Reciclagem

setembro 7, 2010

O meio ambiente é pauta de discussão em praticamente todos os países do mundo. A falta de um planejamento na utilização dos recursos naturais do planeta tem apresentado resultados drásticos à sociedade. Estratégias globais para o alcance de qualidade de vida integram desenvolvimento e sustentabilidade.

Minha trajetória como repórter inclui o contato com projetos, cujo foco de trabalho é a conservação da natureza. Já entrevistei empresários, políticos e ambientalistas, conheci programas de educação ambiental e escrevi matérias sobre iniciativas as mais diversas. Para o Jornal Imagem da Ilha, em 2007, eu produzi textos para a seção Eco Floripa do Bem. A finalidade do espaço era a divulgação de projetos envolvidos com a causa ambiental na capital catarinense.

Como faz anos que circularam estas edições, decidi trazer uma das matérias à tona com o objetivo de mostrar aos meus leitores os trabalhos desenvolvidos em Florianópolis, as pessoas que estão à frente deles e o quanto a participação da comunidade faz a diferença na luta por um mundo melhor.

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* A matéria a seguir foi publicada originalmente na 2ª edição de abril de 2007 do Jornal Imagem da Ilha.

NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA

Óleo de cozinha utilizado pelos restaurantes da Capital é reciclado

A coleta e a reciclagem do óleo de cozinha utilizado nos restaurantes de Florianópolis contribui para a preservação ambiental, gera renda e resulta na fabricação de produtos como sabão e fertilizante a partir de resíduos da gordura vegetal. O Programa Reóleo – uma iniciativa da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF) – surgiu em 1998 após integrantes da Câmara da Mulher Empresária, um núcleo da entidade, constatarem o afloramento de esgoto na Avenida das Rendeiras (Lagoa da Conceição). O excesso de gordura utilizada pelos estabelecimentos comerciais da região era jogado diretamente na água. O trabalho teve início no bairro da Lagoa com o cadastramento de sete restaurantes locais. Já são nove anos de atuação na luta pela conservação da natureza e pelo reaproveitamento do óleo usado nas cozinhas de restaurantes, hospitais, shoppings e hotéis da Ilha e do Continente. Hoje, 164 empresas do segmento participam do programa.

A coordenadora técnica do Reóleo, Marina Ballão, esclarece que toda a gordura vegetal usada nas cozinhas destes estabelecimentos é reaproveitada. “Os resíduos coletados passam por um processo de reciclagem, sendo transformados em sabão e fertilizante. O custo é zero para os associados ao Programa e os benefícios para proprietário, comunidade e profissionais que reciclam a matéria-prima são diversos” ressalta. A rota de coleta dos resíduos é percorrida a cada 15 dias.

Empresas cadastradas recebem uma quantidade de “bombonas” para armazenar o óleo que utilizam durante a

Empresa associada ao Reóleo se localiza em área de influência de Unidade de Conservação

quinzena. Após o período determinado, caminhões recolhem os recipientes cheios e os encaminham para o reservatório da Companhia Melhoramentos da Capital (COMCAP), localizado no Centro. Cerca de 40 toneladas de óleo são coletadas por mês em Florianópolis, número que tende a aumentar com o vertiginoso crescimento pelo qual a cidade vem passando.

A Ambiental Santos, parceira da ACIF no Programa, é a responsável por recolher e reciclar os resíduos que são transportados até usina situada em Itaperuçu (PR), local em que se realiza o manuseio da gordura. O processo de reciclagem consiste em classificação (vistoria para identificar o tipo de óleo e detectar objetos estranhos ou lixo), lavagem (o óleo é lavado para retirada dos sais, cloretos e contaminantes) e uma nova classificação (para identificar características químicas). Por fim, o resíduo é filtrado e encaminhado para a confecção de outros produtos.

Algumas das matérias-primas resultantes do processo são desmoldante para construção civil, desmoldante para asfalto, desmoldante para indústria madeireira, lubrificante para corrente de motosserra, óleo vegetal aglutinante para indústria de fertilizantes, óleo classificado para sabão em pedra, entre outros. Toda a cadeia de resíduos que vem junto com o óleo é reaproveitada. A água contaminada é encaminhada para a estação de tratamento da fábrica, que reutiliza 100% do líquido. O iodo da estação de tratamento é secado em uma estufa e encaminhado para o setor de agricultura orgânica para ser utilizado como adubo.

Marcos Dalcin, diretor da Ambiental Santos, afirma que todos os produtos reciclados são vendidos pela empresa. “O consumidor final não se preocupa com o fato de usar um produto reciclado. Ele é eficiente e isso é o que importa”, diz.

Veneno para a natureza

São incontáveis os danos causados pelo óleo ao meio ambiente. Trata-se de um produto não degradável que em contato com o biosistema aquático se espalha, recobrindo a superfície da água. A gordura vegetal é matéria orgânica e estimula a proliferação de algas, que crescem desordenadamente impedindo a troca de gases entre a atmosfera e a água e provocando a mortandade de peixes e outros animais. O resíduo causa também o entupimento da tubulação da rede de esgoto e o consequente transbordamento da água poluída. O mau cheiro é outro fator relevante.

Educando para o meio ambiente

O trabalho de educação ambiental integra o Programa Reóleo. Desde 2002, mais de 3 mil crianças entraram em contato com o projeto em toda a Capital. Outra meta é a criação de ecopostos, cujo objetivo é a manutenção da coleta doméstica. “Queremos conscientizar a população. Recolher e reciclar o óleo tanto nos estabelecimentos comerciais quanto nas residências dos bairros da Ilha é uma alternativa ecologicamente correta e que traz benefícios para todos. Temos o apoio da Vigilância Sanitária e as pessoas se manifestam positivamente. Os resultados têm sido satisfatórios”, comenta a coordenadora técnica do Reóleo.

Cotidiano (4)

setembro 3, 2010

Imagem da Semana

Os incêndios na região do cerrado brasileiro já consumiram mais de 48% da mata nativa

Maiores informações em estadao.com.br

Floresta Amazônica

setembro 3, 2010

Quem Dá Mais?


O âmbito da Amazônia Legal foi determinado por lei – entre outras razões –, para conter o avanço da ocupação irregular na região. A área protegida por Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas (TIs) corresponde a 42% do total e se distribui por nove estados brasileiros. São milhares de quilômetros quadrados de floresta constantemente ameaçada por ações criminosas assistidas. Focos compulsivos de desmatamento se espalham sem controle por toda a camada florestal. Um estudo recente – publicado há poucos dias no site do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) – comprova que em dois anos mais 49 mil km² de mata nativa foram reduzidas ou extintas. O desfecho vexatório teve o apoio inclusive do governo, que passou por cima de quaisquer trâmites legais para abrir rasgos em 29 áreas de conservação ou indígenas da Amazônia. De acordo com especialistas, há 37 iniciativas de redução de 48 UCs ou TIs. Para que se feche o ciclo predatório (do que se tem notícia; há muitos em curso) faltam somente 19 áreas. O que representam tais números frente a conquistas já alcançadas sem a devida consulta pública, prevista por lei? Em matéria do dia 22 de agosto de 2010, a Folha de S. Paulo noticiou a arbitrariedade com base no estudo inédito Ameaças formais contra as Áreas Protegidas na Amazônia, desenvolvido pelos pesquisadores Elis Araújo e Paulo Barreto. O que falta para que a sociedade civil (em contingente substancial) se coloque de forma clara e efetiva contra o processo em andamento? Esperar que doa no próprio calo é deixar para a última hora. O sinal de alerta já soa descompassado.

Ps. Trata-se da maior biodiversidade do planeta.

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* Texto publicado originalmente no Primeiro Caderno da Folha de S. Paulo, no dia 22 de agosto de 2010.

AMAZÔNIA PERDE 29 ÁREAS PROTEGIDAS

Entre 2008 e 2009, 49 km² foram retirados das áreas de conservação sem consulta pública e estudo técnico

 

Área equivale ao Rio Grande do Norte; o Estado mais desmatado da região, Rondônia, é o campeão de redução

 

Por pressão de madeireiros, fazendeiros, mineradores ou do próprio governo, 29 áreas protegidas na Amazônia foram reduzidas ou extintas entre 2008 e 2009. O total de florestas perdidas no processo foi de 49 mil km², quase um Rio Grande do Norte. As reduções ocorreram sem consultas públicas ou estudos técnicos, como manda a lei.

Os dados são de um estudo inédito do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a ser publicado amanhã na internet (www.imazon.org.br). Os pesquisadores Elis Araújo e Paulo Barreto levantaram 37 iniciativas entre novembro de 2009 para reduzir 48 unidades de conservação ou terras indígenas na Amazônia.

Até julho deste ano, 23 propostas haviam sido concluídas – 93% delas resultaram em perda de área na unidade de conservação. O Estado de Rondônia, o mais desmatado da Amazônia, é o campeão: reduziu duas unidades de conservação estaduais e extinguiu dez, além de ter negociado com o governo a redução da Floresta Nacional Bom Futuro, unidade federal.

“Como eles perderam um terço da cobertura florestal, o que sobrou são áreas protegidas”, diz Araújo. “A indústria madeireira lá ainda é forte. As unidades de conservação sofrem muita pressão.” O instrumento usado pelo governo do Estado para acabar com as áreas protegidas foi o próprio zoneamento ecológico-econômico do Estado, lei que disciplina a ocupação das terras. As unidades de conservação nas zonas de intensificação da produção foram consideradas extintas.

A Folha procurou a secretária do Meio Ambiente de Rondônia por toda a sexta-feira, mas não foi atendida. Outro caso foi o do Parque Estadual do Xingu, em Mato Grosso. Ele foi reduzido com o apoio da população de Vitória do Xingu para dar lugar a um empreendimento agropecuário, que não veio. “E a cidade ainda perdeu o repasse do Arpa (programa federal que dá dinheiro a regiões com unidades de conservação)”, diz Araújo.

Garupeiros

setembro 2, 2010

ELEIÇÕES 2010

O Mito e A Urna em:

O PANTHEON* DOS TRÓPICOS

A crendice popular é resultado da extraordinária capacidade humana de tentar explicar fatos ou fenômenos muitas vezes inexplicáveis. Ao percorrer o Brasil, o caminhante mais atento conhece histórias fantásticas de seres com poderes sobrenaturais de cura, morte, proteção, benzedura e atravanque. O inventário de aptidões de personagens mágicos é vasto como a imaginação fértil das gentes.

Para fazer bom uso da veia gaudéria, expandirei este palavreado brejeiro com histórias de superstição trazidas de minha meninice em terra crioula. Sabe-se que o Rio Grande do Sul é um estado de tradições arraigadas. O povo gaúcho tem com a sua terra natal um vínculo profundo. Por pagos e tertúlias se espalham os causos, sementes vivazes da identidade do povo sul-rio-grandense. As narrativas incluem as aventuras do Negrinho do Pastoreio, do Boitatá, da Salamanca do Jarau e do Angoéra. Entre as lendas gaúchas, há uma – contada por camponeses habitantes dos bosques da Serra Geral –, que diz da existência do Saci Pererê. A figura tácita de um moleque astuto costuma ser vista à noite, por caçadores ou andarilhos, sempre aos saltos ligeiros em meio a matos e picadas. Não raro, o guri pula na garupa do viajante a cavalo. O Garupa faísca pelo pasto, pondo-se ora na traseira ora na frente do animal, aos gracejos para interromper o trânsito do ginete. Age por pura pirraça com a intenção de aturdir e chamar a atenção.

Como de conhecimento geral, anedotas possuem um forte apelo maniqueísta, quesito que as torna ainda mais interessantes. Costumes estão originalmente entrelaçados à dicotomia entre bem e mal, Deus e diabo, vida e morte, certo e errado. Tendemos a enxergar os acontecimentos com um olhar analítico, sempre comprometido com determinada causa.

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Qualquer semelhança com o cenário das eleições 2010 não é mero acaso. Quem nunca ouviu falar nos garupas da política nacional? Creiam, eles existem e proliferam feito praga com uma velocidade transcendental, para não dizer risível. Houve dia que, ao folhear o jornal, deparei-me com três páginas consecutivas de um cola e descola entre candidatos de causar cólica aos beiços. O processo eleitoral se transformou em palco de comicidades. Ah! Ah! Ah!

A primeira página abria com um texto intitulado: Marina vai usar imagem de Lula em propaganda. A linha de apoio (subtítulo) da matéria trazia a frase PV exibirá os dois juntos e estuda comparar biografias no programa. Na página seguinte, surgia novo capítulo da saga: Estratégia de Serra tem ‘prazo de validade’. Abaixo, lia-se: Sob fortes críticas dos aliados, campanha do tucano pede 15 dias para avaliar êxito da tática de grudar em Lula. O pula pra cá e pra lá de Serra entre fotos do candidato ao lado de Lula e frases usadas durante o seu programa televisivo do dia 19 de agosto se esvaía aos borbotões. “Quando o Lula da Silva sair, é o Zé que eu quero lá (…). Pro Brasil seguir em frente sai o Silva e entra o Zé” foi uma das pérolas pinçadas pela imprensa em jingle da campanha psdbista . “Serra e Lula, dois homens de história, dois líderes experientes” foi outra. E assim por diante.

Na última página do Gruda-Desgruda Eleitoral­, as garupadas se espalharam por dois blocos de textos em que o candidato ao governo de Minas Gerais, Hélio Costa (PMDB), recorreu à popularidade do ex-governador Aécio Neves para se autopromover. O X do imbróglio zombeteiro ascendeu pelo simples fato de Aécio apoiar a campanha de Antonio Anastasia (PSDB), maior adversário de Costa no páreo. Aécio foi citado 14 vezes pelo peemedebista durante o seu horário eleitoral do dia anterior.

Tentativas desarticuladas de pegar carona na imagem alheia denotam desespero ou revelam descarada falta de vergonha na cara? Como Serra – que há pouco tempo proferiu frases do tipo “Acho troglodita de direita quem apóia o Ahmadinejad”, fazendo menção clara ao acordo feito pelo governo brasileiro com o Irã – pode, a esta altura do campeonato, querer colar a sua imagem a de Lula? Fala sério! Até mesmo Fernando Henrique Cardoso se mostrou insatisfeito.

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Esquecem-se todos que a garupa de Luiz Inácio já está ocupada. Dilma Rousseff pinta e borda no espaço reservado a ela com a alegria contagiante da filha acarinhada pelo pai. Obra do Nosso Guia, como definiu Celso Amorim, ou do Grande Mestre, como determinou a própria Dilma ao se referir a Lula. Afinal, parafraseando Barack Obama, Ele é o cara!

O presidente tem carisma de sobra para vencer o pleito com a mão nas costas, além de apresentar resultados de uma plataforma de governo que tem dado certo no País. A redução do índice de miserabilidade e o crescimento da Classe C mexem de tal maneira com a realidade do povo brasileiro que pesquisas realizadas dia sim dia não lançam números de popularidade jamais vistos. Dados recentes mostram que a aceitação do presidente Lula chega a 79% entre os votantes que acham o governo ótimo e bom.

Tudo muito certo, se não fosse a má impressão de que Lula se transformou em um Pop Star das massas. A super imagem do presidente está atrelada a sua força legítima de líder e vitorioso (que é) ou ao poder subliminar de manipulação (adivinhem?) das massas? Certo que o Governo Lula foi o melhor que o Brasil já teve. Claro que ações voltadas para o crescimento da economia nacional, as quais primam pela soberania do País, são relevantes. Mas é preciso ter cuidado para não seguir o pastor feito cordeiro. A conquista política real tem como base o trabalho engajado com uma causa. Eu confio no Lula, mas prefiro manter o olhar atento, mesmo sendo a Dilma a garupa eleita pelo próprio. Quanto aos demais garupeiros de plantão, são dignos de pena, e nos momentos de descontração, de crises de riso. Que piada!

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Marina Silva é a única da trupe vizinha com autoridade para garupar, já que esteve ao lado de Lula por inúmeras vezes no decorrer de sua trajetória política.

* Pantheon, na Roma Antiga, foi o templo de todos os Deuses.