O Todo Poderoso Blá Blá Blá

setembro 10, 2009

(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blá blá blá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram matraquear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem? Não. Isso é salutar? Oi?

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blá blá blás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo, mas não. Ocorre exatamente o oposto. O mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blá blá blá. Não menos desconjuntada, e crente de que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Discutiam sem  escutar uma palavra sequer.

blá1Blá blá blá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arrê, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blá blá blá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blá blá blás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos. Amigos consomem vitalidade agarrados ao blá blá blá. Equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca.

bla– Ah ah ah! Eu me divirto. Que seres tragicômicos. Ninguém merece. Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de “alguns filhotes”, há uma penca de desclassificados espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo na ponta da faca. Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pela ilusão da garantia, acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, frustram-se.

De repente, um estribilho, zum, crec, crec, alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a floresta com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. O restante do grupo ocupou pontos estratégicos da árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blá blá blá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem um casal de humanos de regresso para o alojamento. O bando logo dispersou. Em poucos segundos, todos estavam a postos ao lado da macaca. Pareciam absortos em rastro de luz e calor. Era o sol a cair no horizonte. Sentada na ponta de um galho, a bichana exclamou. – Ah! Isso é viver.

O cartesianismo de Descartes o conduziu por um caminho lógico, porém duvidoso. Sábio seria dizer sinto, logo existo!

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2 Responses to “O Todo Poderoso Blá Blá Blá”

  1. Tati Says:

    Amei! Excelente ensaio, e tenho que concordar… porquê a gente não simplesmente fecha a boca?
    Quando você achar a resposta pra essa pergunta, me avise. Gostaria de saber também.
    “Quem saberia me dizer: o mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?”
    Love, love, love you!
    Tati

  2. Maria Clara Says:

    Muito bom este texto! Divertido e muito sensato! Tô de acordo com a Tati! 🙂

    E chega de blábláblá… que eu prefiro o cérebro firme e a língua molenga… Nunca fui boa em afiar a língua mesmo, ahahahahah!

    Beijos, mana! Já tô a espera do próximo texto!

    Clarinha


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