Impressões

julho 20, 2009

monkey8Conhecer Paraty foi uma experiência inesquecível. Cheguei à cidade no dia 1º de julho à tarde e ao descer do ônibus fui tomada pela atmosfera no mínimo entusiasmada do local. O brilho do sol que ainda se mostrava simpático para as milhares de pessoas que desembarcavam de todas as partes do mundo ampliou a sensação de boas-vindas que com o passar das horas só fez crescer dentro de mim. Senti-me como um canal de comunicação ambulante pelo qual passavam informações aos borbotões em tempo integral. Não havia o S2020083que pudesse pouco inspirar os sentidos. Uaupontocompontobeérre, como diria Eliziário, meu GRANDE amigo, parceirinho de incontáveis horas de rica prosa em ritmo boêmio ou de trabalho alucinado e mentor, a quem devo muito do que hoje eu sou: macaca a plantar sementes e arar a terra. O passo número um – no meu caso o número cinco –, para se alcançar um belo, digno e grandioso sonho é cultivar o chão para colher os frutos que servirão de alimento nos dias que à frente me esperam. Há coisas que só dependem de nós. Curiosidade, paciência e persistência nos levam do presente cru para perto de um futuro composto por fartas colheitas, repetiu diversas vezes o artesão aquele de Paraty, né guri (Eliziário)? Citei com prazer e soltura o nome do guri porque infelizmente ele não pôde me acompanhar nesta aventura FANTÁSTICA.

S2020023O lugar é simplesmente deslumbrante. Um pedaço de história construído à beira-mar. Por onde se passa se respira a cultura brasileira: o verde da Mata Atlântica, o azul da baía que encosta na cidade, o colorido do casario colonial, o cheiro das cozinhas regionais, o gosto das artes espalhado por cada pequeno canto. MUITO BOM! Viajei no tempo e vi pelas ruas imagens de nossos ancestrais a cruzar meus passos, a erguer de forma planejada Paraty. Quantas pessoas passaram por ali? Quantas deixaram um tanto de si naquele espaço? Vi-me aberta, exposta e mais observadora do que nunca. Estar só é se perceber companheira de si mesma. Não há limites para o fazer, para o seguir por caminhos quaisquer, para o decidir, para o se perder para logo se encontrar.

Durante os cinco dias da 7ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o ar tomou sabor de cultura. Eu esbarrava com ela o tempo todo. O que sentia era a vida a pulsar por minhas partes com força total. Conheci gente nova, bati papo com pessoas de vários tipos. Um dos momentos que me S2020033chamou a atenção foi quando estava eu sentada na boca de um dos muitos bares do Centro Histórico. Este, em particular, se localiza no largo da Praça da Matriz. De repente, um Hare Krishna se aproxima, vestido com a tradicional indumentária alaranjada, olha para mim e oferece a sua mão. – Boa noite. Disse ele com a voz aprazível dos de sua linha. – Boa noite. Respondi com olhar atento e vontade de ouvir mais. Era princípio da noite de abertura, pouco antes do show da Adriana Calcanhoto: MARAVILHOSO. Eu estava fazendo o meu lanchinho e tomando a minha cerveja enquanto me dedicava à alegria de estar imersa ao burburinho das vinte e poucas horas…huuuuuuum, delícia. Pois este rapaz de nome impronunciável, por certo o de batismo Hare Krishna, veio ter comigo porque, imagino, viu em mim uma das boas opções, em campo aberto, para a transmissão da Palavra. Ele trazia nas mãos uma penca de livros, todos escritos por um dos mestres da religião. Um deles, imenso e de excelente qualidade gráfica, foi o tal que ele, com delicadeza, dispôs sobre a mesa. A partir daí o burburinho cessou e me vi absorta nas S2020043histórias de Krishna e de sua Palavra. Ocorre-me que a última vez que havia travado diálogo com um Hare Krishna foi em 1995, em Porto Alegre, no meio da rua e não me lembro dos detalhes. Gostei pacas de me ver trocando idéias e experiências com uma pessoa que se identifica como um renunciante. – O que é isso? Perguntei com alguma intuição a respeito do que estava por vir. Ele me encarou por uns segundos. Eu pensei vixi, passei a barreira do razoável. Que nada. Ele logo desabafou com gosto adocicado de orgulho. – Renunciante é aquele que abre mão da vida material em prol do desenvolvimento espiritual. Nós carregamos apenas o que nos é indispensável para a sobrevivência em nossa peregrinação. Todo o resto, bens materiais, objetos e acessórios de qualquer espécie ficam para trás.

S2020131– Sei. Será que ficam mesmo? Tenho cá as minhas dúvidas. O caminho para o desenvolvimento espiritual inclui não transar? Ensaiei a pergunta; em seguida desisti. Era capaz do Hare Krishna pensar que eu estava dando em cima dele. Do jeito que o mundo vai. Humpf. Fato é que ele estava ali para me vender alguma coisa. Embora o rapaz tenha repetido mais de uma vez que o objetivo era levar a Palavra. – Caso as pessoas aceitem doar quantias simbólicas para a manutenção do trabalho, aceitarei. Esclareceu. Vamos e venhamos que uma doação de R$ 25,00 é de grande valia, não? Com pouco mais eu poderia comprar um Dostoiévski, uma boa coleção de contos. Pela Invenção da Solidão, de Paul Auster, paguei um valor bastante próximo deste.

Contradições à parte, terminei a maratona com um livreto chamado Meditação & Supercosnciência enfiado no bolso. S2020124Terei 64 páginas que me valeram R$ 5,00 para entender melhor ou não o universo dos renunciantes. Se vou me arrepender? Pelo menos tentei. Como disse o respeitado artesão de Paraty, curiosidade…Né guri? Let’s exploring! Como jornalista, percebi meu senso aguçadíssimo. Como pessoa, notei meu interior maior, mais carregado de boa bagagem.

O evento foi excepcional! Adorei! Não é à toa que a FLIP se consolidou como um dos festivais de grande expressão do mundo. Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul, uma das responsáveis pela realização da festa, descreveu com primor, em seu texto Interpretar e desenhar o mundo, a atmosfera contagiante que abraça as pessoas que participam da FLIP: “(…) pescadores, artesãos, estudantes, professores, vendedores, cozinheiros, turistas, editores, leitores e escritores se encontram e trocam experiências, trabalho, prazeres e conversas, influenciados pela linguagem, imersos em imaginação literária. (…) Por meio do olhar renovado, a literatura, razão maior da festa, é o que faz ver a realidade de maneira diferente nesses cinco dias em que o tempo parece transcorrer em outro ritmo, como nos rituais das festas populares”. Mergulhei neste universo, valeu a pena e pretendo repetir a dose.

S2020047Das 19 mesas que ocorreram na Tenda dos Autores, os expectadores puderam optar por assistir às conferências ao vivo ou na Tenda do Telão, três me levaram ao êxtase. Todas (das que estive presente), com exceção da Conferência de Abertura, alimentaram-me os miolos: biscoitos macacais da melhor qualidade. Três, como eu disse, deram brilho aos meus olhos. China no Divã (Mesa 4) trouxe dois excelentes jornalistas chineses, Ma Jian e Xinran. Ambos deram depoimentos emocionantes sobre a China de Mao Tsé-Tung, a Revolução Cultural e as transformações arrebatadoras pelas quais aquele país tem passado desde então. Fiquei tão impressionada que decidi comprar um dos livros de Xinran, As boas mulheres da China. Trate-se do relato de mulheres que viveram a violência de uma reeducação promovida por um sistema opressor.

A Mesa 14, Fama e Anonimato, foi composta por um dos maiores nomes do jornalismo, S2020134um dos precursores do New Journalism, gênero que une a precisão factual do jornalismo e os recursos estilísticos da literatura, Gay Talese. Neste dia acordei com a certeza de que assistiria ao Talese ao vivo de qualquer jeito. Não consegui comprar o ingresso para a sua mesa com a devida antecedência. Montei aparato, busquei meios, rodei mundo. Deu certo e valeu cada instante investido para o alcance da meta. Talese é um dos meus ídolos. Não poderia passar por Paraty junto com ele sem vê-lo beeeeeeem de pertinho. Ele deu uma verdadeira aula de jornalismo. Trago comigo um trecho de sua fala. “Um jornalista precisa deixar o seu laptop um pouco de lado, precisa ir às ruas, precisa falar com as pessoas comuns e tocar o mundo real. O bom profissional deve ter curiosidade, paciência e persistência”. Preciso falar mais? Putaqueopariu…

Né guri? Ô!

Graaaaaaaaaaaaaaaaande Talese. É isso aí meu filho. Jogo no teu time com orgulho e paixão.

S2020020A Mesa 15, Escrever é preciso, me apresentou um escritor português chamado António Lobo Antunes. Eu confesso que não o conhecia. MARAVILHOSO! Ele falou sobre as suas impressões e percepções sobre o ser escritor, o processo de criação, as qualidades do texto narrativo. Achei-o inteligente, perspicaz, instigante e acima de tudo sensível. Descreve sua rotina e seu trabalho com uma sensibilidade própria de quem enxerga e sabe ouvir. O angolano José Eduardo Agualusa, um dos excelentes autores contemporâneos de língua portuguesa, afirmou em entrevista que o escritor necessita de disponibilidade para desenvolver o ofício. “Ele precisa estar disponível para saber ouvir. Isso é fundamental”.

Lobo Antunes possui esta característica. Dono de uma visão de mundo abrangente e inovadora, o autor cativou a platéia com seus comentários apaixonados e bem-humorados.S2020091

Paraty é isso: uma combinação perfeita entre o natural e o urbano, entre a História e a cultura popular brasileira. Em época de FLIP, a cidade resplandece, tudo envolve, rapta, faz cócegas, cutuca, estimula, interessa, transmite algo. Regressei com a certeza de que experimentei o que posso chamar de único. Vi com nitidez um retrato do Brasil e do nosso povo, cujo talento e vitalidade extravasam expectativas.

Ressalto a qualidade da Flipinha, um espaço incrível e muito bem construído para as crianças. As escolas públicas e particulares de Paraty participam da festa de forma efetiva. A tenda reservada para a Flipinha é, sem dúvida, um ponto de encontro de alunos e professores, os quais apresentam atividades realizadas dentro de sala de aula. O resultado do trabalho é sensacional e permanece exposto na tenda durante os cinco dias de evento. As crianças interagem, aprendem brincando e se entregam à leitura. Espetacular!

S2020103Parabenizo também os artistas plásticos Julio Paraty (pintor) e Dalcir Ramiro (ceramista). Estive em uma vernissage promovida por eles no atelier do Dalcir. A exposição Paratienses em Paralelo apresentou o EXCELENTE trabalho que os dois desenvolvem na cidade. A recepção foi muito calorosa, ambos são a simpatia em pessoa e as peças e os quadros expostos no espaço são de uma beleza ímpar. Seguem o telefone de contato do atelier 55 24 3371-6035 e o endereço do local: Rua Santa Rita, nº 65 – Centro Histórico.

Até a próxima. Toco y me voy. Olé!

Deixo como registro musical Esquadros, uma das músicas que eu mais gosto da Adriana Calcanhoto, e que claro, fez parte da trilha sonora da viagem. Ouvi-a, inclusive, ao vivo, cantando-a com todos que no largo da Praça da Matriz se amontoaram para assistir ao show.

Esquadros

Adriana Calcanhoto

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado…

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2 Responses to “Impressões”

  1. Lu (Carijós) Says:

    Bom ler suas impressões sobre a FLIP, Carol! Ano que vem estaremos lá de novo, né?
    beijos

  2. Carolina Pinheiro Says:

    Oi, minha LINDA!!!!!!!!!
    Obrigada pelo comentário. Que bom que você gostou de ler o meu texto sobre Paraty, as minhas impressões.
    Com certeza ano que vem estaremos lá de novo. A cidade e a Flip nos esperam. Beijão Lu.


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