Serra ambientalista

outubro 10, 2010

Hein?

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Texto publicado originalmente no Primeiro Caderno da Folha de S. Paulo, no dia 10 de outubro de 2010.

POR VOTOS DE MARINA, SERRA AFIRMA QUE É AMBIENTALISTA

Em Chapecó, tucano se atrapalha ao discursar sobre questão ambiental

Para atrair eleitores de Marina Silva (PV), derrotada no primeiro turno das eleições, o presidenciável tucano José Serra defendeu ontem, em Chapecó (SC), as causas ambientais, bandeira da campanha verde. “Eu sou ambientalista, eu defendo muito o patrimônio florestal”, disse ele em entrevista a uma rádio local. Em seguida,  Serra criticou o governo Lula por não conseguir receber as multas impostas aos desmatadores. “No governo Lula, das multas aplicadas, perto de 100% não foram arrecadadas.”

O tucano falou sobre a necessidade de as pessoas respeitarem as diferenças ambientais de cada região do Brasil, mas se atrapalhou. “Tem que levar em conta as biodiversidades regionais. Como é que eles chamam? Bio…?”, questionou. E foi ajudado por um assessor. “Hein?” E o assessor soprou novamente. “O bioma de cada local”, disse o tucano. Ele fez uma caminhada pelas ruas do centro de Chapecó, vestindo uma camiseta do Chapecoense, time de futebol da cidade.

Temendo perder votos com eleitores que emendarão o feriado prolongado de Finados, dia 2 de novembro, Serra fez um apelo. “Pelo amor de Deus, não vão emendar feriado. Dia 2 é feriado, terça. Domingo é a votação. Pelo amor de Deus, não vão ao litoral.”

Liberdade de Expressão?

outubro 10, 2010

Revoltante, mas nada estarrecedor
Excelente o artigo da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, publicado no Estadão em 02 de outubro de 2010. Após repercussão massiva na internet, a colunista foi colocada na rua. Argumento: delito de ‘opinião’. Dá para acreditar? Por onde anda o espaço da tão defendida liberdade de expressão? Patosfera? Quá!
Confira, envolva-se, posicione-se.

Dois pesos…

por Maria Rita Kehl

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola. Leia o texto na íntegra aqui.

2º Turno

outubro 10, 2010

A primeira pesquisa Datafolha, realizada após o término do 1º turno das eleições 2010, aponta Dilma na frente da disputa presidencial. A candidata petista tem 48% das intenções de voto contra 41% do tucano José Serra.

Dilma e a Fé Cristã

outubro 10, 2010

Eleições 2010 no dia 10/10/10

Charges Web

 

Como ainda posso me surpreender com o nível reles de campanhas eleitorais no Brasil? O que vejo se espalhar diariamente pelos veículos de comunicação aberta ou fechada de todos os segmentos é motivo de galhofa. O espetáculo de horror desarticulado promovido por determinados candidatos e sua trupe desesperada inclui parafernália de causar espanto ao coisa ruim. Mensagens publicadas aos borbotões reproduzem frases como “Ela não tem preparo”, “A petista é mal encarada”, “Candidata de Lula está envolvida com seita satânica”, “Dilma é anticristã”, “Cuidado: terrorista”, “Candidata quer implantar ditadura vermelha no País”…

Hein? Que baixaria é essa insuflada pelo tucanato? A democracia na chamada república das bananas (um dia a gente chega lá) gera entraves ao bom senso ou estamos rodeados por zombeteiros dispostos a tudo para vencer o pleito? O candidato do PSDB perdeu a linha e partiu para a ignorância. Dilma está sendo vítima de uma enxurrada de adjetivos de baixo calão em campanha tomada pelo obscurantismo.

O caroço preso no gogó da oposição é grande e difícil de engolir, afinal, foram oito anos de um governo que trouxe ao Brasil prosperidade e riqueza jamais vistas. O sucesso de Lula, um torneiro mecânico retirante nordestino, frente ao erudito “príncipe da sociologia” é uma pedra no sapato da elite brasileira. Como Davi ousou enfrentar Golias? Como se atreveu a vencê-lo? Trata-se de uma vitória esmagadora, a qual não abrirá margens para bravatas de políticos sem carisma e de índole duvidosa.

Jogo sujo depois de ter tentado montar na garupa do presidente petista não costuma levar ninguém a lugar algum. Creio que o povo brasileiro saberá diferenciar a realidade da fantasia. Lula superou FHC. Verdade seja dita: ele fez por merecer.

Meu voto é da Dilma. Entrego-o a ela com plena certeza de que a candidata, cujo projeto de governo dará continuidade a uma gestão eficiente, engajada com a causa social e muito bem sucedida. Segue abaixo o texto de Frei Betto, um dos grandes nomes da militância social no Brasil, publicado na Folha de S. Paulo dominical.

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Texto publicado originalmente no Primeiro Caderno da Folha de S. Paulo, no dia 10 de outubro de 2010.

* Frei Betto

 

Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária aos princípios do Evangelho e da fé cristã

Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência. Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere, participava de orações e comentários do Evangelho. Nada tinha de “marxista ateia”. Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não passa de campanha difamatória -diria, terrorista- acusar Dilma Rousseff de “abortista” ou contrária aos princípios evangélicos. Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo. Dilma, como Lula, é pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica. Na linha do que recomenda Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que “a árvore se conhece pelos frutos”, como acentua o Evangelho.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a fé que abraçam. Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto…

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente. Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar boataria e mentiras. Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.

Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o nome de Deus. Nem os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes. A resposta de Jesus surpreendeu: “Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me libertastes…” (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura assegurar a todos vida digna e feliz. Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita presidente, prosseguirá na mesma direção.

FREI BETTO, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004, governo Lula).