Saúde Mental

maio 27, 2010

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Ai ai. A Martha Medeiros tem das suas. Vira e mexe, shrbum, lá vem nova crônica para sacudir os miolos. No domingo do dia 23 de maio, minha mãe exclamou da sala: “Carolina, a Martha hoje tá que tá. Vem ler isso aqui. Você vai gostar”. Ueba, pensei. O sinal verde abriu.

Saúde Mental era o título do texto. Confesso que foi à primeira vista, identifiquei-me na hora. Por quê? Respondo. Integro a tribo de seres capazes de se abrir a tal ponto que para sobreviver precisam, com o passar de sua existência, aprender a desviar das balas lançadas, sistematicamente, por franco atiradores. Não há escapatória. Cedo ou tarde, iremos cruzar com um.

O que temos em nossas mãos é a certeza da escolha. Há caminhos e caminhos. Optamos pelo enfrentamento primeiro de nós mesmos, depois da realidade de uma sociedade educada para temer, esconder e se alimentar de opiniões formadas. Não queremos a regra, o padrão, o politicamente correto, mas o céu, a liberdade, “o universo todo, incerto e mágico”.

Medo? No início. “Mas o segredo está em nos acostumarmos com a ideia”. Não deu para resistir. Agarrei-me em meu caderno cibernético para escrever estas linhas e, com todo o meu fôlego, publicar a crônica da Martha no blog. Voilá!

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 23 de maio de 2010.

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século 6 antes de Cristo, e que certa vez disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu livro (A Paixão, Caminhos & Descaminhos, em que discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.

Do nascimento à morte há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida? A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.

Dá medo, no início. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir. Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegida apenas pela consciência que tem de si mesma e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja só isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar. Já o sadio, baila sobre o precipício.

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Para encerrar, deu-me vontade de passar manteiga no pão. Como uma onda, de Lulu Santos, é uma ótima pedida.

 

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