O Trem Correria

junho 15, 2010

Sacudiu-me o desejo de prestar nova homenagem ao circo. O sopro de um sorriso fagueiro revelou-se aos solavancos. Veio feito lampejo de sonoras gargalhadas. O toque de graça acendeu-me inteira como a um lampião em dia de festa. Que bela imagem tingiu a face daquele palhacinho manhoso a assoviar fanfarras em meu ouvido. Sorri. Ele movia-se para lá e cá, deslizando os sapatões pela terra batida de alegria. Trazia consigo a essência de um cometa azul. Largas risadas batiam serpentinas ao redor de minhas vistas. Pareciam asas de passarinhos incandescentes.

O homem colorido falou-me de peripécias. Soltei as mãos da boca ao som estalado da beijoca que lancei aos ares. Ele a catou no amanhecer, movendo a mão abotoada pela luva para dentro do bolso. Certo que a guardou para colar à bochecha quando o relógio soar o tim tom da badalada derradeira. O espetáculo vai terminar. Atenção para a despedida. A caravana parte a fim de tocar fogo na próxima parada. O palhaço me espia sorrateiro. Só mais uma vez. Dá uma piscadela, abana o chapéu de maçã e se vai, deixando dentro de meu pulso a semente de um sol criativo com gosto apurado de quero mais.

Tudo aconteceu enquanto eu atiçava a faísca de dias antigos. Tão bom que trouxe para o meu picadeiro esta obra prima da música brasileira. Na Carreira – composição de Chico Buarque e Edu Lobo – é uma canção que entrega à plateia histórias inebriantes sobre a trupe mais carismática de todos os tempos. Com um clique, ela transforma toda esta linguagem apaixonada na mais pura realidade. Para o circo, com amor.

NA CARREIRA

(Chico Buarque de Hollanda & Edu Lobo)

Pintar, vestir,
Virar uma aguardente para a próxima função
Rezar, cuspir,
Surgir repentinamente na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade pra se apaixonar
Querer casar, pedir a mão
Saltar, sair,
Partir pé ante pé antes do povo despertar
Pular, zunir,
Como um furtivo amante antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia ali já foi feliz
Criar raiz e se arrancar
Hora de ir embora, quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir
Chegar, sorrir,
Mentir feito um mascate quando desce na estação
Parar, ouvir,
Sentir que tatibitati que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade para enlouquecer
O bem querer, o turbilhão
Bocas, quantas bocas a cidade vai abrir
Pr’uma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar
Voar, fugir,
Como o rei dos ciganos quando junta os cobres seus
Chorar, ganir,
Como o mais pobre dos pobres dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás
E nem jamais, jamais dizer
Adeus

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