Uma História da Mama

outubro 19, 2009

Eu escrevi o texto abaixo para o livro Uma História da Mama, lançado pela Da Barca Casa Editorial no dia 16 de outubro de 2009, durante o XV Congresso Nacional de Mastologia, realizado em Gramado, Rio Grande do Sul. Disponibilizo, no blog, o trecho a seguir.

Vénus no Espelho, TicianoAbundantes, fecundas, fartas, férteis, as mamas não são apenas glândulas cujas características mais evidentes são as de identificar a mulher e propiciar o desenvolvimento sadio de seus descendentes. A simbologia dos seios femininos é tão forte que a palavra mama deu origem ao verbo amamentar – o princípio básico da alimentação – e ao adjetivo mamífero, designativo da classe de animais que inclui a espécie humana. Apelidadas por especialistas de “árvores da vida” (o interior da glândula assemelha-se a uma árvore), as mamas permeiam a história da humanidade. A força iconográfica das mamas humanas se manifesta em todos os âmbitos da sociedade: nas ciências, nas religiões, nas artes, na cultura de mercado e na exploração do corpo feminino em busca de respostas sobre a origem da vida.

De acordo com cientistas e historiadores, a ausência de fósseis de seios dificulta a identificação de quando e como surgiram e se transformaram, ao longo das eras, no que são hoje. Teorias foram criadas com base na evolução da espécie e no poder sexual que as mamas possuem. Algumas indicam que após o homem se tornar bípede o seu corpo passou por uma série de modificações; o feminino afinou, desenvolveu curvas e a necessidade de um espaço frontal para a manutenção do aleitamento e da atração do sexo oposto resultou no aparecimento dos seios.

O desejo e a curiosidade do homem pelas mamas remonta à pré-história. A representação mais antiga de um ser venus_von_willendorfhumano está retratada no corpo de uma mulher com tetas fartas. A Vênus de Willendorf, uma estatueta do paleolítico datada de 24.000 a.C., foi encontrada durante escavações na Áustria pelo arqueólogo Josef Szombathy nos primeiros anos do século XX. Ele a descreveu da seguinte forma:

“A escultura representa uma mulher gorda, inchada, com grandes glândulas mamárias, uma barriga saliente, cadeiras e coxas grossas (…) Os lábia minora estão claramente indicados (…) Toda figura mostra que o artista possuía um excelente domínio da forma humana e que ele, deliberadamente, enfatizou as partes referentes à função reprodutora”.

Esculpida em calcário, a escultura mais antiga feita por mãos humanas possui 11 centímetros de altura, é um retrato idealizado da figura feminina e suas formas voluptuosas guardam profunda relação com o conceito de fertilidade. Embora tenha sido a primeira evidência da era pré-histórica descoberta em escavações arqueológicas, não é a única. Cerca de 40 mil pequenas estatuetas semelhantes foram encontradas em escavações realizadas na Europa, no Oriente Médio, na África e na América Central.

deuses_egipciosNo Antigo Egito, a imagem da Deusa Nut (a personificação da abóbada celeste despida e arqueada sobre o Deus Geb, a personificação da Terra) era representada pelo corpo alongado de uma mulher coberto por estrelas. Dizia-se que o leite que escorria de seus seios, o qual formou a Via Láctea, fertilizava o solo. O desenho de Nut – “deusa do céu que acolhe os mortos no seu império” – foi encontrado em sarcófagos de faraós de dinastias como a de Tutankhamon. As crenças funerárias egípcias associavam a deusa ao conceito de ressurreição: o morto transformava-se em estrela no interior do corpo de Nut. Segundo a mitologia, o Deus Rá, principal divindade egípcia, viajava pelo corpo da deusa durante a noite engolindo estrelas que posteriormente acenderiam o céu, renascendo em Nut.

Em cerca de 2.000 a.C., onde hoje se localiza a Palestina, Hebat era adorada como a Grande Deusa, a Mãe Sol, o símbolo supremo da fertilidade, da beleza e da realeza. Artefatos e documentos da época descrevem Hebat como uma mulher de corpo belíssimo, cujos seios eram arredondados e rijos. A imagem de Hebat carrega um bebê, o qual alimenta e acolhe em seus braços. Para os povos da região, o recém-nascido representava a esperada “criança das luzes”.

Na Grécia mecênica, por volta do século IV a.C., Kourotrophos – que significa “aquela que cuida das crianças” – foi kourotrophos_6 a.ceternizada pelas mãos de artistas da época. Peças como esculturas, vasos e estelas funerárias representam a divindade conhecida como a Deusa Mãe da mitologia grega, a mulher responsável por alimentar, proteger e educar infantes até que eles estivessem preparados para os rituais de iniciação. O arqueólogo Ross Holloway batizou de Night um dos maiores exemplares de Kourotrophos, que se encontra no Paolo Orsi Museum, em Siracusa, na Itália. De acordo com Holloway, a escultura retrata a divindade amamentando e cobrindo com o seu manto os irmãos gêmeos Sleep and Death (Hypnos and Thanatos), que quando jovens carregarão o cadáver de Sarpedon, em Ilíada 16.

Para os gregos, a Via Láctea surgiu do leite que escorreu dos seios de Hera, esposa de Zeus, enquanto ela alimentava Hércules, um dos ícones de sua mitologia. Para que Hércules se tornasse imortal, ele deveria ser amamentado por Hera. Dizia-se que Hermes, filho de Zeus com Maia, conduzira Hércules aos seios de Hera enquanto ela dormia para que o bebê pudesse adquirir a imortalidade. Outra figura grega emblemática é a Vênus de Milo, escultura cuja autoria é atribuída a Alexandros de Antioquia. A estátua de uma mulher com o dorso nu e os seios perfeitos, uma das mais conhecidas do mundo, pertence ao período helenístico (século IV a século I a.C.), possui dois metros de altura e simboliza a feminilidade. A Vênus, representação de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, está exposta no Museu do Louvre, em Paris.

A verdade revelada pelo tempoAs mamas humanas projetam no imaginário coletivo sensações as mais diversas. São capazes de provocar em ambos os sexos sentimentos como desejo, beleza, confiança, paz, inveja, amor, responsabilidade, paixão, esperança e cuidado. O ser feminino é complexo e dinâmico. Ser mulher significa ser capaz de cuidar, de gerar, de esperar, de educar, de dar e de sentir prazer. Da concepção ao nascimento, da amamentação à atração sexual, os seios trazem consigo a força, o orgulho, o poder, a conquista, a vitória feminina.

Dentro dessa perspectiva, Giambattista Tiepolo, um dos mestres do barroco italiano, pintou no século XVIII A Verdade Revelada pelo Tempo. No quadro, a verdade é revelada por uma mulher cujos seios estão desnudos. O italiano Torquato Tasso (século XVI), um dos mais célebres poetas da literatura universal – comparado a Homero, Virgílio e Dante –, autor do clássico Jerusalém Libertada (1851), relatou que mães, esposas e amantes gaulesas costumavam comparecer aos campos de batalha para exibirem os seios a fim de transmitirem aos seus homens força e confiança para a luta que travariam contra os invasores.

Ferdinand Victor E. Delacroix, representante do romantismo francês no século XIX, exprime, em sua obra A A Liberdade Guiando o PovoLiberdade Guiando o Povo, firmeza, contundência e obstinação. Na tela, estes sentimentos estão retratados na imagem de uma mulher (a Liberdade) com os peitos de fora carregando a bandeira da França e incutindo nos soldados a coragem para enfrentar o inimigo e vencer a batalha. Considerada a primeira obra política da pintura moderna, o quadro celebra a revolução que levou à queda de Carlos X.

Entre as pinturas sacras e as renascentistas, inúmeras trazem mulheres de seios nus amamentando os filhos. A condição primaz da mulher revela-se por inteiro em obras-primas das artes plásticas como A Madona Litta, de Leonardo da Vinci; A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração, de Giampietrino (século XVI); O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticceli (século XV); The Melun Diptych, de Jean Fouquet (século XV) e em tantas outras de autores desconhecidos datadas dos séculos X e XI.

sonho pablo picasso_1932Objetos do desejo masculino, os seios instigam também o erótico, a fantasia, o êxtase associado ao corpo feminino. A sexualidade é fator inerente às mamas, uma realidade inseparável de sua existência e evolução. Na tela O Sonho (1932), da fase cubista de Pablo Picasso, o artista extravasa seu fascínio pelo corpo da mulher e gosto pelo sexo. A obra foi produzida com o objetivo de proporcionar no espectador o gozo visual. A dama retratada, Marie-Thérèse Walter, uma das amantes do pintor, toca seu púbis e, de olhos fechados, masturba-se. Picasso revela de forma sensual a mama da mulher endurecida, imagem própria de um ato de sexo e erotismo explícito.

A quebra de paradigmas proposta por Picasso é reflexo de uma nova era. Questionamentos referentes à figura da mulher ocorriam na Europa, nas Américas do Norte e do Sul e na Ásia. O momento histórico sugeria a abertura sexual, a quebra de tabus e a redefinição do papel feminino na sociedade. Obras como a de Picasso impulsionaram a revolução sexual e alguns dos movimentos vanguardistas da década de 1960.

Simone de Beauvoir, escritora, ensaísta e uma das principais precursoras do feminismo, desconstruiu a ideia Anita Ekbergpreconcebida da mulher presa a uma trajetória única, a de ser mãe e esposa. Em sua obra O Segundo Sexo (1949), um dos marcos da época, Simone se posiciona contra o puritanismo e o maternalismo do pós-guerra, opondo-se ao determinismo biológico e esclarecendo que a mulher não deveria estar amarrada a nada, a não ser a si mesma, como sujeito social autônomo, capaz e independente. “A mulher tem o direito de decidir sobre a sua vida. O seu corpo é um território livre.”

Em meio ao turbilhão de impressões e incitações, o dia 7 de setembro de 1968 foi marcado pelo Bra-Burning, a Queima dos Sutiãs. Centenas de ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) se reuniram em Atlanta (USA), em frente ao Atlantic City Convention Hall, para protestar contra a eleição da Miss América, Jordi Ford, que ocorria dentro do prédio. As ativistas gritavam do lado de fora, reunindo em uma lata de lixo todos os objetos considerados ideais para que uma mulher obtivesse status de beleza: cílios postiços, maquiagens, revistas femininas, espartilhos, cintas, sapatos de salto alto e sutiãs. A despeito do nome pelo qual o ato ficou conhecido, a queima, na verdade, não chegou a ocorrer, devido à proibição da prefeitura por razões de segurança. O episódio, contudo, entrou para a história como o grande marco do movimento feminista. Para aquelas mulheres, a “queima dos sutiãs” representou a conquista da liberdade perante o modelo vigente. O homem era o ser público e a mulher, o cerne do lar. A expressão seio da família tem esta conotação.

gisele_bundchen_seiosNa história da humanidade, há uma profusão de mitos, lendas e causos populares envolvendo os úberes femininos. Alguns documentos revelam inclusive a influência feminina na prática política e social de vilarejos orientais. Escrituras do século XII descrevem o estado de Karnataka, situado no sul da Índia, como um espaço onde as vilas eram administradas por mulheres. Elas lideravam também instituições religiosas.

De acordo com a historiadora Jyotsna Kamat (Universidade de Karnataka), as mulheres gozavam de direitos que até há bem pouco tempo eram reservados aos homens nas sociedades ocidentais e orientais. Na Índia, diz-se que Krishna foi alimentado por Putana, uma Rakshasi (demônio feminino). Kamsa, o tio demônio do Deus Krishna, solicitou a Putana, que tinha o poder de assumir a forma de qualquer ser, que envenenasse Krishna. Ela assumiu o disfarce de Gopikaa, que significa ama-de-leite, entrou na casa de Krishna e o amamentou com o seu leite envenenado. O Deus, mesmo ainda bebê, soube reconhecer a Rakshasi e sugou tão forte o seu seio que junto com o leite extraiu a vida de Putana.

Por todo o planeta há registros das mamas como um símbolo da cultura e da identidade dos povos. Jean Baptiste retrato de índia_Jean-Baptista Debret (1768-1848)Debret, pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa ao Brasil (1816), realizada a pedido de Dom João VI, destaca em sua obra Retrato de Índia a suntuosidade dos seios nus de uma nativa jovem e bela. O Brasil Colônia está repleto de telas, desenhos e descrições do esplendor das mamas sempre à mostra das índias e do impacto que sua imagem causava nos europeus que desembarcavam no Novo Mundo.

Exemplos significativos da presença das mamas na história das artes podem ser destacados em qualquer cultura. Tsukioka Yoshitoshi, um dos grandes mestres do Ukiyo-e, um gênero de arte que une xilogravura e pintura japonesa do século XIX, apresenta em sua obra várias cenas de mulheres com os seios nus sempre sensuais e delicados. Na peça Kayuso Kaei Nenkan Kakoimono no Fuzoku (A Aparência de Uma Concubina da Era Kaei), o artista revela os seios da dama com primor de detalhes. Destacam-se em meio a cores fortes o quase branco da pele da mulher e o rosa que define com minúcia as auréolas de suas mamas.

yoruba_womanNa arte Yorùbá, uma cultura milenar africana – a etnia Yorùbá habita a Nigéria, na África Ocidental –, a representação de mulheres com as mamas expostas nos rituais e no cotidiano local pode ser vista em inúmeras peças de artesanato. A fertilidade está diretamente associada à mulher, um dos símbolos da vida para este povo. Nanã é a irunmole (orixá no Brasil) que entregou a Oxalá a lama, material com o qual o ancestral, que se tornou divino após a morte, criou o homem. Nanã é o irunmole feminino das águas das chuvas, dos pântanos e da morte. Iemanjá, um dos irunmoles mais conhecidos do mundo, é feminino e representa os lagos, os mares e a fertilidade. Iemanjá é a mãe de todos os irunmoles da mitologia Yorùbá.

A cultura Yorùbá tem forte influência sobre a cultura de países como República de Benin, Togo, Costa do Marfim, Haiti, Bahamas, Porto Rico, Estados Unidos, El Salvador, Reino Unido e Brasil. A ligação histórica tem início com a chegada dos escravos neste País. Das culturas africanas existentes no Brasil, a Yorùbá é a que mais influenciou o povo.

A América Latina também é cenário de mitos e lendas relacionados às mamas. O folclore Difunta Correa_Marcelo Sola Argentinaargentino traz desde o século XIX a história da Difunta Correa, adorada como santa pela população da região de Vallecito, um vilarejo localizado a 1.160 quilômetros de Buenos Aires. Na cidadezinha construída ao pé da Cordilheira dos Andes, María Antonia Deolinda Correa vivia como uma mulher simples, considerada um exemplo de esposa e de mãe. “Se hizo carne en ella como una profecía la que después fuera la admirable definición de Sarmiento: ‘La madre es para el hombre la personificación de la providencia’.”

Entre os anos de 1840 e 1850, contudo, seu marido foi obrigado a entrar para o exército. Sem opção, Deolinda decidiu partir de Vallecito em direção a San Juan, situada a 63 quilômetros da vila, na esperança de encontrá-lo. Levou consigo guarnições, que supôs serem o suficiente para a longa jornada, e seu filho. “Para que entre las gentes quedara como ejemplo de amor de esposa y madre, Deolinda Correa iniciaba por fidelidad al amor, su viaje al infinito Amor y a la leyenda”. Enganou-se. Após percorrer a pé boa parte do caminho, o alimento e a água acabaram e Deolinda, exaurida e famélica, morreu sob o sol escaldante do deserto San Juanino. Reza a lenda que quando seu corpo foi finalmente encontrado, muitos dias depois, ele estava em uma posição capaz de proteger o bebê de tal maneira que ele teria condições de mamar e se nutrir enquanto houvesse leite para sugar da mãe já sem vida. Existe na região de San Juan um santuário erguido em homenagem à Difunta Correa, visitado por milhares de peregrinos todos os anos.

Fantasia das Amazonas_Roland Steverson capa da lista telef do Amazonas 1989Na Amazônia, a lenda das Icamiabas (que significa “mulheres sem homens” ou “escondidas dos homens”) ronda o imaginário coletivo não somente dos povos do Norte do Brasil. A história gera fascínio e entusiasmo mesmo em pessoas de países longínquos. Embora não haja registro de sua existência, ainda há quem percorra a região entre os rios Tapajós, Trombetas e Jamundá em busca de respostas. O mito ganhou proporções imensas e se manifesta em versões diversas. A lenda é uma das mais completas formas de expressão da fertilidade, feminilidade e sexualidade feminina.

As Icamiabas são descritas como mulheres lindíssimas, donas de corpos fortes, morenos e sensuais, com curvas bem delineadas e seios deslumbrantes e imponentes, capazes de provocar arrebatamento em quem as vislumbrasse. Por viverem em contato direto com a natureza, livres, as Icamiabas ignoravam qualquer regra moral, passando a maior parte do tempo nuas. Tal detalhe estimula nos homens o desejo e a fantasia de encontrá-las, sentir os seus seios, possuí-las.

Diz-se que estas mulheres guerreiras e destemidas habitaram, há cerca de 600 anos, uma região próxima à cabeceira do Rio Jamundá. Viviam completamente isoladas dos homens e em certas épocas do ano celebravam a sua vitória sobre o sexo oposto nas margens do lago sagrado Yaci Uarua (Espelho da Lua). Após o cair da noite, quando a lua se debruçava sobre o espelho d’água, as Icamiabas mergulhavam nas águas em ritual de purificação e chamavam pela mãe do Muiraquitã, a Grande Mãe. Era ela quem entregava a cada uma das mulheres a pedra de cor verde (jade), o Muiraquitã, o talismã de proteção material e espiritual das guerreiras.

(…)

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2 Responses to “Uma História da Mama”

  1. Beatriz Says:

    Gostaria de saber o nome completo do autor do texto “Uma história da mama”. Como posso obter este livro?
    Obrigada


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