Palavra-Macumba

maio 31, 2010

Durante a tarde, recebi um presente de Bebel, a caçula. Foi sem querer e, pa, lá estava o email piscando na tela. Assunto: apenas curiosidade pitoresca! Humm, pensei. Abri, li, adorei. Tanto que senti uma vontade tremenda de publicá-lo no blog. Ei-lo.

Estampado a olhos nus, o poema Palavra-Macumba, belo, forte, revelador, saltou para perto e tomou o seu lugar por dentro. Escrito por Aimé Césaire, uma das cabeças mais brilhantes do século XX, ele tem a minha cara… Muito obrigada Bebel. Abaixo, segue trecho de prosa esticada.

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Carol,
hoje, conversando com o Cris, (…)
escritor e poeta da Martinica chamado Aimé Cesáire. Dentre as poesias, tinha uma que achei a tua cara por ser bem serelepe! Olha lá no link, chama-se: Palavra-Macumba.
Beijinhos,
Bel.

Aimé Césaire

TRADUÇÃO

Palavra-Macumba

a palavra é mãe dos santos
a palavra é pai dos santos
com a palavra serpente é possível atravessar um rio
povoado de jacarés
me acontece desenhar uma palavra no chão
com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto de um dia
existem palavras remo para afastar tubarão
existem palavras iguana
existem palavras sutis essas são palavras bicho-pau
existem palavras de sombra com despertadores em cólera faiscante
existem palavras Xangô
me acontece de nadar malandro nas costas de uma palavra golfinho

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TEXTO ORIGINAL

Mot Macumba
le mot est père des saints/le mot est mère des saints/avec le mot couresse on peut traverser un fleuve/peuplé de caïmans/il m’arrive de dessiner un mot sur le sol/avec un mot frais on peut traverser le désert/d’une journée/il y a des mots bâtons-de-nage pour écarter les squales/il y a des mots iguanes/il y a des mots subtils ce sont des mots phasmes/il y a des mots d’ombre avec des réveils en colère d’étincelles/il y a des mots Shango/il m’arrive de nager de ruse sur le dos d’un mot dauphin

Saúde Mental

maio 27, 2010

Imagens web

Ai ai. A Martha Medeiros tem das suas. Vira e mexe, shrbum, lá vem nova crônica para sacudir os miolos. No domingo do dia 23 de maio, minha mãe exclamou da sala: “Carolina, a Martha hoje tá que tá. Vem ler isso aqui. Você vai gostar”. Ueba, pensei. O sinal verde abriu.

Saúde Mental era o título do texto. Confesso que foi à primeira vista, identifiquei-me na hora. Por quê? Respondo. Integro a tribo de seres capazes de se abrir a tal ponto que para sobreviver precisam, com o passar de sua existência, aprender a desviar das balas lançadas, sistematicamente, por franco atiradores. Não há escapatória. Cedo ou tarde, iremos cruzar com um.

O que temos em nossas mãos é a certeza da escolha. Há caminhos e caminhos. Optamos pelo enfrentamento primeiro de nós mesmos, depois da realidade de uma sociedade educada para temer, esconder e se alimentar de opiniões formadas. Não queremos a regra, o padrão, o politicamente correto, mas o céu, a liberdade, “o universo todo, incerto e mágico”.

Medo? No início. “Mas o segredo está em nos acostumarmos com a ideia”. Não deu para resistir. Agarrei-me em meu caderno cibernético para escrever estas linhas e, com todo o meu fôlego, publicar a crônica da Martha no blog. Voilá!

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 23 de maio de 2010.

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século 6 antes de Cristo, e que certa vez disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu livro (A Paixão, Caminhos & Descaminhos, em que discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.

Do nascimento à morte há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida? A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.

Dá medo, no início. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir. Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegida apenas pela consciência que tem de si mesma e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja só isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar. Já o sadio, baila sobre o precipício.

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Para encerrar, deu-me vontade de passar manteiga no pão. Como uma onda, de Lulu Santos, é uma ótima pedida.

 

Sopa de Letrinhas

maio 23, 2010

Em dia de outono chuvoso

Estou aqui, a macaquear em dia de tormenta com acanhados intervalos de calmaria – a pensar em música enquanto levanto da cama, escovo os dentes, tomo o meu café e visto uma roupa quente. Sem mais nem por que, ocorre-me: vou ouvir algo enquanto preparo computador, livros, revistas e toda a tralha cabível à célebre rotina macacal dos dias de maio.

Espio pela janela, encosto-me na ponta da abertura e constato que o dia permanecerá, impiedosamente, cor de chumbo. Dá-lhe água lá fora. Belisco o primeiro par da torrada que preparei com vontade, degusto o gole e tal do café recém passado.

Click, meu playlist principia jornada…

Bob Dylan

A worried man with a worried mind. No one in front of me and nothing behind. There’s a woman on my lap and she’s drinking champagne. Got white skin, got assassin’s eyes. I’m looking up into the sapphire tinted skies. I’m well dressed, waiting on the last train (…)

Um vento fino sopra em meio ao úmido reboliço outonal. A temperatura deve estar em uns 15ºC. Frio discreto. Humm. Não é excitante o sabor do viver faça chuva ou sol? Com o olhar a passear pelos jardins da redondeza, rasga-me os beiços um sorriso fortuito. Nova faixa…

Sit there, hummm, count your fingers. I know what else, what else can you do? Ooh and I know how you feel. I know you feel like you’re through (…)

Que maravilha! Nunca ouvi nada parecido com Janis Joplin. Considero-a A VOZ feminina do século XX. Insuperável em sua paixão, intensidade e beleza. A canção toma o quarto, minha respiração muda, arrepio-me, meus olhos marejam, a emoção invade e silencia o pensamento.

Arrisco outro gole de café. Aos poucos, volto a mim, sempre ao som da música. Poxa, faz tempo que não me sinto tão sozinha. Qual a razão para tamanha falta de todos? Não sei. Penso que há fases em que a vida empurra para dentro. Devo estar em uma delas, a circular por minhas partes.

Não importa. Minha cartilha é feita de esmero, ingrediente ardido para quem deseja a realização. Ser feliz, acredito, é a comunhão do todo voltado primordialmente para aqui e agora. Há que focar. Há que planejar. Há que persistir. Acima de tudo, há que estar presente no correr das horas. Cada instante é singular, válido, oportuno.

Eu estou bem. MESMO! Atenho-me ao outro par da torrada. Meu olhar permanece encostado na rua, lá fora, onde chove sem parar. Do café pouco resta. Mais um gole talvez. Outra faixa…

Led Zeppelin

I’ve been working from seven to eleven every night. Ohh yeah, It really makes life a drag, drag, drag, I don’t think that’s right. I’ve really, really been the best, best, best of fools, ohh, I did what I could (…)

Uou! Que potência fenomenal se impõe acorde após acorde. Pego-me a sorrir outra vez. Que som do Olimpo. Fecho os olhos sem pressa. Uma ideia acende o meu gozo: porei um tanto disso no meu blog. Farei-o e é pra já. Dei um pulo, zump. Quebrei o encanto da hora e pus-me prontamente à frente do notebook. Mãos limpas, guardanapo enroscado dentro da caneca em cima do prato, o conjunto posto no canto da mesa. Voilà! No decorrer do preparo caprichei na mão, não economizei fermento, lambuzei o avental, fiz como deve ser. Nada de seguir receitas. Criatividade é o diferencial quando somada à embevecida pitada de bom gosto, of course.

Com a alegria intrépida contida no término de uma tarefa, deixo para os meus leitores oesta apetitosa sopa de letrinhas em dia de outono chuvoso.

R

Led Zeppelin

O

The Beatles

C

Janis Joplin

K

Jimi Hendrix

A

Pink Floyd

N

The Rolling Stones

D

Jethro Tull

R

Rush

O

Queen

L

Bob Dylan

L

Elvis Presley