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vininhaHá quase um mês chove sem parar. A Ilha de Santa Catarina vive ao sabor dos ventos e das águas. Quando chove durante dias a fio, os moradores costumam improvisar para sair da umedecida toca. Independente de inevitáveis resmungos, a atmosfera expele impressões de simpática exclamação nos rostos das gentes. O contentar-se com larga precipitação transborda em feições de variados tamanhos. Parece-me que, apesar do tempo intruso para a época do ano, as pessoas seguem trajeto com afinco.

Não existe razão para deixar o riso cair. Respingos não repelem lábios bem-aventurados. Eu posso dizer que pinto e bordo em cenário seco ou molhado. Passei período deveras agradável ao lado do meu tio. Não o via há seis anos. Ele aqui esteve para uma visita rápida – sem dúvida, inesquecível. Veio de Brasília em dia de chuva (10 de outubro) e partiu de Florianópolis em dia de chuva (19 de outubro). Passeamos por bons cantos da cidade quando as nuvens deram trégua, conversamos sem parar, gargalhamos por inúmeras horas, viramos uma noite em reduto do samba, cantarolamos, ouvimos música, recitamos poesias – Vinícius de Moraes é poeta adorado na tribo –, contamos causos, falamos sobre histórias recentes e sobre acontecimentos antigos, mergulhamos em uma orgia enogastronômica vinicius de moraesda qual não faltaram opções de cardápio, festejamos nosso encontro, alegramo-nos por estar um na companhia do outro; enfim, matamos a saudade. Por este efêmero instante em minha vida, eu cancelei todos os meus compromissos profissionais. Montei tal estratégia com certeira antecedência para estar junto de quem eu amo. Valeu a pena! Tudo se passou em fração de segundo e esquecemos dos aparentes bloqueios causados pela chuva. Ao contrário, brincamos com as gotas trazidas aos borbotões das alturas.

“Florichuva” foi o apelido dado por titio à ilha. Embora ele não tenha conhecido as dezenas de maravilhas deste lugar, sentiu-se agraciado pelo correr dos ponteiros, tic tac tic tac… Quem não vê beleza no cair da chuva reconhece o entusiasmo escancarado pelo sol? Hoje, 72 horas após a decolagem do avião que o levou de volta para casa, acendeu-se em mim imensa vontade de homenageá-lo.

Ao meu tio muito amado entrego um presente: nosso Vininha, nossa canção, nossa rima, nosso abraço, nossa revelação, nosso acordo, nosso aperto de mão, momento repetido mais de oitocentas e cinquenta mil vezes no decorrer de sua estada na Ilha da Magia – o relevante, ao lado meu e debaixo de tormenta.

M2081S-1029Fernando Antônio e Carolina

“Quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém.”

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.