Cazuza

novembro 28, 2009

Fotos Web

Cazuza está sempre por perto, é presença constante em mim. Cresci ouvindo tudo do senhorzinho coisa de louco. Sei eu o que ele diria disto. Faria uma careta, abriria um sorriso, acenaria com um ok, garota.

Semana passada, sexta-feira dos antigamentes, tive uma noite ao lado de mama das mais incríveis de todos os tempos. Em final de tarde quente, expediente da semana encerrado, decidimos, eu e ela, abrir uma garrafa de bom vinho, aquele tinto e seco, óbvio, uma vez que o resto é troço indigno da denominação. Tomamos a primeira e pensamos que o momento pedia por mais uma, abrimos outra. A conversa fluía. Foi quando decidimos sair da zona de conforto.

De casa fomos para um boteco de Jurerê Tradicional, moramos no Internacional doido de pedra, e acomodadas optamos por chope tinindo de tão gelado. No caminho do lar para o bar, ou como diria a minha tia, da igreja para o puteiro, se bem que minha casa nunca foi igreja, Graças a Deus, o que ouvíamos era o Cazuza, Blues da Piedade: “Agora eu vou cantar pros miseráveis que vagam pelo mundo derrotados/pra essas sementes mal plantadas que já nascem com cara de abortadas/pras pessoas de alma bem pequena remoendo pequenos problemas, querendo sempre aquilo que não têm/pra quem vê a luz, mas não ilumina as suas minicertezas, vivi contando dinheiro e não muda quando é lua cheia/pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos/como varizes que vão aumentando/como insetos em volta da lâmpada/vamos pedir piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde.”

O Cazuza é um algo assim como o amor e a vida. Não há palavra que o descreva. Quem foi? Acho que se eu dissesse aqui que foi um gênio, ele me diria que sou fofa, mas que na verdade, bem no fundo, ele era um misto de sensações, como todos nós. Menino? Homem? Cantor? Letrista? Poeta? Boêmio? Inconsequente? Eu não sei. Se ele mesmo dizia que não sabia nada sobre si, quem sou eu para ficar aqui descascando miudezas? Decifrar pessoas é coisa que não cabe a pessoas. Mania temos. Adoramos falar da vida alheia, dos seres sejam eles idolatrados ou menosprezados.  Por quê? Vício puro e simples. A coisa mais deliciosa do mundo é abrir a boca, meio de comunicação fervoroso e universal.

Para mim, Cazuza é como um amigo, irmão, alguém tão íntimo que chega a abusar. Conversamos, contamos da vida, dos planos, de pensamentos e expectativas. Deixou um legado como poucos. Jogou-se sem medir consequências, mas penso que ele foi o que queria ter sido, fez o que queria ter feito, escolheu o seu caminho. Somos resultado de nossas escolhas. Fato é que já se foram quase 20 anos desde a sua partida e até hoje eu o vejo por aí, mais atual do que nunca. Impressionante Cazuza, como você conseguiu passar tanta bagagem para todas as gerações posteriores a sua. Tudo o que você foi está a léguas do verbo precisar, pois ele lembra a falta do que é necessário, negócio que não rima com a tua voz nem toca as tuas ideias. Acho que o tanto que recebemos de você cabe direitinho em palavras marcantes como atrever. Alguém chega para você e diz: como você se atreve a falar assim comigo? Ou ousar. Outro esmurra em bom tom: não ouse! Cazuza era atrevido e ousado, e isso quer dizer carisma.

Ele mexe, desperta, estimula. Creio que a reflexão sobre seja o que for causa muito mais efeito do que o pão nosso de cada dia. Por certo ninguém sobrevive sem o alimento, mas o conteúdo relevante que empurra para frente está nas pequenas grandes revelações: “Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, minha metralhadora cheia de mágoas, eu sou um cara/cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada, eu sou mais um cara/mas se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados porque o tempo, o tempo não para.” Refiro-me a isto. Falar de si em nível arrebatador não é para qualquer um.

Eu também sou ariana, quebro tudo, arrombo portas, sou impulsiva, passional, intensa, desgovernada, travessa, moleca. Dá na veneta e, pronto, fecha-se a butique. Lógico que eu me identifico com ele. Somos parecidos. Como eu disse, somos amigos. Cazuza compôs para invadir a alma dos outros. Ele não pede licença e faz tudo isso de propósito. O objetivo é chocar, chamar a atenção, instigar o sentimento, animar (dar vida a) a consciência.

Quanta gente xinga, inverte os significados, empobrece os nossos instintos, reverte as nossas perspectivas? Um bando de chatos, mesquinhos, frios, minúsculos.  Pois bem, cada um com o seu cada qual. Né, Cazuza? Foda-se! Se não bate, não rola. A vida é assim. Que seja!

Para mim é claro: aqueles que se expõem estão sujeitos a todos os tipos de feedbacks. Burrice, pequeneza, tacanhice é não conseguir enxergar que as pessoas mais fortes são as que entram em contato com a sua fragilidade, a conhecem, provocam, tratam bem, sabem lidar. Jogo de cintura é fundamental. Estas fazem a diferença, possuem algo próprio: elasticidade mental. Cazuza integra este rol de criaturas; pessoas do bem, lúcidas, sagazes.

O que tenho a dizer? Que sinto muita saudade. Cazuza faz falta: leve, solto, afetuoso, autêntico, bem humorado,  generoso, inteligente, corajoso, brasileiro, ‘cínico, revoltado e menino’, como ele mesmo se descrevia.

Eu amo você Cazuza! Te conheci menina, cresci ao teu lado, te trago por dentro, te escuto, capto e passo adiante. Vamos seguir conversando pelos bares da vida. Por todos os lugares, qualquer um deles vale a pena ao lado teu. “O barato da vida é estar sempre aprendendo, sempre de olho, sabe? Acho que a gente tem que ter essa coisa de mudar, de não sedimentar.”

Com certeza!

Não foi por menos que terminei a noitada com mi mama na beira da praia do Forte, norte da Ilha de Santa Catarina. CazuzaBebemos a saideira ao nascer do dia, rodeadas por pescadores com suas redes e bateiras, Mata Atlântica, mar, gaivotas e ao som de Bete Balanço: “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de star, fantasiando um segredo, o ponto aonde quer chegar, o teu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor, num paraíso perigoso, que a palma da tua mão mostrou, quem vem com tudo não cansa, Bete balança meu amor, me avise quando for a hora. Não ligue pra essas caras tristes, fingindo que a gente não existe. Sentadas, são tão engraçadas, donas das suas salas. Quem tem um sonho não dança, Bete Balanço, por favor, me avise quando for embora”

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!

Valeu Cazuza! O mundo sem você não é o mesmo.

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2 Responses to “Cazuza”

  1. Naninho Says:

    Carol, que texto bacana e bonito! Lembro-me sempre das vezes que fomos à praia E de outros passeios que fizemos no verão passado, ouvindo, cada um com um fone, as músicas de Cazuza. Que dias bárbaros! Cazuza será sempre um companheiro para nós, o poeta herege e profano de tantos entardeceres diáfanos e seráficos que vimos.

  2. Carolina Pinheiro Says:

    Naninho,
    é verdade, aqueles foram dias bárbaros mesmo: divertidos, ensolarados, cheios de mar, verde, caminhos e muita música. Lembro-me deles com gosto de quero mais. Qualquer hora, a gente repete a dose… e dá-lhe botar para tocar o nosso companheiro de entardeceres. Amo-te!


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