Reflexões

setembro 27, 2009

Macaca editadaHá muito tempo não via luar como aquele. Movimentava-se entusiasmada com a sensação gostosa de soltura que o banho lhe proporcionava. O rio se ampliava à luz da lua, cheia de uma primavera que insidia ardente. Nada a faria parar. Eram mãos e pernas a tomar as águas com a frescura de seu corpo macio e arredondado…

– Eu adoro este lugar. Como é lindo!, exclamou a macaca. A ilha possuía belezas singulares: montanhas, verdes de tonalidades mil, rochas encravadas entre céu, costões e a imensidão azul do mar, praias de areias claras a brotar aqui e ali. – Viver próxima a tanto é um privilégio para poucos! A maioria dos seres reside em locais turbulentos, degradados e estressantes. Eu não. Pelo menos por enquanto. A bichana continuava angustiada pela dúvida que residia em seu peito há alguns pares de meses. – Tenho pensado em me mudar para uma grande floresta, destas esculpidas pela mão do homem, onde árvores de plantio secundário se amontoam junto a uma terra cuja composição nutritiva já não se faz presente há décadas. Não tem sido fácil decidir. Sinto-me dividida entre as oportunidades que lá existem e a qualidade de vida que conquistei neste pedaço de paraíso. Splach splach, chacoalhava-se à beira-d’água ainda em estado de graça com os sabores que o momento havia lhe concedido da epiderme à corrente sangüínea.

– E agora? O mais difícil na vida não é a constatação de determinadas coisas. Comprovar é tomar para si o resultado do macaco artísticodesenrolar das histórias. Perceber é se manter atento aos passos dados, um de cada vez. A macaca estava prestes a tomar novo rumo na vida. Enxergava o caminho a seguir de forma tão clara que até a ela causava espanto tamanha transparência. Uuuuuummffff…suspirava enquanto a pele era tomada por uma efervescente rajada de arrepios. – Cheguei ao ponto que muitos chamam de encruzilhada ou momento exato em que a trilha se divide. Posso definir sem pestanejar que me encontro na fase X da questão. De agora em diante, ou vai ou racha. Tenho uma escolha a fazer. A boa notícia é que conheço meu potencial, minha qualidade simiesca e minha necessidade de estruturar um plano estratégico sólido. A dúvida se instala nas perguntas que me consomem no decorrer do trajeto: chegarei aonde quero ficando? Há meios de vencer habitando um ecossistema cujo mercado de bananas é incipiente? Preciso avaliar, ponderou a símea enquanto se esfregava no tronco de árvores vizinhas. Passeou pelo entorno em direção a sua casa. Respingos marcavam o seu rastro sobre a relva.

– O que valerá mais a pena? Devo buscar conselhos de macacos velhos. Pensei que já tivesse encerrado o assunto, mas vejo que não. Minhas ideias seguem trementes, noto-me aflita…arg. Como sei das experiências que quero ter mundo afora, vasculhando países, culturas e animais de espécies variadas, talvez o importante seja optar pela floresta central. O que me prende à ilha são as pessoas que eu amo, as belezas que me enchem o espírito e a qualidade de vida que este lugar me oferece. Por que escolheria viver longe do que para mim é bom? Sim, para abrir portas que me possibilitarão sair por aí a conhecer e reportar tudo o que por minhas vistas passar.

macaco1A macaca estava cansada. Fazia-se tarde, a noite rasgava as horas com a sua típica e insaciável rapidez. Findo o ritual de delícias nas águas do rio, a bicha tratou de escalar o tronco da Grande Árvore relaxadamente, pulando de galho em galho com cuidado para não acordar a macacada. No caminho, pegava-se sorrindo sem mais nem por que. Agradava-lhe a sensação de estar perto de sua família, de ter macacos tão especiais como mãe e pai, irmão e irmãs, cunhado e cunhada. Por ora eram apenas dois. Ela e sua caçula trilhavam solteiras a estrada da vida. Acontece! Amar não é para qualquer hora. Eis uma verdade primordial.

– Já amei, mas ou não fui correspondida, ou a distância derrotou perspectivas, ou fui enganada; enfim. Além do mais, o mundo está cada vez mais RO RO RO e os seres cada vez mais esquisitos, pensou balançando a cabeça com um ar de descontentamento. Encontrar alguém em contexto insólito é tarefa árdua. Deparar-se com animais de bom caráter e disponíveis é raridade. O importante é o amor que trazemos por dentro. O resto é pura sorte ou coincidência. Quem sabe um dia? Não vou me preocupar com isso agora. Tenho assuntos a resolver, mais urgentes e que dependem só de mim.

Foi quando avistou o seu galho, o predileto, aproximou-se dele, bateu as patas traseiras no ar antes de pisar a madeira, subindoacomodou-se, olhou para o céu, enxergou a lua e sossegou o pensamento. – Amanhã é outro dia. Independente da escolha que farei, o maior valor está na força de vontade. O talento não serve para muita coisa se não estiver acompanhado de muita força de vontade. Portanto macaca, dê o seu passo, tenha ele a direção que tiver, com a certeza de que está munida de ambos os quesitos. A modéstia que permaneça à parte sim senhora. Todas as suas conquistas são frutos do trabalho, da garra e da determinação. Há apenas um porém. Não vacile quando encontrar a sua resposta. Siga em frente porque nada precisa ser definitivo, mas oportunidades não vão e vêm. Como diz o ditado, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

(A macaca e o quadrilátero da esquisitice)

monkey.laptop2Aonde, afinal de contas, leva o blá blá blá? Quem já reparou no quanto as pessoas adoram matraquear feito lunáticas sem dizer coisa com coisa? Acreditam que estão a se comunicar, defendem argumentos, dissertam sobre cada mínimo detalhe de situações diversas, dando assim, sequência ao infinito e poderoso falatório. Chegam, com tamanha verborragia, a fim de linha com conclusão satisfatória? Não. Conduzem-se por caminho fértil após desembarque interminável (barbaridade) de sabe-se quantas palavras? Não. Aproximam-se de um entendimento? Não. Constroem plano estratégico que objetive o seu cotidiano de forma a alcançar o que pretendem? Não. Isso é salutar? Oi?

Manter o cérebro em atividade sedentária causa sérios danos aos miolos. Blá blá blás geram flacidez mental, dizem os especialistas. A língua, no entanto, chega à beira do divino, tamanha a perfeição do fio. Afirmam inclusive, que com anos de prática do famigerado blá, o músculo passa a riscar feito lâmina japonesa. A macaca se esforça para entender o porquê da satisfação humana em ter uma língua enxuta e, em contrapartida, um cérebro molenga. Ela definitivamente não encontra respaldo em bibliografia de qualidade sã. Fato é que o homo sapiens sapiens insiste na repetição do tal método por descomunal número de vezes, dias, meses, décadas.

– Considero incompreensível o desgaste de energia inútil. Como podem soltar tanto as suas línguas sem intervalo nemamazon_monkey2 mesmo para uma banana? Se as discussões surtissem efeito positivo, mas não. Ocorre exatamente o oposto. O mundo foi sempre assim ou deu surto generalizado na humanidade?

Dizem por aí que quem tagarela sem parar é a mulher. – Mentira. Hoje ouvi som articulado saindo de boca masculina por horas. A criatura aqueceu motor, entrou em ritmo de conversação e tocou ficha: blá blá blá. Não menos desconjuntada, e crente de que estava coberta pela luz da razão – eles sempre tomam postura empertigada para dar ao drama veracidade –, a mulher entrou em cena para terminar de descarrilhar o trem. Discutiam sem  escutar uma palavra sequer.

blá1Blá blá blá sobre despesas – sejam domésticas ou acumuladas pelo vício de consumo desgovernado –; sobre a falta de sal no feijão; a lâmpada que alguém teima em deixar acesa na sala; a pouca demonstração de afeto, pois um se dedica mais ao outro e isso não é justo; a cara amarrada que um faz quando o outro comenta sobre o modo como o carro está estacionado; a dúvida sobre a real intenção de beltrano caso não retribua a um sorriso; os pingos que não foram colocados nos is no dia tal do ano y; a desconsideração de um por não entender a atitude do outro: ­“Eu sempre faço o melhor, sempre estou aqui para tudo o que você precisa e isso nunca parece ser o bastante, jamais será, não é mesmo?”, resmunga uma das partes. O embate cansativo surge do nada e termina em coisa alguma. Impressionante!

– De onde vem a capacidade de disparar frases a torto e a direito? A macaca coça a penugem macia das fuças e decidemacacada2 entregar os pontos. Arrê, cansei! A vida é simples, por mais que doa. Que nexo existe na perda de tempo quando é óbvio que se está a andar em círculo? Não se chega a canto qualquer com cobranças, pitacos, lamúrias, comparações, apontamentos do que é ser ideal e blá blá blá. A miséria das pessoas está na insatisfação perene. O melhor para o ser humano tem referência em ponto de vista mirrado por ele tomar como certo a concepção individual. “Já que EU sou assim, todos devem ser, ora, que maneira de conduzir as coisas poderia ser mais adequada e inteligente?” Ô prepotência! De que parte da cuca brotam tais sandices? Não faço a mínima!

Há blá blá blás entre homens e mulheres, crianças e adultos, pais e filhos. Amigos consomem vitalidade agarrados ao blá blá blá. Equipes trabalham no vira e mexe do dito cujo e o troço não cessa. A profusão de cacarejos chega às raias da loucura, absorvendo de tal modo a mente que palavras inflamadas começaram a pipocar da “comunicativa” rotina desta gente maluca.

bla– Ah ah ah! Eu me divirto. Que seres tragicômicos. Ninguém merece. Está muito bem que falta de vergonha na cara e de caráter de alguns merece o despejo de “alguns filhotes”, há uma penca de desclassificados espalhados pelos sete continentes. O excesso de bombardeio, entretanto, expõe as relações a fungos e bactérias altamente prejudiciais. Estraga!

Não há cristo que explique o modus vivendi de humanos. Depois não entendem o porquê de viverem pendurando o bico. Ninguém arrasta o beiço hora sim hora não se traz consigo maior leveza, ou seja, se não leva tudo na ponta da faca. Quem é exemplo de vida para os outros? – O ser que eu sou é modelo para mim, não para o mundo. Eu não tenho que tomar a minha postura frente à realidade como base para o comportamento alheio. Com que direito? A macaca repete balançando a cabeça. – Ts ts ts, quanta desordem! Isso é que eu chamo de cegueira. Cada um dá o que tem. Alimentar a ilusão de que os outros agirão de acordo com determinada expectativa é fechar os olhos para a diversidade, é não se permitir conviver, é perder a oportunidade de trocar, amadurecer, de ir além.

Os temperos que faltam ao ser humano são o respeito, a confiança e o limite. As pessoas não têm limite algum. Invadem o bla3espaço umas das outras com assustadora facilidade. Expandem-se demais em lugar que não lhes pertence. Ao se deixarem levar pela ilusão da garantia, acreditam que se apossam do outro, que possuem o controle sobre a sua vida, os seus pensamentos, as suas ações. Em meio a esta crença irracional, frustram-se.

De repente, um estribilho, zum, crec, crec, alguém se aproximava da Grande Árvore. A macaca virou bruscamente o corpanzil de encontro ao tronco e subiu em disparada para o galho mais alto. – Que barulho foi este? indagou a símea. O sol caía quente sobre o horizonte, incendiando a floresta com brilhantes tons alaranjados. Por um instante, ela se viu confusa. Não sabia se apreciava o entardecer ou se reservava atenção ao movimento que vinha de baixo. O romper dos passos sobre o capim seco quebrava a mata fina, crec, crec, crec. O restante do grupo ocupou pontos estratégicos da árvore com o objetivo de vasculhar o solo com os olhos. As vozes que acompanhavam os estalos foram tomando, a cada minuto, mais vigor, até que se mostraram claras, estridentes, irritantes: “Blá blá blá.”

macaco.lindo– Ai, meus sais! sentenciou a macaca. Lá vem um casal de humanos de regresso para o alojamento. O bando logo dispersou. Em poucos segundos, todos estavam a postos ao lado da macaca. Pareciam absortos em rastro de luz e calor. Era o sol a cair no horizonte. Sentada na ponta de um galho, a bichana exclamou. – Ah! Isso é viver.

O cartesianismo de Descartes o conduziu por um caminho lógico, porém duvidoso. Sábio seria dizer sinto, logo existo!

A propósito…

setembro 4, 2009

Adoro The Cranberries! A banda irlandesa, cuja vocalista Dolores Mary Eileen O’Riordan Burton é um elemento chave da composição perfeita que conquistou no decorrer da década de 1990, possui diversas canções de sucesso e se alcançou notoriedade foi, sem dúvida, em decorrência da sua excelente qualidade musical. O álbum To the Faithful Departed – lançado em 1996 – não é nem de perto o melhor trabalho do grupo, mas conta, a meu ver, com uma das músicas mais bonitas do The Cranberries. Chama-se When you’re gone. Escolhi, para ilustrar minha ligeira arguição, uma versão dela ao vivo, gravada durante um show realizado em Paris. Delicious!

Ps. Quero deixar registro a respeito de Fergal Patrick Lawler, o baterista da banda. O som que ele tira do instrumento também vale destaque.

When You’re Gone

The Cranberries

Hold on to love
That is what I do
Now that I’ve found you

And from above
Everything’s stinking
They’re not around you

And in the night
I could be helpless
I could be lonely
Sleeping without you

And in the day
Everything’s complex
There’s nothing simple
When I’m not around you

But I miss you when you’re gone
That is what I do
Ba, ba, baby

But its going to carry on
That is what I knew
Ba, ba, baby

Hold on to my hands
I feel like sinking
Sinking without you

And to my mind
Everything’s stinking
Stinking without you

And in the night
I could be helpless
I could be lonely
Sleeping without you

And in the day
Everything’s complex
There’s nothing simple
When I’m not around you

But I miss you when you’re gone
That is what I do
Ba, ba, baby

But its going to carry on
That is what I knew
Ba, ba, baby

When You’re Gone

The Cranberries

Hold on to love

That is what I do

Now that I’ve found you

And from above

Everything’s stinking

They’re not around you

And in the night

I could be helpless

I could be lonely

Sleeping without you

And in the day

Everything’s complex

There’s nothing simple

When I’m not around you

But, I miss you when you’re gone

That is what I do

Ba… baby

And its going to carry on

That is what I knew

Hey baby

Hold on to my hands

I feel like sinking

Sinking without you

And to my mind,

Everything’s stinking

Stinking without you

And in the night

I could be helpless

I could be lonely

Sleeping without you

And in the day

Everything’s complex

There’s nothing simple

When I’m not around you

And I miss you when you’re gone

That is what I do

Hey baby

And its going to carry on

That is what I knew

Hey, baby.

Karen Blixen

setembro 4, 2009

Não poderia deixar de falar de Karen Blixen sem publicar na página algumas fotos da escritora. As imagens abaixo mostram Karen na Africa entre os anos de 1914 e 1931.

karen

karen2

Out of Africa

setembro 2, 2009

1Marcante, Out of Africa foi um dos grandes filmes da minha infância. Sucesso de bilheteria mundial em 1985, vencedor de 7 Oscars, entre outros prêmios de excelência da indústria cinematográfica, o longa-metragem é baseado na história real de Karen Christence von Blixen-Finecke, uma escritora dinamarquesa (1885-1962) que morou 17 anos no Kenya, África.

Seu livro Den afrikanske Farm (A Fazenda Africana) – publicado em 1937 – trouxe a público o universo de Karen por meio do relato intenso e emocionante da escritora sobre o período que viveu no continente africano. Adaptado por Hollywood, a obra ganhou nova dimensão, causando mais uma vez forte impacto em plateias de inúmeros países.

Com trilha sonora de John Barry, o filme dirigido por Sidney Pollack foi estrelado por Meryl Streep (genial, como sempre), Robert Redford e 2Klaus Maria Brandauer nos papéis principais. O motivo de eu estar aqui, contudo, tem a ver com o que me ocorreu dia desses. Nunca cheguei perto do livro. Pergunto-me: como? Passaram-se mais de 20 anos e somente agora me bateu tal ideia.

Pois bem, chegou a hora. Vejo-me pronta para trazê-la de longe. Sairei em busca da obra. Quero conhecer intimamente a mulher extraordinária que foi a Karen e saber de sua experiência na África em pleno início do século XX. Ler o seu relato – talvez um dos mais belos sobre a África escrito por um ocidental – trará para dentro o significado mais profundo de sua realidade.

Deixo na página a minha cena predileta de Out of Africa – que dispensa comentários.