Um Quilômetro a Mais

junho 30, 2010

Na semana retrasada, fartei-me ao ler a coluna do Miguel Falabella, na Isto É.  Com boa dose de sagacidade, ele dá uma bela bitoca no narizinho dos bullies:  “(…) medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.” Texto elegante. Vale a leitural.

Falabella cita a Claudia Jimenez como exemplo de vitória da força e da competência sobre a incapacidade cruel de uns e outros. As sociedades estão impregnadas de estereótipos. O bullyng é perverso e pode causar sequelas graves. Não passa de uma série de intimidações proferidas ao léu por uma parcela de sujeitos com baixa autoestima. Ok. Há tentativa desesperada do bando de chamar a atenção. Ok. Mas agressões em massa, se não forem devidamente detidas, têm poder. Crianças e adolescentes têm o ego rijo para rebolar na hora certa? A intervenção dos pais e do setor pedagógico das escolas pode salvar futuros brilhantes. Há que se esticar um bocado até que se aprenda a desviar de pauladas verbais. Nem sempre um indivíduo indefeso, em fase de estruturação da psique, sabe enxergar a saída.

Os bullies não têm a capacidade de fazer por si. Por isso, partem para a ignorância. Medíocres, infelizmente, ora vencem, ora minguam. Depende. Cabe a nós, armarmo-nos com a certeza de quem somos e do que queremos. Como bem disse Falabella, “quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.”

 

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* Texto originalmente publicado na revista Isto É, página 170, em 16 de junho de 2010.

Dia desses, numa daquelas mesas divertidas no fim de noite, Claudia Jimenez mudou inesperadamente o rumo da prosa e nos contou o quanto sofreu no início de sua adolescência por causa do Bullyng imposto a ela pelos valentões da escola. Bullyng é o termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo, o “bully” (valentão), ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos). Segundo ela, para fugir do assédio e da intimidação, costumava trilhar um caminho muito maior na ida e na volta da escola, evitando as zonas consideradas perigosas.

O silêncio caiu sobre a mesa, e eu percebi, nos olhos de cada uma daquelas pessoas, que aquele quilômetro a mais que Claudia afirmava ter trilhado durante bom período da adolescência espelhava-se nos vários quilômetros extras que cada um de nós tinha percorrido em sua trajetória, na vã tentativa de fugir à intimidação dos valentões que povoam este planeta. Infelizmente, o bullyng não é apenas um fenômeno de adolescentes com baixa autoestima, tentando afirmar-se sobre aqueles que ele considera mais fracos. O desejo de bullyng cresce dentro desses indivíduos, amadurece na salmoura da crueldade e continua a nos assombrar vida afora, como aquele pesadelo recorrente que desejamos evitar.

Claudia, é claro, graças a seu inegável e imenso talento, sobreviveu às ofensas e chacotas cotidianas, transformando o sofrimento numa vitória pessoal, mas há aqueles que não suportam a pressão e se deixam abater. Nem todos têm o talento de um Truman Capote que, para fugir do bullyng dos colegas e do próprio pai que o chamava de Miss Sissy, descobriu que podia pegar um punhado de palavras e atirá-las para o alto, porque elas cairiam no lugar certo. “Como se eu fosse um Paganini semântico”, afirmava Mr. Capote. A história das artes, em geral, é recheada de contos de bullyng intelectual escondidos sob o manto da crítica. A poeta americana Emily Dickinson enviou alguns de seus trabalhos para Thomas Higginson, editor da “Atlantic Monthly”, uma respeitada revista literária, e ele comparou seus versos a espasmos sem controle. Anos depois, Mr. Higginson tentou retratar-se num artigo sobre as cartas da poeta, mas o dano tinha sido maior do que ele imaginava.

Não há como fugir do bullyng. Ele vem de todos os lados, e quase nunca temos tempo de identificar o agressor antes que ele possa atacar. Há, entretanto, uma atitude comum para aqueles que sofrem de bullyng e que deve ser adotada. O agressor faz o que faz em busca de atenção. Geralmente são medíocres urrando sua total incapacidade de relacionar-se com a espécie.

Aproveite o quilômetro a mais nosso de cada dia para reafirmar seus credos, seus desejos, sua arte e seu encanto. Porque quando sabemos para onde ir, não há de ser um empurrão que vai nos tirar da rota. Ao contrário, ele nos empurra para frente.

E, principalmente, entenda o seu agressor. Saiba quem ele é e você vai entender, como dizia o mestre Osho, que mais importante que o caminho é, sem dúvida, o caminhar. E isto, meu caro leitor, isto também passará.

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