Pantanal é cativante, popular e humana

maio 3, 2009

pantanal41Fotos Divulgação

Pantanal, a saga que atravessa gerações; “Pantanal” é o triunfo da simplicidade; Pantanal bate recorde de audiência em sua estreia no SBT; são incontáveis as chamadas que alavancam publicações a respeito da novela que revolucionou a televisão brasileira. A Revista Veja abriu a matéria de capa de 9 de maio de 1990 com o texto a seguir:

“Algo de extraordinário está acontecendo na televisão brasileira, e não se trata da estreia de uma nova emissora ou da entrada no ar de um programa revolucionário. A programação das redes continua se apoiando no tripé básico de novelas, telejornalismo e filmes. A grande mudança está acontecendo na frente dos aparelhos de televisão. Na medida em que o tempo passa, fica cada vez mais claro que a novela Pantanal, apresentada pela Rede Manchete, às 9 e meia da noite, de segunda-feira a sábado, caiu definitivamente nas graças do público. Nos últimos índices de audiência disponíveis do Ibope, nos horários de melhor desempenho Pantanal bate sistematicamente os programas da Rede Globo.”pantanal_jumajove2

Extraordinário é o adjetivo para qualificar a produção, fenômeno absoluto da teledramaturgia nacional. A novela foi originalmente exibida pela extinta Rede Manchete, em 1990, e reapresentada em 1991, 1998 e 2008, desta vez pelo SBT após surpreendente jogo de marketing de Sílvio Santos. A reprise causou rebordosa, indignação e revolta nos bastidores da Rede Globo, que entrou na justiça contra o SBT sob a alegação de ter adquirido os direitos autorais de Pantanal em 2006.

A emissora de Roberto Marinho pretendia o que quando decidiu comprar os diretos sobre a obra de Benedito Ruy Barbosa? Guardar a relíquia – afinal, trata-se da história da televisão brasileira? Sugerir ao autor que produzisse um remake à altura? Para tal história, não há remake , pois certos momentos emocionais são únicos. Qualquer uma das finalidades globais desvirtuaria o objetivo da obra, o de se tornar eterna. Aquilo que conquista certo grau de referência no inconsciente coletivo extrapola planejamento e ponderações.

pantanal51A Rede Globo, portanto, pecou em dobro ao decidir comprar os direitos autorais de Pantanal com a falsa crença de que a situação estaria sob controle. Nos anos oitenta, a emissora carimbou a inviabilidade da novela, considerando a história mirabolante e engavetando a mesma por cerca de oito anos. Após dezoito anos desde o seu lançamento, a novela foi ao ar mais uma vez. O folhetim se impõe ao tempo e a determinações. Quem saiu ganhando foi o público, que recebeu do SBT um belo presente.

Pantanal foi trazida à tela pelas mãos de Jayme Monjardim, diretor geral da emissora dos Bloch na época. O universo de Benedito Ruy Barbosa arrebatou o telespectador, habituado com enredos urbanos, cenas curtas e cortes rápidos. Gravada no Pantanal Mato Grossense, até então jamais explorado pela teledramaturgia, a pantanal13novela somou diversos fatores para romper tantas barreiras. O elenco de primeira grandeza, a direção impecável de Monjardim, os destacados trabalhos de fotografia e sonoplastia, entre outros atributos deram o suporte que levou Pantanal ao topo da disputa pela audiência com significativos 40 e tantos pontos no Ibope, número que manteve até a transmissão do último capítulo.

A trilha sonora, uma das mais refinadas já organizadas, reuniu músicos como Marcus Viana & O Sagrado Coração da Terra, Almir Sater, Maria Bethânia, Sá & Guarabyra, Ivan Lins, Cláudio Nucci, Sérgio Reis, João Bosco, Robertinho do Recife, Leo Gandelman e Renato Teixeira. Entre os atores que integraram o elenco da novela estão Cláudio Marzo, Marcos Winter e Cristiana Oliveira – de química perfeita nos papéis principais –, Marcos Palmeira, Cássia Kiss, Paulo Gorgulho, Ingra Liberato, José de Abreu, Jofre Soares, Luciene Adami, Rosamaria Murtinho, Ângelo Antônio, Antônio Petrin, Ângela Leal, Jussara Freire, Natália Thimberg, Rômulo Arantes, Sérgio Britto, Kito Junqueira, Rubens Corrêa e Tarcísio Filho, além das muito bem encaixadas participações dos músicos Almir Sater e Sérgio Reis.

“Esta foi a primeira, e por enquanto a única telenovela, desde a falência da TV Tupi em 1980, a conseguir a proeza de pantanal72ultrapassar a audiência da Globo.  O avassalador sucesso da trama rural pôs a emissora de Adolpho Bloch de vez entre as grandes produtoras de telenovelas da América Latina.” Tanto que rendeu inclusive estudos acadêmicos. O livro Pantanal – A Reinvenção da Telenovela, de Arlindo Machado (USP e PUC/SP) e Beatriz Becker (UFRJ), publicado em novembro do ano passado, expõe, entre outras, a ideia de que o folhetim, diante da urbanização acelerada, do consumo e da fragmentação, funcionou outra vez como resgate de identidade e valores que estão pedidos. “Pantanal entrou no ar 11 dias depois que Fernando Collor confiscou a poupança dos brasileiros. Agora, em reprise, sem Collor e, por coincidência, em tempos de crise financeira, ainda precisamos reaprender a viver com outras referências que não só o dinheiro, o consumo, a poupança e a aposentadoria”, afirmou Beatriz em entrevista a Folha de São Paulo.

pantanal8Outro aspecto histórico relevante foi que Pantanal estreou no Ano Internacional do Meio Ambiente, antecipando a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada dois anos depois, no Rio de Janeiro. “Naquele momento, a ecologia ultrapassou os discursos da elite e invadiu a alma dos brasileiros. O Brasil rural que se escondia nos programas de música sertaneja nas manhãs de domingo integrou-se ao cotidiano das grandes cidades. Pantanal revelou uma nova linguagem e mostrou cenas de amor e sexo recheadas de um erotismo lírico nunca visto na telinha. O nu virou notícia, mas não explicou a magia das imagens e dos personagens míticos que se misturavam com a natureza num paraíso selvagem onde era possível haver equilíbrio e serenidade”, esclarecem os autores da publicação.

O poder avassalador de Pantanal é visível. A obra mudou o rumo da teledramaturgia no país. Trouxe à tona, pela primeira vez em telenovelas, a importância fundamental da relação entre o homem e a natureza. Temas como o desmatamento, a caça predatória, a poluição das águas e a ocupação irregular sobre as matas de encosta foram amplamente debatidos entre os personagens. “Que novela se deu ao luxo de dedicar tanto tempo à fauna e flora, sem diálogos, só com trilha sonora de fundo, e sem despencar no Ibope?”, questionou um repórter do Estadão em entrevista com Jayme Monjardim.  O diretor respondeu sem titubear – “era para ser assim: Pantanal é cativante, popular e humana”.

Eu tinha 13 anos quando a novela foi ao ar, em 1990. Hoje, tenho 32 e constato que após quase duas décadas, pantanal61Pantanal continua atual.

Para mim, a frase com que Benedito Ruy Barbosa encerra o último capítulo da trama segue rumo em disparada. Um erro que a humanidade está tentando corrigir, uma ferida que o planeta precisa cicatrizar: “O homem é o único animal que cospe na água que bebe. O homem é o único animal que mata para não comer. O homem é o único animal que corta a árvore que lhe dá sombra e frutos. Por isso, está se condenando à morte… (palavras do Velho do Rio, meu pai)”.

Fiz uma pequena seleção de vídeos sobre a novela para publicar na página. Entre eles estão Estrela Natureza, a música da trilha sonora que eu mais gosto (a canção foi composta pela dupla Sá & Guarabyra); o vídeo que durante a pesquisa encontrei e achei fantástico (o artista plástico EDUdasAGUAS transformou cenas da novela em uma sequência de quadros); e a última cena de Pantanal.

ESTRELA NATUREZA

Sá & Guarabyra

Estrela natureza precisamos demais
Te ter sempre por perto
Na calma e santa paz
Nos morros e nos campos
No sol e no sereno
Zelando por florestas
Cuidando dos animais
Mulher, e Mãe de todos
O que será de nós
Se a força do inimigo,
Calar a tua voz
Que sai dos passarinhos
Dos mares e dos rios
Dos vales preguiçosos
Dos velhos pantanais.


Cenas em pintura


Última cena

 

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