Condição de Entrega

abril 21, 2010

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Domingo passado, enquanto lia o jornal, deparei-me com uma crônica da Martha Medeiros que resolvi publicar na página. O conjunto de palavras me tocou no ponto certo. Quando cheguei ao fim do texto pensei: é isso. Eu acrescentaria, ainda, uma pergunta para deixar no ar maior possibilidade de reflexão ou talvez para ser mais incômoda do que ela: por que a dificuldade de entrega é fato manjado em tempos modernos?

A resposta parece banal, mas há embutida nela a complexidade humana. O acesso a tal compreensão costuma ser restrito. Faz-se necessário o contato consigo, peça de difícil obtenção, mas fundamental para a abertura de um caminho mais sólido e oportuno. O porém reside na falta de um entendimento do outro e de si, ou seja, na ausência de comunicação. A escolha sempre tende a ser o eu, o self, a persona. Não há quem não queira amar e ser amado. Entretanto, na hora de mergulhar fundo, de se entregar ao outro, o que ocorre? Instinto de sobrevivência? Bela desculpa para não enfrentar o desconhecido.

Uma junção de fatores agrega excesso de racionalismo à conduta das pessoas. Alguns deles são o medo; o individualismo; a resistência, já que a perda do controle não consta no manual de instruções criado por seres humanos; a imaturidade, pois o compromisso afetivo exige que responsabilidades sejam assumidas; e a indisponibilidade. Há uma tendência de se associar o vínculo amoroso à perda da liberdade, o que, inúmeras vezes, acontece mesmo porque as pessoas, de modo geral, não sabem se relacionar. O sentimento de posse, o ciúme descomunal e a intenção de mudar o outro (ah, isso ele (a) vai perder com o tempo) são ingredientes antiamor, predadores de qualquer perspectiva.

Para o amor não há plano, receita, estratégia, fórmula, feitiço, nada. Há quem diga: eu não vou me jogar do alto sem saber o que me espera lá embaixo. Olhar para baixo procurando certezas é um ato vazio. Não existem certezas, apenas oportunidades. Joguemo-nos com tudo, sem titubear. Correremos o risco de nos esborrachar? Sem dúvida. Caso isso não aconteça, o encontro será pleno. Para amarmos, precisamos, primeiro, abrir mão de qualquer garantia.

Eu sempre apostei nisso. Oh, yeah!

Segue abaixo a crônica da Martha. Concordo com ela e sei que existe muita gente por aí que concorda conosco. Hoje, a minha irmã caçula comentou, sem entrar em muitos detalhes, sobre uma entrevista do Chico (Buarque) na qual ele cita Michel de Montaigne. Em seus escritos, o autor fala da perda de um amigo que morreu jovem. Perguntaram para ele na época: o que você gostava nele? Montaigne respondeu: Huuuum, eu não sei explicar, só sei que gostava dele, e ponto. Após quinze anos, ao repensar a resposta que deu, ele acrescentou: eu gostava dele porque era ele, e ponto. Depois de mais quinze anos, reviu a resposta, e incluiu: eu gostava dele porque era ele e eu, e ponto.

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* Texto publicado originalmente no Caderno Donna, jornal Zero Hora, no dia 18 de abril de 2010.

Acaba de ser revelado o que uma mulher quer – e que Freud nunca descobriu. Ela quer uma relação amorosa equilibrada onde haja romance, surpresa, renovação, confiança, proteção e, sobretudo, condições de entrega. É com essa frase objetiva e certeira que Ney Amaral abre seu livro Cartas a uma Mulher Carente, um texto suave que corria o risco de soar meio paternalista, como sugeria o título, mas não. É apenas suave.

Romance, surpresa, etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que o amor ideal exista, mas “condição de entrega” me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.

Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?

Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência. Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.

A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa.

A condição de entrega se dá quando se sabe que não haverá julgamento sumário. Diga o que disser, o outro não usará suas palavras contra você. Ele pode não concordar com suas ideias, mas jamais desconfiará da sua integridade, não debochará da sua conduta e não rirá do que não for engraçado.

É quando você não precisa fingir que não pensa o que, no fundo, pensa. Nem fingir que não sente o que, na verdade, sente. Havendo condição de entrega, então, a relação durará para sempre? Sei lá. Pode acabar. Talvez vá. Mas acabará porque o desejo minguou, o amor virou amizade, os dois se distanciaram, algo por aí. Enquanto juntos, houve entrega. Nenhum dos dois sonegou uma parte de si.

Quando não há condição de entrega, pode-se arrastar, prolongar, tentar um amor para sempre. Mas era você mesmo que estava nessa relação? Condição de entrega é dar um triplo mortal intuindo que há uma rede lá embaixo, mesmo que todos saibamos que não existe rede pro amor. Mas a sensação da existência dela já basta.

Cotidiano (1)

abril 16, 2010

ALERTA  VERMELHO  EM  FLORIANÓPOLIS

Protestos contra Plano Diretor revelam luta pelo bem-estar da sociedade civil

Polêmica e indignação são as palavras que prevalecem quando o tema gira em torno da entrega oficial do Plano Diretor de Florianópolis. Em 2006, a Prefeitura da Capital catarinense deu início ao trabalho de elaboração do novo documento, cujo objetivo é sistematizar o desenvolvimento físico, econômico e social do território. Todo o município com mais de 25 mil habitantes tem o dever, de acordo com a lei (Estatuto da Cidade), de estabelecer regras para o adequado controle do uso, parcelamento e ocupação do solo urbano. Este é o momento em que o poder público e a população se unem, por meio de seus representantes, para definir de que maneira a sua cidade vai crescer. O encontro entre as partes ocorre porque a mesma lei prevê a participação da sociedade civil em municípios com o contingente populacional similar ou superior ao de Florianópolis.

O espaço para debate foi aberto, até que, em 2008, a Prefeitura, de forma arbitrária, encerrou o trabalho participativo e dissolveu tanto o núcleo gestor (NG) quanto os núcleos distritais (NDs), compostos por integrantes do governo, de associações de moradores, de instituições não-governamentais e de entidades empresariais. Outro agravante foi a contratação do CEPA, uma organização argentina, para projetar o desenho final do Plano.

Resultado? A população de Florianópolis se posicionou, declarando o seu repúdio ao projeto. O ambiente é de revolta. Todas as associações de moradores dos cinco distritos da Capital estão em alvoroço, rejeitam o Plano Diretor, criticam a postura ilegítima da Prefeitura e se mobilizam em prol da anulação do documento. No dia 18 de março de 2010, o Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) foi palco de um protesto que culminou no cancelamento da audiência pública que apresentaria o Plano Diretor antes dele ser encaminhado para a Câmara de Vereadores, que tem o poder de veto ou de aprovação do mesmo.

De acordo com os moradores, a manifestação aconteceu porque as sugestões e reivindicações das comunidades não foram contempladas no projeto que define as estratégias para a organização e o crescimento da Capital. A indignação maior da sociedade civil diz respeito à verticalização da cidade, que não possui infra-estrutura para comportar a expansão imobiliária em larga escala.

Uma das pautas das discussões acerca do macrozoneamento de Florianópolis tinha como base a decisão unânime das comunidades sobre a construção de prédios de no máximo dois andares sobre áreas regulamentadas. O Plano delineado pela Prefeitura, contudo, prevê a construção de prédios de até seis andares em bairros como o Campeche, para citar um exemplo. Há permissão de redução das Áreas de Preservação Permanente (APPs), construção de diversos túneis, terminais marítimos e de um porto turístico para receber transatlânticos.

O argumento da população não compromete o desenvolvimento da Capital, contanto que haja ponderação e bom senso no decorrer deste processo. Os moradores deixaram claro que não são contra o progresso, mas exigem que o poder público reabra as discussões para que todos estes itens sejam reavaliados e alterados de acordo com a capacidade de expansão urbana da cidade, que possui área de apenas 433 km² (divididos entre Ilha costeira e península continental).

A Capital da qualidade de vida do Brasil está passando por uma etapa de transição bastante delicada e muito séria. Florianópolis é uma Ilha que há décadas sofre com o processo de ocupação desenfreada. Vários bairros estão sendo atingidos pelo “bum” imobiliário – a maioria não possui saneamento básico, ou seja, a poluição dos lençóis freáticos, rios e praias é uma constante –; a população cresce desmedidamente a cada ano, o número de habitantes passou de 188 mil, em 1980, para 408 mil, em 2009 (IBGE); o poder público não está acompanhando o crescimento de forma adequada; o trânsito está cada vez mais caótico, em 2007, Florianópolis contava com um carro para cada dois habitantes; e se não houver uma tomada de consciência e ação coletiva que freie e reestruture esta perspectiva, qual será o panorama futuro? De uma cidade estrangulada pelo inchaço urbano? Degradada pelo excesso de poluição?  Aos olhos de qualquer cidadão atento, o cenário iminente é  de um desastre socioambiental talvez irreversível.

Está na hora de pensarmos juntos em uma solução para o crescimento da cidade, e que ele seja ordenado, planejado, regrado, enquadrado na lei, determinado pelas mãos de todos. Do contrário, tudo o que vemos e usufruímos hoje em Florianópolis não passará de uma sombra do passado, de uma lembrança remota de parte da população que no presente tem o privilégio e o orgulho de dizer que mora na Ilha de Santa Catarina.

Os moradores seguem reivindicando os seus direitos e exigindo a retomada do debate para que o Plano Diretor seja revisado dentro de um processo democrático e legal. A participação da sociedade civil é constitucional e deve ser levada em consideração pelo Governo em cada passo dado no decorrer da elaboração deste documento.

A Prefeitura afirma que o Plano Diretor segue sem data de entrega. O presidente do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), Átila Rocha, confirmou em entrevista para o jornal Diário Catarinense que o projeto seria encaminhado para a Câmara de Vereadores no dia 23 de março, dia do aniversário de Capital. Ele não foi, graças ao engajamento das comunidades, que com manifestações pacíficas e articuladas conseguiram chamar a atenção da Procuradoria da República em Santa Catarina, a qual recomendou ao prefeito Dário Berger o adiamento da entrega do projeto. Esta foi uma conquista legítima que pode reverter a situação a favor do bem comum. Para saber mais, clique aqui.

No dia 20 de março, uma manifestação contra o Plano Diretor reuniu cerca de 500 pessoas na Lagoa da Conceição. Confira no vídeo publicado no site do movimento Salve a Lagoa. Participe você também e assine o abaixo-assinado disponível nesta home page.

DIGA NÃO AO ADENSAMENTO!

Crédito das fotos: Movimento Salve a Lagoa.