afirmação), relatou que a população assiste ao mesmo espetáculo ano após ano. “Só mudam os personagens, mas o cenário é o mesmo”, disse em declaração a uma repórter.

Falta vontade política, empenho de nossos governantes, envolvimento conjunto dos poderes em prol de metas efetivas que visem à solução do problema. A presidente Dilma Rousseff apresentou-se ao País de forma devida, cumprindo, que fique claro, com a sua obrigação. A líder suprema da nação tomou frente e colocou alguns pingos nos is, enfatizando, por exemplo, a necessidade de haver um trabalho coeso entre prefeituras, governos estaduais e União na busca pelo desfecho satisfatório da situação. Entretanto, a sua postura só terá valor prático e digno de um olhar aprovável e respeitoso se, e somente se, as deliberações entre políticos se transformem em realidade.

O que se entende por ‘final feliz’ tem a ver com um direito do cidadão. Pensar em algo positivo depois de famílias terem sido exterminadas com as chuvas de anos a fio exige esforço. A questão pede urgência. O povo não pode mais esperar. Quantas vidas valem a morosidade do Estado? Está na hora de ser dado um basta na paralisia do poder público, pois se as autoridades fecharem novamente os olhos para o problema, em 2012, as chuvas voltarão, como de costume, e haverá nova lista de mortos em algum lugar do mapa brasileiro.

Código Florestal

Uma matéria publicada ontem no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo emplacou o seguinte título: “Revisão do Código Florestal pode legalizar área de risco e ampliar chance de tragédia.” Abordei no post Meio Ambiente – de 5 de agosto de 2010 –, a questão referente às alterações sugeridas pelo novo Código Florestal Brasileiro, em trâmite no Congresso. A proposta, a qual deixa de considerar topos de morro como áreas de preservação permanente, liberando a construção de habitações em encostas, já foi aprovada por uma comissão especial e deve ser votada em março. Entre os ditos e não ditos que envolvem o imbróglio, resta aos estupefatos afirmar que este, por razões óbvias, este é o caminho errado.

Papel da imprensa

Cabe à imprensa cobrir os fatos de forma direta e crítica, abrindo espaço para a discussão das causas da tragédia. O debate sobre o tema é fundamental para que a população tome conhecimento de seus direitos. Análises profundas de especialistas apontam para o maior responsável pelas centenas de mortes: o Estado. A maioria dos veículos de comunicação do Brasil trabalhou o viés sensacionalista da enxurrada. A abordagem simplista desvirtua a informação e presta um desserviço à nação.

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Maiores informações sobre como ajudar as vítimas da enxurrada na região serrana do RJ aqui.

O Blues de Gaspo Harmônica

janeiro 10, 2011

Crédito de foto: Gabriela Di Bella

Conheci o Gaspo no outono de 2003, em um dos bares da minha vida. Na época, o Oito ½ se localizava na Rua Sarmento Leite, um ponto de encontro arterial da boemia porto alegrense. A casa rosada e antiga, com escadaria, porta centenária e assoalho de madeira, continha uma atmosfera intimista, calorosa e despojada. Senti-me instantaneamente cativada pelo lugar. Havia quadros com fotos da história da música e do cinema pendurados nas paredes – a incluir o clássico de Federico Fellini que deu origem ao nome do local –, mesas espalhadas pelos salões em meia luz e um pequeno palco a capturar a atenção do público.  Foram muitas as noites adentro que passei ao lado de amigos a jogar conversa fora, a bebericar de boa dose da geladinha e a conhecer com vontade o talento e o carisma do Gaspo.

Lembro-me com clareza da sonoridade de sua harmônica (gaita): bela, convicta, instigante. Li, certa vez, uma descrição sobre a música do Gaspo que a traduz muito bem: “Tocando violão e gaita de boca, o músico procura explorar o lado mais expressivo das canções, buscando na simplicidade os caminhos para a sua música.” Creio ser este o fio condutor que leva o ouvinte à essência do seu trabalho.

Acompanhei o Gaspo em uma etapa de sua carreira, estive presente em incontáveis shows do artista na capital gaúcha e me envolvi com o seu ritmo de criação em um período de produção intensa. Em 2005, ele lançou o seu primeiro cd. Uma parceria com o violonista Oly Jr, o álbum Na Capa da Gaita trouxe uma mistura voluptuosa e refinada das personalidades destes dois artistas do Rhythm and Blues.

Com sensibilidade inconfundível, Gaspo sempre foi um exemplo de garra e empenho. Não por menos, ele se transformou em um dos grandes nomes da cena musical do sul do Brasil. Excelente instrumentista e compositor, o artista é um motivo de orgulho para os amigos. Trata-se de uma das pessoas mais capazes de romper barreiras que conheci. Por esta razão, decidi publicar um texto a seu respeito na página para apresentá-lo aos meus leitores. A entrevista a seguir foi realizada há alguns meses.

Boa leitura.

Trajetória

Natural de São Miguel do Oeste (SC), Gaspo Harmônica iniciou sua formação musical na infância, estudando piano com sua mãe durante oito anos. Na adolescência, mudou-se para Chapecó (SC), onde teve os primeiros contatos com a gaita de boca, iniciando a caminhada que iria firmar o seu nome na cena musical. Em Porto Alegre desde 1999, passou a desenvolver um trabalho autoral que já lhe rendeu dois discos e o colocou em contato com conceituados artistas do Brasil e exterior. Sua experiência de palco soma mais de 500 shows em Porto Alegre e inúmeras cidades do sul do País. O músico participou também de grandes festivais no Rio de Janeiro e em São Paulo. Gaspo gravou ao lado de nomes internacionais como Magic Slim, Larry McCray, John Primer, Adrian Flores, David Honey Boy Edwards, J.J. Jackson, Greg Wilson, Solon Fishbone, Big Gilson, James Wheeler e Eddie C. Campbell.

1. Quando (pode citar a idade) e como (cite uma situação específica) você descobriu a gaita e o blues?

Descobri a gaita com 15 anos. Eu morava com o meu irmão, tocava piano desde os seis anos de idade, mas eu sempre tive vontade de tocar algo que eu pudesse carregar comigo. Meu irmão tocava violão, e um dia, enquanto ele fazia um som, falei disso pra ele. Na hora, ele puxou uma gaita da estante e me disse: “Toca aí”.

Não era o mesmo tipo de gaita que uso hoje em dia, não era uma gaita para blues, mas mesmo assim, eu curti muito e segui tocando. O blues, eu também conheci através do meu irmão, mas de início ele não me pegou. Eu queria era ouvir a gaita e os discos de blues que ele tinha. Acabei me interessando muito por Jethro Tull, que possuía vários trabalhos com gaita. O blues me pegou mesmo (pra ser bem exato) no dia 2 de janeiro de 1999, quando vim a Porto Alegre pra fazer o vestibular na UFRGS. Fiquei hospedado na casa de um amigo e quando fui dormir, o cara me deu um disco pra escutar, era o “Alone Acustic”, do Junior Wells & Buddy Guy. Junior Wells foi um dos maiores harmonicistas da história, eu pirei com o disco, escutei dezenas de vezes. Na época, não era tão fácil copiar um cd, nem todo mundo tinha um gravador de cds. Consegui comprar esse disco só um ano depois, mas ele não saiu da minha cabeça e eu passei a procurar mais gaitistas para escutar. Acabei indo mais a fundo no universo do blues.

2. Qual o impacto que a descoberta causou na tua vida? Refiro-me ao antes e ao depois. A carreira iniciou logo em seguida?

Quando descobri a gaita foi legal, era uma amiga pra todas as horas. Dos 14 aos 19, morei em quatro cidades diferentes, não tinha muitos amigos e passava muito tempo sozinho. No início, eu usava a gaita como remédio pra solidão, era um passa-tempo, mas logo veio a necessidade de me expressar através dela. Um dia meio no susto, um amigo me chamou pra tocar durante um show, eu fui meio sem saber o que fazer, nunca tinha tocado com uma banda, nem com ninguém, eu estava bem perdido, mas rolou um som, não sei se a galera estava bêbada ou foi a surpresa, mas todo mundo adorou. A resposta do público me surpreendeu, foi emocionante, fiquei viciado pelo palco e passei a ter um objetivo mais claro na minha vida. Eu precisava continuar tocando pras pessoas.

3. Das tuas principais referências, quais as mais instigantes, expressivas, quais mexem mais contigo e por quê?

Tenho como referências musicais alguns nomes do blues como Junior Wells, Big Walter Horton, Sonny Boy, Carey Bell, Little Walter e outros grandes nomes, mas trago também algumas referências mais pessoais, daqueles que me ensinaram a viver como músico: minha mãe, uma professora chamada Telma, que me ensinou a tocar piano e me iniciou nos caminhos da música, e os amigos Adrian Flores, Alex Rossi e Solon Fishbone que me deram muitas lições de como se portar profissionalmente dentro do mercado, além de me ensinarem muito sobre música.

4. Que momento considerou marcante na tua trajetória e por quê?

Em 2007, fiz uma turnê de quase duas semanas com o norte-americano Phil Guy. Foi a primeira vez que acompanhei um nome mais famoso, tocamos em grandes festivais do Rio e de São Paulo, foi muito legal estar no mesmo camarim com músicos que eu já era fã muito antes de começar a tocar. Na época, eu ainda trabalhava como projetista em um escritório de engenharia. Depois dessa turnê, dei-me conta que era hora de largar o escritório e me dedicar somente à música. Depois do que eu vivi naquelas duas semanas, eu não conseguia mais passar meus dias trabalhando com outra coisa que não fosse música.

5. Conte sobre alguma curiosidade, algum momento inusitado, algo que tenha acontecido no decorrer destes anos que valha um bom comentário, um destaque.

Como eu disse anteriormente, o blues me pegou mesmo com um cd do Junior Wells. Fiquei fã do cara na hora, mas nunca tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, pois no mesmo ano que conheci o seu som, ele faleceu. Ele sempre foi uma grande inspiração. Até hoje, recomendo pra todos meus alunos aquele cd que escutei. Mas enfim, em 2007, fui convidado a fazer um show em Buenos Aires, na mesma época que estaria por lá Magic Slim, um artista com quem eu iria trabalhar aqui no Brasil na semana seguinte. Eu aproveitei e fiquei alguns dias lá para conhecê-lo. Magic Slim viajava com um “Road Manager”, um empresário pessoal, que cuida de todas as suas necessidades enquanto ele está na estrada. O nome dele era Michael Blakemore, sobrinho do Junior Wells, o que fiquei sabendo um pouco mais tarde. Ele também havia sido “Road Manager” de Junior W. e trabalhou com ele durante muitos anos. Estabelecemos uma forte amizade e durante os dias da turnê aqui no Brasil, parte do meu trabalho era cuidar das necessidades dele e de Magic.

Nessa época, eu havia largado meu emprego diurno e estava passando por um período de vacas magras, demorou um tempo até normalizar minha situação financeira quando decidi viver só da música. Foi um começo bem difícil. Certo dia, eu caminhava com Michael e entramos em uma loja para ver alguma coisa. Eu pedi pra olhar um mp3, perguntei o preço e não levei, pois não tinha a grana. O Michael percebeu isso, mas não comentou nada. Um ano após tesa turnê, voltamos a trabalhar juntos. Foram mais 10 dias de shows com Magic Slim passando por algumas cidades do Brasil. No primeiro dia que nos falamos, ele brincou comigo, “já conseguiu a grana pro mp3?” Eu dei risada e brinquei “Ainda não, no Brasil a coisa só piora”. Fui novamente o “Road Manager” da equipe, cuidando do andamento das coisas e também participei como músico em alguns temas. No último dia da turnê, Michael me chamou num canto e me presenteou com um mp4. Disse-me que estava me dando porque eu havia trabalhado muito bem e que essa era a “escola” do seu tio Junior Wells. Ele me disse: “você estava sempre lá quando precisamos e, se o meu tio Junior estivesse aqui, ele mesmo estaria dando isso a você. Pra mim, foi uma honra muito grande, foi como ter recebido um presente do próprio Junior Wells. De alguma maneira, isso me fez sentir que estava caminhando na direção certa.

6. O que é o blues para você? `

Pra mim, o blues é uma linguagem, uma forma de expressão, mas principalmente algo que uso pra transformar sentimentos ruins em coisas boas.
7. Quais os teus próximos objetivos e novidades na carreira?

Estou gravando um novo disco, meu primeiro em carreira solo. Não é um disco só de blues, eu misturei muito com rock, folk e country. Mas a galera que está participando é quase toda do blues, o que deixa o estilo presente em cada faixa. Eu diria que ele tem um sotaque de blues bem forte. Consegui algumas participações bem bacanas, o Greg Wilson do Blues Etílicos canta uma faixa, a mesma em que o Guitarrista norte-americano Eddie C. Campbell gravou um solo. Tem também o argentino Adrian Flores na bateria. Gravei duas faixas com o Larry McCray, que esteve recentemente no Brasil. Vão participar do disco outros músicos brasileiros conhecidos da cena bluseira, além de Solon Fishbone, Big Gilson e outras surpresas. Quem está produzindo o disco é o Renato Velho, um amigo de longa data que saca muito de música. Ele já recebeu o Prêmio Açorianos de melhor instrumentista e tem muitos trabalhos legais como músico, produtor e compositor.

8. O que aprendeu com a música?

Aprendi que não somos só carne e ossos. Temos uma alma, e precisamos alimentá-la.
9. Que trabalho seu você considera o melhor e por quê?

Com certeza, o trabalho que estou fazendo agora, pois pude depositar nele diversas influências e experiências adquiridas nos últimos anos de estrada. Além do mais, os músicos que fazem parte deste trabalho são os melhores com quem já toquei. Sem eles, não seria possível realizar um bom trabalho.
10. Que recado você daria – referente ao blues e a música -, para as pessoas que estão te lendo aqui?

O blues é a raiz da música Ocidental. Mantenham as raízes vivas para terem bons frutos.

Para maiores informações sobre o trabalho de Gaspo Harmônica, fotos, mp3 e agenda de shows:

www.myspace.com/gaspoharmonica

(51) 8416-8482

gaspoharmonica@yahoo.com.br

A macaca em…

janeiro 9, 2011

Fotos e ilustrações Web

 

O quadrilátero da esquisitice

Capítulo de hoje: A praia do e$panto
 
 

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha…

Após temporada de pé na tábua, a macaca retornou ao lar para começar o ano a todo vapor. Energia recarregada e voilá, a bichana está pronta para a próxima jornada. O seu primeiro fim de semana depois do brinde da virada foi cheio de  aventura por matas de restinga com direito a parada na selva da mundialmente aclamada praia do e$panto. Balneário de abastados e famosos, o e$panto, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina, causa arrepios em qualquer criatura do mundo real. Morada de tribos endinheiradas (nem todas), a praia conta, em época de alta temporada, com um fenômeno chamado A Invasão Bárbara. Clãs de gente bizarra superlotam o lugar, transformando-o em um dos mais autênticos protótipos do capitalismo selvagem. Horripilante!

A atmosfera exótica chamou muito a atenção da macaca, pois havia no semblante do grupo seleto um gosto blasé pela queima enfurecida de muito dinheiro. – Isso remonta aos cenários de Kubrick em seu genial De Olhos Bem Fechados. Os endinheirados se exibiam com ferocidade em áreas exclusivas à beira-mar. Ao som de música eletrônica, rapazes rodeados por mulheres de corpos impecáveis em seus beach wears distribuíam garrafas de Veuve Clicquot a torto e a direito não com o objetivo de degustar o champagne francês de centenas de reais, mas de ostentar em demonstrações claras de poder. Grande parte dos jovens sacudia as garrafas com vontade, fazendo jorrar a bebida milionária em cascatas perdulárias de pura falta do que fazer. O rito de mais uma tarde de sol entre o povo de lá e eu cá alcança gastos que podem chegar a R$ 20 mil.

– Excêntricos elevados à potência mais crônica da insanidade ou ricaços despreocupados com a quantia exorbitante de dinheiro jogado fora?A cena é cinematográfica.

A verdade é que o bando de seres humanos que se divertia na praia do e$panto – templo de “semideuses” abençoados pelo valor da moeda –, não tem noção do que ocorre do lado de fora da bolha de plástico construída para que exibam as suas penas de macho e fêmea alfa. Todos que pelas passarelas dos clubes vagueavam a esbanjar fortuna estavam literalmente cagando para o resto do planeta. Dane-se, sentenciavam com o olhar. Eu tenho, eu existo, eu posso. Ponto. O resto, meus caros leitores, somos nós, os farofeiros.

– Opa, exclamou a macaca. Pelo que descreve a repórter da matéria a seguir, eu pertenço ao limbo da farinha de mandioca. Sim, é isso. Quem diria, eu, símia residente da Grande Árvore, o vegetal mais apaixonante do conglomerado de mata cachorro, reduzida a um tamanho microscópico de ser qualquer?

A macaca arregalou os olhos, ergueu a sobrancelha, largou os beiços e, sem armas para resistir, caiu na gargalhada. – Quá! Quá! Quá! O dinheiro banaliza a condição humana. Os excêntricos milionários carregam a certeza de que tudo podem. Infelizmente podem. Na praia do e$panto, por exemplo, têm absoluta liberdade para defenestrar dinheiro pelos cotovelos. Em ambientes fechados, pessoas do degrau debaixo – ou seja, os apenas ricos – são observadas com olhar de esgueira.

– Os apenas ricos? Como assim? Para os veranistas do e$panto, há classificação de endinheirados a começar pelos ricos, que são a farofa ignóbil. A pensar que 10% das pessoas englobam esta fatia da sociedade, senão menos, o que resta para àqueles que não têm os bolsos fartos? Hein!

A macaca deixou o balneário pelo qual circulam ferraris e helicópteros com uma certeza ácida, mas lúcida. Todos sabem exatamente como se locomover pelo tabuleiro da vida. Os que conquistam dinheiro têm poder. São os donos do mundo. Os que não alcançam o degrau da fortuna são subordinados a uma choldra de dar dó. Assim caminha a humanidade. O que sobra dessa sopa de caroços difícil de engolir é um rastro largo de vazio e estereotipia. Criatividade zero. O mundo sempre girou nesta órbita; e que tudo mais vá para o inferno.

Quem quer dinheiro?

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* Matéria publicada originalmente no Caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, no dia 9 de janeiro de 2011.

 

‘Super-rico’ torce nariz para ‘farofa’ dos ‘apenas ricos’

Em Florianópolis, na Jurerê Internacional, há quem não tire o pé de áreas ‘exclusivas’


Luiza Bandeira/ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS

Eliane Luiz, 36, é juíza, tem apartamento de veraneio comprado a R$ 800 mil na praia mais badalada de Florianópolis e bebe champanhe Veuve Clicquot à beira-mar, a R$ 280 a garrafa. Mas, na opinião de alguns frequentadores de Jurerê Internacional, ela é “farofa”. Os “super-ricos” do balneário passam toda a temporada sem pôr os pés na areia e pagam até R$ 1 mil só para entrar em um bar livre dos que consideram “farofeiros”.

Eles são necessariamente mais ricos que o pessoal da areia, mas desprezam a democracia à beira-mar, onde entra quem quer. “Super-rico” aprecia apenas o público “bonito e selecionado” de local pago. “No lugar aberto tem cara tatuado, bombado, de corrente. Estou pagando para ficar em lugar exclusivo”, diz o paulista Rodrigo de Castro, 31, enquanto bebe champanhe na piscina do P12, espécie de clube na praia.

No local, as atrações são a piscina com bar dentro, camas confortáveis e DJs. A entrada varia de R$ 45 para mulheres a até R$ 300 para homens, preço cobrado nos dias mais cobiçados. “Na praia você fica cheio de areia. É muita farofa, muito Maresias”, afirma Davi Almeida, 30, que diz gastar cerca de R$ 500 ao dia no clube.

No Café de la Musique, os preços são mais salgados: os “super-ricos” chegam a gastar até RS 5 mil diariamente. “Aqui o nível é melhor. Mas está ficando muito caro agora, nem a Europa é assim”, diz o advogado cuiabano Diogo Alves, 27, que foi à praia em só dois dos 20 dias em que esteve na cidade. Com amigos, ele pagou, em um dia, R$ 20 mil de consumação para ficar na piscina do Cafe de la Musique.

A consumação é gasta em muito champanhe, vodca, energético, cerveja e ofertas de bebidas para mulheres. No Cafe, a entrada para homens custa até R$ 1 mil. A das mulheres é de graça. “Os donos sabem que os homens querem estar cercados de mulheres bonitas”, diz Diogo, cercado por oito garotas dançando ao redor de sua mesa, bebendo de graça.

PELA VISTA

Mesmo os lugares que não cobram entrada dão um jeito de selecionar o seu público. No restaurante Taikô, a entrada é livre e as mesas da parte de trás são liberadas. Mas, para ficar nas da frente, com vista para a praia, a consumação é de R$ 3 mil. “Não é todo mundo que entra aqui. Viemos porque seleciona a frequência. É outro perfil”, diz o empresário paulista Ronaldo Zardur, 44.

Quem fica na praia critica ‘ostentação’

“É um cuscuz marroquino, não uma farofa”, diz o advogado Gustavo Nadalin, 32, negando o título de “farofeiro” dado pelos “super-ricos” e bebendo champanhe Chandon em taças de acrílico em Jurerê Internacional. Morador de Curitiba, ele e a mulher passam férias no apartamento da família no balneário e dizem gostar mais de aproveitar a praia do que ir aos bares e clubes.

A farofa chique, para ele, contrasta com o exibicionismo dos “super-ricos”. “Tem que ter bombinha na garrafa de champanhe [alguns lugares colocam velas que soltam faíscas nas garrafas]. Simboliza o dinheiro deles sendo queimado”, diz. “Nós somos de uma família de classe média alta, mas somos ‘low profile’ Tem gente que está tão bem como eles, mas não está se exibindo”, afirma a mulher dele, a empresária Ângela Nadalin, 38. Para o casal Edson Luiz, 34, advogado, e Eliane Luiz, 36, juíza, há muito exibicionismo entre os “super-ricos.”

“Rola competição de quem pede mais champanhe, eles abrem e jogam tudo fora, para o alto. Onde está a farofa?”, pergunta Edson, que bebia champanhe Veuve Clicquot. “Gostamos de apreciar a bebida”, diz Eliane. Champanhe é a bebida mais característica da Jurerê Internacional, mas muitas pessoas levam também água, comida, refrigerante e cerveja em seus isopores. Dizem que o fazem por costume e para evitar os preços da praia.

Imagem da Semana

janeiro 5, 2011

Luiz Inácio Lula da Silva passa a faixa presidencial para Dilma Rousseff